Solidão corporativa: entenda o que é e como ela pode afetar a saúde mental e a carreira Geovanna Santos, de 28 anos, acumula uma década de experiência na área administrativa. Apesar de sempre ter facilidade para fazer amizades no ambiente de trabalho e manter vínculos com ex-colegas, no ano passado ela viveu uma situação completamente diferente e descobriu, na prática, o que especialistas chamam de solidão corporativa. Após deixar uma empresa de atuação nacional para trabalhar em um negócio familiar, Geovanna imaginava encontrar apenas uma nova rotina. Em vez disso, deparou-se com um ambiente onde se sentia completamente isolada. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 "Eu ficava literalmente olhando para a parede", relembra. Sua mesa ficava isolada em uma sala, enquanto o gerente, único colega no ambiente, passava boa parte do dia fora. Enquanto isso, as outras três funcionárias da equipe trabalhavam juntas em outro ambiente. Geovanna tentou se aproximar, mas as conversas não evoluíram. No horário de almoço, os grupos saíam juntos para restaurantes, deixando-a para trás. '"Eu ia sozinha. Nem para comer me chamavam”, lembra a trabalhadora. A situação começou a afetar sua saúde mental. Ela passou a acordar sem vontade de ir ao trabalho, acumulou atrasos e desenvolveu crises de ansiedade, síndrome do pânico e sintomas físicos relacionados ao estresse. A empresa também não ofereceu um processo estruturado de integração. A ausência de acolhimento aumentou a sensação de isolamento e prejudicou seu desenvolvimento profissional. "Eu me sentia invisível. Não tinha ninguém para olhar e reconhecer o meu esforço”, conta. Depois de três meses de desgaste emocional, Geovanna pensou em pedir demissão. Antes disso, porém, foi desligada da empresa logo após apresentar um atestado médico. "Foi péssimo", resume. Geovanna Santos encontrou no trabalho amizades que transformaram sua rotina, mas, após mudar de emprego, passou a enfrentar a solidão e a dificuldade de criar novos vínculos no ambiente profissional. Arquivo Pessoal Segundo um levantamento da Pluxee com mais de 2 mil brasileiros, 47% dizem se sentir sozinhos no trabalho, seja frequentemente ou às vezes. Outro dado chama atenção: 78% consideram essencial ter amizades verdadeiras no ambiente profissional, indicando que a qualidade das relações influencia diretamente a experiência no emprego. As conexões ajudam a retenção de talentos. Em uma escala de 1 a 5, os entrevistados atribuíram nota média de 3,39 ao impacto das amizades na decisão de permanecer ou deixar uma empresa. Um segundo estudo, realizado pela Vittude em parceria com o Opinion Box, reforça esse cenário. Embora o trabalho remoto integral seja desejado por muitos profissionais, o levantamento indica que esse modelo pode intensificar o isolamento social e dificultar a construção de redes de apoio. Entre os trabalhadores que atuam 100% em home office, 11,4% apresentam níveis críticos de sofrimento mental. Para 30,8% dos entrevistados, o senso de equipe e a interação social são os principais motivos para preferir o trabalho totalmente presencial. Solidão no trabalho afeta quase metade dos brasileiros Arte g1 Quase metade dos brasileiros se sente sozinha no trabalho Arte g1 O que é a solidão corporativa? O conceito de solidão corporativa não significa necessariamente trabalhar sozinho, mas sentir-se isolado mesmo em meio a colegas. Ela é caracterizada pela falta de vínculos significativos, de relações de confiança e de senso de pertencimento no ambiente de trabalho. "O problema não é estar sozinho fisicamente, mas sentir-se desconectado, mesmo cercado de colegas", explica Camilla Pádua, sócia-líder da área de consultoria em gestão de pessoas da KPMG no Brasil. Segundo ela, esse sentimento costuma surgir quando o profissional não consegue construir relações, trabalha em ambientes excessivamente competitivos ou sente que não pode ser autêntico. "Os líderes têm um papel central em construir ambientes em que a conexão humana não seja vista como algo secundário, mas como parte da estratégia do negócio. Marcela Zaidem, fundadora da consultoria Cultura na Prática, afirma que o fenômeno ganhou visibilidade nas redes sociais, mas já vinha sendo identificado por pesquisas internacionais há muitos anos. "Não estamos falando de gente 'carente de escritório'. Estamos falando de um ambiente em que muita gente está cercadde reunião, meta, canal, call e cobrança, mas ainda assim se sente sozinha", explica. Muller Gomes, gerente da consultoria de recrutamento Robert Half, destaca que o isolamento também pode comprometer a carreira. "O ser humano é biopsicossocial. A gente precisa do outro. Ter com quem conversar, compartilhar e até desabafar ajuda a lidar melhor com os problemas”, explica. Segundo ele, a falta de interação afeta a produtividade, a saúde mental e até o desenvolvimento profissional, já que o networking é fundamental para novas oportunidades de carreira. "O ser humano não foi feito para viver isolado", afirma. Home office ampliou o desafio Especialistas afirmam que a expansão do trabalho remoto reduziu os momentos espontâneos de convivência entre colegas. "Perdemos aquela conversa de corredor, o café depois do almoço ou o comentário sobre o tempo. São esses pequenos momentos que geram proximidade", afirma Lucimara Costa, diretora de Recursos Humanos da Nexti. Para Bruno Gonçalves, especialista em experiência do colaborador e felicidade corporativa, o problema não é o home office em si, mas a falta de adaptação das empresas. "No trabalho remoto, esses momentos precisam ser desenhados intencionalmente. Produtividade depende de pessoas conectadas de verdade, e não apenas monitoradas." Apesar disso, Geovanna Santos acredita que o formato de trabalho, sozinho, não explica a sensação de isolamento. Durante a pandemia, ela conta que trabalhou por um ano em home office e nunca se sentiu sozinha. "Mesmo no home office eu tinha uma ótima conexão com o time. A gente falava o tempo todo", conta. "O problema é a cultura, é a forma como as pessoas acolhem ou não." Mesmo cercados de colegas, muitos profissionais relatam sentir isolamento no trabalho. Freepik Cultura organizacional faz diferença Na avaliação dos especialistas, combater a solidão corporativa depende menos de happy hours e eventos esporádicos e mais da construção de ambientes em que as pessoas se sintam acolhidas desde o primeiro dia de trabalho. Isso passa por processos de integração mais estruturados, lideranças mais próximas das equipes, espaços para diálogo e uma cultura baseada em confiança, pertencimento e segurança psicológica. "Quando a empresa não constrói esse contexto, a solidão aparece. E, quando aparece, ela não é um detalhe emocional. É sintoma de liderança fraca, vínculos frágeis e uma cultura insuficiente para sustentar as pessoas", resume Marcela Zaidem. Depois daquela experiência, Geovanna voltou a trabalhar em outro ambiente e percebeu que o problema nunca foi o modelo de trabalho, mas a forma como foi recebida. Como perceber que você está vivendo a solidão corporativa? Segundo especialistas, alguns sinais podem indicar que o problema está afetando sua rotina: Você sente que não faz parte da equipe, mesmo trabalhando cercado de colegas; Evita interações ou percebe que raramente é incluído em conversas e atividades do grupo; Tem dificuldade para criar vínculos ou sente que não pode ser autêntico no ambiente de trabalho; Perde a motivação para ir ao trabalho e sente que seus esforços passam despercebidos; Apresenta sintomas como ansiedade, estresse, desânimo ou esgotamento relacionados ao trabalho. Quando procurar ajuda? Se a sensação de isolamento for persistente e começar a afetar sua saúde mental, seu desempenho ou sua qualidade de vida, especialistas recomendam conversar com a liderança, com o RH ou buscar apoio psicológico. Em ambientes saudáveis, o acolhimento e o senso de pertencimento também fazem parte das responsabilidades da empresa. NR-1: veja o que muda com a nova regra sobre saúde mental no trabalho
'Nem para comer me chamavam': entenda o que é a solidão corporativa e como pode afetar sua carreira
Escrito em 05/08/2026
Solidão corporativa: entenda o que é e como ela pode afetar a saúde mental e a carreira Geovanna Santos, de 28 anos, acumula uma década de experiência na área administrativa. Apesar de sempre ter facilidade para fazer amizades no ambiente de trabalho e manter vínculos com ex-colegas, no ano passado ela viveu uma situação completamente diferente e descobriu, na prática, o que especialistas chamam de solidão corporativa. Após deixar uma empresa de atuação nacional para trabalhar em um negócio familiar, Geovanna imaginava encontrar apenas uma nova rotina. Em vez disso, deparou-se com um ambiente onde se sentia completamente isolada. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 "Eu ficava literalmente olhando para a parede", relembra. Sua mesa ficava isolada em uma sala, enquanto o gerente, único colega no ambiente, passava boa parte do dia fora. Enquanto isso, as outras três funcionárias da equipe trabalhavam juntas em outro ambiente. Geovanna tentou se aproximar, mas as conversas não evoluíram. No horário de almoço, os grupos saíam juntos para restaurantes, deixando-a para trás. '"Eu ia sozinha. Nem para comer me chamavam”, lembra a trabalhadora. A situação começou a afetar sua saúde mental. Ela passou a acordar sem vontade de ir ao trabalho, acumulou atrasos e desenvolveu crises de ansiedade, síndrome do pânico e sintomas físicos relacionados ao estresse. A empresa também não ofereceu um processo estruturado de integração. A ausência de acolhimento aumentou a sensação de isolamento e prejudicou seu desenvolvimento profissional. "Eu me sentia invisível. Não tinha ninguém para olhar e reconhecer o meu esforço”, conta. Depois de três meses de desgaste emocional, Geovanna pensou em pedir demissão. Antes disso, porém, foi desligada da empresa logo após apresentar um atestado médico. "Foi péssimo", resume. Geovanna Santos encontrou no trabalho amizades que transformaram sua rotina, mas, após mudar de emprego, passou a enfrentar a solidão e a dificuldade de criar novos vínculos no ambiente profissional. Arquivo Pessoal Segundo um levantamento da Pluxee com mais de 2 mil brasileiros, 47% dizem se sentir sozinhos no trabalho, seja frequentemente ou às vezes. Outro dado chama atenção: 78% consideram essencial ter amizades verdadeiras no ambiente profissional, indicando que a qualidade das relações influencia diretamente a experiência no emprego. As conexões ajudam a retenção de talentos. Em uma escala de 1 a 5, os entrevistados atribuíram nota média de 3,39 ao impacto das amizades na decisão de permanecer ou deixar uma empresa. Um segundo estudo, realizado pela Vittude em parceria com o Opinion Box, reforça esse cenário. Embora o trabalho remoto integral seja desejado por muitos profissionais, o levantamento indica que esse modelo pode intensificar o isolamento social e dificultar a construção de redes de apoio. Entre os trabalhadores que atuam 100% em home office, 11,4% apresentam níveis críticos de sofrimento mental. Para 30,8% dos entrevistados, o senso de equipe e a interação social são os principais motivos para preferir o trabalho totalmente presencial. Solidão no trabalho afeta quase metade dos brasileiros Arte g1 Quase metade dos brasileiros se sente sozinha no trabalho Arte g1 O que é a solidão corporativa? O conceito de solidão corporativa não significa necessariamente trabalhar sozinho, mas sentir-se isolado mesmo em meio a colegas. Ela é caracterizada pela falta de vínculos significativos, de relações de confiança e de senso de pertencimento no ambiente de trabalho. "O problema não é estar sozinho fisicamente, mas sentir-se desconectado, mesmo cercado de colegas", explica Camilla Pádua, sócia-líder da área de consultoria em gestão de pessoas da KPMG no Brasil. Segundo ela, esse sentimento costuma surgir quando o profissional não consegue construir relações, trabalha em ambientes excessivamente competitivos ou sente que não pode ser autêntico. "Os líderes têm um papel central em construir ambientes em que a conexão humana não seja vista como algo secundário, mas como parte da estratégia do negócio. Marcela Zaidem, fundadora da consultoria Cultura na Prática, afirma que o fenômeno ganhou visibilidade nas redes sociais, mas já vinha sendo identificado por pesquisas internacionais há muitos anos. "Não estamos falando de gente 'carente de escritório'. Estamos falando de um ambiente em que muita gente está cercadde reunião, meta, canal, call e cobrança, mas ainda assim se sente sozinha", explica. Muller Gomes, gerente da consultoria de recrutamento Robert Half, destaca que o isolamento também pode comprometer a carreira. "O ser humano é biopsicossocial. A gente precisa do outro. Ter com quem conversar, compartilhar e até desabafar ajuda a lidar melhor com os problemas”, explica. Segundo ele, a falta de interação afeta a produtividade, a saúde mental e até o desenvolvimento profissional, já que o networking é fundamental para novas oportunidades de carreira. "O ser humano não foi feito para viver isolado", afirma. Home office ampliou o desafio Especialistas afirmam que a expansão do trabalho remoto reduziu os momentos espontâneos de convivência entre colegas. "Perdemos aquela conversa de corredor, o café depois do almoço ou o comentário sobre o tempo. São esses pequenos momentos que geram proximidade", afirma Lucimara Costa, diretora de Recursos Humanos da Nexti. Para Bruno Gonçalves, especialista em experiência do colaborador e felicidade corporativa, o problema não é o home office em si, mas a falta de adaptação das empresas. "No trabalho remoto, esses momentos precisam ser desenhados intencionalmente. Produtividade depende de pessoas conectadas de verdade, e não apenas monitoradas." Apesar disso, Geovanna Santos acredita que o formato de trabalho, sozinho, não explica a sensação de isolamento. Durante a pandemia, ela conta que trabalhou por um ano em home office e nunca se sentiu sozinha. "Mesmo no home office eu tinha uma ótima conexão com o time. A gente falava o tempo todo", conta. "O problema é a cultura, é a forma como as pessoas acolhem ou não." Mesmo cercados de colegas, muitos profissionais relatam sentir isolamento no trabalho. Freepik Cultura organizacional faz diferença Na avaliação dos especialistas, combater a solidão corporativa depende menos de happy hours e eventos esporádicos e mais da construção de ambientes em que as pessoas se sintam acolhidas desde o primeiro dia de trabalho. Isso passa por processos de integração mais estruturados, lideranças mais próximas das equipes, espaços para diálogo e uma cultura baseada em confiança, pertencimento e segurança psicológica. "Quando a empresa não constrói esse contexto, a solidão aparece. E, quando aparece, ela não é um detalhe emocional. É sintoma de liderança fraca, vínculos frágeis e uma cultura insuficiente para sustentar as pessoas", resume Marcela Zaidem. Depois daquela experiência, Geovanna voltou a trabalhar em outro ambiente e percebeu que o problema nunca foi o modelo de trabalho, mas a forma como foi recebida. Como perceber que você está vivendo a solidão corporativa? Segundo especialistas, alguns sinais podem indicar que o problema está afetando sua rotina: Você sente que não faz parte da equipe, mesmo trabalhando cercado de colegas; Evita interações ou percebe que raramente é incluído em conversas e atividades do grupo; Tem dificuldade para criar vínculos ou sente que não pode ser autêntico no ambiente de trabalho; Perde a motivação para ir ao trabalho e sente que seus esforços passam despercebidos; Apresenta sintomas como ansiedade, estresse, desânimo ou esgotamento relacionados ao trabalho. Quando procurar ajuda? Se a sensação de isolamento for persistente e começar a afetar sua saúde mental, seu desempenho ou sua qualidade de vida, especialistas recomendam conversar com a liderança, com o RH ou buscar apoio psicológico. Em ambientes saudáveis, o acolhimento e o senso de pertencimento também fazem parte das responsabilidades da empresa. NR-1: veja o que muda com a nova regra sobre saúde mental no trabalho

