Chapa 100% feminina eleita para governo do AC abre discussão para ampliação de mulheres na política: 'Espaços masculinizados'

Escrito em 31/10/2026


Chapa formada por Mailza Assis (PP) e Jéssica Sales (MDB) foi eleita nas Eleições 2026 Arquivo/Asscom A chapa formada por Mailza Assis (PP) e Jéssica Sales (MDB), que venceu o segundo turno das Eleições 2026, assume o comando do estado a partir do próximo ano. Embora seja uma composição inédita para o Palácio Rio Branco, ambas devem lidar, durante quatro anos, com uma assembleia legislativa composta 100% por homens. 👉 Contexto: Mailza será a primeira mulher a governar o Acre pelo voto direto e, junto a Jéssica, formaram a primeira chapa 100% feminina a vencer o pleito que ocorreu no último dia 25 de outubro. A governabilidade delas terá como um dos pontos centrais a relação com a Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) onde das 24 cadeiras disputadas, nenhuma será ocupada por mulheres. ✅ Participe do canal do g1 AC no WhatsApp ELEIÇÕES 2026: Veja como foi a cobertura completa do 2º turno no Acre Ao g1, o professor e cientista político Nilson Euclides detalhou que a eleição inédita de uma chapa inteiramente feminina para comandar o Executivo do estado abre espaço para discutir a participação e inclusão das mulheres na política acreana. “Por um lado, você teve a eleição de uma governadora com a sua vice, ou seja, uma chapa feminina, que saiu vencedora nas eleições para governo do Estado em 2026. Por outro lado, você tem uma eleição para o poder legislativo esvaziada da figura feminina. São 24 deputados e não há nenhuma mulher, nenhuma representante feminina”, frisou. Eleições 2026: Mailza Assis (PP) vence disputa e é reeleita governadora do Acre LEIA MAIS: De três pioneiras em 1978 a nenhuma eleita em 2026: Acre terá única assembleia sem mulheres no país Quem é Mailza Assis, primeira governadora eleita por voto direto na história do Acre Médica e ex-deputada, saiba quem é Jéssica Sales, vice-governadora eleita do Acre Para o cientista, essa diferença revela que o acesso das mulheres a esses cargos, no caso do Executivo e do Legislativo, pode ocorrer por caminhos distintos. “Nessa questão, temos mulheres que são alçadas para dentro do mundo da política, mas que tem essa entrada não por uma militância, por estar envolvida em movimentos populares por serem lideranças populares ou serem lideranças políticas construídas dentro desse embate político-partidário ou do movimento social”, detalhou. Por outro lado, segundo ele, a conquista de uma cadeira no Parlamento exige a construção de uma trajetória eleitoral e partidária. “A gente consegue entender a dificuldade que se tem na Assembleia Legislativa de ter figuras femininas justamente porque, na Aleac, o caminho para se chegar a uma cadeira ou é via partido ou por ser membro de uma família tradicional da política ou ser militante de um movimento, estar envolvida em algum tipo de luta política, seja ela popular ou mais partidária e orgânica”, acrescentou. Mailza Assis, 1ª governadora do Acre eleita por voto direto da história do estado Jhenyfer de Souza/g1 Chegada ao poder Conforme o cientista político, a eleição de uma chapa formada por mulheres para comandar o Acre precisa ser observada também a partir das trajetórias políticas de Mailza e Jéssica. Nilson cita ainda os vínculos familiares e as alianças tradicionais como fatores que podem facilitar a entrada de mulheres na política institucional. A primeira governadora do estado, Iolanda Fleming, que chefiou o estado entre 1986 e 1987, também se enquadraria neste contexto, visto que ela era esposa de Geraldo Fleming, ex-deputado federal. Iolanda foi vereadora de Rio Branco, vice-prefeita da Capital e deputada estadual antes de comandar o Acre. Para o professor, a presença de conexões com grupos políticos já estabelecidos é uma característica que ajuda a compreender o porquê a conquista do Executivo pode ocorrer sem que haja uma ampliação equivalente da representação feminina no Legislativo. “Então, nessa questão, ou seja, para você entrar nesse espaço legislativo, o caminho me parece um pouco mais difícil para as mulheres não só no Acre, como no Brasil, porque é um caminho que, antes de chegar na Assembleia Legislativa, é preciso entrar em outros espaços que são muito masculinizados”, disse. Mailza Assis, do Progressistas, projeta os próximos quatro anos à frente do Acre Segundo Nilson, partidos políticos e movimentos sociais precisam criar condições para que lideranças femininas construídas em espaços comunitários, periferias, conselhos e outras instituições também conquistem visibilidade e oportunidades de disputar eleições. O cientista pontua, todavia, que a participação nas estruturas partidárias e nos espaços de decisão ainda representa um desafio para as mulheres que buscam transformar sua atuação social em candidaturas competitivas. ““As mulheres lideram alguns processos, mas dificilmente essa liderança chega a ser algo que se constitua como uma liderança política ou partidária [...] Essa é uma questão que precisa ser bem estudada e analisada para que as mulheres possam, por meio das lutas coletivas que elas imprimem na sociedade, se constituírem como lideranças, mas não apenas lideranças oriundas de famílias tradicionais ou de indicações”, disse. A proposta, de acordo com o cientista político, é ampliar as possibilidades de participação e fortalecer trajetórias próprias dentro das organizações políticas “para que essa representação seja genuinamente construída no seio dessa luta popular, democrática, dentro dos partidos, dos movimentos sociais e, claramente, das outras instituições representativas”, finalizou. Veja a composição da Assembleia Legislativa do Acre a partir de 2027 Reprodução Distribuição na Aleac Com a análise, o cientista pontua que a gestão de Mailza tem dois aspectos relevantes a partir de 2027: a capacidade de construir apoio na Assembleia Legislativa e o significado político de uma chapa feminina no comando do governo do estado, onde a nova composição legislativa não terá mulheres eleitas. No cenário do próximo ano, com base nas projeções de alianças e declarações de apoio, a maioria dos parlamentares estarão alinhados, ou seja, vão compor a base do governo, uma condição inicial favorável para a articulação política. Entre os nomes deste grupo estão: Nicolau Júnior (PP) Fagner Calegário (União) Clodoaldo Rodrigues (PP) André da Droga Vale (PP) Marcus Alexandre (MDB) Manoel Moraes (PP) Tanízio Sá (MDB) Chiquinho do Duda (PL) Adailton Cruz (União) Samir Bestene (PP) Arlenilson Cunha (PL) Tchê (PDT) Tio Pablo Bregense (União) Afonso Fernandes (União) Raimundo Neném (PL) Gláucio Pedrosa (PL) Leôncio Castro (PSDB) Já na oposição, com menor número de representantes, estão: Eduardo Ribeiro (Republicanos), Gene Diniz (Republicanos), Emerson Jarude (Novo), Edvaldo Magalhães (PCdoB), Tadeu Hassem (Republicanos), Jailson Amorim (PSD) e Antônio Pedro (PSD). Todos estes partidos, em algum momento da disputa eleitoral deste ano, apoiaram candidatos de oposição à gestão eleita. 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