Pirarucu de 65 kg pescado com vara comum no ES é considerado 'invasor' e pode indicar problema ecológico

Escrito em 13/01/2026


Empresária pesca pirarucu de 65 kg com vara comum em lagoa de Linhares, no ES A captura de um pirarucu de 65 quilos e 1,56 metro em uma lagoa de Linhares, no Norte do Espírito Santo, chamou a atenção não apenas pelo tamanho do peixe e pela forma improvisada da pescaria, mas também por um alerta ambiental. Especialistas explicam que a espécie é considerada invasora, não ocorre naturalmente no estado e pode causar impactos ecológicos. O peixe foi pescado pela empresária Marcella Ferreira, de 40 anos, durante um passeio de barco pela Lagoa do Aguiar, no sábado (10). 📲 Clique aqui para seguir o canal do g1 ES no WhatsApp Sem qualquer equipamento profissional, ela usou uma vara simples, daquelas levadas apenas para pescarias ocasionais, e levou cerca de meia hora para conseguir retirar o animal da água. “Eu achei que a vara tinha prendido em um toco. Quando a linha saiu, meu marido falou que era peixe. Aí pensei: se isso for peixe, é um monstro”, contou Marcella, que mora em Linhares e costuma pescar por lazer. VÍDEO: empresária pesca pirarucu de 65 kg com vara comum em lagoa de Linhares 'Achei que era um toco', diz empresária após pescar pirarucu de 65 kg e 1,5m de comprimento Pirarucu de 65 kg é pescado com vara comum no Espírito Santo Arquivo pessoal Espécie amazônica fora do habitat natural Apesar de o feito ter viralizado como uma “história de pescador”, o episódio está relacionado a um alerta do ponto de vista ambiental. O biólogo e especialista em peixes João Luiz Gasparini, que trabalha com o monitoramento da atividade pesqueira na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) explicou que o pirarucu é um peixe tipicamente amazônico e não faz parte da fauna nativa do Espírito Santo. “O pirarucu é um peixe da Amazônia, podendo ocorrer também em áreas do Pantanal e do Brasil Central. A presença dele aqui não é natural”, afirmou. Segundo o especialista, a expansão da espécie para outras regiões do país está relacionada à criação em cativeiro. “O pessoal começou a criar o pirarucu e acabou soltando em rios, lagoas e açudes de várias regiões. Hoje ele está espalhado por muitos ambientes naturais do Brasil”, explicou. Pirarucu foi carregado nas costas por empresária no Espírito Santo Arquivo Pessoal Peixe resistente e impacto ambiental Gasparini destacou que o pirarucu é extremamente resistente, o que facilita sua adaptação fora do habitat original. “Ele respira fora d’água e consegue viver em ambientes com pouco oxigênio, até mesmo em águas mais degradadas. Isso ajuda na sobrevivência, mas do ponto de vista ecológico é um problema”, alertou. De acordo com o biólogo, a introdução de espécies de outros ecossistemas é considerada um dano ambiental. “Você não pode colocar uma espécie de uma bacia em outra. Isso desequilibra o ambiente, afeta espécies nativas e altera a dinâmica ecológica”, disse. No Espírito Santo, o pirarucu já foi registrado em locais como a Lagoa Juparanã e em diversas lagoas de Linhares. “Cada vez mais vamos ver esse peixe sendo pescado no Estado, porque continuam soltando a espécie em vários lugares”, afirmou. O biólogo também alertou para os riscos do chamado “peixamento”, prática comum após desastres ambientais, como o rompimento de barragens. “Em situações assim, muitas pessoas acreditam que comprar alevinos e soltar nos rios é uma forma de ajudar a repovoar o ambiente. Só que, muitas vezes, esses peixes vêm da Ásia ou da África”, disse. Segundo ele, a intenção costuma ser positiva, mas o resultado pode ser o oposto. “As pessoas acham que estão fazendo uma coisa boa, mas acabam criando um problema ambiental ainda maior, ao introduzir espécies que não são daquele ecossistema”, completou. Outras espécies introduzidas O pirarucu não é o único peixe de fora encontrado em águas capixabas. Segundo Gasparini, também há registros de tambaqui, pacu e até híbridos conhecidos como “tambacu”, além do bagre-cachara, todos originários de outras regiões do país. Enquanto espécies exóticas se espalham, peixes nativos de grande porte praticamente desapareceram. “Antigamente havia robalos grandes e o surubim do Rio Doce. Esse surubim hoje está extinto no Espírito Santo e só existe em alguns pequenos tributários em Minas Gerais”, explicou. Captura inesperada Ao g1, Marcella contou que não acreditou que iria conseguir tirar o peixe da água por causa do equipamento que estava com ela. Segundo o lojista de artigos de pesca Lucimar de Oliveira, um peixe desse porte exige material específico. “O ideal seria uma vara de cerca de 100 libras, até equipamento de pesca oceânica. O que foi usado é para pesca amadora”, afirmou. Depois da captura, o pirarucu foi dividido entre a família e acabou virando moqueca, prato típico da culinária capixaba. O episódio, no entanto, vai além de uma pescaria inusitada e reforça o debate sobre a introdução de espécies fora de seu ambiente natural e os riscos para os ecossistemas locais. Vídeos: tudo sobre o Espírito Santo Veja o plantão de últimas notícias do g1 Espírito Santo