Moradores retornam para vilarejo que chegou a ser 'território-fantasma' no Ceará. Imagens: Prefeitura de Morada Nova Mais de 40 famílias do distrito de Uiraponga, em Morada Nova, no interior do Ceará, retornaram para as casas após serem expulsos em meio a disputas entre facções criminosas, que fizeram o local se transformar em um "território-fantasma" no ano passado. As ruas, antes desertas e com casas abandonadas desde julho de 2025, agora apresentam um novo cenário, com a reabertura dos comércios, retorno das aulas na escola do distrito, reabertura do posto de saúde, reforço na segurança e retomada das atividades culturais. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp Em agosto no ano passado, período de intensificação dos confrontos na região, Uiraponga chegou a ficar apenas com cinco residências ocupadas, em meio aos mais de mil imóveis que fazem parte do vilarejo, segundo moradores da região. Para coibir a violência, a região precisou ter reforço de policiamento. Criminosos envolvidos nos descolamentos forçados foram presos, entre eles, um chefe de facção que teria ordenado a expulsão das famílias. LEIA TAMBÉM: Vilarejo do Ceará vira 'território-fantasma' após expulsão de moradores por facções Criminoso que mandou expulsar população de distrito no Ceará é preso em São Paulo Polícia diz que Uiraponga está sob controle após ameaça de facção, mas moradores temem retornar ao distrito Retorno gradativo Distrito de Uiraponga está localizado no município de Morada Nova, a 167 quilômetros de distância de Fortaleza. Prefeitura de Morada Nova/ Arquivo pessoal Conforme um morador de Uiraponga, que não quer ser identificado, em dezembro de 2025 algumas famílias começaram a voltar, o que foi sendo feito de forma gradativa. "Basicamente toda a minha família precisou sair por conta da evasão. Depois que saímos, quando a situação foi sendo controlada aos poucos, começou o processo de retomada da comunidade", disse o morador. Segundo o morador, um dos motivos que levou a esse retorno, além do reforço na segurança, foram as dificuldades enfrentadas pelas famílias do distrito na sede da cidade, devido ao estereótipo de violência sobre Uiraponga. "Nós sofremos muitas discriminações nesse período, de ter aluguéis inflacionados, de pessoas da comunidade serem proibidas de alugar casas, porque os proprietários tinham medo, e a vida da cidade é diferente da nossa vida na zona rural. Isso foi fazendo com que, aos poucos, por pura necessidade, algumas famílias voltassem [a Uiraponga]. Do mesmo jeito que houve o efeito cascata da saída imediata, está havendo o efeito cascata do retorno para as casas. Claro que isso é algo gradativo", falou o homem. O morador disse ao g1 que os prejuízos causados pela saída forçada ainda prejudicam muitas famílias da comunidade, que não conseguiram se restabelecer financeiramente. "Na ânsia de sair o quanto antes de suas casas, muitos produtores rurais venderam suas terras e suas criações a preços muito baixos e, inclusive, muitos ainda não receberam. Nós queremos, sim, voltar para nossa terra, mas precisamos de condições pra isso. Não dá para retornar somente por amor, precisamos de geração de renda dentro da comunidade e possibilidade de futuro", falou o morador. Segundo o homem, alguns parentes dele e outros conhecidos ainda estão receosos em retornar para o distrito. "Estamos em processo ainda de entender as ações do estado, ver a efetividade do que está sendo feito e prometido, para que possamos retornar de fato. Já é um avanço tudo o que está acontecendo, porém precisamos de mais, pois os problemas da comunidade vão além da segurança. Depois de tudo o que aconteceu, precisamos da garantia dos nossos direitos", completou. Retomada das atividades culturais Associação retomou atividades culturais no distrito após intensificação do policiamento e retorno dos moradores. Arquivo pessoal Conforme o clima de insegurança foi amenizando, a Associação Cultural Sertão Junino de Uiraponga, responsável por promover atividades culturais no distrito, foi retomando as atividades e voltou a produzir eventos para a comunidade. Ainda em dezembro, a entidade realizou um "Natal Comunitário" com a entrega de cestas básicas para famílias do distrito. Agora, os participantes já estão se organizando para o "3º Arraiá Comunitário", que irá ocorrer neste sábado (27), na avenida principal do distrito. "Queremos pensar e viver a comunidade daqui para frente, vislumbrando um futuro digno, próspero, tranquilo e potente pra todos nós. Não podemos esquecer tudo o que aconteceu, em hipótese alguma, porque ainda não nos curamos desse trauma, mas sonhamos com um futuro para nossa gente", disse um dos membros da Associação. De 'situação anormal' à renovação Famílias do distrito de Uiraponga, na cidade de Morada Nova, a 167 quilômetros de Fortaleza, foram expulsas por criminosos em meio a guerra de facções. Meu País Uiraponga/ Reprodução De acordo com a prefeita de Morada Nova, Naiara Castro (PSB), Uiraponga está vivendo um "novo tempo". O distrito, que chegou a ter um decreto municipal reconhecendo "situação anormal e emergencial" por conta da violência, agora está recebendo um plano de ação conjunto entre a prefeitura e o Governo do Estado, que anunciou o envio de R$ 25 milhões para investimentos na região. Em publicação nas redes sociais, Naiara destacou ações realizadas na comunidade. Entre elas, a construção de uma Areninha, uma brinquedopraça e uma brinquedocreche; implantação de uma academia ao ar livre; instalação de 6 câmeras de videomonitoramento integrada ao Sistema Policial Indicativo de Abordagem (Spia), da Secretaria da Segurança Pública do Ceará, e construção do destacamento da Polícia Militar na comunidade. "Essas ações já apresentam resultados importantes, porque cerca de 40 famílias que haviam deixado a comunidade já retornaram para as suas casas, retomando suas rotinas com mais tranquilidade e segurança", disse a prefeita Naiara Castro, em entrevista ao g1. A gestora municipal acrescentou a pavimentação asfáltica da estrada que liga Uiraponga a sede de Morada Nova, com ordem de serviço prevista para ser assinada neste sábado (27). "São mais de 20 quilômetros de asfalto para dar mais mobilidade, mais dignidade, mais segurança a todas as famílias que residem ali", destacou a gestora. Reforço na segurança Seis câmeras de viodeomonitoramento foram implantadas no distrito, que conta com um efetivo de 143 policiais militares na região. Prefeitura de Morada Nova/ Arquivo pessoal A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) destacou que as Coordenadorias de Inteligência (Coin) e do Planejamento Operacional (Copol), em conjunto com as polícias Civil e Militar, realizam trabalho na região para coibir episódios de ameaças e deslocamentos forçados de moradores, que resultaram na prisão de 13 suspeitos. Ainda conforme a pasta, o distrito também dispõe de policiamento fixo, com o efetivo de 143 policiais, divididos entre agentes da Polícia Militar e da Polícia Civil, além de viaturas e motos para patrulhamento. "Com os esforços contínuos, há dez meses não há registro de CVLIs [Crimes Violentos Letais Intencionais] no distrito de Uiraponga", disse a Secretaria da Segurança, referindo-se ao índice que soma homicídios, latrocínios (roubos seguidos de morte) e lesões corporais seguidas de morte. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:
Moradores retornam para vilarejo que chegou a ser 'território-fantasma' em meio a disputa de facções no Ceará
Escrito em 27/06/2026
Moradores retornam para vilarejo que chegou a ser 'território-fantasma' no Ceará. Imagens: Prefeitura de Morada Nova Mais de 40 famílias do distrito de Uiraponga, em Morada Nova, no interior do Ceará, retornaram para as casas após serem expulsos em meio a disputas entre facções criminosas, que fizeram o local se transformar em um "território-fantasma" no ano passado. As ruas, antes desertas e com casas abandonadas desde julho de 2025, agora apresentam um novo cenário, com a reabertura dos comércios, retorno das aulas na escola do distrito, reabertura do posto de saúde, reforço na segurança e retomada das atividades culturais. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp Em agosto no ano passado, período de intensificação dos confrontos na região, Uiraponga chegou a ficar apenas com cinco residências ocupadas, em meio aos mais de mil imóveis que fazem parte do vilarejo, segundo moradores da região. Para coibir a violência, a região precisou ter reforço de policiamento. Criminosos envolvidos nos descolamentos forçados foram presos, entre eles, um chefe de facção que teria ordenado a expulsão das famílias. LEIA TAMBÉM: Vilarejo do Ceará vira 'território-fantasma' após expulsão de moradores por facções Criminoso que mandou expulsar população de distrito no Ceará é preso em São Paulo Polícia diz que Uiraponga está sob controle após ameaça de facção, mas moradores temem retornar ao distrito Retorno gradativo Distrito de Uiraponga está localizado no município de Morada Nova, a 167 quilômetros de distância de Fortaleza. Prefeitura de Morada Nova/ Arquivo pessoal Conforme um morador de Uiraponga, que não quer ser identificado, em dezembro de 2025 algumas famílias começaram a voltar, o que foi sendo feito de forma gradativa. "Basicamente toda a minha família precisou sair por conta da evasão. Depois que saímos, quando a situação foi sendo controlada aos poucos, começou o processo de retomada da comunidade", disse o morador. Segundo o morador, um dos motivos que levou a esse retorno, além do reforço na segurança, foram as dificuldades enfrentadas pelas famílias do distrito na sede da cidade, devido ao estereótipo de violência sobre Uiraponga. "Nós sofremos muitas discriminações nesse período, de ter aluguéis inflacionados, de pessoas da comunidade serem proibidas de alugar casas, porque os proprietários tinham medo, e a vida da cidade é diferente da nossa vida na zona rural. Isso foi fazendo com que, aos poucos, por pura necessidade, algumas famílias voltassem [a Uiraponga]. Do mesmo jeito que houve o efeito cascata da saída imediata, está havendo o efeito cascata do retorno para as casas. Claro que isso é algo gradativo", falou o homem. O morador disse ao g1 que os prejuízos causados pela saída forçada ainda prejudicam muitas famílias da comunidade, que não conseguiram se restabelecer financeiramente. "Na ânsia de sair o quanto antes de suas casas, muitos produtores rurais venderam suas terras e suas criações a preços muito baixos e, inclusive, muitos ainda não receberam. Nós queremos, sim, voltar para nossa terra, mas precisamos de condições pra isso. Não dá para retornar somente por amor, precisamos de geração de renda dentro da comunidade e possibilidade de futuro", falou o morador. Segundo o homem, alguns parentes dele e outros conhecidos ainda estão receosos em retornar para o distrito. "Estamos em processo ainda de entender as ações do estado, ver a efetividade do que está sendo feito e prometido, para que possamos retornar de fato. Já é um avanço tudo o que está acontecendo, porém precisamos de mais, pois os problemas da comunidade vão além da segurança. Depois de tudo o que aconteceu, precisamos da garantia dos nossos direitos", completou. Retomada das atividades culturais Associação retomou atividades culturais no distrito após intensificação do policiamento e retorno dos moradores. Arquivo pessoal Conforme o clima de insegurança foi amenizando, a Associação Cultural Sertão Junino de Uiraponga, responsável por promover atividades culturais no distrito, foi retomando as atividades e voltou a produzir eventos para a comunidade. Ainda em dezembro, a entidade realizou um "Natal Comunitário" com a entrega de cestas básicas para famílias do distrito. Agora, os participantes já estão se organizando para o "3º Arraiá Comunitário", que irá ocorrer neste sábado (27), na avenida principal do distrito. "Queremos pensar e viver a comunidade daqui para frente, vislumbrando um futuro digno, próspero, tranquilo e potente pra todos nós. Não podemos esquecer tudo o que aconteceu, em hipótese alguma, porque ainda não nos curamos desse trauma, mas sonhamos com um futuro para nossa gente", disse um dos membros da Associação. De 'situação anormal' à renovação Famílias do distrito de Uiraponga, na cidade de Morada Nova, a 167 quilômetros de Fortaleza, foram expulsas por criminosos em meio a guerra de facções. Meu País Uiraponga/ Reprodução De acordo com a prefeita de Morada Nova, Naiara Castro (PSB), Uiraponga está vivendo um "novo tempo". O distrito, que chegou a ter um decreto municipal reconhecendo "situação anormal e emergencial" por conta da violência, agora está recebendo um plano de ação conjunto entre a prefeitura e o Governo do Estado, que anunciou o envio de R$ 25 milhões para investimentos na região. Em publicação nas redes sociais, Naiara destacou ações realizadas na comunidade. Entre elas, a construção de uma Areninha, uma brinquedopraça e uma brinquedocreche; implantação de uma academia ao ar livre; instalação de 6 câmeras de videomonitoramento integrada ao Sistema Policial Indicativo de Abordagem (Spia), da Secretaria da Segurança Pública do Ceará, e construção do destacamento da Polícia Militar na comunidade. "Essas ações já apresentam resultados importantes, porque cerca de 40 famílias que haviam deixado a comunidade já retornaram para as suas casas, retomando suas rotinas com mais tranquilidade e segurança", disse a prefeita Naiara Castro, em entrevista ao g1. A gestora municipal acrescentou a pavimentação asfáltica da estrada que liga Uiraponga a sede de Morada Nova, com ordem de serviço prevista para ser assinada neste sábado (27). "São mais de 20 quilômetros de asfalto para dar mais mobilidade, mais dignidade, mais segurança a todas as famílias que residem ali", destacou a gestora. Reforço na segurança Seis câmeras de viodeomonitoramento foram implantadas no distrito, que conta com um efetivo de 143 policiais militares na região. Prefeitura de Morada Nova/ Arquivo pessoal A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) destacou que as Coordenadorias de Inteligência (Coin) e do Planejamento Operacional (Copol), em conjunto com as polícias Civil e Militar, realizam trabalho na região para coibir episódios de ameaças e deslocamentos forçados de moradores, que resultaram na prisão de 13 suspeitos. Ainda conforme a pasta, o distrito também dispõe de policiamento fixo, com o efetivo de 143 policiais, divididos entre agentes da Polícia Militar e da Polícia Civil, além de viaturas e motos para patrulhamento. "Com os esforços contínuos, há dez meses não há registro de CVLIs [Crimes Violentos Letais Intencionais] no distrito de Uiraponga", disse a Secretaria da Segurança, referindo-se ao índice que soma homicídios, latrocínios (roubos seguidos de morte) e lesões corporais seguidas de morte. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

