Manifestantes enfrentam polícia na Bolívia Em viagem de mochilão pela América do Sul, o designer Gabriel Medeiros, de 26 anos, chegou a La Paz, capital da Bolívia, no dia 5 de maio, pretendendo ficar três dias. Neste sábado (23), ele completa 18 dias na cidade, sem previsão de sair. Isso porque a Bolívia vive uma onda de protestos desde o início do mês contra o governo do presidente Rodrigo Paz, que assumiu o poder há seis meses. 📲 Participe do canal do g1 Bauru e Marília no WhatsApp Estradas têm sido bloqueadas em várias regiões do país, e a polícia tem reagido com bombas e gás a protestos de diversos setores com demandas que vão de mudanças da política agrária à melhoria na qualidade do combustível no país - e até a renúncia do presidente. A única saída de La Paz tem sido pelo aeroporto de El Alto. O terminal tem recebido voos, mas em alguns momentos também é interditado. Nesta sexta-feira (22), manifestantes chegaram a fechar o acesso por algumas horas. Gabriel não tem conseguido deixar La Paz diante dos protestos no país Gabriel Medeiros/Acervo Pessoal Com dinheiro contado para a viagem, Gabriel pretendia seguir de ônibus para o Peru, onde faria trabalho voluntário. Segundo o brasileiro, o preço dos voos tem aumentado diariamente, chegando a valores que ele não consegue pagar. "Então estou ficando aqui, trabalhando a distância, esperando. Mas o dinheiro está acabando", diz. O designer de Bauru (SP) está hospedado num albergue junto a outros turistas. O dia a dia na cidade, conta ele, segue normal, especialmente quando não há protestos. Mas o cenário de férias começou a virar angústia pela impossibilidade de seguir viagem. Nesta sexta, protestos terminaram em confronto em La Paz. Claudia Moralez/Reuters "Eu comecei a ter uma sensação de que realmente estou sem conseguir sair daqui", relata. "E ainda tenho visto brasileiros chegando aqui de avião sem saber o que está acontecendo." Segundo Gabriel, ele chegou a procurar a embaixada brasileira em La Paz e foi informado que a única saída seria comprar uma passagem de avião. À reportagem, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que tem recebido relatos de brasileiros "que reportaram dificuldades de deslocamentos em razão dos bloqueios nas estradas bolivianas". O órgão diz que vem prestando a assistência consular aos que procuram as representações no país. Em comunicado emitido em 11 de maio e reforçado agora, o Itamaraty recomendou evitar viagens não essenciais aos departamentos de La Paz e Oruro, já que os bloqueios tem afetado os principais pontos turísticos do país, como o Salar de Uyuni, Potosí e Copacabana. Gabriel passou 9 horas em bloqueio na estrada entre Cochabamba e La Paz Gabriel Medeiros/Acervo Pessoal Escassez Gabriel Medeiros chegou à Bolívia por Santa Cruz da La Sierra, a bordo de um trem que parte da fronteira com o Mato Grosso do Sul. De lá, pegou um ônibus a La Paz, quando começou a presenciar os protestos. Próximo a Cochabamba, em 4 de maio, o ônibus em que estava enfrentou um bloqueio na estrada das 8h às 17h. "Depois, começou pelo país inteiro", diz. Os atos generalizados na Bolívia começaram no início de maio, mas, nos últimos dias, a mídia boliviana reportou uma intensificação de marchas, protestos e bloqueios. As manifestações antigovernamentais têm sido marcadas por confrontos entre manifestantes e forças de segurança — especialmente em La Paz. Nesta sexta-feira, uma marcha de camponeses, mineiros e afiliados à Central Operária Boliviana (COB), a principal central sindical da Bolívia ligada ao ex-presidente Evo Morales, teve que recuar em La Paz após ser dispersada com gás pela polícia. As principais ruas do centro da cidade foram ocupadas. Os protestos também afetam o cotidiano de grande parte da população boliviana, que sofre com a escassez de alimentos, combustível e medicamentos. Segundo Gabriel, os restaurantes de La Paz têm aumentado gradualmente o preço e passaram a oferecer apenas uma opção de prato. "As pessoas têm reclamado que não têm chegado frango, que é algo que eles comem muito aqui", diz. Apesar das reclamações, o brasileiro diz que sente nas ruas um apoio aos atos. Os bloqueios de estradas por manifestantes levaram à escassez de alimentos em La Paz. Foto de 18 de maio. Reuters Sede do governo, La Paz é uma cidade com forte presença de povos indígenas e importante epicentro político, ligada especialmente à base de apoio do ex-presidente Evo Morales. Mas não é só esse grupo político que tem demonstrado insatisfação. Segundo disse a analista política Luciana Jáuregui à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, a mobilização é de vários setores e tem mostrado "uma postura abertamente desestabilizadora". "Não se limita mais a pedir demandas específicas, mas sim a exigir a renúncia do presidente", disse. 'Meu maior medo era não conseguir voltar' Fabiana foi para Bolívia de carro para fazer uma viagem de duas semanas. No trajeto, se deparou com bloqueios Arquivo Pessoal Já em segurança em Santa Cruz de la Sierra, após passar dois dias presa em bloqueios nas rodovias bolivianas, a enfermeira Fabiane Gerotti Mendes, de 36 anos, contou à BBC News Brasil que ficou sem ter onde abastecer o carro por causa da escassez provocada pelas manifestações. Ela também decidiu encurtar a viagem pela Bolívia em cinco dias por medo de não conseguir voltar ao Brasil. Viajando de carro pelo país, a moradora de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, saiu da cidade natal no dia 15 de maio para um roteiro de duas semanas que tinha como destino o Salar de Uyuni — maior deserto de sal do mundo e principal atração turística da Bolívia —, além de outras paisagens do interior do país. Fabiane acreditava que as manifestações estavam concentrados em La Paz e decidiu manter a viagem mesmo depois de ver relatos de turistas que haviam conseguido circular normalmente pelo país. "Quando cheguei em Sucre, percebi uma movimentação estranha, mas pessoas que tinham ido antes de mim conseguiram voltar sem problemas", contou. Ao seguir para Potosí, cidade que serve de rota para turistas que visitam o Salar de Uyuni, ela encontrou o primeiro bloqueio. Lá, os manifestantes tinham fechado a rodovia com pedras e pedaços de árvore. "Nessa hora eu senti muito medo. Porque eles vieram em cima do meu carro, eu estava sozinha e ficaram perguntando se tinha alguém comigo", lembra. Fabiane se deparou com bloqueio de pedras na rodovia. Arquivo Pessoal Ao perceber que não iria conseguir passar, Fabiane decidiu retornar para Sucre, onde ficou por dois dias, até seguir viagem para Santa Cruz. No trajeto de volta, contudo, ela encontrou outro bloqueio. Em Aiquile, uma pequena cidade do interior boliviano com cerca de 23 mil habitantes, um grupo de manifestantes bloqueava a rodovia. "Não tinha o que fazer, não deixavam ninguém passar. Meu maior medo era não conseguir voltar. Eu acompanhava as notícias e os bloqueios só aumentavam." Ali, Fabiane ficou presa por duas noites e enfrentou problemas como a falta de combustível. "Passei dois dias indo em todos os postos da cidade e não tinha gasolina. Até que no terceiro dia, eu consegui. Cheguei a ficar sem gasolina", relatou. Fabiane conta que para conseguir atravessar o bloqueio, muitas pessoas chegavam de transporte até o local, cruzavam o trecho caminhando e retomavam o transporte do outro lado. Mas, como ela estava de carro, ela não conseguia fazer o mesmo. Até que um morador da cidade sugeriu que ela tentasse passar pela rodovia durante a madrugada, quando os manifestantes poderiam não estar lá. Na quinta-feira (21/5), a brasileira acordou cedo e pegou o carro, mas o bloqueio continuava lá. Voltou para o hotel e decidiu tentar novamente durante a madrugada de sexta, quando finalmente conseguiu passar. "Fui às 4h da manhã e os manifestantes não estavam lá. Mas tinha uma fila de cinco quilômetros de caminhões. Foi uma angústia sem saber se eu ia conseguir", disse. "Quando vi os carros atravessando, eu comecei a chorar. Não acreditei que ia finalmente sair dali." Apesar do clima de tensão para voltar a Santa Cruz de la Sierra, Fabiane disse não ter presenciado confrontos violentos. "Não vi confusão, as pessoas estavam manifestando de forma pacífica", afirmou. "Mas se eu pudesse dar um conselho às pessoas é que não venham pra cá. Tem muitos bloqueios e os protestos estão aumentando", alertou. Ela volta para o Brasil no próximo domingo (24/5). Os motivos dos protestos Considerado de centro-direita, Rodrigo Paz chegou ao poder na Bolívia há seis meses, encerrando os 20 anos do domínio do Movimento ao Socialismo (MAS), agremiação de esquerda fundada por Evo Morales e apoiada pela maioria indígena do país. Paz assumiu o governo meio a uma das piores crises econômicas da Bolívia desde a década de 1980, marcada por escassez de combustível e moeda estrangeira, além de uma inflação descontrolada. O governo afirma que Morales, que governou entre 2006 e 2019, está por trás dos protestos, algo que o ex-presidente nega. Presidente Rodrigo Paz tem recuado em algumas medidas, mas protestos não cessaram Claudia Moralez/Reuters Morales foi declarado em situação de desacato a autoridade judicial em 11 de maio, após não comparecer ao início de seu julgamento por suposto tráfico de pessoas. Segundo a acusação, Evo Morales teria estuprado em 2015 uma adolescente de 15 anos, que teria engravidado. O ex-presidente permanece recluso e protegido por apoiadores em seu reduto político na região cocaleira de Cochabamba desde outubro de 2024, para evitar detenção. Morales descreveu os atuais protestos como "uma insurreição popular de base", segundo a agência de notícias EFE. Mas além da disputa política há problemas crônicos que os bolivianos enfrentam e que motivaram o início dos protestos. No final de abril, o presidente Paz anunciou uma reforma agrária com o objetivo de transformar pequenas propriedades rurais em propriedades de médio porte, desde que o proprietário o solicite voluntariamente. Segundo o governo, o objetivo da medida era permitir que os proprietários de pequenas propriedades rurais as utilizem como garantia para obter crédito e, assim, reativar investimentos. No entanto, diversos grupos camponeses interpretaram a medida como uma tentativa de promover a venda de terras agrícolas para grandes proprietários. Em resposta aos protestos, o presidente revogou a iniciativa na semana passada. Os professores também lideraram uma série de protestos exigindo aumentos salariais em um país que enfrenta uma inflação alta, de 15% ao ano, tornando o custo de vida uma grande preocupação para os bolivianos. Após semanas de negociações, o Ministério da Educação anunciou um acordo com os professores, que aceitaram um bônus e declararam que suspenderiam os protestos. No entanto, as manifestações não só continuaram como se espalharam para novos setores. O governo Paz também eliminou os subsídios ao combustível herdados do governo anterior, elevando o preço. Com isso, bolivianos questionam a qualidade do produto vendido na tentativa de reduzir custos. O Instituto de Pesquisa Química da Universidade Superior de San Andrés (UMSA) realizou uma análise técnica que concluiu que as gasolinas testadas não atendiam aos padrões de qualidade. Questões sobre a qualidade do produto, seus altos preços e a escassez causada pelos bloqueios de estradas nas últimas semanas paralisaram grande parte do país. Por fim, em 9 de maio, o presidente anunciou a criação de uma comissão para realizar uma "reforma parcial" da Constituição que rege o país desde 2009, com o objetivo de facilitar o investimento na economia boliviana. A reforma visa modificar setores como o de hidrocarbonetos e o de mineração, levando movimentos sociais alinhados a Morales a criticarem as reformas econômicas por excluírem o Estado como ator fundamental. Segundo críticos, as mudanças constitucionais visam viabilizar a privatização da gestão de recursos naturais, argumento negado pelo governo. "Aqui, ninguém quer privatizar, ninguém quer aumentar tarifas, ninguém quer fazer muitas das coisas que algumas pessoas, alguns líderes e alguns interesses políticos estão tentando usar para confundir a população", disse Paz na semana passada. Com reportagem de Ayelén Oliva, da BBC News Mundo
'Dinheiro acabando': brasileiro relata angústia em La Paz com protestos que não o deixam sair da Bolívia
Escrito em 23/05/2026
Manifestantes enfrentam polícia na Bolívia Em viagem de mochilão pela América do Sul, o designer Gabriel Medeiros, de 26 anos, chegou a La Paz, capital da Bolívia, no dia 5 de maio, pretendendo ficar três dias. Neste sábado (23), ele completa 18 dias na cidade, sem previsão de sair. Isso porque a Bolívia vive uma onda de protestos desde o início do mês contra o governo do presidente Rodrigo Paz, que assumiu o poder há seis meses. 📲 Participe do canal do g1 Bauru e Marília no WhatsApp Estradas têm sido bloqueadas em várias regiões do país, e a polícia tem reagido com bombas e gás a protestos de diversos setores com demandas que vão de mudanças da política agrária à melhoria na qualidade do combustível no país - e até a renúncia do presidente. A única saída de La Paz tem sido pelo aeroporto de El Alto. O terminal tem recebido voos, mas em alguns momentos também é interditado. Nesta sexta-feira (22), manifestantes chegaram a fechar o acesso por algumas horas. Gabriel não tem conseguido deixar La Paz diante dos protestos no país Gabriel Medeiros/Acervo Pessoal Com dinheiro contado para a viagem, Gabriel pretendia seguir de ônibus para o Peru, onde faria trabalho voluntário. Segundo o brasileiro, o preço dos voos tem aumentado diariamente, chegando a valores que ele não consegue pagar. "Então estou ficando aqui, trabalhando a distância, esperando. Mas o dinheiro está acabando", diz. O designer de Bauru (SP) está hospedado num albergue junto a outros turistas. O dia a dia na cidade, conta ele, segue normal, especialmente quando não há protestos. Mas o cenário de férias começou a virar angústia pela impossibilidade de seguir viagem. Nesta sexta, protestos terminaram em confronto em La Paz. Claudia Moralez/Reuters "Eu comecei a ter uma sensação de que realmente estou sem conseguir sair daqui", relata. "E ainda tenho visto brasileiros chegando aqui de avião sem saber o que está acontecendo." Segundo Gabriel, ele chegou a procurar a embaixada brasileira em La Paz e foi informado que a única saída seria comprar uma passagem de avião. À reportagem, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que tem recebido relatos de brasileiros "que reportaram dificuldades de deslocamentos em razão dos bloqueios nas estradas bolivianas". O órgão diz que vem prestando a assistência consular aos que procuram as representações no país. Em comunicado emitido em 11 de maio e reforçado agora, o Itamaraty recomendou evitar viagens não essenciais aos departamentos de La Paz e Oruro, já que os bloqueios tem afetado os principais pontos turísticos do país, como o Salar de Uyuni, Potosí e Copacabana. Gabriel passou 9 horas em bloqueio na estrada entre Cochabamba e La Paz Gabriel Medeiros/Acervo Pessoal Escassez Gabriel Medeiros chegou à Bolívia por Santa Cruz da La Sierra, a bordo de um trem que parte da fronteira com o Mato Grosso do Sul. De lá, pegou um ônibus a La Paz, quando começou a presenciar os protestos. Próximo a Cochabamba, em 4 de maio, o ônibus em que estava enfrentou um bloqueio na estrada das 8h às 17h. "Depois, começou pelo país inteiro", diz. Os atos generalizados na Bolívia começaram no início de maio, mas, nos últimos dias, a mídia boliviana reportou uma intensificação de marchas, protestos e bloqueios. As manifestações antigovernamentais têm sido marcadas por confrontos entre manifestantes e forças de segurança — especialmente em La Paz. Nesta sexta-feira, uma marcha de camponeses, mineiros e afiliados à Central Operária Boliviana (COB), a principal central sindical da Bolívia ligada ao ex-presidente Evo Morales, teve que recuar em La Paz após ser dispersada com gás pela polícia. As principais ruas do centro da cidade foram ocupadas. Os protestos também afetam o cotidiano de grande parte da população boliviana, que sofre com a escassez de alimentos, combustível e medicamentos. Segundo Gabriel, os restaurantes de La Paz têm aumentado gradualmente o preço e passaram a oferecer apenas uma opção de prato. "As pessoas têm reclamado que não têm chegado frango, que é algo que eles comem muito aqui", diz. Apesar das reclamações, o brasileiro diz que sente nas ruas um apoio aos atos. Os bloqueios de estradas por manifestantes levaram à escassez de alimentos em La Paz. Foto de 18 de maio. Reuters Sede do governo, La Paz é uma cidade com forte presença de povos indígenas e importante epicentro político, ligada especialmente à base de apoio do ex-presidente Evo Morales. Mas não é só esse grupo político que tem demonstrado insatisfação. Segundo disse a analista política Luciana Jáuregui à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, a mobilização é de vários setores e tem mostrado "uma postura abertamente desestabilizadora". "Não se limita mais a pedir demandas específicas, mas sim a exigir a renúncia do presidente", disse. 'Meu maior medo era não conseguir voltar' Fabiana foi para Bolívia de carro para fazer uma viagem de duas semanas. No trajeto, se deparou com bloqueios Arquivo Pessoal Já em segurança em Santa Cruz de la Sierra, após passar dois dias presa em bloqueios nas rodovias bolivianas, a enfermeira Fabiane Gerotti Mendes, de 36 anos, contou à BBC News Brasil que ficou sem ter onde abastecer o carro por causa da escassez provocada pelas manifestações. Ela também decidiu encurtar a viagem pela Bolívia em cinco dias por medo de não conseguir voltar ao Brasil. Viajando de carro pelo país, a moradora de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, saiu da cidade natal no dia 15 de maio para um roteiro de duas semanas que tinha como destino o Salar de Uyuni — maior deserto de sal do mundo e principal atração turística da Bolívia —, além de outras paisagens do interior do país. Fabiane acreditava que as manifestações estavam concentrados em La Paz e decidiu manter a viagem mesmo depois de ver relatos de turistas que haviam conseguido circular normalmente pelo país. "Quando cheguei em Sucre, percebi uma movimentação estranha, mas pessoas que tinham ido antes de mim conseguiram voltar sem problemas", contou. Ao seguir para Potosí, cidade que serve de rota para turistas que visitam o Salar de Uyuni, ela encontrou o primeiro bloqueio. Lá, os manifestantes tinham fechado a rodovia com pedras e pedaços de árvore. "Nessa hora eu senti muito medo. Porque eles vieram em cima do meu carro, eu estava sozinha e ficaram perguntando se tinha alguém comigo", lembra. Fabiane se deparou com bloqueio de pedras na rodovia. Arquivo Pessoal Ao perceber que não iria conseguir passar, Fabiane decidiu retornar para Sucre, onde ficou por dois dias, até seguir viagem para Santa Cruz. No trajeto de volta, contudo, ela encontrou outro bloqueio. Em Aiquile, uma pequena cidade do interior boliviano com cerca de 23 mil habitantes, um grupo de manifestantes bloqueava a rodovia. "Não tinha o que fazer, não deixavam ninguém passar. Meu maior medo era não conseguir voltar. Eu acompanhava as notícias e os bloqueios só aumentavam." Ali, Fabiane ficou presa por duas noites e enfrentou problemas como a falta de combustível. "Passei dois dias indo em todos os postos da cidade e não tinha gasolina. Até que no terceiro dia, eu consegui. Cheguei a ficar sem gasolina", relatou. Fabiane conta que para conseguir atravessar o bloqueio, muitas pessoas chegavam de transporte até o local, cruzavam o trecho caminhando e retomavam o transporte do outro lado. Mas, como ela estava de carro, ela não conseguia fazer o mesmo. Até que um morador da cidade sugeriu que ela tentasse passar pela rodovia durante a madrugada, quando os manifestantes poderiam não estar lá. Na quinta-feira (21/5), a brasileira acordou cedo e pegou o carro, mas o bloqueio continuava lá. Voltou para o hotel e decidiu tentar novamente durante a madrugada de sexta, quando finalmente conseguiu passar. "Fui às 4h da manhã e os manifestantes não estavam lá. Mas tinha uma fila de cinco quilômetros de caminhões. Foi uma angústia sem saber se eu ia conseguir", disse. "Quando vi os carros atravessando, eu comecei a chorar. Não acreditei que ia finalmente sair dali." Apesar do clima de tensão para voltar a Santa Cruz de la Sierra, Fabiane disse não ter presenciado confrontos violentos. "Não vi confusão, as pessoas estavam manifestando de forma pacífica", afirmou. "Mas se eu pudesse dar um conselho às pessoas é que não venham pra cá. Tem muitos bloqueios e os protestos estão aumentando", alertou. Ela volta para o Brasil no próximo domingo (24/5). Os motivos dos protestos Considerado de centro-direita, Rodrigo Paz chegou ao poder na Bolívia há seis meses, encerrando os 20 anos do domínio do Movimento ao Socialismo (MAS), agremiação de esquerda fundada por Evo Morales e apoiada pela maioria indígena do país. Paz assumiu o governo meio a uma das piores crises econômicas da Bolívia desde a década de 1980, marcada por escassez de combustível e moeda estrangeira, além de uma inflação descontrolada. O governo afirma que Morales, que governou entre 2006 e 2019, está por trás dos protestos, algo que o ex-presidente nega. Presidente Rodrigo Paz tem recuado em algumas medidas, mas protestos não cessaram Claudia Moralez/Reuters Morales foi declarado em situação de desacato a autoridade judicial em 11 de maio, após não comparecer ao início de seu julgamento por suposto tráfico de pessoas. Segundo a acusação, Evo Morales teria estuprado em 2015 uma adolescente de 15 anos, que teria engravidado. O ex-presidente permanece recluso e protegido por apoiadores em seu reduto político na região cocaleira de Cochabamba desde outubro de 2024, para evitar detenção. Morales descreveu os atuais protestos como "uma insurreição popular de base", segundo a agência de notícias EFE. Mas além da disputa política há problemas crônicos que os bolivianos enfrentam e que motivaram o início dos protestos. No final de abril, o presidente Paz anunciou uma reforma agrária com o objetivo de transformar pequenas propriedades rurais em propriedades de médio porte, desde que o proprietário o solicite voluntariamente. Segundo o governo, o objetivo da medida era permitir que os proprietários de pequenas propriedades rurais as utilizem como garantia para obter crédito e, assim, reativar investimentos. No entanto, diversos grupos camponeses interpretaram a medida como uma tentativa de promover a venda de terras agrícolas para grandes proprietários. Em resposta aos protestos, o presidente revogou a iniciativa na semana passada. Os professores também lideraram uma série de protestos exigindo aumentos salariais em um país que enfrenta uma inflação alta, de 15% ao ano, tornando o custo de vida uma grande preocupação para os bolivianos. Após semanas de negociações, o Ministério da Educação anunciou um acordo com os professores, que aceitaram um bônus e declararam que suspenderiam os protestos. No entanto, as manifestações não só continuaram como se espalharam para novos setores. O governo Paz também eliminou os subsídios ao combustível herdados do governo anterior, elevando o preço. Com isso, bolivianos questionam a qualidade do produto vendido na tentativa de reduzir custos. O Instituto de Pesquisa Química da Universidade Superior de San Andrés (UMSA) realizou uma análise técnica que concluiu que as gasolinas testadas não atendiam aos padrões de qualidade. Questões sobre a qualidade do produto, seus altos preços e a escassez causada pelos bloqueios de estradas nas últimas semanas paralisaram grande parte do país. Por fim, em 9 de maio, o presidente anunciou a criação de uma comissão para realizar uma "reforma parcial" da Constituição que rege o país desde 2009, com o objetivo de facilitar o investimento na economia boliviana. A reforma visa modificar setores como o de hidrocarbonetos e o de mineração, levando movimentos sociais alinhados a Morales a criticarem as reformas econômicas por excluírem o Estado como ator fundamental. Segundo críticos, as mudanças constitucionais visam viabilizar a privatização da gestão de recursos naturais, argumento negado pelo governo. "Aqui, ninguém quer privatizar, ninguém quer aumentar tarifas, ninguém quer fazer muitas das coisas que algumas pessoas, alguns líderes e alguns interesses políticos estão tentando usar para confundir a população", disse Paz na semana passada. Com reportagem de Ayelén Oliva, da BBC News Mundo

