Exclusivo: Caco Barcellos e Thiago Jock conseguem autorização para entrar no Irã A equipe do Fantástico entrou no Irã em meio à guerra e acompanhou de perto os efeitos dos bombardeios. Em uma comitiva oficial que visitava áreas atingidas, apenas três equipes estrangeiras foram autorizadas a circular pelo país: a TV Globo, uma russa e uma britânica. Desde o início do conflito, o acesso da imprensa internacional é restrito. A entrada no território iraniano já foi um desafio. A equipe cruzou cerca de 300 quilômetros pela Turquia, entre montanhas cobertas de neve, até chegar à fronteira com o Irã. No posto de controle, ainda em território turco, as gravações foram interrompidas pelas autoridades. Após duas horas de checagem de documentos e vistos de imprensa, a entrada foi liberada. Já dentro do Irã, a orientação era clara: não sair do carro e não fazer imagens durante o trajeto até Teerã. As estradas são monitoradas e equipamentos de filmagem podem ser confundidos com armamento. Funerais e mobilização nas ruas Na capital iraniana, a equipe acompanhou o funeral de um general da Marinha iraniana morto em um ataque no Estreito de Ormuz. Ele participava de uma reunião com outros executivos militares, quando dois mísseis atacaram o navio e o local onde ele estava reunido. O corpo foi levado por mais de 800 quilômetros até Teerã. Equipe acompanhou funeral de um general da marinha iraniana Fantástico Entre gritos, bandeiras e homenagens, a cerimônia reuniu uma multidão. Em meio ao cortejo, um jovem pediu para ser entrevistado e criticou duramente os Estados Unidos: “Esse governo americano é o pior de todos os tempos. Nosso povo está apoiando o nosso governo e os nossos militares", diz. Durante os discursos, autoridades e participantes também direcionaram críticas a Israel e aos EUA. A presença de forças de segurança era constante — em alguns momentos, agentes pediram para não serem filmados e chegaram a conferir o material gravado pela equipe. No meio da multidão, diferentes gerações dividiam espaço. Jovens universitárias, muitas com vestimentas mais coloridas, conviviam com mulheres que seguem tradições religiosas mais rígidas. Segundo relatos ouvidos pela equipe, o avanço educacional tem ampliado o protagonismo feminino, especialmente em mudanças ligadas a costumes e comportamento social. Bombardeios e destruição A equipe visitou prédios atingidos por mísseis. Em um dos ataques, o alvo seria um professor universitário ligado ao programa nuclear iraniano. Ele morreu junto aos filhos. Governos dos EUA e de Israel acusam o Irã de enriquecer urânio para a produção de armas nucleares. As autoridades iranianas negam. Ao todo, treze cientistas ligados ao programa nuclear já foram mortos em ataques semelhantes. Nesta última semana, houve mais um ataque, desta vez com lançamento de mísseis contra a universidade em que alguns cientistas são professores. Moradores relataram que os ataques são repentinos e praticamente invisíveis. Em um conjunto de prédios residenciais, é possível ver o rastro de destruição deixado pelas bombas: “Os 25 mortos são aqueles que conseguimos encontrar. Ainda há desaparecidos. As bombas foram tão fortes que muita coisa foi completamente destruída", diz um morador que testemunhou as explosões. Área atingida por bombas, levando a morte de 25 pessoas no Irã g1 Em outra região, uma ponte em construção foi atingida duas vezes. Trabalhadores e testemunhas afirmam que não havia uso militar no local: “Não temos nada a ver com militares. Essa ponte ligaria Teerã a outras 14 províncias. Ela ainda estava em construção e não estava sendo usada", diz Hasat Boyat, engenheiro responsável pela obra. No segundo ataque, oito trabalhadores morreram e 95 ficaram feridos. Médicos e profissionais de saúde organizaram protestos após ataques a hospitais e ambulâncias. Segundo relatos locais, centenas de unidades de saúde foram atingidas. Durante uma manifestação, uma médica leu uma declaração pública: “A proteção da vida humana e das instalações médicas e farmacêuticas é um direito universal que não pode ser violado em nenhuma circunstância", diz Farzaneh Fazaeli, uma das líderes da manifestação. Em conversa exclusiva com a equipe, ela reforçou: “Mesmo em guerra, existem limites. Não se pode atacar estruturas essenciais para o cuidado de pacientes". Segundo médicos iranianos, mais de 300 hospitais e centros de saúde foram atingidos durante os combates. Entre eles, 18 unidades do Crescente Vermelho — equivalente à Cruz Vermelha no país. A Organização Mundial da Saúde confirmou pelo menos 23 ataques a centros de saúde. Versão oficial e disputa de narrativas Durante a cobertura no Irã, a equipe encontrou presença constante de imagens dos aiatolás em espaços públicos e eventos, reforçando a centralidade da liderança religiosa no país. Desde a Revolução de 1979, o Irã é uma República Islâmica em que o poder é fortemente concentrado nesse grupo, acima da Guarda Revolucionária e de instituições civis. O regime é marcado por controle social rígido, com denúncias recorrentes de repressão a protestos, censura à imprensa, prisões de ativistas e restrições a comportamentos sociais, especialmente os de mulheres. Além das tensões internas e críticas ao programa nuclear, o país também é apontado por apoiar grupos como o Hezbollah e o Hamas. Durante a estada da equipe, o acesso e a circulação foram limitados por barreiras de segurança e checkpoints da Guarda Revolucionária, dificultando inclusive a gravação de imagens. Tentativas de contato com opositores não tiveram sucesso. No início do ano, protestos contra a crise econômica foram fortemente reprimidos; autoridades iranianas afirmam que os atos se tornaram violentos por ação de infiltrados armados, que teriam atacado forças de segurança e causado mais de 200 mortes entre policiais, além de vítimas civis. Já organizações independentes contestam os números oficiais e indicam que o total de mortos pode ter sido maior. O governo iraniano nega a alegação americana e sustenta que o programa nuclear tem fins energéticos. O porta-voz do ministro das Relações Exteriores Ábbas Araghchi também rebateu críticas sobre direitos humanos: “Somos alvo de uma campanha de demonização há décadas. Não somos perfeitos, mas nenhum país é perfeito quando se trata de direitos humanos", diz. Caco Barcellos entrevistou porta-voz do ministro das Relações Exteriores do Irã Fantástico A busca de uma normalidade em meio à guerra Apesar da guerra, a população tenta manter a rotina. Em parques de Teerã, famílias fazem piqueniques — uma tradição popular no país. Uma adolescente resumiu a importância desses encontros: “É muito importante porque ficamos juntos e podemos fazer coisas simples, como praticar esportes.” Piquenique em Teerã g1 À noite, porém, o cenário muda. As ruas são ocupadas por manifestações frequentes, com discursos, bandeiras e palavras de ordem contra inimigos externos. Um pesquisador que participa dos atos diariamente afirmou: “Não temos medo. Estamos aqui para apoiar o nosso país.” Sem sirenes ou abrigos adequados, a população convive com ataques que chegam sem aviso. Segundo relatos, os mísseis são lançados por aeronaves que não chegam a ser vistas — o impacto vem segundos depois. Ainda assim, multidões seguem ocupando as ruas, mesmo diante de ameaças de novos bombardeios. Na última noite da equipe em Teerã, o prazo dado pelos Estados Unidos para uma possível intensificação dos ataques terminou sem novos bombardeios. Horas depois, foram anunciados um cessar-fogo e o início de negociações. 🎧 Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.
Fantástico entra no Irã e registra o impacto da guerra e das restrições civis no país
Escrito em 13/04/2026
Exclusivo: Caco Barcellos e Thiago Jock conseguem autorização para entrar no Irã A equipe do Fantástico entrou no Irã em meio à guerra e acompanhou de perto os efeitos dos bombardeios. Em uma comitiva oficial que visitava áreas atingidas, apenas três equipes estrangeiras foram autorizadas a circular pelo país: a TV Globo, uma russa e uma britânica. Desde o início do conflito, o acesso da imprensa internacional é restrito. A entrada no território iraniano já foi um desafio. A equipe cruzou cerca de 300 quilômetros pela Turquia, entre montanhas cobertas de neve, até chegar à fronteira com o Irã. No posto de controle, ainda em território turco, as gravações foram interrompidas pelas autoridades. Após duas horas de checagem de documentos e vistos de imprensa, a entrada foi liberada. Já dentro do Irã, a orientação era clara: não sair do carro e não fazer imagens durante o trajeto até Teerã. As estradas são monitoradas e equipamentos de filmagem podem ser confundidos com armamento. Funerais e mobilização nas ruas Na capital iraniana, a equipe acompanhou o funeral de um general da Marinha iraniana morto em um ataque no Estreito de Ormuz. Ele participava de uma reunião com outros executivos militares, quando dois mísseis atacaram o navio e o local onde ele estava reunido. O corpo foi levado por mais de 800 quilômetros até Teerã. Equipe acompanhou funeral de um general da marinha iraniana Fantástico Entre gritos, bandeiras e homenagens, a cerimônia reuniu uma multidão. Em meio ao cortejo, um jovem pediu para ser entrevistado e criticou duramente os Estados Unidos: “Esse governo americano é o pior de todos os tempos. Nosso povo está apoiando o nosso governo e os nossos militares", diz. Durante os discursos, autoridades e participantes também direcionaram críticas a Israel e aos EUA. A presença de forças de segurança era constante — em alguns momentos, agentes pediram para não serem filmados e chegaram a conferir o material gravado pela equipe. No meio da multidão, diferentes gerações dividiam espaço. Jovens universitárias, muitas com vestimentas mais coloridas, conviviam com mulheres que seguem tradições religiosas mais rígidas. Segundo relatos ouvidos pela equipe, o avanço educacional tem ampliado o protagonismo feminino, especialmente em mudanças ligadas a costumes e comportamento social. Bombardeios e destruição A equipe visitou prédios atingidos por mísseis. Em um dos ataques, o alvo seria um professor universitário ligado ao programa nuclear iraniano. Ele morreu junto aos filhos. Governos dos EUA e de Israel acusam o Irã de enriquecer urânio para a produção de armas nucleares. As autoridades iranianas negam. Ao todo, treze cientistas ligados ao programa nuclear já foram mortos em ataques semelhantes. Nesta última semana, houve mais um ataque, desta vez com lançamento de mísseis contra a universidade em que alguns cientistas são professores. Moradores relataram que os ataques são repentinos e praticamente invisíveis. Em um conjunto de prédios residenciais, é possível ver o rastro de destruição deixado pelas bombas: “Os 25 mortos são aqueles que conseguimos encontrar. Ainda há desaparecidos. As bombas foram tão fortes que muita coisa foi completamente destruída", diz um morador que testemunhou as explosões. Área atingida por bombas, levando a morte de 25 pessoas no Irã g1 Em outra região, uma ponte em construção foi atingida duas vezes. Trabalhadores e testemunhas afirmam que não havia uso militar no local: “Não temos nada a ver com militares. Essa ponte ligaria Teerã a outras 14 províncias. Ela ainda estava em construção e não estava sendo usada", diz Hasat Boyat, engenheiro responsável pela obra. No segundo ataque, oito trabalhadores morreram e 95 ficaram feridos. Médicos e profissionais de saúde organizaram protestos após ataques a hospitais e ambulâncias. Segundo relatos locais, centenas de unidades de saúde foram atingidas. Durante uma manifestação, uma médica leu uma declaração pública: “A proteção da vida humana e das instalações médicas e farmacêuticas é um direito universal que não pode ser violado em nenhuma circunstância", diz Farzaneh Fazaeli, uma das líderes da manifestação. Em conversa exclusiva com a equipe, ela reforçou: “Mesmo em guerra, existem limites. Não se pode atacar estruturas essenciais para o cuidado de pacientes". Segundo médicos iranianos, mais de 300 hospitais e centros de saúde foram atingidos durante os combates. Entre eles, 18 unidades do Crescente Vermelho — equivalente à Cruz Vermelha no país. A Organização Mundial da Saúde confirmou pelo menos 23 ataques a centros de saúde. Versão oficial e disputa de narrativas Durante a cobertura no Irã, a equipe encontrou presença constante de imagens dos aiatolás em espaços públicos e eventos, reforçando a centralidade da liderança religiosa no país. Desde a Revolução de 1979, o Irã é uma República Islâmica em que o poder é fortemente concentrado nesse grupo, acima da Guarda Revolucionária e de instituições civis. O regime é marcado por controle social rígido, com denúncias recorrentes de repressão a protestos, censura à imprensa, prisões de ativistas e restrições a comportamentos sociais, especialmente os de mulheres. Além das tensões internas e críticas ao programa nuclear, o país também é apontado por apoiar grupos como o Hezbollah e o Hamas. Durante a estada da equipe, o acesso e a circulação foram limitados por barreiras de segurança e checkpoints da Guarda Revolucionária, dificultando inclusive a gravação de imagens. Tentativas de contato com opositores não tiveram sucesso. No início do ano, protestos contra a crise econômica foram fortemente reprimidos; autoridades iranianas afirmam que os atos se tornaram violentos por ação de infiltrados armados, que teriam atacado forças de segurança e causado mais de 200 mortes entre policiais, além de vítimas civis. Já organizações independentes contestam os números oficiais e indicam que o total de mortos pode ter sido maior. O governo iraniano nega a alegação americana e sustenta que o programa nuclear tem fins energéticos. O porta-voz do ministro das Relações Exteriores Ábbas Araghchi também rebateu críticas sobre direitos humanos: “Somos alvo de uma campanha de demonização há décadas. Não somos perfeitos, mas nenhum país é perfeito quando se trata de direitos humanos", diz. Caco Barcellos entrevistou porta-voz do ministro das Relações Exteriores do Irã Fantástico A busca de uma normalidade em meio à guerra Apesar da guerra, a população tenta manter a rotina. Em parques de Teerã, famílias fazem piqueniques — uma tradição popular no país. Uma adolescente resumiu a importância desses encontros: “É muito importante porque ficamos juntos e podemos fazer coisas simples, como praticar esportes.” Piquenique em Teerã g1 À noite, porém, o cenário muda. As ruas são ocupadas por manifestações frequentes, com discursos, bandeiras e palavras de ordem contra inimigos externos. Um pesquisador que participa dos atos diariamente afirmou: “Não temos medo. Estamos aqui para apoiar o nosso país.” Sem sirenes ou abrigos adequados, a população convive com ataques que chegam sem aviso. Segundo relatos, os mísseis são lançados por aeronaves que não chegam a ser vistas — o impacto vem segundos depois. Ainda assim, multidões seguem ocupando as ruas, mesmo diante de ameaças de novos bombardeios. Na última noite da equipe em Teerã, o prazo dado pelos Estados Unidos para uma possível intensificação dos ataques terminou sem novos bombardeios. Horas depois, foram anunciados um cessar-fogo e o início de negociações. 🎧 Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.

