O Theatro Pedro II, considerado o terceiro maior teatro de ópera do Brasil em capacidade de público, completa 96 anos nesta quinta-feira (8). Localizado no chamado "Quarteirão Paulista", no Centro de Ribeirão Preto (SP), o edifício não é apenas um cartão-postal, mas um elemento de identidade histórica e cultural da cidade. Construído no auge da cafeicultura brasileira e da expansão da indústria cervejeira local, o Pedro II acompanhou as transformações da região ao longo de quase um século acolhendo óperas e manifestações populares. Faça parte do canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp "É um sentimento de grandiosidade, de autoestima para Ribeirão Preto, enorme, porque esse teatro e o Quarteirão Paulista são um marco importante, como patrimônio histórico, como memória, como história da cidade, como vestígio de uma história que começa com o café", afirma a historiadora Tânia Registro. Bom Dia SP - Ribeirão Preto - Theatro Pedro II Reprodução/TV Globo Veja abaixo dez curiosidades que você precisa saber sobre o Theatro Pedro II: Cemitério e hotel no marco zero Muito antes de chamar atenção por sua imponência, o terreno onde hoje está o Theatro Pedro II tinha uma função bem diferente. Localizado no Largo da Matriz, próximo ao marco zero de Ribeirão Preto, o local já abrigou um cemitério no início da formação da cidade. Depois, o espaço deu lugar ao Hotel Central, que hospedava negociantes de café e artistas de passagem pela região. Na época, os espetáculos eram encenados no antigo Teatro Carlos Gomes. Foi no final da década de 1920 que os edifícios antigos foram adquiridos para dar lugar ao novo complexo. "Aqui era um cemitério muito próximo. Então, a partir desse marco zero foi desenvolvido todo o espaço urbano de Ribeirão Preto", explica a historiadora. Foto antiga da praça em frente ao local onde hoje está o Theatro Pedro II em Ribeirão Preto (SP). Reprodução/EPTV Construído por empresários da cerveja A criação do Pedro II teve como pano de fundo uma mudança da atividade econômica de Ribeirão Preto. Enquanto casas de espetáculos anteriores surgiram a partir da união de barões e fazendeiros do café, o Pedro II nasceu da iniciativa do setor industrial. O projeto foi idealizado e financiado pela Companhia Cervejaria Paulista, presidida por João Alves Meira Júnior. A empresa adquiriu imóveis no entorno para construir um conjunto monumental que reunia o teatro, o Palace Hotel e o Edifício Meira Júnior. "Se o Teatro Carlos Gomes foi construído com o capital de fazendeiros, aqui foi construído tendo à frente empresários. São outros atores sociais que estão fazendo a história de Ribeirão Preto", destaca Tânia Registro. Vista aérea do Quarteirão Paulista de Ribeirão Preto (SP). Reprodução/EPTV Inauguração com filme dos EUA Embora tenha sido projetado para acolher companhias líricas e grandes montagens de ópera, o Theatro Pedro II abriu suas portas, em 8 de outubro de 1930, exibindo uma produção cinematográfica. A noite de estreia contou com a projeção da comédia musical norte-americana "Alvorada do Amor" (1929). Naquele período, o cinema despontava como uma das atividades culturais mais prestigiadas. "Ele foi inaugurado como cinema porque na época o cinema era uma coisa muito importante também, além de ser um lugar de espetáculos de dança, música e teatro", explica Tânia. A adaptação para o cinema e os camarotes 'escondidos' Entre as décadas de 1970 e 1980, o espaço passou por um período de desvalorização cultural e foi adaptado para funcionar exclusivamente como sala de cinema. Para atender a essa finalidade comercial, a arquitetura original do teatro foi descaracterizada. Toda a estrutura dos camarotes e frisas foi coberta com madeira e tecido. A intervenção ocultou os detalhes artísticos que definiam a identidade de teatro de ópera. "Toda essa parte que o caracteriza como teatro é escondida, é tapada. Acho que é o reflexo de um momento histórico que a sociedade passava e que talvez não valorizasse tanto a cultura", analisa a historiadora. A 'Caverna do Diabo' no subsolo Antes de abrigar o atual Auditório Meira Júnior, o subsolo do Theatro Pedro II era um amplo vão livre que marcou a vida noturna de Ribeirão Preto entre as décadas de 1950 e 1970. O local ficou popularmente conhecido como "Caverna do Diabo". O espaço virou ponto oficial dos bailes de carnaval da cidade. "A grande maioria das pessoas tinha acesso e não vinha à sala de espetáculos principal, mas vinha para o carnaval na Caverna do Diabo. (...) Talvez um apelido um pouco pejorativo para indicar que aqui eram os carnavais, talvez os melhores", diz a historiadora. LEIA TAMBÉM Pedro II: saiba como um dos maiores teatros do país foi reconstruído após incêndio nos anos 1980 Quem foi o arquiteto que projetou o símbolo de Ribeirão Preto e acabou processado O trágico incêndio e o rastro de destruição Estrutura do Theatro Pedro II é destruída após incêndio em 1980, em Ribeirão Preto, SP Reprodução/Acervo EP A história do Pedro II foi marcada por um momento dramático em 15 de julho de 1980. Durante a exibição de uma sessão de cinema, um curto-circuito provocou um grande incêndio que atingiu o teto e a estrutura do prédio. As chamas consumiram o palco, o assoalho de madeira, o mobiliário e toda a cobertura da sala principal. As paredes externas de alvenaria foram as únicas partes do edifício que resistiram ao fogo. "As fotos que a gente vê da época são avassaladoras, queimou muito, muito. A alvenaria e o tijolo não, mas a pintura, todo o mobiliário e o piso de madeira foram destruídos pelo incêndio", detalha Tânia. Mobilização social e negociação histórica Após o incêndio, o prédio permaneceu fechado e sob risco de destruição ou venda. Diante do cenário, a população de Ribeirão Preto e a classe artística se mobilizaram em defesa da preservação do patrimônio. O engajamento social levou ao tombamento do imóvel em 1982 e resultou em uma negociação histórica entre o poder público local e a Cervejaria Antarctica. A prefeitura adquiriu o complexo para dar início ao projeto de restauração. "A partir do fogo a sociedade se mobiliza. Há uma comoção social e um movimento em conjunto entre movimentos sociais, grupos organizados e grupos políticos para poder fazer renascer o teatro", pontua a historiadora. Visitas de estudantes durante o restauro Theatro Pedro II passa por reformas no começo da década de 1990, em Ribeirão Preto, SP Reprodução/Acervo EP O processo de reconstrução do Pedro II, iniciado na década de 1990, foi muito além da restauração do prédio. Além da recuperação dos elementos originais, a revitalização trouxe modernizações como a instalação de elevadores e adaptações de acessibilidade. A cúpula da plateia, assinada pela artista Tomie Ohtake [1913 - 2015], foi reconstruída com duas estruturas de gesso com recortes que deixam passar a luz das lâmpadas e criam um efeito escultural, além do lustre de cristal de mais de uma tonelada conhecido como "Gota D'Água." Durante os trabalhos, o canteiro de obras permaneceu aberto a visitas da comunidade e de alunos da rede escolar. "As escolas podiam visitar o processo de restauração. As pessoas podiam acompanhar o passo a passo da restauração", recorda Tânia. Sala dos Espelhos: lugar para ver e ser visto Completamente restaurada após o incêndio em 1980, a Sala dos Espelhos é um dos pontos altos do Theatro Pedro II em Ribeirão Preto, SP Acervo EP Outro destaque do Pedro II é a Sala dos Espelhos, desenhada nos moldes dos clássicos teatros de ópera. O salão funcionava como ponto de encontro nos intervalos das apresentações e proporcionava uma experiência em que os espectadores se tornavam parte do espetáculo, sob o olhar de quem acompanhava dos camarotes superiores. "A configuração de teatro de ópera tem esse elemento, um lugar onde nos intervalos dos espetáculos as pessoas vinham para serem vistas, para conversarem e trocarem ideia." O lustre original 'sobrevivente' Os três grandes lustres da Sala dos Espelhos despencaram durante o incêndio de 1980, mas um deles sofreu danos menores e se manteve preservado. A partir desse exemplar "sobrevivente", os restauradores conseguiram reconstituir fielmente os outros dois que completam a iluminação e a decoração do salão. Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto (SP). Reprodução/EPTV Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região
Pedro II, 96 anos: 10 coisas que você precisa saber sobre o 3º maior teatro de ópera do país
Escrito em 08/10/2026
O Theatro Pedro II, considerado o terceiro maior teatro de ópera do Brasil em capacidade de público, completa 96 anos nesta quinta-feira (8). Localizado no chamado "Quarteirão Paulista", no Centro de Ribeirão Preto (SP), o edifício não é apenas um cartão-postal, mas um elemento de identidade histórica e cultural da cidade. Construído no auge da cafeicultura brasileira e da expansão da indústria cervejeira local, o Pedro II acompanhou as transformações da região ao longo de quase um século acolhendo óperas e manifestações populares. Faça parte do canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp "É um sentimento de grandiosidade, de autoestima para Ribeirão Preto, enorme, porque esse teatro e o Quarteirão Paulista são um marco importante, como patrimônio histórico, como memória, como história da cidade, como vestígio de uma história que começa com o café", afirma a historiadora Tânia Registro. Bom Dia SP - Ribeirão Preto - Theatro Pedro II Reprodução/TV Globo Veja abaixo dez curiosidades que você precisa saber sobre o Theatro Pedro II: Cemitério e hotel no marco zero Muito antes de chamar atenção por sua imponência, o terreno onde hoje está o Theatro Pedro II tinha uma função bem diferente. Localizado no Largo da Matriz, próximo ao marco zero de Ribeirão Preto, o local já abrigou um cemitério no início da formação da cidade. Depois, o espaço deu lugar ao Hotel Central, que hospedava negociantes de café e artistas de passagem pela região. Na época, os espetáculos eram encenados no antigo Teatro Carlos Gomes. Foi no final da década de 1920 que os edifícios antigos foram adquiridos para dar lugar ao novo complexo. "Aqui era um cemitério muito próximo. Então, a partir desse marco zero foi desenvolvido todo o espaço urbano de Ribeirão Preto", explica a historiadora. Foto antiga da praça em frente ao local onde hoje está o Theatro Pedro II em Ribeirão Preto (SP). Reprodução/EPTV Construído por empresários da cerveja A criação do Pedro II teve como pano de fundo uma mudança da atividade econômica de Ribeirão Preto. Enquanto casas de espetáculos anteriores surgiram a partir da união de barões e fazendeiros do café, o Pedro II nasceu da iniciativa do setor industrial. O projeto foi idealizado e financiado pela Companhia Cervejaria Paulista, presidida por João Alves Meira Júnior. A empresa adquiriu imóveis no entorno para construir um conjunto monumental que reunia o teatro, o Palace Hotel e o Edifício Meira Júnior. "Se o Teatro Carlos Gomes foi construído com o capital de fazendeiros, aqui foi construído tendo à frente empresários. São outros atores sociais que estão fazendo a história de Ribeirão Preto", destaca Tânia Registro. Vista aérea do Quarteirão Paulista de Ribeirão Preto (SP). Reprodução/EPTV Inauguração com filme dos EUA Embora tenha sido projetado para acolher companhias líricas e grandes montagens de ópera, o Theatro Pedro II abriu suas portas, em 8 de outubro de 1930, exibindo uma produção cinematográfica. A noite de estreia contou com a projeção da comédia musical norte-americana "Alvorada do Amor" (1929). Naquele período, o cinema despontava como uma das atividades culturais mais prestigiadas. "Ele foi inaugurado como cinema porque na época o cinema era uma coisa muito importante também, além de ser um lugar de espetáculos de dança, música e teatro", explica Tânia. A adaptação para o cinema e os camarotes 'escondidos' Entre as décadas de 1970 e 1980, o espaço passou por um período de desvalorização cultural e foi adaptado para funcionar exclusivamente como sala de cinema. Para atender a essa finalidade comercial, a arquitetura original do teatro foi descaracterizada. Toda a estrutura dos camarotes e frisas foi coberta com madeira e tecido. A intervenção ocultou os detalhes artísticos que definiam a identidade de teatro de ópera. "Toda essa parte que o caracteriza como teatro é escondida, é tapada. Acho que é o reflexo de um momento histórico que a sociedade passava e que talvez não valorizasse tanto a cultura", analisa a historiadora. A 'Caverna do Diabo' no subsolo Antes de abrigar o atual Auditório Meira Júnior, o subsolo do Theatro Pedro II era um amplo vão livre que marcou a vida noturna de Ribeirão Preto entre as décadas de 1950 e 1970. O local ficou popularmente conhecido como "Caverna do Diabo". O espaço virou ponto oficial dos bailes de carnaval da cidade. "A grande maioria das pessoas tinha acesso e não vinha à sala de espetáculos principal, mas vinha para o carnaval na Caverna do Diabo. (...) Talvez um apelido um pouco pejorativo para indicar que aqui eram os carnavais, talvez os melhores", diz a historiadora. LEIA TAMBÉM Pedro II: saiba como um dos maiores teatros do país foi reconstruído após incêndio nos anos 1980 Quem foi o arquiteto que projetou o símbolo de Ribeirão Preto e acabou processado O trágico incêndio e o rastro de destruição Estrutura do Theatro Pedro II é destruída após incêndio em 1980, em Ribeirão Preto, SP Reprodução/Acervo EP A história do Pedro II foi marcada por um momento dramático em 15 de julho de 1980. Durante a exibição de uma sessão de cinema, um curto-circuito provocou um grande incêndio que atingiu o teto e a estrutura do prédio. As chamas consumiram o palco, o assoalho de madeira, o mobiliário e toda a cobertura da sala principal. As paredes externas de alvenaria foram as únicas partes do edifício que resistiram ao fogo. "As fotos que a gente vê da época são avassaladoras, queimou muito, muito. A alvenaria e o tijolo não, mas a pintura, todo o mobiliário e o piso de madeira foram destruídos pelo incêndio", detalha Tânia. Mobilização social e negociação histórica Após o incêndio, o prédio permaneceu fechado e sob risco de destruição ou venda. Diante do cenário, a população de Ribeirão Preto e a classe artística se mobilizaram em defesa da preservação do patrimônio. O engajamento social levou ao tombamento do imóvel em 1982 e resultou em uma negociação histórica entre o poder público local e a Cervejaria Antarctica. A prefeitura adquiriu o complexo para dar início ao projeto de restauração. "A partir do fogo a sociedade se mobiliza. Há uma comoção social e um movimento em conjunto entre movimentos sociais, grupos organizados e grupos políticos para poder fazer renascer o teatro", pontua a historiadora. Visitas de estudantes durante o restauro Theatro Pedro II passa por reformas no começo da década de 1990, em Ribeirão Preto, SP Reprodução/Acervo EP O processo de reconstrução do Pedro II, iniciado na década de 1990, foi muito além da restauração do prédio. Além da recuperação dos elementos originais, a revitalização trouxe modernizações como a instalação de elevadores e adaptações de acessibilidade. A cúpula da plateia, assinada pela artista Tomie Ohtake [1913 - 2015], foi reconstruída com duas estruturas de gesso com recortes que deixam passar a luz das lâmpadas e criam um efeito escultural, além do lustre de cristal de mais de uma tonelada conhecido como "Gota D'Água." Durante os trabalhos, o canteiro de obras permaneceu aberto a visitas da comunidade e de alunos da rede escolar. "As escolas podiam visitar o processo de restauração. As pessoas podiam acompanhar o passo a passo da restauração", recorda Tânia. Sala dos Espelhos: lugar para ver e ser visto Completamente restaurada após o incêndio em 1980, a Sala dos Espelhos é um dos pontos altos do Theatro Pedro II em Ribeirão Preto, SP Acervo EP Outro destaque do Pedro II é a Sala dos Espelhos, desenhada nos moldes dos clássicos teatros de ópera. O salão funcionava como ponto de encontro nos intervalos das apresentações e proporcionava uma experiência em que os espectadores se tornavam parte do espetáculo, sob o olhar de quem acompanhava dos camarotes superiores. "A configuração de teatro de ópera tem esse elemento, um lugar onde nos intervalos dos espetáculos as pessoas vinham para serem vistas, para conversarem e trocarem ideia." O lustre original 'sobrevivente' Os três grandes lustres da Sala dos Espelhos despencaram durante o incêndio de 1980, mas um deles sofreu danos menores e se manteve preservado. A partir desse exemplar "sobrevivente", os restauradores conseguiram reconstituir fielmente os outros dois que completam a iluminação e a decoração do salão. Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto (SP). Reprodução/EPTV Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região

