Irã diz que impediu navios americanos de entrar em Ormuz
Eles continuam lá, por toda parte. Nas ruas, nas estradas e na televisão. Os rostos de líderes assassinados e dos novos governantes dominam o espaço público. Protestos vieram e se foram. Houve uma guerra, seguida de um cessar-fogo.
Ainda assim, o regime da República Islâmica do Irã permaneceu.
Na verdade, segundo os iranianos ouvidos pela BBC News dentro do país, o regime não apenas resistiu como se consolidou. E age em clima de vingança.
Sana e Diako — nomes fictícios — formam um jovem casal que vive em Teerã, capital do Irã. São de classe média, instruídos e defendem o fim de um regime religioso autoritário.
Para contar a história deles, a reportagem omite detalhes que poderiam revelar quem são e como vivem. Isso porque essas informações podem ser usadas pelo regime para rastrear quem ousa falar abertamente com a imprensa estrangeira.
Um jornalista que auxilia a BBC News no Irã encontrou Sana e Diako perto de um parque onde famílias passeavam com seus filhos, aproveitando o período de cessar-fogo.
Diako diz querer acreditar que a vida vai melhorar. "As coisas vão mudar", afirma. "Já mudaram."
Sana ri ao ouvir isso.
"Mudaram?", questiona. "Caiu nas mãos da Guarda Revolucionária. O país está um caos." Sana diz que seus sentimentos mudaram desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã.
"No começo, eu não queria que a guerra acontecesse… [Mas], no meio do conflito, enquanto eles miravam em figuras-chave, eu fiquei genuinamente feliz com cada uma das mortes."
Mas, à medida que a guerra se arrastava, Sana percebeu, assim como a Casa Branca sob o governo Donald Trump, que a morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e de outras figuras importantes não levaria a um regime mais disposto a concessões.
"Muitos deles continuam de pé. O que eu imaginei não aconteceu. Tudo piorou. E ficamos com a República Islâmica. Estou arrasada por eles terem vencido essa guerra."
É impossível medir o nível de apoio ao regime na sociedade iraniana. Há demonstrações públicas regulares de apoio organizadas por seus simpatizantes. Em contrapartida, manifestações de oposição são proibidas.
Fontes confiáveis ouvidas pela BBC News dentro do Irã relataram conversas com ativistas da oposição, advogados de direitos humanos e jornalistas independentes que apontam para um clima de apreensão. Há um temor recorrente: o de que, quando a guerra terminar, o Estado intensifique sua campanha de repressão interna.
Segundo a agência de notícias Human Rights Activists News Agency (Hrana), sediada em Washington D.C., nos EUA, mais de 53 mil pessoas foram presas durante os protestos contra o regime em janeiro, antes do início da guerra. Desde então, acredita-se que muitos outros milhares tenham sido detidos.
O número de execuções de presos políticos atingiu um patamar incomum: 21 pessoas foram enforcadas durante a guerra, sendo o maior número em um período tão curto em mais de 30 anos. Nove dos executados tinham ligação com os protestos de janeiro; dez pessoas foram condenadas por suposta associação a grupos de oposição; e duas, acusadas de espionagem.
Susan — nome fictício — é advogada e atua na defesa de detidos. Segundo ela, as condições nas prisões se tornaram muito mais duras. "Antes da guerra, o tratamento mais severo era reservado a quem liderava os protestos, portava coquetéis molotov ou estava armado. Durante a guerra, essa dureza se intensificou significativamente", diz.
O relato pessoal dela ilustra como o conflito vem dividindo algumas famílias. Seus pais apoiam abertamente o regime, e ela teme que possam ser alvo caso o governo seja derrubado. Ao compartilhar essa preocupação com o irmão, contrário ao regime, ouviu uma resposta perturbadora: "Se eles querem ser mártires, por que negar-lhes esse direito?"
Susan diz querer o fim da guerra, mas está convencida de que pessoas como ela enfrentarão ainda mais pressão. Também teme pelo destino dos detidos. "Acho que, se a guerra acabar, o regime provavelmente vai descontar a raiva da guerra nos prisioneiros. Tenho a sensação de que estamos vivendo no limite."
Ativistas de direitos humanos relatam que quatro pessoas acusadas de ligação com o Mossad — serviço de inteligência externa de Israel — foram executadas neste ano.
Jornalistas independentes estão entre os que temem ser alvo de acusações de colaboração com os EUA ou com Israel. Também aumentaram as prisões de pessoas acusadas de enviar material a veículos estrangeiros considerados hostis pelo regime.
Um desses jornalistas — chamado aqui de Armin — disse ao colaborador da BBC News em Teerã que simplesmente relatar os fatos da guerra já pode resultar em prisão, com consequências potencialmente fatais.
"Antes, a acusação era de crime político. Agora, em contexto de guerra, reportar o conflito pode ser enquadrado como espionagem." A imputação prevê pena de morte em um Judiciário alinhado ao regime.
"Antes, tentávamos entender quantos foram afetados e o alcance dos protestos", afirma Armin. "Hoje, a prioridade é sobreviver — nós e nossas famílias."
Enquanto a família tenta dormir, Armin permanece acordado. "Fico pensando no que vem pela frente. A incerteza gera uma ansiedade constante."
Não surpreende, nesse contexto, o esvaziamento das ruas. O regime exerce controle sobre a vida e a morte.
Com reportagem adicional de Alice Doyard.
'Tudo piorou': iranianos temem regime fortalecido e mais vingativo após a guerra com os EUA
Escrito em 04/05/2026

