Jovem que nasceu sem os braços conquista CNH após aprender a dirigir com os pés em MG Reiner Jesus Martins, de 20 anos, conquistou há pouco mais de um mês a carteira de habilitação depois de encontrar em Pará de Minas (MG) um carro adaptado às necessidades dele. Morador de Lavras (MG), onde cursa agronomia, o jovem nasceu sem os dois braços e dirige usando os pés. Para obter a CNH, ele precisou passar por avaliação de uma junta médica do Detran, que definiu as condições necessárias para conduzir o veículo. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram As aulas práticas foram feitas com a adaptação indicada no laudo médico. Antes de começar, Reiner conta que tinha medo de não conseguir dirigir. A insegurança, no entanto, deu lugar à empolgação depois da primeira aula. "Na hora que eu comecei, que foi a primeira aula, eu já fiquei numa alegria imensa de estar nesse processo", conta. A habilitação é mais uma conquista no processo de construção da autonomia de Reiner, que começou ainda na infância e inclui estudar, morar sozinho e realizar as atividades do cotidiano de forma independente. ‘Eu achei que não ia conseguir’: jovem que nasceu sem os braços conquista CNH após aprender a dirigir com os pés em MG Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Processo da CNH O processo para obter a carteira começou ainda no ano passado. Por ser uma pessoa com deficiência, Reiner precisou passar por uma avaliação de uma junta médica do Detran, que definiu as condições e adaptações necessárias para que ele pudesse dirigir. Segundo ele, uma das dificuldades foi encontrar uma autoescola que tivesse um veículo compatível com as adaptações indicadas. Depois de procurar, encontrou a estrutura necessária em Pará de Minas. A primeira aula foi um momento de teste. Reiner precisava entender como executar os movimentos necessários para conduzir o veículo utilizando as adaptações. Depois das aulas práticas e da prova, a aprovação veio no dia 5 de agosto. "Logo depois que acabou o exame, que eu recebi o papelzinho escrito aprovado, eu até chorei de emoção", lembra. Reiner conseguiu encontrar veículo adaptado em Pará de Minas Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Apesar da conquista, Reiner acredita que o processo para que pessoas com deficiência consigam tirar a CNH ainda pode ser aprimorado. "Acho que poderia melhorar principalmente na acessibilidade, na informação e na preparação dos profissionais. Um processo mais simples, rápido, de fácil acesso, com mais preparo dos profissionais, facilitaria para que mais pessoas com deficiência tivessem essa oportunidade e conquistassem mais autonomia", afirma. A relação de Reiner com veículos adaptados começou ainda na infância. Um dos padrinhos construiu uma bicicleta especialmente para ele. O modelo não tinha um guidão convencional e permitia que o menino conduzisse utilizando o tronco. A bicicleta continua guardada pela família. Padrinho construiu bicicleta adaptada para Reiner Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Infância e construção da autonomia Natural de Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Reiner conta que a mãe descobriu durante a gravidez que ele nasceria sem os braços. Desde os primeiros meses de vida, ele passou por terapias e acompanhamentos para desenvolver habilidades e encontrar maneiras próprias de realizar as atividades do cotidiano. Ele foi atendido por instituições como a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) e APAEs de diferentes cidades. Também fez terapia ocupacional, equoterapia e hidroterapia. "A terapia é muito baseada na questão de te dar a forma para você encontrar a maneira de fazer as coisas", explica. Dentro de casa, a mãe estimulava a independência. Reiner aprendeu a escrever, comer, escovar os dentes e se vestir usando principalmente os pés. Em algumas situações, utiliza também a boca, o queixo e o tronco. "Hoje, para mim, meus pés são como as mãos", afirma. A família também buscava garantir que ele tivesse convivência com outras crianças, participasse das atividades escolares e desenvolvesse diferentes aspectos da vida. Mãe estimulou a independência do jovem desde a infância Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Lidando com o preconceito A autonomia também foi construída diante de situações de preconceito e de pessoas que não sabiam como reagir à deficiência. Reiner conta que, quando era criança, já foi chamado de "sem braço" por outras crianças. Em uma dessas situações, enquanto voltava da escola com a mãe, um menino perguntou, da janela de um ônibus, se ele era "sem braço". A orientação da mãe foi para que Reiner respondesse e tentasse conversar com o menino. "Eu falei assim: 'Olha, tudo bem, eu sou sem braço, sim, mas meu nome é Reiner. E o seu? Você quer ser meu amigo?'" Para ele, situações como essa ajudaram a aprender a lidar com olhares, perguntas e atitudes de pessoas que não estavam acostumadas a conviver com alguém com deficiência. Reiner conta que apoio da família foi essencial na forma de lidar com os desafios Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Reiner afirma que ainda enfrenta situações de capacitismo, quando as pessoas duvidam de sua capacidade de realizar determinadas atividades. "Eu provo para mim mesmo que eu consigo e, depois, eu vou e provo para as outras pessoas", conta. Ao mesmo tempo, ele reconhece que há momentos em que gostaria de ter os braços. "Tem hora que eu xingo, reclamo, porque eu queria ter os braços. Queria viver como uma pessoa comum com os braços também." Segundo ele, a forma encontrada para lidar com essa realidade foi valorizar o que consegue fazer e o apoio que recebeu da família. Jovem estuda agronomia O interesse pela agronomia começou ainda na infância, por influência do pai, que trabalha com produção de leite em uma propriedade rural da família em São Tiago, no Sul de Minas. Reiner acompanhava o trabalho do pai desde pequeno. Durante o ensino médio, decidiu fazer um curso técnico em agropecuária no campus de Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Depois do curso técnico, ingressou na Universidade Federal de Lavras (UFLA). Inicialmente, começou engenharia agrícola, mas decidiu mudar para agronomia. Atualmente, está no segundo período do curso. "Querendo ou não, um dia o meu pai vai faltar. (...) Eu como filho, não vou jogar o trabalho dele fora, todo o esforço que ele está tendo. É uma coisa que ele sempre gostou de fazer desde novinho e é isso que ele me ensina também", diz. Interesse na agronomia foi despertado por influência do pai Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Na universidade, Reiner afirma que precisa de poucas adaptações para acompanhar o curso. Uma das principais é o uso de cadeiras específicas que permitem que ele se posicione para escrever durante as aulas sem depender de um monitor. Nas atividades práticas em campo, porém, existem algumas limitações. Como determinadas tarefas exigem esforço físico e o uso de equipamentos de proteção, ele nem sempre consegue executá-las da mesma maneira que os colegas. Nesses casos, ele acompanha as atividades, observa os procedimentos, faz perguntas e busca compreender a parte prática para depois aplicar o conhecimento de outras formas. Reiner estuda agronomia na UFLA Redes sociais Rotina compartilhada nas redes sociais Reiner também passou a mostrar a rotina nas redes sociais. Ele criou um perfil no TikTok e começou a publicar vídeos mostrando como realiza atividades do cotidiano usando os pés. A ideia surgiu depois que amigos o incentivaram a mostrar essa rotina. Os vídeos já alcançaram milhões de pessoas e também renderam mensagens de quem afirma ter encontrado motivação na história dele. Para Reiner, mais importante do que ser reconhecido pela deficiência é ser reconhecido pelo que faz e pela vida que constrói. Ele defende que pessoas com deficiência não sejam tratadas como incapazes ou como alguém de quem é preciso ter pena. "Eu continuo sendo o Reiner de sempre, esse menino alto astral que tem as responsabilidades, que quer vencer na vida, estudar, trabalhar, viver uma vida normal", afirma. O jovem ainda afirma que a sociedade precisa estar mais preparada para conviver com as diferenças e compreender que pessoas com deficiência podem estudar, trabalhar, dirigir, praticar esportes, construir amizades e seguir os próprios caminhos. "Se está na vida, não é para ter pena, não. É para viver realmente, com muita alegria, muita disposição, coragem e vontade", concluiu. Reiner palestra para alunos em escolas Redes sociais Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas
‘Até chorei de emoção’: jovem que nasceu sem os braços conquista CNH após aprender a dirigir com os pés em MG
Escrito em 25/09/2026
Jovem que nasceu sem os braços conquista CNH após aprender a dirigir com os pés em MG Reiner Jesus Martins, de 20 anos, conquistou há pouco mais de um mês a carteira de habilitação depois de encontrar em Pará de Minas (MG) um carro adaptado às necessidades dele. Morador de Lavras (MG), onde cursa agronomia, o jovem nasceu sem os dois braços e dirige usando os pés. Para obter a CNH, ele precisou passar por avaliação de uma junta médica do Detran, que definiu as condições necessárias para conduzir o veículo. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram As aulas práticas foram feitas com a adaptação indicada no laudo médico. Antes de começar, Reiner conta que tinha medo de não conseguir dirigir. A insegurança, no entanto, deu lugar à empolgação depois da primeira aula. "Na hora que eu comecei, que foi a primeira aula, eu já fiquei numa alegria imensa de estar nesse processo", conta. A habilitação é mais uma conquista no processo de construção da autonomia de Reiner, que começou ainda na infância e inclui estudar, morar sozinho e realizar as atividades do cotidiano de forma independente. ‘Eu achei que não ia conseguir’: jovem que nasceu sem os braços conquista CNH após aprender a dirigir com os pés em MG Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Processo da CNH O processo para obter a carteira começou ainda no ano passado. Por ser uma pessoa com deficiência, Reiner precisou passar por uma avaliação de uma junta médica do Detran, que definiu as condições e adaptações necessárias para que ele pudesse dirigir. Segundo ele, uma das dificuldades foi encontrar uma autoescola que tivesse um veículo compatível com as adaptações indicadas. Depois de procurar, encontrou a estrutura necessária em Pará de Minas. A primeira aula foi um momento de teste. Reiner precisava entender como executar os movimentos necessários para conduzir o veículo utilizando as adaptações. Depois das aulas práticas e da prova, a aprovação veio no dia 5 de agosto. "Logo depois que acabou o exame, que eu recebi o papelzinho escrito aprovado, eu até chorei de emoção", lembra. Reiner conseguiu encontrar veículo adaptado em Pará de Minas Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Apesar da conquista, Reiner acredita que o processo para que pessoas com deficiência consigam tirar a CNH ainda pode ser aprimorado. "Acho que poderia melhorar principalmente na acessibilidade, na informação e na preparação dos profissionais. Um processo mais simples, rápido, de fácil acesso, com mais preparo dos profissionais, facilitaria para que mais pessoas com deficiência tivessem essa oportunidade e conquistassem mais autonomia", afirma. A relação de Reiner com veículos adaptados começou ainda na infância. Um dos padrinhos construiu uma bicicleta especialmente para ele. O modelo não tinha um guidão convencional e permitia que o menino conduzisse utilizando o tronco. A bicicleta continua guardada pela família. Padrinho construiu bicicleta adaptada para Reiner Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Infância e construção da autonomia Natural de Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Reiner conta que a mãe descobriu durante a gravidez que ele nasceria sem os braços. Desde os primeiros meses de vida, ele passou por terapias e acompanhamentos para desenvolver habilidades e encontrar maneiras próprias de realizar as atividades do cotidiano. Ele foi atendido por instituições como a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) e APAEs de diferentes cidades. Também fez terapia ocupacional, equoterapia e hidroterapia. "A terapia é muito baseada na questão de te dar a forma para você encontrar a maneira de fazer as coisas", explica. Dentro de casa, a mãe estimulava a independência. Reiner aprendeu a escrever, comer, escovar os dentes e se vestir usando principalmente os pés. Em algumas situações, utiliza também a boca, o queixo e o tronco. "Hoje, para mim, meus pés são como as mãos", afirma. A família também buscava garantir que ele tivesse convivência com outras crianças, participasse das atividades escolares e desenvolvesse diferentes aspectos da vida. Mãe estimulou a independência do jovem desde a infância Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Lidando com o preconceito A autonomia também foi construída diante de situações de preconceito e de pessoas que não sabiam como reagir à deficiência. Reiner conta que, quando era criança, já foi chamado de "sem braço" por outras crianças. Em uma dessas situações, enquanto voltava da escola com a mãe, um menino perguntou, da janela de um ônibus, se ele era "sem braço". A orientação da mãe foi para que Reiner respondesse e tentasse conversar com o menino. "Eu falei assim: 'Olha, tudo bem, eu sou sem braço, sim, mas meu nome é Reiner. E o seu? Você quer ser meu amigo?'" Para ele, situações como essa ajudaram a aprender a lidar com olhares, perguntas e atitudes de pessoas que não estavam acostumadas a conviver com alguém com deficiência. Reiner conta que apoio da família foi essencial na forma de lidar com os desafios Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Reiner afirma que ainda enfrenta situações de capacitismo, quando as pessoas duvidam de sua capacidade de realizar determinadas atividades. "Eu provo para mim mesmo que eu consigo e, depois, eu vou e provo para as outras pessoas", conta. Ao mesmo tempo, ele reconhece que há momentos em que gostaria de ter os braços. "Tem hora que eu xingo, reclamo, porque eu queria ter os braços. Queria viver como uma pessoa comum com os braços também." Segundo ele, a forma encontrada para lidar com essa realidade foi valorizar o que consegue fazer e o apoio que recebeu da família. Jovem estuda agronomia O interesse pela agronomia começou ainda na infância, por influência do pai, que trabalha com produção de leite em uma propriedade rural da família em São Tiago, no Sul de Minas. Reiner acompanhava o trabalho do pai desde pequeno. Durante o ensino médio, decidiu fazer um curso técnico em agropecuária no campus de Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Depois do curso técnico, ingressou na Universidade Federal de Lavras (UFLA). Inicialmente, começou engenharia agrícola, mas decidiu mudar para agronomia. Atualmente, está no segundo período do curso. "Querendo ou não, um dia o meu pai vai faltar. (...) Eu como filho, não vou jogar o trabalho dele fora, todo o esforço que ele está tendo. É uma coisa que ele sempre gostou de fazer desde novinho e é isso que ele me ensina também", diz. Interesse na agronomia foi despertado por influência do pai Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal Na universidade, Reiner afirma que precisa de poucas adaptações para acompanhar o curso. Uma das principais é o uso de cadeiras específicas que permitem que ele se posicione para escrever durante as aulas sem depender de um monitor. Nas atividades práticas em campo, porém, existem algumas limitações. Como determinadas tarefas exigem esforço físico e o uso de equipamentos de proteção, ele nem sempre consegue executá-las da mesma maneira que os colegas. Nesses casos, ele acompanha as atividades, observa os procedimentos, faz perguntas e busca compreender a parte prática para depois aplicar o conhecimento de outras formas. Reiner estuda agronomia na UFLA Redes sociais Rotina compartilhada nas redes sociais Reiner também passou a mostrar a rotina nas redes sociais. Ele criou um perfil no TikTok e começou a publicar vídeos mostrando como realiza atividades do cotidiano usando os pés. A ideia surgiu depois que amigos o incentivaram a mostrar essa rotina. Os vídeos já alcançaram milhões de pessoas e também renderam mensagens de quem afirma ter encontrado motivação na história dele. Para Reiner, mais importante do que ser reconhecido pela deficiência é ser reconhecido pelo que faz e pela vida que constrói. Ele defende que pessoas com deficiência não sejam tratadas como incapazes ou como alguém de quem é preciso ter pena. "Eu continuo sendo o Reiner de sempre, esse menino alto astral que tem as responsabilidades, que quer vencer na vida, estudar, trabalhar, viver uma vida normal", afirma. O jovem ainda afirma que a sociedade precisa estar mais preparada para conviver com as diferenças e compreender que pessoas com deficiência podem estudar, trabalhar, dirigir, praticar esportes, construir amizades e seguir os próprios caminhos. "Se está na vida, não é para ter pena, não. É para viver realmente, com muita alegria, muita disposição, coragem e vontade", concluiu. Reiner palestra para alunos em escolas Redes sociais Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas

