Relatório sobre vídeos de câmeras de PMs de megaoperação indica tortura, ameaças de morte e agressões a criminosos e moradores

Escrito em 28/10/2026


O que aconteceu um ano após megaoperação no Complexo do Alemão e da Penha com 122 mortos Um relatório sobre imagens e áudios captados por Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) de policiais militares que participaram da Operação Contenção, realizada nos Complexos da Penha e do Alemão há um ano, indicam que agentes praticaram tortura, agressões físicas e ameaças explícitas de morte contra criminosos. Moradores e trabalhadores da região também sofreram agressões e ameaças. As informações estão em um relatório elaborado pela 3ª Defensoria Pública do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, em conjunto com o Projeto Mirante. 📌Um ano da megaoperação: esta reportagem faz parte de uma série do g1 sobre os desdobramentos da ação realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, com 122 mortos. Relatório sobre vídeos de câmeras de PMs de megaoperação indica tortura, ameaças de morte e agressões a criminosos e moradores Reprodução 📌 O Projeto Mirante é uma iniciativa conjunta entre a Defensoria Pública (dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo) e o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI-UFF). Apoiado também pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, o programa foca na investigação independente de casos de violência policial e institucional. Veja outras reportagens: Um ano depois, 33 alvos estão foragidos e chefes vivem na região O documento examina gravações das câmeras operacionais portáteis (COPs) utilizadas por policiais durante a operação, que deixou 122 mortos e foi considerada a mais letal da história do estado. Segundo o órgão, foram analisados 10.202 arquivos de 529 policiais. Nenhum vídeo mostra os momentos das mortes ocorridas na mega-operação. O relatório, porém, destaca que isso impede de apurar a real dinâmica dos fatos. O relatório identificou ainda que pelo menos duas câmeras estavam associadas ao mesmo RG, gravando no mesmo horário em locais diferentes. Um policial chegou a declarar que conseguiria "tirar 300 câmeras no mesmo RG". Câmeras foram retiradas do uniforme, viradas para paredes e tetos ou obstruídas intencionalmente com as mãos. Um dos episódios mais analisados pelo relatório envolve um homem detido por policiais do Batalhão de Polícia de Choque no Complexo da Penha. Um sargento acusa o homem de ter atirado contra a equipe e de ter se desfeito de um fuzil. Nas imagens, o homem aparece imobilizado no chão, com o pé de um policial sobre a cabeça. Em determinado momento, o sargento ordena que ele seja levado para um beco e diz: “Vamo matar essa porra”. Na sequência, as gravações registram ameaças, uma agressão no rosto e a colocação de um pano ensanguentado sobre a cabeça do detido. Enquanto o tecido é mantido sobre ele, policiais perguntam onde está o fuzil. Em um dos áudios, um agente afirma: “Se falar onde tá o fuzil, o sofrimento acaba”. O relatório também descreve golpes com um pedaço de madeira durante o deslocamento do homem até uma laje. Em outro trecho, policiais fazem comentários que sugerem a possibilidade de jogar o detido de um local alto. A gravação inclui a frase: “Ele vai virar avião, vai voar”. O material aponta ainda outras ameaças explícitas de execução. . Em determinado momento, ao abordar a vítima imobilizada no solo, um dos policiais orienta os colegas a levarem o homem para uma área isolada dizendo: "Bota no beco (...), vamo matar essa porra" Segundo o documento, houve um intervalo de aproximadamente 17 minutos sem registros do homem. O objeto apontado como fuzil só aparece depois desse período, e nenhuma das gravações analisadas mostra o momento em que a arma teria sido encontrada. A identidade da vítima ainda não havia sido confirmada pelos responsáveis pelo relatório. Denúncia de agressão a mototaxistas e moradores O documento descreve uma sequência de abordagens realizadas por policiais do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidão (RECOM), responsáveis pelo cerco ao Complexo do Alemão. As câmeras de quatro agentes da mesma equipe registraram agressões contra mototaxistas, que receberam tapas e chutes. Em outro episódio, um motociclista foi sufocado com uma peça de roupa. O relatório também registra disparos de gás lacrimogêneo contra mulheres e crianças em um supermercado onde havia notícias de um saque. As câmeras registram funcionários do estabelecimento passando mal após o uso do gás e policiais rindo da situação. Mulher é atingida por arma de taser em megaoperação no Alemão Reprodução Em outro episódio, mulheres que desciam de um ônibus foram atingidas por armas de eletrochoque. Pelo menos sete delas foram detidas. As imagens mostram uma das mulheres recebendo eletrochoque já rendida, após pedir calma para um policial. Os registros incluem ainda o caso de um idoso que filmava uma abordagem com o celular e foi obrigado pelos policiais a apagar o vídeo. Segundo o relatório, as imagens mostravam que PMs revistavam e agrediam um mototaxista quando um idoso de carro se aproxima filmando a cena. "Tu para de sacanagem com a polícia, hein? (...) Te acho onde eu quiser. Apaga essa porra! Vai embora!". De acordo com o relatório, os policiais acusavam pessoas abordadas de ajudar o tráfico de drogas a bloquear vias. O material indica, entretanto, que algumas pessoas eram agredidas mesmo sendo liberadas, ou quando não eram encontradas em celulares indicação de ligação com o tráfico. Uma mulher que se apresenta como trabalhadora da saúde é atingida, segundo as imagens e o áudio, por arma de eletrochoque. Sob gritos e xingamentos, ela admite ter respondido a mensagens sobre o policiamento e recebe um jato de gás no rosto antes de ser liberada. "Olha pra frente, hein. Olha pra frente, sua filha da puta! Informante de vagabundo. (...) Ela falou que tava dando informação pros caras. Arrebentar ela, deixar ela moída. [Incompreensível] essa porra dessa câmera aqui. Dá vontade de arrebentar ela, quebrar a perna dela, essa filha da p*). (...) Vadia, vagabunda aí, ó. (...) Falar mais baixo aqui... vadia, vagabunda... mas dá um caldo", diz um dos policiais envolvidos na abordagem. Câmeras foram obstruídas ou deixaram de gravar Além dos episódios de violência, o relatório aponta problemas no uso e na disponibilização das câmeras corporais durante a operação. Os pesquisadores receberam 10.202 arquivos de vídeo, mas nenhum deles registrou o momento das mortes. Por isso, o documento não apresenta conclusões sobre a dinâmica dos óbitos nem sobre a atuação individual dos policiais envolvidos. A ausência de imagens, segundo os autores, não permite concluir que os registros nunca tenham sido produzidos. O relatório ressalta que essa limitação precisa ser esclarecida. Também não foram localizadas gravações de 69 policiais militares. Outros 50 vídeos foram entregues sem o código hash, mecanismo utilizado para verificar a integridade dos arquivos. Nos episódios de violência descritos no relatório, os pesquisadores identificaram situações em que as câmeras foram retiradas dos uniformes, mantidas em posições que impediam a visualização das ações ou tiveram as gravações interrompidas. Policial empunha ripa de madeira em ação no Alemão Reprodução Em uma das abordagens no Alemão, um policial obstruiu e desligou a câmera depois de empunhar uma ripa de madeira em um supermercado. Mais tarde, voltou a obstruí-la durante a detenção de um homem. O documento também aponta falhas na localização e na velocidade exibidas pelos equipamentos, dificultando a reconstrução dos trajetos dos policiais e a associação das imagens aos locais das ocorrências. BOPE concentrou disparos e teve poucas imagens disponíveis O relatório também relaciona o uso das câmeras ao consumo de munição pelas forças de segurança. Entre as unidades especializadas da Polícia Militar cujos dados foram informados, foram contabilizadas 13.851 munições. Desse total, 11.995 — o equivalente a 86,6% — foram disparadas pelo Batalhão de Operações Especiais (BOPE). Entre os 50 policiais do BOPE que mais dispararam, cada um com consumo entre 100 e 300 munições, apenas oito portavam câmeras. As gravações de somente dois deles foram disponibilizadas, e ambas terminam antes da chegada aos complexos da Penha e do Alemão. No conjunto da Polícia Militar, dos 1.802 agentes empregados na operação, apenas 595 portavam câmeras, segundo o relatório. Na Polícia Civil, os pesquisadores não receberam nenhuma gravação dos agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), apesar de 128 policiais da unidade estarem sujeitos à obrigatoriedade do uso dos equipamentos. Desse grupo, somente 61 utilizaram câmeras, de acordo com o documento. Os autores afirmam que as falhas no registro audiovisual dificultam a fiscalização da atuação policial e a reconstrução dos acontecimentos.O relatório não estabelece conclusões sobre a responsabilidade individual pelas mortes ocorridas durante a Operação Contenção. O documento reúne indícios de violência e problemas na produção e na disponibilização de provas audiovisuais que, segundo os autores, precisam ser esclarecidos pelas autoridades responsáveis. Todo este material foi enviado nesta segunda (26) ao Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Gaesp/MPRJ), às promotorias junto à Auditoria da Justiça Militar, às corregedorias das polícias Civil e Militar, além da Secretaria de Segurança Pública e ao gabinete do ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva. Polícia Federal analisou imagens da Core Câmeras corporais (bodycams) usadas por policiais militares SDS/Divulgação A Polícia Federal (PF) concluiu, quase um ano depois, a análise das imagens das câmeras corporais utilizadas por agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil, durante a Operação Contenção, que deixou 122 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio, em outubro de 2025. Já as gravações das câmeras dos policiais militares foram devolvidas para que fossem indicados os trechos de interesse para a perícia. Um ano da megaoperação: esta reportagem faz parte de uma série do g1 sobre os desdobramentos da ação realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, com122 mortos. A informação consta em documentos encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em outubro deste ano, o ministro Alexandre de Moraes determinou o envio de 118 laudos produzidos pela PF sobre a operação à Procuradoria-Geral da República (PGR). O material inclui exames de imagens das câmeras da Core, fotografias e laudos cadavéricos. O relatório enviado não forneceu informações sobre as investigações ou possíveis irregularidades cometidas durante a operação. A Polícia Federal informou que não comenta investigações em andamento. ✅ Siga o canal de notícias do g1 Rio no WhatsApp Em relação à análise das imagens da Polícia Militar, segundo o relatório, não houve avanço. De acordo com o documento, a dificuldade com os vídeos da PM está relacionada ao volume de gravações. Segundo informações encaminhadas pela PF ao STF, em abril, a corporação recebeu 9.025 arquivos de vídeo, captados por 504 câmeras corporais da PM, que somam cerca de 4,5 mil horas de gravação. A PF estimou que seriam necessários cerca de 3 anos para analisar todo o conteúdo com uma equipe de dez peritos. Sendo assim, a PF pediu que os trechos de interesse fossem identificados de forma objetiva e precisa para facilitar a perícia. O material também deveria ser enviado em mídia física, no formato original, para que a integridade dos arquivos pudesse ser verificada. Mas, segundo o relatório, o material não foi fornecido. O g1 questionou a Polícia Militar no dia 20 de outubro para esclarecer o motivo pelo qual a corporação não sinalizou as imagens. No dia seguinte, a equipe de reportagem direcionou os mesmos questionamentos para o governo do Rio. Até a última atualização desta reportagem, não havia retorno. Laudos foram enviados à PGR Em 8 de outubro, Moraes determinou o envio à PGR de 118 laudos da Polícia Federal relacionados à Operação Contenção. Desse total, 12 foram elaborados a partir de vídeos das câmeras corporais da Core. Outros 106 tiveram como base fotografias e laudos cadavéricos fornecidos pela Polícia Civil. A PF também enviou uma análise complementar dos vídeos da Core. Segundo os documentos, a corporação informou ter concluído o trabalho referente às imagens dessa unidade. As gravações dos policiais militares, por outro lado, foram devolvidas para que fossem indicados os trechos relevantes para os exames periciais. Veja reportagem de quando o ministro Alexandre de Moraes pediu que as imagens fossem preservadas: Ministro Alexandre, do STF, determina que governo do Rio preserve imagens das câmeras de policiais durante operação na Penha O envio dos laudos à PGR, portanto, não representa a conclusão da perícia de todas as imagens captadas durante a operação. Operação deixou 122 mortos A Operação Contenção foi realizada em outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha, com a participação das polícias Civil e Militar. A ação tinha como objetivo combater a expansão territorial do Comando Vermelho (CV) e cumprir mandados de prisão. A operação terminou com 122 mortos, incluindo cinco policiais, e se tornou a mais letal da história do país. O caso é acompanhado pelo STF no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que reúne determinações sobre a atuação policial no Rio de Janeiro. Além das análises da PF, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) conduz uma investigação própria sobre as mortes e as circunstâncias da operação. O órgão já ouviu familiares de vítimas para reunir informações sobre a dinâmica da ação e identificar possíveis irregularidades. O Ministério Público Federal (MPF) também solicitou informações ao governo estadual e à União para verificar se houve uso de recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública na megaoperação e se os recursos foram utilizados conforme as finalidades previstas em lei, incluindo medidas de redução da letalidade policial.