Palhaços, magos e bruxas?: Conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk 🧙♂️Muito além das batidas graves e aceleradas, o funk paulista também construiu um universo visual e simbólico próprio. Nos últimos anos, principalmente com a ascensão do chamado funk bruxaria, vertente marcada por produções sombrias, elementos de suspense e timbres intensos, DJs e MCs passaram a adotar apelidos como Bruxo, Mago, Coringa e Mandrake, criando personagens que extrapolam a música e ajudam a definir a identidade artística de cada um. No Dia Nacional do Funk, o g1 mergulhou em um dos subgêneros que mais cresceram na cena paulista dos últimos anos para entender por que artistas passaram a adotar essas alcunhas únicas. Mais do que apelidos, esses personagens se tornaram uma marca de identidade visual e sonora por meio de um estilo que influencia a música, a moda e o audiovisual das periferias da capital até o interior paulista. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Para isso, a reportagem foi atrás de artistas do interior de SP, especialistas da Universidade de Sorocaba (Uniso) e DJs que se apresentam na região nos próximos dias para compreender a origem das alcunhas que dominam o funk. A data, celebrada em 12 de julho, foi oficializada no Brasil pela Lei nº 14.940 e existe para reconhecer o funk como manifestação cultural e homenageia o histórico "Baile da Pesada", realizado em 1970 no Rio de Janeiro. O ritmo, que nasceu nas periferias, destaca-se por dar voz aos jovens, gerar empregos e combater o preconceito social. LEIA TAMBÉM: Funk e a estética mandrake: entenda como movimento influencia na cultura do interior paulista Umbrellas, funk bruxaria e graves ecoando pela cidade: conheça o baile que conquistou o interior de SP De set no Lollapalooza para o interior de SP: Skrillex faz show surpresa em festa de funk para quase 10 mil pessoas Com a popularização do chamado funk bruxaria e do mandelão paulista, a estética passou a ocupar um papel tão importante quanto a própria música. Popularizada por meio de grandes eventos focados no gênero, como a Submundo 808, que realiza eventos anuais em Sorocaba (SP) ,com batidas marcantes e uma estética inconfundível. Capas com palhaços assustadores, cartas de baralho, caldeirões e magos se espalharam pelos canais de DJs, palcos dos bailes e pelas redes sociais, criando uma identidade visual que hoje é reconhecida como uma das principais marcas do funk produzido em todo estado paulista. Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista Reprodução/Mile.lab Para quem acompanha de fora, os apelidos podem parecer apenas nomes artísticos chamativos. No entanto, para quem faz parte da cena, eles funcionam como uma assinatura criativa e ajudam a comunicar a personalidade de cada produtor antes mesmo da primeira batida começar. "O apelido de bruxo ou mago e toda essa estética representam que o DJ faz magia e bruxaria em suas produções, com batidas alucinantes que fazem transcender como algo lúdico e mágico. Sempre foi o que eu quis transmitir em minhas músicas; por isso, adotei essa estética. Para mim, é a mais fascinante", explica o DJ Blakes, um dos principais nomes do gênero e que se apresenta em Bauru (SP) no próximo sábado (18). Segundo ele, o uso dessas alcunhas também ajuda o artista a se destacar em um cenário cada vez mais competitivo. "Assim como no rap e no trap, muitos artistas criam um apelido para se destacar e mostrar sua personalidade. No funk mandelão paulista, quem manda é quem faz a batida mais alucinante (ou mais sombria), se formos pensar pelo lado do funk bruxaria. Então, o apelido de bruxo é o que faz perfeito sentido", completa o artista. DJ Blakes e sua dançarina fantasiada de Arlequina durante show Reprodução/Arquivo pessoal ✨Como surgiu o funk bruxaria? O funk bruxaria é um desdobramento do mandelão paulista, um subgênero que ganhou força na Baixada Santista, na capital paulista e em todo o interior de São Paulo ao longo da década de 2010, especialmente em bailes de rua e na cultura automotiva. A partir de 2020, durante a pandemia, milhares de jovens passaram a produzir músicas em casa utilizando softwares simples e divulgando os trabalhos por uma plataforma digital. Nesse cenário, surgiu o funk bruxaria, que levou a experimentação sonora ainda mais longe. A crescente do gênero é comprovada por meio dos números de ouvintes. Nos últimos meses, boa parte das músicas que lideram as plataformas de streaming foram produzida em São Paulo ou por artistas paulistas. Entre o fim de 2025 e o primeiro semestre de 2026, o funk chegou a ocupar a maior parte das posições do Top 10 do Spotify Brasil e manteve presença constante entre as 50 músicas mais ouvidas do país, superando o sertanejo em diversos períodos. O estilo incorporou sintetizadores agressivos, ruídos metálicos, risadas, sons inspirados em filmes de terror e uma atmosfera sombria, fazendo com que DJs e produtores também passassem a adotar personagens como Bruxos, Magos e Palhaços para representar essa identidade artística. "Ela comunica que você nunca sabe o que virá a seguir e o que irá impressionar. Assim como uma mágica, comunica algo sombrio e obscuro que o público terá que buscar entender e desvendar, assim como a mensagem que for passar. Ela não é explicita, está implícita em forma de produção musical. E essa escolha veio da minha própria identificação com tudo relacionado à figura do 'Mago'", revela DJ Blakes. Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk Reprodução/Mile.lab O DJ ainda conta que as figuras são a representação visual do som. "Além de toda a experiência visual, essas figuras são representações do que é o som do mandelão paulista. Em muitas músicas você escuta risadas que logo se associam a imagem dos palhaços, as batidas estridentes agudas ou extremamente graves que parecem ter saído de um filme assustador de terror, onde as figuras visuais com certeza estariam e batidas alucinantes que parecem um toque mágico tocado por um mago ao lado de seu caldeirão", completa. O fenômeno também chegou ao interior paulista. Em Sorocaba, o DJ Will BR, que adotou o apelido de "Bruxo dos Mandelão", afirma que a identidade visual se tornou parte da experiência do funk. "Sempre acompanhei a evolução do funk paulista e vi que, além da música, a imagem também passou a contar uma história. Quis criar uma identidade que representasse a energia do meu show e do funk bruxaria, as máscaras, os figurinos e os elementos visuais ajudam a transformar cada apresentação em uma experiência, fazendo o público lembrar do DJ Will BR não só pelo som, mas também pela presença no palco", conta. "O funk paulista sempre buscou inovação, tanto no som quanto na estética. Esses personagens chamam atenção, despertam curiosidade e ajudam o público a identificar rapidamente um estilo musical. Hoje a imagem faz parte da cultura do movimento e fortalece ainda mais a personalidade de cada artista", completa o artista. 🃏O 'Mago dos Magos' e Mandrake, o Mágico DJ Blakes e DJ Mandrake durante show Reprodução/Subverso Embora não exista um "criador oficial" do funk bruxaria, produtores como DJ K, DJ Mandrake, DJ Arana, DJ Blakes e diversos artistas ligados ao mandelão foram fundamentais para consolidar essa estética que hoje influencia não apenas a sonoridade, mas também o audiovisual, a moda e as capas dos lançamentos. Uma característica importante é que "bruxaria" não faz referência à religião, mas sim à ideia de "fazer magia" na produção musical: criar batidas surpreendentes, imprevisíveis e capazes de hipnotizar o público. Um dos maiores DJs e produtores musicais do Brasil, DJ Mandrake 100% Original, que influenciou diversos DJse produtores do funk de Sorocaba (SP) se tornando uma figura de referência no segmento e teve seu apelido inspirado pelo famoso personagem de quadrinhos criado em 1934 por Lee Falk, "Mandrake, o Mágico". Um ilusionista poderoso que usa poderes mentais e hipnose para combater o crime. "Eu me inspirei no verdadeiro Mandrake. O cara que fazia mágica e hoje eu sou o cara que faz magia nos beats. Então eu sou uma reencarnação do Mandrake. Um ilusionista, um mágico, um mago, é o que eu faço aqui no meus trampos e é por isso que eu sou conhecido como o mago dos magos", conta DJ Mandrake. "Quando eu vejo que algo está muito ultrapassado, eu vou lá e me reinvento, eu crio algo novo, então sempre vão falar: 'o Mandrake é revolucionário, o cara já revolucionou o funk e continua revolucionando'", completa. Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista Reprodução/Mile.lab Por que os 'vilões' fazem tanto sucesso no funk? Embora esses personagens tenham se consolidado como marcas do funk paulista, a escolha vai além da estética. Para estudiosos da cultura periférica, essas figuras ajudam a traduzir experiências vividas por jovens que cresceram em territórios historicamente marcados pela desigualdade e pela exclusão social. O pesquisador, professor de Música Clássica e doutor em Funk pela Universidade de São Paulo (USP),Thiago de Souza, explica que a presença desses personagens pode ser compreendida a partir do conceito de "distinção social", desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. Segundo ele, grupos que vivem à margem da sociedade costumam ressignificar símbolos tradicionalmente vistos de forma negativa, transformando-os em elementos de identidade e pertencimento. "A questão do vilão no funk é, no fundo, um jogo de distinção social, como explicou Pierre Bourdieu. Admirar o vilão é inverter, de propósito, os valores dominantes para provocar a sociedade. A população marginalizada está excluída da sociedade de consumo e vive o efeito colateral da riqueza de poucos: a pobreza de muitos", explica o Dr. Thiago de Souza. Na prática, essa inversão acontece porque a periferia convive diariamente com desigualdades econômicas e sociais. Para o pesquisador, personagens como o Coringa deixam de representar apenas o antagonista das histórias em quadrinhos e passam a simbolizar alguém que desafia uma ordem considerada injusta. Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista Reprodução/Equipe DJ Blakes "Quando a sociedade é injusta, o vilão pode aparecer como uma espécie de justiceiro, ou até de herói. O Coringa é um bom exemplo. No filme com Joaquin Phoenix, vemos como nasce o vilão que depois será condenado pela própria sociedade, o vilão não surge do nada: ele é produzido por uma sociedade violenta e desigual, e não um ser essencialmente mau", completa. Essa leitura ajuda a explicar por que a figura do palhaço ganhou espaço não apenas no funk paulista, mas também em outras manifestações culturais produzidas por jovens das periferias. Segundo o pesquisador, essa apropriação simbólica faz parte de um processo maior de construção de identidade. Em grupos historicamente marginalizados, personagens e referências da cultura pop passam a representar resistência, força e pertencimento. Ao mesmo tempo que reconhece que essa ressignificação pode reforçar preconceitos contra o movimento. "Muitas vezes, a admiração pelo vilão acaba alimentando o estigma do funk para quem vê de fora. Enquanto a mídia costuma condenar a figura do bandido, no funk a expressão 'de bandido' pode significar beleza, imponência, estilo e até excelência vocal. Explicar essa inversão simbólica para quem não conhece esse universo nem sempre é simples", diz. De acordo com o DJ WILL BR, uma das principais finalidades dessa identidade visual não é sobre representar um personagem específico, mas criar uma atmosfera. "Os elementos do funk paulista simbolizam atitude, mistério, impacto e autenticidade [...] A identidade visual desperta curiosidade e faz as pessoas lembrarem do artista. Quando ela está alinhada com a música, cria uma conexão muito mais forte e o público passa a acompanhar não só as músicas, mas toda a proposta e a personalidade que o artista transmite", afirma. A doutora em Multimeios e professora da Universidade de Sorocaba (Uniso), Thífani Postali, afirma que esses símbolos precisam ser analisados dentro do contexto em que surgem. As identidades culturais são construídas justamente a partir da diferença em relação à cultura dominante, e os personagens escolhidos pelos artistas fazem parte desse processo de criação de narrativas próprias. Segundo a pesquisadora, compreender o significado desses símbolos é fundamental para combater interpretações equivocadas sobre o gênero. "As identidades são formadas a partir da diferença, daquilo que não é hegemônico. O funk é um movimento cultural em que jovens periféricos encontraram uma forma de criar suas próprias histórias, linguagens e modos de vida", conta. "Eu tenho preconceito principalmente sobre aquilo que eu não conheço. É preciso compreender as culturas das periferias e o significado desses elementos para que essas manifestações façam sentido também para quem está de fora", completa a pesquisadora. Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista Reprodução/Mile.lab Direito à fantasia Se para os DJs e MCs os personagens ajudam a construir uma identidade artística, para quem cria arte por meio da cultura periférica essas figuras carregam um significado ainda mais profundo. A fundadora da Mile Lab, laboratório de criação e pesquisa de cultura marginal, Milena Nascimento, conta como o imaginário do funk bruxaria nasce da mistura entre referências do terror, da fantasia e das vivências da periferia. "A sociedade costuma enxergar apenas o lado sombrio desses símbolos, mas, para quem vive esse universo, eles representam transformação, criatividade e poder. O bruxo, por exemplo, é aquele que faz magia com quase nada. No funk, é o DJ que transforma um computador simples em uma batida capaz de movimentar milhares de pessoas", destaca. Segundo Milena, o uso dessas figuras também dialoga com um processo histórico de ressignificação de símbolos vistos como negativos. Por meio dos 12 arquétipos, os estilos se adaptaram e condensaram os conceitos de inconsciente coletivo de Carl Jung para categorizar motivações humanas universais e estratégias de identidade. Citando sua própria imagem da bruxa, Milena descreve como a estética foi apropriada por diferentes grupos como forma de resistência e afirmação da identidade. "Quando minha mãe decidiu assumir o arquétipo da bruxa, ela tirou das mãos de quem a ofendia a força daquele símbolo. Vejo algo parecido acontecendo no funk. Quando um jovem escolhe ser o Coringa, o Bruxo ou o Mago, ele está reivindicando autonomia sobre a própria imagem e transformando um estigma em potência", afirma Milena. Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista Reprodução/Mile.lab Para a pesquisadora, a escolha desses personagens também desafia a forma como a periferia costuma ser retratada. E de como existe uma expectativa de que artistas periféricos falem apenas sobre violência, pobreza ou superação, enquanto o funk bruxaria reivindica o direito à fantasia. "Historicamente, a arte da quebrada foi empurrada para o hiper-realismo. Parece que o artista periférico só pode falar da própria dor. O funk bruxaria rompe com isso ao dizer que a periferia também pode criar mitologias, imaginar outros mundos e brincar com o fantástico", conta. "O terror nas minhas obras não representa o mal. Ele representa aquilo que a sociedade esconde, aquilo que provoca medo justamente porque é desconhecido. É uma forma de transformar nossas sombras em potência criativa", completa Milena. Influência estética em Sorocaba Nos bairros e vielas de Sorocaba, a moda funkeira não nasce de tendências impostas, mas de vivências locais. Muitas vezes, vestir 'a estética da quebrada' é reafirmar a própria origem. DJ Shayy, um dos principais nomes femininos da cena sorocabana, cresceu rodeada por essa estética e diz que sua relação com a moda é antes de tudo afetiva. “A estética de quebrada vende muito. A gente vê isso nas redes sociais, na forma que os gringos nos enxergam nas novelas, nas revistas, em todos os lugares. A estética de quebrada vende muito, mas não é só uma estética, isso é uma vivência. É algo que eu cresci vendo, consumindo, e que faz parte da minha história”, conta. Palhaços, magos e bruxas? Conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk Reprodução/adjshayy A artista também observa como os jovens do interior absorvem influências que vêm da capital e de outras regiões. Essa mistura cria uma estética própria, que combina relíquias, marcas icônicas e elementos que circulam especialmente entre as periferias. “Conforme o pessoal mais novo vai consumindo o funk da capital e região, seja indo até um rolê lá ou vendo influenciadores, eles vão evoluindo a forma de se expressar. E isso aparece nos kits, com peças relíquias, com marcas mais tops, uma lupa da Oakley, uma Cyclone, Quiksilver, Planet, Kenner… É a forma que eles encontram de mostrar que fazem parte dessa cultura também”, explica a Dj. Se nos anos 1990 o funk era reconhecido pelo passinho e pelos bailes, e na década de 2010 pela ostentação, a geração do mandelão e do funk bruxaria passou a construir uma identidade baseada em símbolos, personagens e arquétipos. Mago, Bruxo e Palhaço deixaram de ser apenas apelidos para representar uma estética própria, que hoje influencia a música, a moda, o audiovisual e a forma como uma nova geração da periferia escolhe contar suas histórias. *Colaborou sob supervisão de Gabriela Almeida Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí Initial plugin text VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM
Palhaços, magos e bruxas? Conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk
Escrito em 12/07/2026
Palhaços, magos e bruxas?: Conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk 🧙♂️Muito além das batidas graves e aceleradas, o funk paulista também construiu um universo visual e simbólico próprio. Nos últimos anos, principalmente com a ascensão do chamado funk bruxaria, vertente marcada por produções sombrias, elementos de suspense e timbres intensos, DJs e MCs passaram a adotar apelidos como Bruxo, Mago, Coringa e Mandrake, criando personagens que extrapolam a música e ajudam a definir a identidade artística de cada um. No Dia Nacional do Funk, o g1 mergulhou em um dos subgêneros que mais cresceram na cena paulista dos últimos anos para entender por que artistas passaram a adotar essas alcunhas únicas. Mais do que apelidos, esses personagens se tornaram uma marca de identidade visual e sonora por meio de um estilo que influencia a música, a moda e o audiovisual das periferias da capital até o interior paulista. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Para isso, a reportagem foi atrás de artistas do interior de SP, especialistas da Universidade de Sorocaba (Uniso) e DJs que se apresentam na região nos próximos dias para compreender a origem das alcunhas que dominam o funk. A data, celebrada em 12 de julho, foi oficializada no Brasil pela Lei nº 14.940 e existe para reconhecer o funk como manifestação cultural e homenageia o histórico "Baile da Pesada", realizado em 1970 no Rio de Janeiro. O ritmo, que nasceu nas periferias, destaca-se por dar voz aos jovens, gerar empregos e combater o preconceito social. LEIA TAMBÉM: Funk e a estética mandrake: entenda como movimento influencia na cultura do interior paulista Umbrellas, funk bruxaria e graves ecoando pela cidade: conheça o baile que conquistou o interior de SP De set no Lollapalooza para o interior de SP: Skrillex faz show surpresa em festa de funk para quase 10 mil pessoas Com a popularização do chamado funk bruxaria e do mandelão paulista, a estética passou a ocupar um papel tão importante quanto a própria música. Popularizada por meio de grandes eventos focados no gênero, como a Submundo 808, que realiza eventos anuais em Sorocaba (SP) ,com batidas marcantes e uma estética inconfundível. Capas com palhaços assustadores, cartas de baralho, caldeirões e magos se espalharam pelos canais de DJs, palcos dos bailes e pelas redes sociais, criando uma identidade visual que hoje é reconhecida como uma das principais marcas do funk produzido em todo estado paulista. Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista Reprodução/Mile.lab Para quem acompanha de fora, os apelidos podem parecer apenas nomes artísticos chamativos. No entanto, para quem faz parte da cena, eles funcionam como uma assinatura criativa e ajudam a comunicar a personalidade de cada produtor antes mesmo da primeira batida começar. "O apelido de bruxo ou mago e toda essa estética representam que o DJ faz magia e bruxaria em suas produções, com batidas alucinantes que fazem transcender como algo lúdico e mágico. Sempre foi o que eu quis transmitir em minhas músicas; por isso, adotei essa estética. Para mim, é a mais fascinante", explica o DJ Blakes, um dos principais nomes do gênero e que se apresenta em Bauru (SP) no próximo sábado (18). Segundo ele, o uso dessas alcunhas também ajuda o artista a se destacar em um cenário cada vez mais competitivo. "Assim como no rap e no trap, muitos artistas criam um apelido para se destacar e mostrar sua personalidade. No funk mandelão paulista, quem manda é quem faz a batida mais alucinante (ou mais sombria), se formos pensar pelo lado do funk bruxaria. Então, o apelido de bruxo é o que faz perfeito sentido", completa o artista. DJ Blakes e sua dançarina fantasiada de Arlequina durante show Reprodução/Arquivo pessoal ✨Como surgiu o funk bruxaria? O funk bruxaria é um desdobramento do mandelão paulista, um subgênero que ganhou força na Baixada Santista, na capital paulista e em todo o interior de São Paulo ao longo da década de 2010, especialmente em bailes de rua e na cultura automotiva. A partir de 2020, durante a pandemia, milhares de jovens passaram a produzir músicas em casa utilizando softwares simples e divulgando os trabalhos por uma plataforma digital. Nesse cenário, surgiu o funk bruxaria, que levou a experimentação sonora ainda mais longe. A crescente do gênero é comprovada por meio dos números de ouvintes. Nos últimos meses, boa parte das músicas que lideram as plataformas de streaming foram produzida em São Paulo ou por artistas paulistas. Entre o fim de 2025 e o primeiro semestre de 2026, o funk chegou a ocupar a maior parte das posições do Top 10 do Spotify Brasil e manteve presença constante entre as 50 músicas mais ouvidas do país, superando o sertanejo em diversos períodos. O estilo incorporou sintetizadores agressivos, ruídos metálicos, risadas, sons inspirados em filmes de terror e uma atmosfera sombria, fazendo com que DJs e produtores também passassem a adotar personagens como Bruxos, Magos e Palhaços para representar essa identidade artística. "Ela comunica que você nunca sabe o que virá a seguir e o que irá impressionar. Assim como uma mágica, comunica algo sombrio e obscuro que o público terá que buscar entender e desvendar, assim como a mensagem que for passar. Ela não é explicita, está implícita em forma de produção musical. E essa escolha veio da minha própria identificação com tudo relacionado à figura do 'Mago'", revela DJ Blakes. Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk Reprodução/Mile.lab O DJ ainda conta que as figuras são a representação visual do som. "Além de toda a experiência visual, essas figuras são representações do que é o som do mandelão paulista. Em muitas músicas você escuta risadas que logo se associam a imagem dos palhaços, as batidas estridentes agudas ou extremamente graves que parecem ter saído de um filme assustador de terror, onde as figuras visuais com certeza estariam e batidas alucinantes que parecem um toque mágico tocado por um mago ao lado de seu caldeirão", completa. O fenômeno também chegou ao interior paulista. Em Sorocaba, o DJ Will BR, que adotou o apelido de "Bruxo dos Mandelão", afirma que a identidade visual se tornou parte da experiência do funk. "Sempre acompanhei a evolução do funk paulista e vi que, além da música, a imagem também passou a contar uma história. Quis criar uma identidade que representasse a energia do meu show e do funk bruxaria, as máscaras, os figurinos e os elementos visuais ajudam a transformar cada apresentação em uma experiência, fazendo o público lembrar do DJ Will BR não só pelo som, mas também pela presença no palco", conta. "O funk paulista sempre buscou inovação, tanto no som quanto na estética. Esses personagens chamam atenção, despertam curiosidade e ajudam o público a identificar rapidamente um estilo musical. Hoje a imagem faz parte da cultura do movimento e fortalece ainda mais a personalidade de cada artista", completa o artista. 🃏O 'Mago dos Magos' e Mandrake, o Mágico DJ Blakes e DJ Mandrake durante show Reprodução/Subverso Embora não exista um "criador oficial" do funk bruxaria, produtores como DJ K, DJ Mandrake, DJ Arana, DJ Blakes e diversos artistas ligados ao mandelão foram fundamentais para consolidar essa estética que hoje influencia não apenas a sonoridade, mas também o audiovisual, a moda e as capas dos lançamentos. Uma característica importante é que "bruxaria" não faz referência à religião, mas sim à ideia de "fazer magia" na produção musical: criar batidas surpreendentes, imprevisíveis e capazes de hipnotizar o público. Um dos maiores DJs e produtores musicais do Brasil, DJ Mandrake 100% Original, que influenciou diversos DJse produtores do funk de Sorocaba (SP) se tornando uma figura de referência no segmento e teve seu apelido inspirado pelo famoso personagem de quadrinhos criado em 1934 por Lee Falk, "Mandrake, o Mágico". Um ilusionista poderoso que usa poderes mentais e hipnose para combater o crime. "Eu me inspirei no verdadeiro Mandrake. O cara que fazia mágica e hoje eu sou o cara que faz magia nos beats. Então eu sou uma reencarnação do Mandrake. Um ilusionista, um mágico, um mago, é o que eu faço aqui no meus trampos e é por isso que eu sou conhecido como o mago dos magos", conta DJ Mandrake. "Quando eu vejo que algo está muito ultrapassado, eu vou lá e me reinvento, eu crio algo novo, então sempre vão falar: 'o Mandrake é revolucionário, o cara já revolucionou o funk e continua revolucionando'", completa. Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista Reprodução/Mile.lab Por que os 'vilões' fazem tanto sucesso no funk? Embora esses personagens tenham se consolidado como marcas do funk paulista, a escolha vai além da estética. Para estudiosos da cultura periférica, essas figuras ajudam a traduzir experiências vividas por jovens que cresceram em territórios historicamente marcados pela desigualdade e pela exclusão social. O pesquisador, professor de Música Clássica e doutor em Funk pela Universidade de São Paulo (USP),Thiago de Souza, explica que a presença desses personagens pode ser compreendida a partir do conceito de "distinção social", desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. Segundo ele, grupos que vivem à margem da sociedade costumam ressignificar símbolos tradicionalmente vistos de forma negativa, transformando-os em elementos de identidade e pertencimento. "A questão do vilão no funk é, no fundo, um jogo de distinção social, como explicou Pierre Bourdieu. Admirar o vilão é inverter, de propósito, os valores dominantes para provocar a sociedade. A população marginalizada está excluída da sociedade de consumo e vive o efeito colateral da riqueza de poucos: a pobreza de muitos", explica o Dr. Thiago de Souza. Na prática, essa inversão acontece porque a periferia convive diariamente com desigualdades econômicas e sociais. Para o pesquisador, personagens como o Coringa deixam de representar apenas o antagonista das histórias em quadrinhos e passam a simbolizar alguém que desafia uma ordem considerada injusta. Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista Reprodução/Equipe DJ Blakes "Quando a sociedade é injusta, o vilão pode aparecer como uma espécie de justiceiro, ou até de herói. O Coringa é um bom exemplo. No filme com Joaquin Phoenix, vemos como nasce o vilão que depois será condenado pela própria sociedade, o vilão não surge do nada: ele é produzido por uma sociedade violenta e desigual, e não um ser essencialmente mau", completa. Essa leitura ajuda a explicar por que a figura do palhaço ganhou espaço não apenas no funk paulista, mas também em outras manifestações culturais produzidas por jovens das periferias. Segundo o pesquisador, essa apropriação simbólica faz parte de um processo maior de construção de identidade. Em grupos historicamente marginalizados, personagens e referências da cultura pop passam a representar resistência, força e pertencimento. Ao mesmo tempo que reconhece que essa ressignificação pode reforçar preconceitos contra o movimento. "Muitas vezes, a admiração pelo vilão acaba alimentando o estigma do funk para quem vê de fora. Enquanto a mídia costuma condenar a figura do bandido, no funk a expressão 'de bandido' pode significar beleza, imponência, estilo e até excelência vocal. Explicar essa inversão simbólica para quem não conhece esse universo nem sempre é simples", diz. De acordo com o DJ WILL BR, uma das principais finalidades dessa identidade visual não é sobre representar um personagem específico, mas criar uma atmosfera. "Os elementos do funk paulista simbolizam atitude, mistério, impacto e autenticidade [...] A identidade visual desperta curiosidade e faz as pessoas lembrarem do artista. Quando ela está alinhada com a música, cria uma conexão muito mais forte e o público passa a acompanhar não só as músicas, mas toda a proposta e a personalidade que o artista transmite", afirma. A doutora em Multimeios e professora da Universidade de Sorocaba (Uniso), Thífani Postali, afirma que esses símbolos precisam ser analisados dentro do contexto em que surgem. As identidades culturais são construídas justamente a partir da diferença em relação à cultura dominante, e os personagens escolhidos pelos artistas fazem parte desse processo de criação de narrativas próprias. Segundo a pesquisadora, compreender o significado desses símbolos é fundamental para combater interpretações equivocadas sobre o gênero. "As identidades são formadas a partir da diferença, daquilo que não é hegemônico. O funk é um movimento cultural em que jovens periféricos encontraram uma forma de criar suas próprias histórias, linguagens e modos de vida", conta. "Eu tenho preconceito principalmente sobre aquilo que eu não conheço. É preciso compreender as culturas das periferias e o significado desses elementos para que essas manifestações façam sentido também para quem está de fora", completa a pesquisadora. Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista Reprodução/Mile.lab Direito à fantasia Se para os DJs e MCs os personagens ajudam a construir uma identidade artística, para quem cria arte por meio da cultura periférica essas figuras carregam um significado ainda mais profundo. A fundadora da Mile Lab, laboratório de criação e pesquisa de cultura marginal, Milena Nascimento, conta como o imaginário do funk bruxaria nasce da mistura entre referências do terror, da fantasia e das vivências da periferia. "A sociedade costuma enxergar apenas o lado sombrio desses símbolos, mas, para quem vive esse universo, eles representam transformação, criatividade e poder. O bruxo, por exemplo, é aquele que faz magia com quase nada. No funk, é o DJ que transforma um computador simples em uma batida capaz de movimentar milhares de pessoas", destaca. Segundo Milena, o uso dessas figuras também dialoga com um processo histórico de ressignificação de símbolos vistos como negativos. Por meio dos 12 arquétipos, os estilos se adaptaram e condensaram os conceitos de inconsciente coletivo de Carl Jung para categorizar motivações humanas universais e estratégias de identidade. Citando sua própria imagem da bruxa, Milena descreve como a estética foi apropriada por diferentes grupos como forma de resistência e afirmação da identidade. "Quando minha mãe decidiu assumir o arquétipo da bruxa, ela tirou das mãos de quem a ofendia a força daquele símbolo. Vejo algo parecido acontecendo no funk. Quando um jovem escolhe ser o Coringa, o Bruxo ou o Mago, ele está reivindicando autonomia sobre a própria imagem e transformando um estigma em potência", afirma Milena. Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista Reprodução/Mile.lab Para a pesquisadora, a escolha desses personagens também desafia a forma como a periferia costuma ser retratada. E de como existe uma expectativa de que artistas periféricos falem apenas sobre violência, pobreza ou superação, enquanto o funk bruxaria reivindica o direito à fantasia. "Historicamente, a arte da quebrada foi empurrada para o hiper-realismo. Parece que o artista periférico só pode falar da própria dor. O funk bruxaria rompe com isso ao dizer que a periferia também pode criar mitologias, imaginar outros mundos e brincar com o fantástico", conta. "O terror nas minhas obras não representa o mal. Ele representa aquilo que a sociedade esconde, aquilo que provoca medo justamente porque é desconhecido. É uma forma de transformar nossas sombras em potência criativa", completa Milena. Influência estética em Sorocaba Nos bairros e vielas de Sorocaba, a moda funkeira não nasce de tendências impostas, mas de vivências locais. Muitas vezes, vestir 'a estética da quebrada' é reafirmar a própria origem. DJ Shayy, um dos principais nomes femininos da cena sorocabana, cresceu rodeada por essa estética e diz que sua relação com a moda é antes de tudo afetiva. “A estética de quebrada vende muito. A gente vê isso nas redes sociais, na forma que os gringos nos enxergam nas novelas, nas revistas, em todos os lugares. A estética de quebrada vende muito, mas não é só uma estética, isso é uma vivência. É algo que eu cresci vendo, consumindo, e que faz parte da minha história”, conta. Palhaços, magos e bruxas? Conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk Reprodução/adjshayy A artista também observa como os jovens do interior absorvem influências que vêm da capital e de outras regiões. Essa mistura cria uma estética própria, que combina relíquias, marcas icônicas e elementos que circulam especialmente entre as periferias. “Conforme o pessoal mais novo vai consumindo o funk da capital e região, seja indo até um rolê lá ou vendo influenciadores, eles vão evoluindo a forma de se expressar. E isso aparece nos kits, com peças relíquias, com marcas mais tops, uma lupa da Oakley, uma Cyclone, Quiksilver, Planet, Kenner… É a forma que eles encontram de mostrar que fazem parte dessa cultura também”, explica a Dj. Se nos anos 1990 o funk era reconhecido pelo passinho e pelos bailes, e na década de 2010 pela ostentação, a geração do mandelão e do funk bruxaria passou a construir uma identidade baseada em símbolos, personagens e arquétipos. Mago, Bruxo e Palhaço deixaram de ser apenas apelidos para representar uma estética própria, que hoje influencia a música, a moda, o audiovisual e a forma como uma nova geração da periferia escolhe contar suas histórias. *Colaborou sob supervisão de Gabriela Almeida Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí Initial plugin text VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

