Músicos de IA viram febre no streaming e preocupam setor Parece a descrição de um episódio de “Black Mirror”, série distópica britânica. Mas é a realidade mesmo — e ela cresce cada vez mais. Canções, bandas e artistas gerados por inteligência artificial viraram uma epidemia nos streamings de música. Já daria até para criar festivais com lineup todo dedicado a essa onda — veja abaixo um cartaz hipotético, imaginado pelo g1 com base nos hits de IA nas plataformas. IA palooza, lineup de festival hipotético imaginado pelo g1 com base em hits de IA Kayan Albertin/g1 Para você ter ideia, em um único dia, a Deezer recebe mais de 60 mil faixas totalmente geradas por IA, o que representa mais de 39% do que chega ali diariamente. Em 2025, a plataforma detectou mais de 13,4 milhões de canções do tipo. Mas esses não são os únicos dados que chamam a atenção. Cerca de 85% dos streams dessas faixas foram classificados pela Deezer como fraudulentos. Ou seja, a maioria dos plays não é orgânica. Em vez disso, vêm de robôs ou exércitos de falsos ouvintes, que inflam os números reais. O problema é que esse tipo de audição é irregular, já que burla regras do pagamento de royalties. A Deezer diz que, quando detecta fraude de streams, deixa de remunerar os autores das faixas. Já o Spotify nem revela quantas canções de IA chegam ali diariamente, nem quantos desses streams são fraudulentos. Ainda assim, diz ter banido mais de 75 milhões de músicas de spam entre setembro de 2024 e setembro de 2025 — período em que, como lembra a plataforma, houve uma “explosão das ferramentas de IA generativa”. IA na hora de burlar Fraudes como essas não são novidades no streaming. Mas agora, com a popularização da IA, elas podem rolar de maneiras mais rápidas e de fácil acesso. Nas redes, tem até gente vendendo curso sobre como lucrar desse jeito. “Com a inteligência artificial, em questão de segundos conseguimos criar músicas incríveis e, com a estratégia certa, podemos monetizar e receber em dólares todos os meses”, diz um brasileiro no Instagram, ao divulgar um curso. “Eu gerei essa música completa em menos de 30 segundos. Ela [a IA] criou tudo: letra, voz e instrumental”, diz ele, em outro story. “Olha, sendo bem sincero pra vocês: essa é a forma mais simples pra você construir uma fonte de renda na internet.” Ao contrário do que sugere a promessa do vendedor, ganhar dinheiro por simplesmente colocar uma música nas plataformas não é algo tão simples. Ou pelo menos, não se a pessoa cumprir as regras. Clipe de IA de 'Sina de Ofélia' no YouTube Reprodução/YouTube Para uma música ser monetizada, as plataformas estipulam critérios como quantidade mínima de streams e tempo ouvido por usuário — os números mudam conforme o streaming. Nenhuma plataforma proíbe o uso de IA. Todas permitem a distribuição de músicas geradas (parcial ou totalmente) por inteligência artificial. A grande questão, no entanto, é como isso tem rolado. Como relata o próprio Spotify, “táticas de spam – como envios em massa, duplicações, truques de SEO, abuso de faixas artificialmente curtas e outros tipos de conteúdo de baixa qualidade — ficaram mais fáceis de explorar conforme as ferramentas de IA permitem a qualquer um gerar grandes volumes de músicas”. Além de ser irregular, a fraude de streams afeta diretamente os artistas profissionais. Isso porque a distribuição por royalties funciona como a divisão de um bolo: se aumentam os streams — inclusive os falsos —, o bolo é dividido em mais fatias. Ou seja, se tem gente lucrando com plays de forma irregular, então, tem também artista profissional ganhando menos dinheiro do que deveria. IA na hora de cortar o bolo Xenia Monet, Breaking Rust e Blow Records (artistas e selo de IA) Reprodução Diante da onda de músicas e artistas de IA, as empresas de streaming têm sido cobradas para adotar novas medidas de análise, combate e punição a fraudes. O Spotify, por exemplo, promete lançar em breve um filtro capaz de identificar e rotular esse tipo de faixa, assim como impedir sua plataforma de recomendá-la em playlists. “Queremos ter cuidado para não penalizar injustamente artistas legítimos, por isso o sistema será implementado de forma gradual”, diz a empresa, em nota. Em janeiro, a Deezer anunciou novas medidas e passou a vender sua ferramenta de detecção de IA. “Sabemos que a maioria das músicas geradas por IA são publicadas na Deezer com o objetivo de cometer fraudes”, afirma Alexis Lanternier, CEO da Deezer, em nota recém-divulgada. “Detectamos e marcamos como ‘músicas geradas por IA’ e as removemos das recomendações algorítmicas, para que nossos usuários tenham uma escolha clara sobre o que ouvir, ao mesmo tempo que dificultamos a manipulação do sistema por fraudadores.” IA no palco A Deezer é a única plataforma a etiquetar explicitamente as músicas geradas por IA. Esse tipo de transparência virou um debate recorrente entre gravadoras, distribuidoras, plataformas e profissionais da indústria. E como mostramos, não são “somente” canções que estão no jogo — a quantidade de artistas e bandas criados por IA já é grande o suficiente até para a curadoria de um “IA Palooza”. Vale dizer que isso não é necessariamente visto como problema — a expectativa no setor é de que a IA se torne cada vez mais parte do processo criativo. No Brasil, a IA está por trás de hits que nascem como memes e, depois, vão para as pistas. Sucesso do fim do ano passado, “Sina de Ofélia” tem várias versões. A faixa é uma releitura não autorizada de “The Fate Of Ophelia”, da Taylor Swift, e sua versão mais famosa é cantada por Luísa Sonza e Dilsinho — ou melhor, por cópias de seus vocais, já que nenhum deles gravou a música. Tocanna Reprodução/Instagram Já a Blow Records é um selo criado por Raul Vinicius, de 22 anos. O produtor emplacou trends ao lançar versões retrô de funks eróticos como “Predador de Perereca”, “Chupa *o*ota”, “Popotão Grandão”. Outro sucesso criado por IA, “São Paulo” virou meme pela letra, que tira sarro da capital paulista. A música também é uma versão não autorizada (de “Empire State of Mind”, do Jay Z e Alicia Keys). Quem canta é Tocanna, uma tucana humanizada — ou humana “tucanizada”, se você preferir. A lista continua. Dá ainda para citar as bandas The Velvet Sundown e Breaking Rust, ou cantoras tipo Xania Monet, que só existem em formato de pixel, mas mesmo assim alcançam posições de destaque em rankings de audiência como Spotify e Billboard. IA no ouvido de carne e osso Casos como esses, no entanto, ainda são exceção. A maioria dos artistas gerados por IA não chega a hitar. A Deezer aponta que streams em faixas de IA representam apenas de 1% e 3% do total da plataforma. Muita gente torce o nariz para esse tipo de música. Publicada no fim de 2025, uma pesquisa da revista americana “The Hollywood Reporter” mostra que 52% dos americanos não teriam vontade de ouvir uma canção do artista favorito se soubessem que ela foi produzida com ajuda de IA (32% têm interesse e 15% não sabem responder). Ironicamente, um estudo da Reuters mostra que a maior parte das pessoas é incapaz de diferenciar uma música composta por gente de carne e osso de uma criada por IA. É um dado mais bizarro do que o outro. Puro suco de distopia.
IApalooza: Músicas de IA hitam e facilitam fraude que prejudica pagamento a artistas reais
Escrito em 25/02/2026
Músicos de IA viram febre no streaming e preocupam setor Parece a descrição de um episódio de “Black Mirror”, série distópica britânica. Mas é a realidade mesmo — e ela cresce cada vez mais. Canções, bandas e artistas gerados por inteligência artificial viraram uma epidemia nos streamings de música. Já daria até para criar festivais com lineup todo dedicado a essa onda — veja abaixo um cartaz hipotético, imaginado pelo g1 com base nos hits de IA nas plataformas. IA palooza, lineup de festival hipotético imaginado pelo g1 com base em hits de IA Kayan Albertin/g1 Para você ter ideia, em um único dia, a Deezer recebe mais de 60 mil faixas totalmente geradas por IA, o que representa mais de 39% do que chega ali diariamente. Em 2025, a plataforma detectou mais de 13,4 milhões de canções do tipo. Mas esses não são os únicos dados que chamam a atenção. Cerca de 85% dos streams dessas faixas foram classificados pela Deezer como fraudulentos. Ou seja, a maioria dos plays não é orgânica. Em vez disso, vêm de robôs ou exércitos de falsos ouvintes, que inflam os números reais. O problema é que esse tipo de audição é irregular, já que burla regras do pagamento de royalties. A Deezer diz que, quando detecta fraude de streams, deixa de remunerar os autores das faixas. Já o Spotify nem revela quantas canções de IA chegam ali diariamente, nem quantos desses streams são fraudulentos. Ainda assim, diz ter banido mais de 75 milhões de músicas de spam entre setembro de 2024 e setembro de 2025 — período em que, como lembra a plataforma, houve uma “explosão das ferramentas de IA generativa”. IA na hora de burlar Fraudes como essas não são novidades no streaming. Mas agora, com a popularização da IA, elas podem rolar de maneiras mais rápidas e de fácil acesso. Nas redes, tem até gente vendendo curso sobre como lucrar desse jeito. “Com a inteligência artificial, em questão de segundos conseguimos criar músicas incríveis e, com a estratégia certa, podemos monetizar e receber em dólares todos os meses”, diz um brasileiro no Instagram, ao divulgar um curso. “Eu gerei essa música completa em menos de 30 segundos. Ela [a IA] criou tudo: letra, voz e instrumental”, diz ele, em outro story. “Olha, sendo bem sincero pra vocês: essa é a forma mais simples pra você construir uma fonte de renda na internet.” Ao contrário do que sugere a promessa do vendedor, ganhar dinheiro por simplesmente colocar uma música nas plataformas não é algo tão simples. Ou pelo menos, não se a pessoa cumprir as regras. Clipe de IA de 'Sina de Ofélia' no YouTube Reprodução/YouTube Para uma música ser monetizada, as plataformas estipulam critérios como quantidade mínima de streams e tempo ouvido por usuário — os números mudam conforme o streaming. Nenhuma plataforma proíbe o uso de IA. Todas permitem a distribuição de músicas geradas (parcial ou totalmente) por inteligência artificial. A grande questão, no entanto, é como isso tem rolado. Como relata o próprio Spotify, “táticas de spam – como envios em massa, duplicações, truques de SEO, abuso de faixas artificialmente curtas e outros tipos de conteúdo de baixa qualidade — ficaram mais fáceis de explorar conforme as ferramentas de IA permitem a qualquer um gerar grandes volumes de músicas”. Além de ser irregular, a fraude de streams afeta diretamente os artistas profissionais. Isso porque a distribuição por royalties funciona como a divisão de um bolo: se aumentam os streams — inclusive os falsos —, o bolo é dividido em mais fatias. Ou seja, se tem gente lucrando com plays de forma irregular, então, tem também artista profissional ganhando menos dinheiro do que deveria. IA na hora de cortar o bolo Xenia Monet, Breaking Rust e Blow Records (artistas e selo de IA) Reprodução Diante da onda de músicas e artistas de IA, as empresas de streaming têm sido cobradas para adotar novas medidas de análise, combate e punição a fraudes. O Spotify, por exemplo, promete lançar em breve um filtro capaz de identificar e rotular esse tipo de faixa, assim como impedir sua plataforma de recomendá-la em playlists. “Queremos ter cuidado para não penalizar injustamente artistas legítimos, por isso o sistema será implementado de forma gradual”, diz a empresa, em nota. Em janeiro, a Deezer anunciou novas medidas e passou a vender sua ferramenta de detecção de IA. “Sabemos que a maioria das músicas geradas por IA são publicadas na Deezer com o objetivo de cometer fraudes”, afirma Alexis Lanternier, CEO da Deezer, em nota recém-divulgada. “Detectamos e marcamos como ‘músicas geradas por IA’ e as removemos das recomendações algorítmicas, para que nossos usuários tenham uma escolha clara sobre o que ouvir, ao mesmo tempo que dificultamos a manipulação do sistema por fraudadores.” IA no palco A Deezer é a única plataforma a etiquetar explicitamente as músicas geradas por IA. Esse tipo de transparência virou um debate recorrente entre gravadoras, distribuidoras, plataformas e profissionais da indústria. E como mostramos, não são “somente” canções que estão no jogo — a quantidade de artistas e bandas criados por IA já é grande o suficiente até para a curadoria de um “IA Palooza”. Vale dizer que isso não é necessariamente visto como problema — a expectativa no setor é de que a IA se torne cada vez mais parte do processo criativo. No Brasil, a IA está por trás de hits que nascem como memes e, depois, vão para as pistas. Sucesso do fim do ano passado, “Sina de Ofélia” tem várias versões. A faixa é uma releitura não autorizada de “The Fate Of Ophelia”, da Taylor Swift, e sua versão mais famosa é cantada por Luísa Sonza e Dilsinho — ou melhor, por cópias de seus vocais, já que nenhum deles gravou a música. Tocanna Reprodução/Instagram Já a Blow Records é um selo criado por Raul Vinicius, de 22 anos. O produtor emplacou trends ao lançar versões retrô de funks eróticos como “Predador de Perereca”, “Chupa *o*ota”, “Popotão Grandão”. Outro sucesso criado por IA, “São Paulo” virou meme pela letra, que tira sarro da capital paulista. A música também é uma versão não autorizada (de “Empire State of Mind”, do Jay Z e Alicia Keys). Quem canta é Tocanna, uma tucana humanizada — ou humana “tucanizada”, se você preferir. A lista continua. Dá ainda para citar as bandas The Velvet Sundown e Breaking Rust, ou cantoras tipo Xania Monet, que só existem em formato de pixel, mas mesmo assim alcançam posições de destaque em rankings de audiência como Spotify e Billboard. IA no ouvido de carne e osso Casos como esses, no entanto, ainda são exceção. A maioria dos artistas gerados por IA não chega a hitar. A Deezer aponta que streams em faixas de IA representam apenas de 1% e 3% do total da plataforma. Muita gente torce o nariz para esse tipo de música. Publicada no fim de 2025, uma pesquisa da revista americana “The Hollywood Reporter” mostra que 52% dos americanos não teriam vontade de ouvir uma canção do artista favorito se soubessem que ela foi produzida com ajuda de IA (32% têm interesse e 15% não sabem responder). Ironicamente, um estudo da Reuters mostra que a maior parte das pessoas é incapaz de diferenciar uma música composta por gente de carne e osso de uma criada por IA. É um dado mais bizarro do que o outro. Puro suco de distopia.

