Elas também cantam: estudo derruba mito centenário sobre mais de 100 espécies de sapos

Escrito em 01/02/2026


Foto de uma fêmea de Crossodactylus schmidti. As fêmeas desta espécie apresentam cantos de cortejo. Vinícius M. Caldart A origem grega da palavra "anuro" significa "sem cauda". É nesta ordem de animais que estão os sapos, rãs e pererecas. Bichos que têm na vocalização uma ferramenta crucial para a sobrevivência da espécie. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp Historicamente, o canto desses anfíbios sempre foi objeto de estudo da ciência, mas com um foco predominante nos machos. Agora, uma nova perspectiva ganha força: pesquisadores têm se dedicado a entender a vocalização das fêmeas. Erika Santana, pós-doutora pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), faz parte da equipe que liderou essa investigação. "Anuros vocalizam ao interagir com outros indivíduos. O canto que ouvimos quando estamos perto de um rio ou uma poça cheia de sapinhos não é apenas bastante evidente para nós, como também é crucial para a ecologia e reprodução dos anuros, já que em geral o que ouvimos são machos tentando atrair uma parceira para acasalar. Cada espécie de anuro tem um tipo de canto masculino específico da espécie", pontua Erika. Mudança de foco Durante muito tempo, os cientistas focaram nos machos para identificar espécies, compreender a evolução ou investigar como os sons atraem parceiras e afastam competidores. Sabe-se, inclusive, de predadores que usam esse som para localizar e caçar os anuros. Veja o que é destaque no g1: Veja os vídeos que estão em alta no g1 Porém, apesar do vasto conhecimento sobre eles, pouco se sabia sobre o som emitido por elas. As revisões bibliográficas existentes até 2024 traziam informações pontuais, mas nenhum trabalho havia realizado um levantamento completo sobre quais espécies possuem fêmeas cantoras ou padronizado esses tipos de sons. "Nosso objetivo foi investigar tudo que se sabia sobre cantos de fêmeas, listar as espécies em que fêmeas cantam e propor uma nomenclatura padronizada, tudo isso visando incentivar e facilitar o estudo de fêmeas e suas estratégias por cientistas no futuro", explica a pesquisadora. Trabalho de detetive Erika Santana , pós-doutora pelo Instituto de Biociência da USP Erika Santana O estudo é fruto de uma parceria entre três mulheres latinas: a brasileira Erika Santana e as colombianas Angela Mendoza-Henao (membro da Red Ecoacústica Colombiana e Wildlife Team Leader na Osa Conservation, da Costa Rica) e Johana Goyes Vallejos (professora na University of Missouri, nos EUA). A conexão entre elas foi sugerida pela Dra. Ximena Bernal, outra pesquisadora colombiana e professora sênior da Purdue University (EUA), que fez a ponte entre as cientistas. Elas analisaram informações nos repositórios de artigos Web of Science e Google Scholar, tendo acesso a quase 3 mil estudos científicos. As informações sobre cantos de fêmeas muitas vezes estavam escondidas em poucas frases ao longo dos textos, exigindo um verdadeiro trabalho de detetive. Veja mais notícias do Terra da Gente: ALERTA: Escorpião de clima quente é identificado pela primeira vez no Sul do Brasil VÍDEO: Onça-pintada é flagrada afiando garras a 2 metros de altura na Amazônia MUDANÇAS: Amazônia tem áreas 3ºC mais quentes e com 25% menos chuva, aponta estudo O resultado surpreendeu: os levantamentos mostraram que pelo menos 112 espécies de anuros têm fêmeas que vocalizam. "Os cantos das fêmeas em geral possuem o volume mais baixo pois possuem menor amplitude sonora quando comparados aos cantos dos machos. É o que os poucos estudos que analisaram os parâmetros acústicos dos cantos das fêmeas mostraram. Um outro ponto é que os cantos mais frequentemente exibidos por machos não são os mesmos que os cantos mais frequentemente exibidos pelas fêmeas. Por exemplo, os machos da maior parte das espécies de anuros emitem canto de anúncio, que é um canto chamativo devido a sua função de atrair parceiras sexuais e afastar rivais", complementa Erika. Tipos de canto Uma fêmea de Limnonectes palavanensis. Espécie de Bornéu. As fêmeas desta espécie apresentam cantos de anúncio. Johana Goyes Vallejos No caso das fêmeas, os sons mais comuns identificados foram: Canto agonístico: emitido em resposta a uma ameaça, como um predador; Canto de cortejo: emitido durante uma interação próxima com um potencial parceiro sexual. Esses dois tipos tendem a ser mais discretos. Porém, há exceções: fêmeas de pelo menos três espécies exibem cantos de anúncio idênticos aos dos machos. Isso reforça o alerta para que pesquisadores sempre chequem o sexo do indivíduo que está cantando antes de pressupor que se trata de um macho. As pesquisadoras propuseram simplificar os estilos de cantos das fêmeas em seis categorias (anúncio, corte, amplexo, soltura, agonia e agressivo). "Nossa proposta foi tentar reduzir essas redundâncias, simplificando os tipos de cantos em seis categorias, definidas de acordo com os tipos de contexto social no qual os cantos foram emitidos. Acreditamos que estas seis categorias sejam suficientes para definir os tipos de cantos emitidos tanto por macho quanto por fêmeas", conta Erika. Quebrando mitos O primeiro registro de canto de uma fêmea de anuro data de 1906, mas o tema ficou estagnado por 50 anos. A escassez de estudos se deve a dois fatores principais: a dificuldade técnica em registrar esses sons e o viés científico voltado para os machos. A máxima de que “se está cantando, é macho” ainda é forte na pesquisa. Além disso, acreditava-se que os machos eram os únicos ativos nas interações sexuais, enquanto as fêmeas apenas escolhiam o parceiro. "No nosso trabalho, o canto de cortejo foi o segundo tipo de canto mais comum exibido por fêmeas, demonstrando que talvez as fêmeas tenham um papel mais ativo na interação com os machos do que se pensava. Esperamos que nosso trabalho contribua para uma mudança em tais mentalidades e desperte o interesse para um olhar mais atento no que as fêmeas estão fazendo", revela a bióloga. Um sapo da espécie Rhinella alata camilojotage/ iNaturalist Por que isso importa? Do ponto de vista biológico, estudar a vocalização feminina revela que a comunicação entre os anuros é um sistema integrado. Vocalizar tem custos: gasta energia e pode atrair predadores. Entender por que as fêmeas correm esse risco ajuda a responder perguntas fundamentais sobre a evolução dessas espécies. "Estudar ecologia comportamental tem se tornado cada vez mais importante, pois ainda compreendemos pouco como as mudanças ambientais causadas pela nossa espécie afetam os comportamentos dos indivíduos. Este é este tipo de pesquisa que venho desenvolvendo desde o meu doutorado", conclui Erika. No futuro, esse tipo de estudo poderá apontar como fatores ambientais — como o barulho causado pelos humanos ou as mudanças climáticas — afetam a comunicação essencial para a reprodução desses animais. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente