Rastreamento do câncer de pulmão: detectar mais cedo pode salvar vidas, mas exige políticas públicas adequadas Adobe Stock O recente diagnóstico de câncer de pulmão do papa Leão XIV, de 71 anos, trouxe novamente a doença ao debate público, levantando questões e atualizações sobre diagnóstico, prevenção e avanços no tratamento. O caso também chama a atenção para uma característica importante: embora o tabagismo seja o principal fator de risco, o câncer de pulmão pode atingir pessoas que nunca fumaram. O adenocarcinoma, subtipo mais comum da doença e diagnosticado no pontífice, responde por cerca de 40% dos casos, seguido pelo carcinoma escamoso e o câncer de pulmão de pequenas células. Este último subtipo é mais agressivo e mais fortemente associado ao tabagismo. Pessoas que nunca fumaram podem ter o risco de desenvolver câncer de pulmão aumentado em função de outros fatores tais como tabagismo passivo, poluição atmosférica, uso de forno a lenha dentro de casa, exposição ocupacional a substâncias cancerígenas e ao radônio, um gás radioativo natural, invisível e inodoro, que é mais comum em regiões com certos tipos de solo e rochas e pode se acumular em ambientes fechados. A doença frequentemente permanece silenciosa nas fases iniciais e pode evoluir rapidamente. Quando aparecem, os sintomas como tosse persistente, falta de ar, dor no tórax, tosse com sangue e perda de peso inexplicada podem indicar um quadro avançado. Por isso, identificar o tumor antes do surgimento dos sintomas representa uma oportunidade importante para ampliar as possibilidades de tratamento. Siga o canal do g1 Bem-Estar no WhatsApp Saiba por que os homens estão mais suscetíveis ao câncer do pulmão O câncer de pulmão continua sendo um dos maiores desafios da saúde pública mundial. É a principal causa de morte por câncer no mundo. Em 2024, provocou cerca de 1,9 milhão de mortes, segundo dados da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), da Organização Mundial de Saúde (OMS). O diagnóstico tardio contribui para esse impacto, pois reduz as chances de tratamento com intenção curativa. Uma estratégia que pode reduzir a mortalidade Uma avaliação internacional conduzida por 23 especialistas de 17 países e organizada pela IARC reuniu e avaliou as melhores evidências para orientar políticas de rastreamento em pessoas assintomáticas. Os resultados foram publicados no artigo IARC Perspective on Lung Cancer Screening na revista científica The New England Jornal of Medicine. A nossa principal conclusão nesse estudo é que o rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dose reduz a mortalidade por câncer de pulmão entre pessoas com alto risco, especialmente aquelas selecionadas com base na idade (de 50 a 80 anos) e no histórico de tabagismo (o equivalente a 1 maço por dia por 20 anos, ou mais). Classificamos a força da evidência científica como grupo A, ou seja, as evidências disponíveis são conclusivas e bem estabelecidas sobre esse benefício. Grandes ensaios clínicos ajudam a dimensionar esse benefício. No National Lung Screening Trial, realizado nos Estados Unidos, o rastreamento por tomografia de baixa dose em homens e mulheres de alto risco foi associado a uma redução relativa de 16% na mortalidade por câncer de pulmão em comparação com a radiografia de tórax. No estudo europeu NELSON, a redução relativa entre os homens de alto risco foi de 24% em comparação com a ausência de rastreamento, após dez anos de acompanhamento. Entre as mulheres, que foram minoria nesse estudo, também houve redução, embora com maior incerteza estatística. A maioria dos ensaios clínicos avaliados identificou ainda uma menor incidência de diagnósticos em estágios avançados entre as pessoas submetidas à tomografia. Isso importa porque tumores detectados precocemente podem ter mais possibilidades de tratamento, inclusive cirurgia, dependendo de suas características e da condição clínica do paciente. O rastreamento com a radiografia de tórax, por sua vez, não demonstrou de forma conclusiva uma redução da mortalidade nos estudos disponíveis. Portanto, não basta disponibilizar exames de imagem: é necessário escolher aqueles cujo benefício clínico esteja demonstrado para fins de rastreamento. Benefícios exigem controle dos riscos Cabe aqui chamar a atenção: o rastreamento não está livre de efeitos indesejados. Resultados falso-positivos podem indicar alterações suspeitas que não correspondem a câncer. E esses resultados podem levar a exames adicionais e, em alguns casos, procedimentos invasivos desnecessários como biópsias. Há também o sobrediagnóstico, quando tumores malignos são identificados, mas provavelmente não provocariam sintomas ou ameaçariam a vida do paciente. A exposição repetida à radiação ionizante constitui outro risco, embora os estudos indiquem que os benefícios da tomografia de baixa dose de radiação superam os danos entre pessoas adequadamente selecionadas. Essas limitações reforçam a importância de protocolos rigorosos para avaliar nódulos pulmonares, acompanhar alterações e definir quando uma investigação invasiva é necessária. A qualidade dos exames e a organização do programa de rastreamento é tão importante quanto a disponibilidade dos equipamentos. IA e avaliação individual de risco Em nossas análises, constatamos também que novas tecnologias podem aprimorar a seleção de pessoas elegíveis e a interpretação dos exames. Modelos de predição de risco consideram características individuais para estimar a probabilidade de desenvolver a doença. Algumas ferramentas avaliadas pela IARC podem identificar mais casos do que critérios baseados exclusivamente na idade e no histórico de tabagismo. Uma avaliação preliminar no Brasil de critérios de seleção baseados em risco também já foi realizada. A inteligência artificial também pode auxiliar radiologistas na identificação e mensuração de nódulos pulmonares. Entretanto, as evidências ainda apresentam limitações. Essas ferramentas podem aumentar os resultados falso-positivos. Por isso, devem apoiar a avaliação clínica, sem substituir a supervisão profissional. Biomarcadores moleculares e outras tecnologias emergentes também estão em investigação. Sua incorporação à prática clínica depende ainda de estudos que demonstrem benefícios concretos para os pacientes. Prevenção e equidade são indispensáveis É fundamental destacarmos que o rastreamento não substitui a prevenção primária. O controle do tabagismo continua sendo essencial para reduzir a incidência do câncer de pulmão. Integrar os exames de rastreamento a estratégias de cessação do tabagismo, que combinam apoio comportamental com tratamento farmacológico em casos selecionados, pode ampliar os benefícios. Programas eficazes precisam ir além da realização de tomografias. É necessário identificar e convidar pessoas elegíveis, facilitar o acesso, comunicar os resultados e garantir investigação diagnóstica e tratamento oportunos. Lembretes, acompanhamento individualizado e estratégias de navegação de pacientes podem favorecer a participação, inclusive entre grupos historicamente menos atendidos. A tomografia de baixa dose representa uma oportunidade concreta de reduzir mortes por câncer de pulmão entre pessoas de alto risco. Transformar essa evidência em benefício coletivo, porém, exige políticas públicas que articulem rastreamento organizado, controle de qualidade, cessação do tabagismo e acesso equitativo ao diagnóstico e ao tratamento. Detectar precocemente é parte da solução. Garantir que as pessoas que de fato seriam beneficiadas sejam identificadas, acompanhadas e tratadas é o que permitirá que essa estratégia alcance o seu melhor potencial. Arn Migowski Rocha dos Santos é médico, pesquisador e professor de pós-graduação do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Ele é expert do grupo de trabalho em rastreamento de câncer de pulmão da International Agency for Research on Cancer (IARC) e também membro convidado do Comitê de Prevenção e Rastreamento de Câncer da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). É ainda pesquisador principal de um projeto de iniciativa do pesquisador em rastreamento de câncer de pulmão patrocinado pela AstraZeneca, no qual não há interferência do patrocinador no desenho, condução ou publicações do estudo. É também coinvestigador de projeto de pesquisa sobre câncer financiado pelo CNPq e coinvestigador de projeto de pesquisa de iniciativa de investigador sobre impacto econômico do câncer financiado pela MSD. Não recebendo remuneração por nenhum desses projetos de pesquisa supracitados.
Câncer de pulmão: tomografia de baixa dose reduz mortalidade entre pessoas de alto risco, aponta estudo
Escrito em 08/11/2026
Rastreamento do câncer de pulmão: detectar mais cedo pode salvar vidas, mas exige políticas públicas adequadas Adobe Stock O recente diagnóstico de câncer de pulmão do papa Leão XIV, de 71 anos, trouxe novamente a doença ao debate público, levantando questões e atualizações sobre diagnóstico, prevenção e avanços no tratamento. O caso também chama a atenção para uma característica importante: embora o tabagismo seja o principal fator de risco, o câncer de pulmão pode atingir pessoas que nunca fumaram. O adenocarcinoma, subtipo mais comum da doença e diagnosticado no pontífice, responde por cerca de 40% dos casos, seguido pelo carcinoma escamoso e o câncer de pulmão de pequenas células. Este último subtipo é mais agressivo e mais fortemente associado ao tabagismo. Pessoas que nunca fumaram podem ter o risco de desenvolver câncer de pulmão aumentado em função de outros fatores tais como tabagismo passivo, poluição atmosférica, uso de forno a lenha dentro de casa, exposição ocupacional a substâncias cancerígenas e ao radônio, um gás radioativo natural, invisível e inodoro, que é mais comum em regiões com certos tipos de solo e rochas e pode se acumular em ambientes fechados. A doença frequentemente permanece silenciosa nas fases iniciais e pode evoluir rapidamente. Quando aparecem, os sintomas como tosse persistente, falta de ar, dor no tórax, tosse com sangue e perda de peso inexplicada podem indicar um quadro avançado. Por isso, identificar o tumor antes do surgimento dos sintomas representa uma oportunidade importante para ampliar as possibilidades de tratamento. Siga o canal do g1 Bem-Estar no WhatsApp Saiba por que os homens estão mais suscetíveis ao câncer do pulmão O câncer de pulmão continua sendo um dos maiores desafios da saúde pública mundial. É a principal causa de morte por câncer no mundo. Em 2024, provocou cerca de 1,9 milhão de mortes, segundo dados da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), da Organização Mundial de Saúde (OMS). O diagnóstico tardio contribui para esse impacto, pois reduz as chances de tratamento com intenção curativa. Uma estratégia que pode reduzir a mortalidade Uma avaliação internacional conduzida por 23 especialistas de 17 países e organizada pela IARC reuniu e avaliou as melhores evidências para orientar políticas de rastreamento em pessoas assintomáticas. Os resultados foram publicados no artigo IARC Perspective on Lung Cancer Screening na revista científica The New England Jornal of Medicine. A nossa principal conclusão nesse estudo é que o rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dose reduz a mortalidade por câncer de pulmão entre pessoas com alto risco, especialmente aquelas selecionadas com base na idade (de 50 a 80 anos) e no histórico de tabagismo (o equivalente a 1 maço por dia por 20 anos, ou mais). Classificamos a força da evidência científica como grupo A, ou seja, as evidências disponíveis são conclusivas e bem estabelecidas sobre esse benefício. Grandes ensaios clínicos ajudam a dimensionar esse benefício. No National Lung Screening Trial, realizado nos Estados Unidos, o rastreamento por tomografia de baixa dose em homens e mulheres de alto risco foi associado a uma redução relativa de 16% na mortalidade por câncer de pulmão em comparação com a radiografia de tórax. No estudo europeu NELSON, a redução relativa entre os homens de alto risco foi de 24% em comparação com a ausência de rastreamento, após dez anos de acompanhamento. Entre as mulheres, que foram minoria nesse estudo, também houve redução, embora com maior incerteza estatística. A maioria dos ensaios clínicos avaliados identificou ainda uma menor incidência de diagnósticos em estágios avançados entre as pessoas submetidas à tomografia. Isso importa porque tumores detectados precocemente podem ter mais possibilidades de tratamento, inclusive cirurgia, dependendo de suas características e da condição clínica do paciente. O rastreamento com a radiografia de tórax, por sua vez, não demonstrou de forma conclusiva uma redução da mortalidade nos estudos disponíveis. Portanto, não basta disponibilizar exames de imagem: é necessário escolher aqueles cujo benefício clínico esteja demonstrado para fins de rastreamento. Benefícios exigem controle dos riscos Cabe aqui chamar a atenção: o rastreamento não está livre de efeitos indesejados. Resultados falso-positivos podem indicar alterações suspeitas que não correspondem a câncer. E esses resultados podem levar a exames adicionais e, em alguns casos, procedimentos invasivos desnecessários como biópsias. Há também o sobrediagnóstico, quando tumores malignos são identificados, mas provavelmente não provocariam sintomas ou ameaçariam a vida do paciente. A exposição repetida à radiação ionizante constitui outro risco, embora os estudos indiquem que os benefícios da tomografia de baixa dose de radiação superam os danos entre pessoas adequadamente selecionadas. Essas limitações reforçam a importância de protocolos rigorosos para avaliar nódulos pulmonares, acompanhar alterações e definir quando uma investigação invasiva é necessária. A qualidade dos exames e a organização do programa de rastreamento é tão importante quanto a disponibilidade dos equipamentos. IA e avaliação individual de risco Em nossas análises, constatamos também que novas tecnologias podem aprimorar a seleção de pessoas elegíveis e a interpretação dos exames. Modelos de predição de risco consideram características individuais para estimar a probabilidade de desenvolver a doença. Algumas ferramentas avaliadas pela IARC podem identificar mais casos do que critérios baseados exclusivamente na idade e no histórico de tabagismo. Uma avaliação preliminar no Brasil de critérios de seleção baseados em risco também já foi realizada. A inteligência artificial também pode auxiliar radiologistas na identificação e mensuração de nódulos pulmonares. Entretanto, as evidências ainda apresentam limitações. Essas ferramentas podem aumentar os resultados falso-positivos. Por isso, devem apoiar a avaliação clínica, sem substituir a supervisão profissional. Biomarcadores moleculares e outras tecnologias emergentes também estão em investigação. Sua incorporação à prática clínica depende ainda de estudos que demonstrem benefícios concretos para os pacientes. Prevenção e equidade são indispensáveis É fundamental destacarmos que o rastreamento não substitui a prevenção primária. O controle do tabagismo continua sendo essencial para reduzir a incidência do câncer de pulmão. Integrar os exames de rastreamento a estratégias de cessação do tabagismo, que combinam apoio comportamental com tratamento farmacológico em casos selecionados, pode ampliar os benefícios. Programas eficazes precisam ir além da realização de tomografias. É necessário identificar e convidar pessoas elegíveis, facilitar o acesso, comunicar os resultados e garantir investigação diagnóstica e tratamento oportunos. Lembretes, acompanhamento individualizado e estratégias de navegação de pacientes podem favorecer a participação, inclusive entre grupos historicamente menos atendidos. A tomografia de baixa dose representa uma oportunidade concreta de reduzir mortes por câncer de pulmão entre pessoas de alto risco. Transformar essa evidência em benefício coletivo, porém, exige políticas públicas que articulem rastreamento organizado, controle de qualidade, cessação do tabagismo e acesso equitativo ao diagnóstico e ao tratamento. Detectar precocemente é parte da solução. Garantir que as pessoas que de fato seriam beneficiadas sejam identificadas, acompanhadas e tratadas é o que permitirá que essa estratégia alcance o seu melhor potencial. Arn Migowski Rocha dos Santos é médico, pesquisador e professor de pós-graduação do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Ele é expert do grupo de trabalho em rastreamento de câncer de pulmão da International Agency for Research on Cancer (IARC) e também membro convidado do Comitê de Prevenção e Rastreamento de Câncer da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). É ainda pesquisador principal de um projeto de iniciativa do pesquisador em rastreamento de câncer de pulmão patrocinado pela AstraZeneca, no qual não há interferência do patrocinador no desenho, condução ou publicações do estudo. É também coinvestigador de projeto de pesquisa sobre câncer financiado pelo CNPq e coinvestigador de projeto de pesquisa de iniciativa de investigador sobre impacto econômico do câncer financiado pela MSD. Não recebendo remuneração por nenhum desses projetos de pesquisa supracitados.

