Por que interior de SP concentra quadrilhas especializadas em falsificação de agrotóxicos

Escrito em 28/09/2026


Embalagens de agrotóxicos apreendidas durante operação 'Piratas do Agro', em Franca (SP) e região Reprodução/EPTV Um em cada quatro defensivos agrícolas utilizados na lavoura brasileira tem origem ilegal, o que ajuda a impulsionar um mercado clandestino que movimentou, em 2025, R$ 473 bilhões em diferentes setores da economia, segundo o Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade. O interior de São Paulo, principalmente na região de Ribeirão Preto (SP), concentra a maior parte das organizações criminosas que, segundo as autoridades, adulteram os defensivos e causam danos bilionários a toda a cadeia produtiva, seja pela concorrência desleal com empresas que atuam dentro da lei, seja por conta da sonegação de impostos, além dos impactos para a produção agrícola. "A gente tem efetivamente um impacto bilionário por ano, o reflexo direto e indireto em diversas frentes. Uma delas é justamente a concorrência desleal, porque no nicho de agrotóxicos, a pesquisa, o desenvolvimento de moléculas, de tecnologias, além de levar muito tempo, demandam bastante investimento", afirma o promotor de Justiça Adriano Mellega, especialista na investigação de fraudes de agrotóxicos. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp Agora no g1 Parte das discussões de um encontro realizado esta semana entre lideranças empresariais em Ribeirão Preto, a falsificação de agrotóxicos é considerada uma prática que desafia as autoridades, pela capacidade de articulação dos núcleos criminosos e pelo nível de sofisticação das fraudes, que dificultam a fiscalização. Desde 2014, ao menos oito operações foram realizadas pelo Gaeco na região para combater as fraudes na produção e comercialização de agrotóxicos. Foram ao menos 458 mandados contra centenas de pessoas investigadas por práticas como adulteração de códigos QR de rastreabilidade, rótulos e embalagens de alta precisão, além da venda sem nota fiscal e da utilização de empresas fantasmas. Em uma delas, um advogado foi apontado como o "cabeça" da quadrilha. Ainda assim, segundo o promotor de Justiça, conta a favor o fato de o mercado de agrotóxicos legalizado ter regras estabelecidas, que permitem identificar fraudes caso haja um trabalho bem feito de fiscalização. Nesse sentido, as tecnologias de gestão, que incorporam o uso de inteligência artificial para rastrear a origem dos produtos e gerar alertas, são um importante aliado não só das autoridades, mas também das empresas para combater a clandestinidade. "Analisamos o histórico operacional para estabelecer o padrão de comportamento de cada operação. Ao cruzar dados de compras, logística e consumo histórico por hectare, o algoritmo identifica discrepâncias em tempo real, como uma filial solicitando volume desproporcional à sua capacidade ou uma rota de entrega fora do raio habitual", explica Felipe Póvoa, diretor da TOTVS, empresa de soluções tecnológicas com sistemas de gestão integrados. A seguir, entenda por que o interior de São Paulo concentra organizações criminosas especializadas em adulteração de defensivos e como as tecnologias podem ser uma aliada no combate: Qual é o tamanho do mercado ilegal de agrotóxicos no Brasil? O mercado ilegal de defensivos agrícolas no Brasil atinge dimensões bilionárias e representa cerca de 25% de todos os produtos utilizados nas lavouras do país, entre falsificação, contrabando, roubo de cargas e importação fraudulenta. Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) consolidados pelo Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF) mostram um salto no volume de apreensões nas estradas federais ao longo dos anos, e em 2020, passava de 70,4 toneladas. Vista aérea do Trevão em Ribeirão Preto, SP, que interliga quatro rodovias Divulgação Segundo o promotor, os levantamentos mostram que o crime se infiltra de forma pulverizada por diversas modalidades, dificultando a contabilização de tudo o que burla a fiscalização. "De todo o mercado lícito, estima-se hoje que 25% do mercado de agrotóxicos é contaminado em algum setor por algum nicho criminoso. No fim do dia, se a gente considerar quatro litros ou quatro produtos agrotóxicos, um deles, por essa conta, seria oriundo de alguma atividade ilícita", afirma Mellega. LEIA TAMBÉM Justiça manda soltar cinco acusados de integrar quadrilha para fraudar agrotóxicos em Franca Quadrilha investigada por falsificar agrotóxicos tem advogado como 'cabeça' e é especialista em rótulos; entenda Embalagens vazias apreendidas durante operação contra falsificação de agrotóxicos na região de Franca (SP). Reprodução/EPTV Como é a atuação das quadrilhas no interior de São Paulo? O interior paulista, com destaque para a região de Ribeirão Preto e Franca, se tornou um polo de instalação e operação de laboratórios clandestinos de defensivos falsificados. As investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) mostram que esses grupos criminosos criaram raízes na região há pelo menos uma década, com uma estrutura especializada no manuseio de produtos químicos, na impressão de rótulos e na montagem de embalagens. Exemplos dessa atuação foram registrados em operações como a "Princípio Ativo", deflagrada em 2020 na região de Ribeirão Preto. A força-tarefa apontou que as organizações eram divididas em sete núcleos que mantinham gráficas e depósitos. Em dezembro de 2025, na Operação "Pesticida", deflagrada na região de Franca (SP) e no Espírito Santo, as autoridades prenderam 21 pessoas, entre elas um advogado apontado como líder, e fecharam cinco laboratórios clandestinos com equipamentos para rotulagem de produtos falsificados. Em 2014, a Operação "Lavoura Limpa" já havia mapeado esquemas semelhantes na mesma região. Segundo o promotor de Justiça, a localização geográfica favorece a logística das quadrilhas, mas os produtos fabricados abastecem lavouras em todo o Brasil. As investigações apontam que a distribuição das cargas ilegais é feita por transportadores terceirizados, frota própria dos criminosos e por remessas irregulares pelos correios. Para dar aparência de legalidade às transações, as organizações utilizam uma rede de empresas fantasmas criadas para a emissão de notas fiscais fraudulentas, permitindo que os produtos cheguem a revendedores e produtores rurais de outros estados. "Por mais que aqui seja o ponto de concentração da falsificação, os produtos ilícitos são vendidos e remetidos pulverizados para todo o território nacional, e já constatamos remessas pontuais para o exterior", diz Mellega. Quanto essas fraudes já causaram de prejuízo? A contabilização das perdas financeiras causadas pela falsificação e pelo contrabando de agrotóxicos é considerada um desafio pelas autoridades. Isso porque o mercado ilegal se mistura à cadeia lícita e envolve forte sonegação fiscal por meio de empresas de fachada. Mas os balanços das operações revelam cifras de impacto bilionário para a indústria de agroquímicos e para os cofres públicos. Somente na Operação Princípio Ativo, deflagrada em 2020 no interior de São Paulo, a estimativa é de que as quadrilhas investigadas tenham provocado um prejuízo de R$ 5,4 bilhões ao setor de agroquímicos. Quando considerados os impactos econômicos no mercado produtivo, o Ministério Público calculou perdas de até R$ 11 bilhões, além da não criação de cerca de 40 mil postos de trabalho. Além disso, um levantamento da Secretaria da Fazenda associado à operação identificou que 50 empresas fantasmas geraram quase R$ 850 milhões em sonegação de impostos em cerca de um ano e meio. O prejuízo também se estende ao produtor rural, que paga por um defensivo falsificado sem eficácia e pode perder a safra para pragas ou enfrentar contaminação do solo. "As empresas regulares investem pesado até colocar no mercado uma molécula segura e autorizada. Em contrapartida, essas organizações vendem produtos totalmente fora de especificações por valores muito similares aos originais, só que sem os custos do mercado lícito. Isso pressiona a margem das empresas corretas e gera um impacto bilionário, além de não recolher tributos ao Estado", analisa o promotor de Justiça. Rótulos usados para falsificar agrotóxicos na região de Franca (SP) Reprodução/EPTV Por que é difícil combater a falsificação de agrotóxicos? A principal dificuldade enfrentada no combate a esse tipo de crime está na estrutura das organizações criminosas. O Gaeco aponta que as quadrilhas são organizadas em núcleos autônomos, como financiamento, produção química, gráfica e rótulos, logística e vendas, o que permite uma rápida retomada das práticas criminosas quando apenas um dos elos é atingido pelas operações policiais. Além disso, gargalos jurídicos e regulatórios dificultam a repressão, segundo Mellega. Ele analisa que, ao mesmo tempo que elevou algumas apenas, a nova Lei de Agrotóxicos (Lei 14.785/2023) abriu brechas na declaração de importação de insumos. Essa mudança acabou impulsionando a entrada em larga escala de produtos com concentrações não autorizadas ou com presença de contaminantes sob o pretexto de importação regular. "Toda vez que há uma repressão e você consegue desmantelar alguns desses núcleos, pelo fato de eles serem sedimentados, eles conseguem rapidamente se reerguer porque se conectam com outros grupos que eventualmente não foram atingidos." Como a tecnologia pode ajudar no combate à falsificação de agrotóxicos? Nesse contexto, os sistemas de gestão integrados (ERP) e as ferramentas de rastreabilidade digital se tornaram aliadas para proteger a cadeia de suprimentos do agronegócio das falsificações. Com códigos de barras, QR Codes e identificação por radiofrequência (RFID), plataformas conectam o recebimento físico do defensivo à validação da chave de acesso da nota fiscal na Receita Federal e ao catálogo do fornecedor. Diretor de operações da TOTVS, Felipe Póvoa explica que a automação dos sistemas impede que falhas humanas e tentativas de adulteração passem despercebidas no recebimento das mercadorias. "Por meio de coletores de dados e conferência cega no recebimento, o operador é obrigado a escanear os lotes físicos, que são validados automaticamente pelo sistema contra o pedido original. Isso elimina a 'vista grossa', o erro de digitação e a aceitação inadvertida de insumos com numeração adulterada ou fora de especificação", diz Póvoa. Segundo ele, soluções como essas movimentaram mais de R$ 3 bilhões nos últimos anos em pesquisa e desenvolvimento na empresa. "No segmento de agronegócio, esses aportes são continuamente direcionados para impulsionar o ERP Agro da TOTVS e nossas soluções de rastreabilidade, inteligência artificial, conformidade fiscal e cibersegurança em nuvem." Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região