Placa de trânsito na RR-205, que dá acesso a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, pinchada com sigla do PCC. Fórum Brasileiro de Segurança Pública/Reprodução O Brasil deveria adotar estratégias novas para combater o crime organizado e sua infiltração no Estado, alerta a ONG internacional Human Rights Watch (HRW) ao analisar as políticas de segurança pública do país. A análise faz parte do relatório mundial de 2026, divulgado nesta quarta-feira (4), que observa a situação dos direitos humanos em mais de cem países. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça No capítulo dedicado ao Brasil, a Human Rights Watch defende uma reformulação ampla das políticas de segurança pública, com ênfase no enfrentamento às facções criminosas. Em entrevista ao g1, o diretor da entidade no Brasil, César Muñoz, afirmou ter ouvido de um promotor responsável por investigar facções que policiais estavam envolvidos em todos os casos conduzidos por ele. "As facções cooptam agentes públicos para proteger as suas atividades ilícitas. Essa infiltração no poder público às vezes também envolve políticos, principalmente a nível local. Essa é uma face muito perigosa do crime organizado, pois pode corromper as instituições por dentro", afirmou. Muñoz defende no relatório que as autoridades brasileiras deveriam conduzir "investigações aprofundadas e baseadas na inteligência" para identificar esses vínculos entre criminosos e pessoas que fazem parte do poder público. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Entre as sugestões da ONG para o país estão: Propostas baseadas em ciência e dados para desmantelar os grupos criminosos; Proteção dos direitos da população e dos policiais brasileiros; Estratégias de segurança que priorizem investigação policial; Independência das perícias em todo o país; Melhora na coordenação entre órgãos federais e estaduais para combater o tráfico de armas, lavagem de dinheiro e identificar fontes de renda das facções criminosas. Investigações recentes revelaram tentáculos da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de transporte público e no mercado de combustíveis e o uso de fundos de investimento sediados na Faria Lima para lavar dinheiro do crime. Além disso, há esquemas para fraudar contratos de prefeituras. No fim do ano, a Justiça Militar condenou 11 policiais militares por fazerem segurança ilegal para Antonio Vinícius Gritzbach, delator do PCC executado a tiros no Aeroporto de Guarulhos, em SP. Esse caso expôs o envolvimento de agentes públicos com o crime organizado tanto na Polícia Militar quanto na Polícia Civil do estado. Leia também: PCC está infiltrado por meio de empresas de lixo e ônibus e na saúde, diz MP Violência é principal preocupação dos brasileiros A segurança pública é um dos temas de maior preocupação dos brasileiros, segundo pesquisas de opinião mais recentes. De acordo com levantamento da Ipsos-Ipec divulgado na segunda-feira (2), 41% dos brasileiros consideram crime e violência as principais preocupações no país. Nos últimos meses de 2025, as discussões sobre segurança pública foram pautadas pela megaoperação policial contra o Comando Vermelho que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro, entre eles quatro policiais. O presidente Lula (PT) enviou ao Congresso duas propostas sobre o tema: a PEC da Segurança Pública, que dá mais poder ao governo federal na definição de diretrizes nacionais, e um projeto de lei que endurece punições para integrantes de facções. Os textos seguem em discussão. Para o diretor da Human Rights Watch, a importância do tema coloca a segurança no centro da eleição presidencial de outubro e deve exigir atenção dos candidatos. "Defendemos propostas sérias baseadas na ciência e em dados, que desmantelem os grupos criminosos e protejam os direitos de todos, tanto da população como dos policiais", diz César Muñoz. Além de mudanças no enfrentamento ao crime organizado, o relatório da HRW afirma que as polícias brasileiras atuam com estratégias que aumentam a violência. Dados do Ministério da Justiça atualizados nesta terça-feira (3) indicam que policiais foram responsáveis por 6.519 mortes em 2025, um aumento de 4,5% em relação ao ano anterior. "Por muito tempo, adotou-se um modelo de combate ao crime baseado em operações de caráter militar na qual policiais entram em comunidades de baixa renda atirando. Já sabemos que esse modelo não resolve o problema da violência e do crime organizado. Ele cria insegurança e coloca em risco a população e os próprios policiais", analisa Muñoz. A HRW sugere no relatório de 2026 que o Brasil tenha "propostas para proteger efetivamente os direitos das pessoas". Citações do relatório A Human Rights Watch lista uma série de acontecimentos ao longo de 2025 no capítulo focado no Brasil divulgado. São citados para o mundo, entre outros temas: Queda de homicídios no Brasil, mas aumento de mortes provocadas por policiais; Pessoas negras têm três vezes e meia mais chances de serem vítimas do que pessoas brancas; A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por “conspirar para permanecer no cargo após perder as eleições de 2022” e por outros crimes; Fraude no INSS envolvendo cobranças não autorizadas que ultrapassam R$ 6 bilhões; A ONG afirma que o governo Lula 3 “adotou medidas para proteger o meio ambiente, mas manteve planos de expandir de forma massiva a produção de combustíveis fósseis”; Investigações sobre emendas parlamentares do Congresso Nacional por falta de transparência; Decisão do STF de que a lei brasileira de combate à violência doméstica se aplica a casais do mesmo sexo e a mulheres trans; Criação de uma lei para proteger os direitos de crianças em ambientes digitais. A HRW destacou que o governo Lula solicitou à Meta a remoção de chatbots, criados no Meta AI Studio, que imitavam crianças e mantinham diálogos de cunho sexual explícito; Situação do sistema prisional, que opera com superlotação de 35%, reunindo mais de 674 mil pessoas presas. 'Avanço autoritário' com Trump A Human Rights Watch afirma também no relatório que o novo mandato de Donald Trump representa um “avanço autoritário” global e coloca os direitos humanos em risco. Segundo a análise da ONG, o presidente dos Estados Unidos se destaca por desrespeito flagrante e graves violações desses direitos. Trump conversa com repórteres no Salão Oval da Casa Branca, em 3 de fevereiro de 2026 Evelyn Hockstein/Reuters O documento também aponta líderes como Vladimir Putin e Xi Jinping como ameaças à ordem mundial e destaca que 72% da população do planeta vive hoje sob regimes autoritários. A HRW defende uma aliança global para conter o avanço autoritário e destaca, além do presidente americano, a "pressão implacável" de China e Rússia contra os direitos humanos em todo o mundo. O documento classifica quase 200 países em cinco escalas: autocracia fechada (35 casos), autocracia eleitoral (51), autocracia zona cinzenta (4), democracia zona cinzenta (13), democracia eleitoral (46) e democracia liberal (29).
Brasil deveria mudar estratégia para combater infiltração do crime organizado no Estado, diz Human Rights Watch
Escrito em 04/02/2026
Placa de trânsito na RR-205, que dá acesso a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, pinchada com sigla do PCC. Fórum Brasileiro de Segurança Pública/Reprodução O Brasil deveria adotar estratégias novas para combater o crime organizado e sua infiltração no Estado, alerta a ONG internacional Human Rights Watch (HRW) ao analisar as políticas de segurança pública do país. A análise faz parte do relatório mundial de 2026, divulgado nesta quarta-feira (4), que observa a situação dos direitos humanos em mais de cem países. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça No capítulo dedicado ao Brasil, a Human Rights Watch defende uma reformulação ampla das políticas de segurança pública, com ênfase no enfrentamento às facções criminosas. Em entrevista ao g1, o diretor da entidade no Brasil, César Muñoz, afirmou ter ouvido de um promotor responsável por investigar facções que policiais estavam envolvidos em todos os casos conduzidos por ele. "As facções cooptam agentes públicos para proteger as suas atividades ilícitas. Essa infiltração no poder público às vezes também envolve políticos, principalmente a nível local. Essa é uma face muito perigosa do crime organizado, pois pode corromper as instituições por dentro", afirmou. Muñoz defende no relatório que as autoridades brasileiras deveriam conduzir "investigações aprofundadas e baseadas na inteligência" para identificar esses vínculos entre criminosos e pessoas que fazem parte do poder público. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Entre as sugestões da ONG para o país estão: Propostas baseadas em ciência e dados para desmantelar os grupos criminosos; Proteção dos direitos da população e dos policiais brasileiros; Estratégias de segurança que priorizem investigação policial; Independência das perícias em todo o país; Melhora na coordenação entre órgãos federais e estaduais para combater o tráfico de armas, lavagem de dinheiro e identificar fontes de renda das facções criminosas. Investigações recentes revelaram tentáculos da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de transporte público e no mercado de combustíveis e o uso de fundos de investimento sediados na Faria Lima para lavar dinheiro do crime. Além disso, há esquemas para fraudar contratos de prefeituras. No fim do ano, a Justiça Militar condenou 11 policiais militares por fazerem segurança ilegal para Antonio Vinícius Gritzbach, delator do PCC executado a tiros no Aeroporto de Guarulhos, em SP. Esse caso expôs o envolvimento de agentes públicos com o crime organizado tanto na Polícia Militar quanto na Polícia Civil do estado. Leia também: PCC está infiltrado por meio de empresas de lixo e ônibus e na saúde, diz MP Violência é principal preocupação dos brasileiros A segurança pública é um dos temas de maior preocupação dos brasileiros, segundo pesquisas de opinião mais recentes. De acordo com levantamento da Ipsos-Ipec divulgado na segunda-feira (2), 41% dos brasileiros consideram crime e violência as principais preocupações no país. Nos últimos meses de 2025, as discussões sobre segurança pública foram pautadas pela megaoperação policial contra o Comando Vermelho que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro, entre eles quatro policiais. O presidente Lula (PT) enviou ao Congresso duas propostas sobre o tema: a PEC da Segurança Pública, que dá mais poder ao governo federal na definição de diretrizes nacionais, e um projeto de lei que endurece punições para integrantes de facções. Os textos seguem em discussão. Para o diretor da Human Rights Watch, a importância do tema coloca a segurança no centro da eleição presidencial de outubro e deve exigir atenção dos candidatos. "Defendemos propostas sérias baseadas na ciência e em dados, que desmantelem os grupos criminosos e protejam os direitos de todos, tanto da população como dos policiais", diz César Muñoz. Além de mudanças no enfrentamento ao crime organizado, o relatório da HRW afirma que as polícias brasileiras atuam com estratégias que aumentam a violência. Dados do Ministério da Justiça atualizados nesta terça-feira (3) indicam que policiais foram responsáveis por 6.519 mortes em 2025, um aumento de 4,5% em relação ao ano anterior. "Por muito tempo, adotou-se um modelo de combate ao crime baseado em operações de caráter militar na qual policiais entram em comunidades de baixa renda atirando. Já sabemos que esse modelo não resolve o problema da violência e do crime organizado. Ele cria insegurança e coloca em risco a população e os próprios policiais", analisa Muñoz. A HRW sugere no relatório de 2026 que o Brasil tenha "propostas para proteger efetivamente os direitos das pessoas". Citações do relatório A Human Rights Watch lista uma série de acontecimentos ao longo de 2025 no capítulo focado no Brasil divulgado. São citados para o mundo, entre outros temas: Queda de homicídios no Brasil, mas aumento de mortes provocadas por policiais; Pessoas negras têm três vezes e meia mais chances de serem vítimas do que pessoas brancas; A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por “conspirar para permanecer no cargo após perder as eleições de 2022” e por outros crimes; Fraude no INSS envolvendo cobranças não autorizadas que ultrapassam R$ 6 bilhões; A ONG afirma que o governo Lula 3 “adotou medidas para proteger o meio ambiente, mas manteve planos de expandir de forma massiva a produção de combustíveis fósseis”; Investigações sobre emendas parlamentares do Congresso Nacional por falta de transparência; Decisão do STF de que a lei brasileira de combate à violência doméstica se aplica a casais do mesmo sexo e a mulheres trans; Criação de uma lei para proteger os direitos de crianças em ambientes digitais. A HRW destacou que o governo Lula solicitou à Meta a remoção de chatbots, criados no Meta AI Studio, que imitavam crianças e mantinham diálogos de cunho sexual explícito; Situação do sistema prisional, que opera com superlotação de 35%, reunindo mais de 674 mil pessoas presas. 'Avanço autoritário' com Trump A Human Rights Watch afirma também no relatório que o novo mandato de Donald Trump representa um “avanço autoritário” global e coloca os direitos humanos em risco. Segundo a análise da ONG, o presidente dos Estados Unidos se destaca por desrespeito flagrante e graves violações desses direitos. Trump conversa com repórteres no Salão Oval da Casa Branca, em 3 de fevereiro de 2026 Evelyn Hockstein/Reuters O documento também aponta líderes como Vladimir Putin e Xi Jinping como ameaças à ordem mundial e destaca que 72% da população do planeta vive hoje sob regimes autoritários. A HRW defende uma aliança global para conter o avanço autoritário e destaca, além do presidente americano, a "pressão implacável" de China e Rússia contra os direitos humanos em todo o mundo. O documento classifica quase 200 países em cinco escalas: autocracia fechada (35 casos), autocracia eleitoral (51), autocracia zona cinzenta (4), democracia zona cinzenta (13), democracia eleitoral (46) e democracia liberal (29).

