O que acontece quando pessoas de diferentes gerações criam juntas

Escrito em 23/08/2026


Na coluna do dia 16, escrevi sobre Arielle Galinsky, criadora de um projeto que une idosos e estudantes, aproximando-os por meio da narração de histórias. Volto ao inesgotável tema da intergeracionalidade, hoje com uma abordagem científica. Quando pessoas de diferentes gerações criam arte juntas, seus cérebros mostram mais sincronia, e essa manifestação pode prever sentimentos de conexão social, de acordo com um estudo publicado no periódico de acesso aberto PLOS Biology. Como a solidão é um risco crescente à saúde, pesquisadores e gestores de políticas públicas estão trabalhando em métodos para criar interações sociais significativas que aproximem os indivíduos, especialmente de diferentes gerações. Contudo, embora tais interações possam aumentar o bem-estar em idosos, as alterações fisiológicas decorrentes delas ainda são desconhecidas. Enquanto uma dupla intergeracional desenha junta, sua atividade cerebral é registrada por espectroscopia funcional de infravermelho próximo (toucas pretas e braçadeiras) e os movimentos corporais são rastreados por captura de movimento baseada em vídeo (sobreposições coloridas de esqueletos) Ryssa Moffat Para entender melhor as mudanças cerebrais decorrentes da formação de relações intergeracionais, os autores da pesquisa coletaram dados de 31 pares intergeracionais, recrutando idosos com mais de 70 anos que formaram duplas com adultos entre 18 e 35 anos. A experiência desses participantes foi comparada com a de 30 pares formados exclusivamente por adultos jovens. As duplas foram acompanhadas ao longo de seis sessões em um programa de desenho criativo, no qual os participantes desenhavam individualmente ou juntos, sem conversar. A cada sessão, os pesquisadores avaliaram a solidão dos participantes, suas atitudes em relação ao parceiro e o nível de proximidade entre eles. Também registraram a atividade cerebral das pessoas, utilizando espectroscopia funcional de infravermelho próximo, e calcularam a sincronia neural entre elas. Os autores constataram que a sincronia cerebral foi maior quando as duplas desenhavam juntas. Enquanto as duplas intergeracionais desenhavam sozinhas, a sincronia no córtex frontal inferior direito e na junção temporoparietal direita foi preditiva de solidão. No entanto, quando desenhavam juntas, a sincronia previu a proximidade social. Trocando em miúdos: quando o jovem e o idoso compartilhavam o desenho, seus cérebros precisavam antecipar movimentos, coordenar espaços e ajustar o traço ao do parceiro. Essa sintonia fez com que os cérebros “oscilassem na mesma frequência”, com uma sensação mútua de calor humano e proximidade social. Para os pesquisadores, a sincronia cerebral é dinâmica e se modifica à medida que conexões sociais são estabelecidas entre pessoas de todas as idades. A autora principal, Ryssa Moffat, afirmou: “A ideia deste projeto ganhou força quando li estatísticas sobre a crescente proporção de idosos globalmente e aprendi sobre os riscos da solidão e do isolamento social. Ficou claro que entender como os cérebros se adaptam uns aos outros à medida que os indivíduos constroem relações intergeracionais seria valioso para promover a conexão social.” O coautor Guillaume Dumas acrescentou: “O hyperscanning (técnica de neuroimagem que grava a atividade cerebral de duas ou mais pessoas durante uma interação social) tem sido utilizado para capturar momentos breves de interação. Aqui, mostramos que também pode rastrear a dinâmica da formação de relacionamentos ao longo do tempo, aproximando o campo científico da complexidade da vida social real.”