Angela Ro Ro (1949 – 2025) inspira os 41 textos reunidos por Marina Ruivo no terceiro volume da série 'Leia esta canção' Alexandre Moreira / Divulgação ♫ CRÍTICA DE LIVRO Título: Angela Ro Ro – Contos, canções, relatos & afins Autor: Marina Ruivo (organização) Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ “ [...] É tudo tão cheio de vida que se poderia dizer que essa pessoa viveu cem anos, e foram só trinta. Ro Ro se despe de tal forma que assusta, de tão real. Todo o desejo, a raiva, o grito, o vômito. Toda aquela ânsia de amar que faz parte do seu humano e que poucos ousam revelar”. O pensamento da cantora Bárbara Eugênia sobre o primeiro álbum de Angela Maria Diniz Gonsalves (5 de dezembro de 1949 – 8 de setembro de 2025) – intitulado “Angela Ro Ro” e lançado em 1979 quando a artista tinha 30 anos – dá a pista do tom confessional e por vezes visceral dos textos reunidos no livro “Angela Ro Ro – Contos, canções, relatos & afins”, lançado neste mês de junho pela editora Garoupa. Organizado por Marina Ruivo, o livro é o terceiro volume da série “Leia esta canção”, criada por Ruivo. Após volumes dedicados às obras dos compositores Beto Guedes e Ednardo em 2023 e 2024, a série põe em foco o cancioneiro em carne viva de Angela Ro Ro em livro que reúne 41 textos inspirados na vida louca vida e na obra da cantora, compositora e pianista carioca, falecida em setembro do ano passado, aos 75 anos. Como o subtítulo sinaliza, o livro agrupa textos de naturezas diversas. Há quem (a maioria) tenha preferido o formato ficcional do conto, casos de Luciana Lima Silva e Miriam Palma, cujos contos “Balada da (des)arrasada” e “Tola” foram escritos com inspiração nas letras das canções “Balada da arrasada” e “Tola foi você”, respectivamente – ambas canções apresentadas por Ro Ro no primeiro álbum, de 1979. E há quem desnude sentimentos com relatos da vida real, feitos a partir do contato com a artista, ao vivo ou através da música. O foco preferencial no antológico álbum de estreia de Angela Ro Ro – um dos maiores discos da música brasileira em todos os tempos – é o traço que alinha a maioria dos 41 textos. “É o disco de uma mulher intensa e inteira que rasga a carne e mostra os ossos sem medo algum, mesmo estando no Brasil ditatorial de 1979. Muito mais do que falar de amor, ele fala sobre coragem. É uma mulher soltando o verbo sem a menor vontade de agradar ninguém, é um desejo tão grande de ser, é uma súplica existencial”, conceitua a cineasta e fotógrafa Mery Lemos no texto “Angela”. O jornalista e crítico musical Pedro Alexandre Sanches perfila com maestria a existência, o verbo e o tempo da artista no texto analítico “Não foi fácil ser Angela Ro Ro”, alentado obituário publicado por Sanches quatro dias a morte de Ro Ro. Mesmo não sendo inédito, o texto é tão bom que mereceu vaga no livro. Já o escritor Santiago Nazarian oferece “Fossa nova”, poema caracterizado pelo autor como “Uma letra retrocontemporânea para Ro Ro”. Em que pese a maior ou menor qualidade literária dos contos, o que justifica e valoriza o livro é a capacidade de o cancioneiro de Angela Ro Ro fazer brotar emoções à flor da pele, seja nos contos ou nos relatos feitos fora do universo da ficção, como o da escritora Paula Bajer, autora de “Amor, meu grande amor”, texto dedicado por Bajer ao recentemente falecido irmão Gustavo, admirador intenso de Maria Bethânia, cantora também ela intensa que logo se conectou com a música de Angela Ro Ro ao gravar a canção “Gota de sangue” em 1979. Fora da ficção, é impressionante – justamente por ser real – o relato do cantor e jornalista Márvio dos Anjos sobre a experiência traumática de ter aberto um show de Angela Ro Ro no Sesc Pompeia, em 2007 ou 2008. “Abrir o show de um demônio” é o título do texto em que Márvio expõe no livro a face mais sombria da cantora, cujo temperamento muitas vezes irascível e irritadiço era o outro lado da moeda, ainda que a grandeza da obra acabasse pairando sobre todas as coisas, sobre as luzes e as sombras, até porque o cancioneiro dilacerante de Angela Ro Ro era fruto do desassossego do espírito da artista. O relato de Márvio dos Anjos – vítima do desajuste emocional de Angela naquela noite inesquecível em todos os sentidos – é tocante pela sinceridade do autor e por ter sido escrito sem rancor, com a distância apaziguadora trazida pelo tempo. Curiosamente, também merece menção honrosa o texto do jornalista, músico e poeta Rodrigo Carneiro sobre o turbilhão de emoções que sentiu ao assistir a um show de Angela Ro Ro no mesmo Sesc Pompeia em 2008. Em “Nossa mulher biônica”, relato que antecede o texto de Márvio na organização do livro, Carneiro lembra a violência física e psicológica sofrida pela artista nos anos 1980 – década em que Ro Ro apanhava de policiais por não baixar a cabeça para as autoridades – ao mesmo tempo em que recorda a paixão à primeira audição pela cantora quando, aos 12 anos, ouviu o bolero “Simples carinho” (João Donato e Abel Silva, 1982) em coletânea comprada pelos pais. “Angela Ro Ro tirava o sossego. Nunca foi afeita à necessidade de agradar”, resume a jornalista Carime Elmor quase ao fim do texto “Essa era a minha noitada: sair atrás de um piano”, um dos mais interessantes do livro. Elmor traça elucidativo perfil biográfico de Ro Ro a partir do relato da noite de 22 de novembro de 1992 em que a cantora invadiu o palco do Cine Theatro Apollo em Barbarcena (MG) e interrompeu recital de piano porque queria começar a fazer o próprio show, marcado para as 21h30 e já atrasado em duas horas. Pelo ato intempestivo, que incluiu depreciações do artista que estava no palco, Ro Ro foi moralmente linchada pelo público do recital (o público da cantora era outro e aguardava do lado de fora do teatro) e pela imprensa local. Enfim, em prosa ou em verso, fora ou dentro da ficção, Angela Ro Ro – “a que tudo sentiu, disse, fez” – deixou rastro de luzes e sombras, provocando tsunamis nas almas que se depararam com a figura lendária da cantora e/ou com um cancioneiro tão forte que inspira contos, canções, relatos e afins neste livro fiel ao intenso universo particular da artista. Capa do livro 'Angela Ro Ro – Contos, canções, relatos & afins', organizado por Marina Ruivo Reprodução
Luzes, sombras e músicas de Angela Ro Ro inspiram os casos e contos à flor da pele de livro da série 'Leia esta canção'
Escrito em 30/06/2026
Angela Ro Ro (1949 – 2025) inspira os 41 textos reunidos por Marina Ruivo no terceiro volume da série 'Leia esta canção' Alexandre Moreira / Divulgação ♫ CRÍTICA DE LIVRO Título: Angela Ro Ro – Contos, canções, relatos & afins Autor: Marina Ruivo (organização) Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ “ [...] É tudo tão cheio de vida que se poderia dizer que essa pessoa viveu cem anos, e foram só trinta. Ro Ro se despe de tal forma que assusta, de tão real. Todo o desejo, a raiva, o grito, o vômito. Toda aquela ânsia de amar que faz parte do seu humano e que poucos ousam revelar”. O pensamento da cantora Bárbara Eugênia sobre o primeiro álbum de Angela Maria Diniz Gonsalves (5 de dezembro de 1949 – 8 de setembro de 2025) – intitulado “Angela Ro Ro” e lançado em 1979 quando a artista tinha 30 anos – dá a pista do tom confessional e por vezes visceral dos textos reunidos no livro “Angela Ro Ro – Contos, canções, relatos & afins”, lançado neste mês de junho pela editora Garoupa. Organizado por Marina Ruivo, o livro é o terceiro volume da série “Leia esta canção”, criada por Ruivo. Após volumes dedicados às obras dos compositores Beto Guedes e Ednardo em 2023 e 2024, a série põe em foco o cancioneiro em carne viva de Angela Ro Ro em livro que reúne 41 textos inspirados na vida louca vida e na obra da cantora, compositora e pianista carioca, falecida em setembro do ano passado, aos 75 anos. Como o subtítulo sinaliza, o livro agrupa textos de naturezas diversas. Há quem (a maioria) tenha preferido o formato ficcional do conto, casos de Luciana Lima Silva e Miriam Palma, cujos contos “Balada da (des)arrasada” e “Tola” foram escritos com inspiração nas letras das canções “Balada da arrasada” e “Tola foi você”, respectivamente – ambas canções apresentadas por Ro Ro no primeiro álbum, de 1979. E há quem desnude sentimentos com relatos da vida real, feitos a partir do contato com a artista, ao vivo ou através da música. O foco preferencial no antológico álbum de estreia de Angela Ro Ro – um dos maiores discos da música brasileira em todos os tempos – é o traço que alinha a maioria dos 41 textos. “É o disco de uma mulher intensa e inteira que rasga a carne e mostra os ossos sem medo algum, mesmo estando no Brasil ditatorial de 1979. Muito mais do que falar de amor, ele fala sobre coragem. É uma mulher soltando o verbo sem a menor vontade de agradar ninguém, é um desejo tão grande de ser, é uma súplica existencial”, conceitua a cineasta e fotógrafa Mery Lemos no texto “Angela”. O jornalista e crítico musical Pedro Alexandre Sanches perfila com maestria a existência, o verbo e o tempo da artista no texto analítico “Não foi fácil ser Angela Ro Ro”, alentado obituário publicado por Sanches quatro dias a morte de Ro Ro. Mesmo não sendo inédito, o texto é tão bom que mereceu vaga no livro. Já o escritor Santiago Nazarian oferece “Fossa nova”, poema caracterizado pelo autor como “Uma letra retrocontemporânea para Ro Ro”. Em que pese a maior ou menor qualidade literária dos contos, o que justifica e valoriza o livro é a capacidade de o cancioneiro de Angela Ro Ro fazer brotar emoções à flor da pele, seja nos contos ou nos relatos feitos fora do universo da ficção, como o da escritora Paula Bajer, autora de “Amor, meu grande amor”, texto dedicado por Bajer ao recentemente falecido irmão Gustavo, admirador intenso de Maria Bethânia, cantora também ela intensa que logo se conectou com a música de Angela Ro Ro ao gravar a canção “Gota de sangue” em 1979. Fora da ficção, é impressionante – justamente por ser real – o relato do cantor e jornalista Márvio dos Anjos sobre a experiência traumática de ter aberto um show de Angela Ro Ro no Sesc Pompeia, em 2007 ou 2008. “Abrir o show de um demônio” é o título do texto em que Márvio expõe no livro a face mais sombria da cantora, cujo temperamento muitas vezes irascível e irritadiço era o outro lado da moeda, ainda que a grandeza da obra acabasse pairando sobre todas as coisas, sobre as luzes e as sombras, até porque o cancioneiro dilacerante de Angela Ro Ro era fruto do desassossego do espírito da artista. O relato de Márvio dos Anjos – vítima do desajuste emocional de Angela naquela noite inesquecível em todos os sentidos – é tocante pela sinceridade do autor e por ter sido escrito sem rancor, com a distância apaziguadora trazida pelo tempo. Curiosamente, também merece menção honrosa o texto do jornalista, músico e poeta Rodrigo Carneiro sobre o turbilhão de emoções que sentiu ao assistir a um show de Angela Ro Ro no mesmo Sesc Pompeia em 2008. Em “Nossa mulher biônica”, relato que antecede o texto de Márvio na organização do livro, Carneiro lembra a violência física e psicológica sofrida pela artista nos anos 1980 – década em que Ro Ro apanhava de policiais por não baixar a cabeça para as autoridades – ao mesmo tempo em que recorda a paixão à primeira audição pela cantora quando, aos 12 anos, ouviu o bolero “Simples carinho” (João Donato e Abel Silva, 1982) em coletânea comprada pelos pais. “Angela Ro Ro tirava o sossego. Nunca foi afeita à necessidade de agradar”, resume a jornalista Carime Elmor quase ao fim do texto “Essa era a minha noitada: sair atrás de um piano”, um dos mais interessantes do livro. Elmor traça elucidativo perfil biográfico de Ro Ro a partir do relato da noite de 22 de novembro de 1992 em que a cantora invadiu o palco do Cine Theatro Apollo em Barbarcena (MG) e interrompeu recital de piano porque queria começar a fazer o próprio show, marcado para as 21h30 e já atrasado em duas horas. Pelo ato intempestivo, que incluiu depreciações do artista que estava no palco, Ro Ro foi moralmente linchada pelo público do recital (o público da cantora era outro e aguardava do lado de fora do teatro) e pela imprensa local. Enfim, em prosa ou em verso, fora ou dentro da ficção, Angela Ro Ro – “a que tudo sentiu, disse, fez” – deixou rastro de luzes e sombras, provocando tsunamis nas almas que se depararam com a figura lendária da cantora e/ou com um cancioneiro tão forte que inspira contos, canções, relatos e afins neste livro fiel ao intenso universo particular da artista. Capa do livro 'Angela Ro Ro – Contos, canções, relatos & afins', organizado por Marina Ruivo Reprodução

