Ceará segue tendência nacional e políticos líderes em engajamento nas redes sociais atingem votação recorde

Escrito em 11/10/2026


Políticos líderes em engajamento nas redes sociais atingem votação recorde no Ceará As eleições de 2026 reforçaram uma tendência que já vem se consolidando nos últimos anos no Brasil: políticos líderes em engajamento nas redes sociais - especialmente do campo da direita - atingem recordes de votações. O Ceará segue essa tendência. O deputado federal André Fernandes (PL-CE) foi reeleito para o segundo mandato na Câmara dos Deputados com mais de 684 mil votos. Ele foi o deputado federal mais votado do Ceará e do Nordeste neste ano. O parlamentar cearense aparece como o décimo político brasileiro mais influente no Instagram em 2026. O dado consta em um estudo realizado pela empresa de pesquisas Zeeng, divulgado em julho. Ele tem mais de 3 milhões de seguidores na rede, em consulta realizada na última sexta-feira (9). LEIA TAMBÉM: Deputados federais eleitos no Ceará na Eleição 2026: veja a lista Veja a composição da Assembleia Legislativa do Ceará a partir de 2027 Na eleição para a Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), Tancredo dos Santos (PL) foi apoiado diretamente por Fernandes e se tornou o deputado estadual mais votado neste ano, com mais de 151 mil votos. Ele acumula 641 mil seguidores no Instagram, conforme consulta realizada também na sexta (9). André Fernandes (PL) e Gabriel Biologia (Psol) Davi Rocha; Câmara de Fortaleza Ainda no Ceará, nomes como Gabriel Biologia (Psol) e Leo Suricate (Psol) - ambos eleitos para a Alece - desafiaram o domínio da direita nas redes e se destacaram com campanhas e trajetórias fortemente ligadas à internet. De acordo com especialistas ouvidos pelo g1, a lógica das redes sociais veio para ficar e políticos que não souberem utilizar essas ferramentas podem perder espaço. Além disso, a centralidade dessas plataformas na política também gera desafios para a democracia. Domínio da direita no meio digital O caso de André Fernandes não é isolado e se repete em outras partes do país. Em 2026, vários outros parlamentares de direita e que lideram em engajamento digital tiveram votações expressivas, como Lucas Pavanato (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG). Ambos atuam como influenciadores na internet, produzindo conteúdos de política, e são ligados ao campo da direita. No Ceará, Fernandes ganhou notoriedade fazendo vídeos de humor na internet e, em seguida, abordando também política em seus conteúdos, em um período em que o bolsonarismo surgia e se fortalecia no país. Ele mistura temas da política nacional, local e de cunho pessoal. Em 2018 e 2022, ele já havia chegado à marca de deputado estadual e deputado federal mais votado do Ceará, respectivamente. André Fernandes (PL), deputado federal reeleito e mais votado no Ceará Ismael Soares / SVM Carla Quaresma, cientista política com estudos em Marketing Eleitoral, destaca que o uso da internet para comunicação política começou a ser feito por figuras que não encontravam espaço em mídias tradicionais. Segundo a pesquisadora, políticos da direita souberam utilizar as novas mídias para ganhar visibilidade. "Geralmente são candidaturas que se colocam nesse campo de oposição, que conversam muito com esse público insatisfeito, esse público mais jovem, que já é mais desapegado das mídias tradicionais. [...] Então, essas pessoas entenderam mais rapidamente que existem mecanismos próprios, uma linguagem própria, que é possível chegar a muita gente num espaço de tempo muito curto", afirma. Já Monalisa Soares, também cientista política e membro do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem) da Universidade Federal do Ceará (UFC), considera que a direita apresenta um discurso "mais aderente à lógica das plataformas", o que garante a maior visibilidade. "A direita, não é que ela necessariamente se comunica melhor, ainda que em alguns casos aconteça, mas os atores da direita desenvolveram melhores estratégias para compatibilizar, digamos assim, a lógica das plataformas", afirma. Tancredo dos Santos (PL), vereador de Caucaia e deputado estadual eleito pelo Ceará Câmara de Caucaia Esquerda busca ganhar espaço Figuras do campo da esquerda também têm se destacado nesse espaço. Conforme o estudo da Zeeng, entre os dez mais influentes do Instagram em 2026, a deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) surge na quarta posição. O presidente Lula (PT) e o deputado federal André Janones (Rede-MG) entram no Top 20 desse ranking. No Ceará, o vereador de Fortaleza Gabriel Biologia, filiado ao Psol, foi o segundo mais votado para a Assembleia do Ceará, com 141 mil votos. No Instagram, o parlamentar soma 232 mil seguidores. A diferença de votos entre ele e Tancredo dos Santos (o primeiro mais votado para Alece) foi de cerca de 9 mil votos. Na eleição de 2024, Gabriel já foi destaque como o segundo mais votado para a Câmara de Fortaleza, com 30.682 votos. Ele cresceu nas redes sociais produzindo conteúdo e fazendo denúncias na área de meio ambiente. Gabriel Biologia, vereador de Fortaleza e deputado estadual eleito pelo Ceará Reprodução/Site Gabriel Biologia Outro nome conhecido na internet antes de se candidatar a um cargo eletivo, Leo Suricate (Psol) foi o 40º mais votado. Ele foi eleito atrás de nomes ligados a grupos políticos tradicionais do Ceará. Para o professor Wagner Borges, que leciona nas áreas de Jornalismo e Marketing Político na Universidade de Fortaleza (Unifor), direita e esquerda trabalham de formas distintas nas redes, mas "a tecnologia não pertence a nenhum dos campos". "E onde é que aparece, talvez, a principal diferença? Exatamente na lógica da narrativa. A direita digital tende a trabalhar mais frequentemente com mensagens simples, a tal da polarização, antagonismo, identidade em termos capazes de produzir reação imediata. [...] Já a esquerda digital tende a trabalhar mais frequentemente com contextualização, políticas públicas, questões sociais, direitos, economia, diversidade. Mas quem larga na frente acaba impondo o debate". Ele também pontua que as plataformas privilegiam determinadas formas de produção de conteúdo e isso não pode ser ignorado por quem quer visibilidade nesses espaços. "O algoritmo teria a favorecer necessariamente a mensagem mais complexa? Não. Plataformas digitais valorizam determinadas formas de interação. Isso pode criar mensagens muito curtas, mas, de qualquer forma, não é necessariamente que um campo entenda mais da tecnologia. A questão toda é que a comunicação que geralmente se estabelece melhor [é a que] tem mais compatibilidade com a lógica de determinadas plataformas", analisa Wagner Borges. Política nas redes X política tradicional O desempenho eleitoral não é explicado unicamente por fatores como o alcance nas redes sociais dos candidatos. Monalisa Soares pontua que as votações expressivas que determinados candidatos alcançam também se explicam por outras razões, ligadas à política tradicional, como a quantidade de recursos investidos pelos partidos ou terceiros nas campanhas e os apoios de outras lideranças políticas. "Não é meramente ser influencer e automaticamente ser eleito, né? Existe aí, portanto, todo um trabalho que é produzido nessa presença online, mas que, também, não nega a política tradicional ou a forma tradicional de fazer [política], porque ela não nega outros recursos políticos e econômicos que são necessários para que essa presença, esse bom desempenho online, possa se converter em votos", analisa. Para ela, portanto, os meios tradicionais da política não são excluídos nesse processo de candidaturas fortemente ligadas à internet. Além disso, ela ressalta que nem todo influencer ou candidato que se destaca nas redes necessariamente irá se eleger. Redes sociais ganham centralidade nas eleições, apontam especialistas Agência Brasil Nas eleições deste ano no Ceará, políticos com forte histórico de trajetória focada na internet e nas redes sociais apresentaram desempenhos eleitorais diferentes. Na eleição para a Câmara, enquanto André Fernandes foi o mais votado, nomes como Célio Studart (PSD) e Carmelo Neto (PL) - ambos políticos com forte presença nas redes - ficaram nas posições 13º e 22º da lista de mais votados, respectivamente. Adaptação da política e dos políticos Os especialistas ouvidos pelo g1 concordam que a lógica da influência está se consolidando e não poderá mais ser ignorada pelos agentes políticos. Monalisa Soares, entretanto, ressalta que ela não muda outras estruturas ligadas à política tradicional. "Obviamente que os outros políticos também podem lançar mão dessa lógica de influência, buscando furar, digamos assim, esses intermediários na busca pela formação da uma opinião pública sobre a sua atuação, mas isso não significa que todos os políticos vão virar influencers", pondera. Porém, para a pesquisadora, "todos os políticos vão precisar compreender e entender essa lógica de influência, ou seja, como as redes sociais atuam nesse processo de difusão, de visibilidade, de disseminação das suas mensagens, da produção das identidades políticas, das identificações políticas". Segundo ela, a forma como ocorre a disputa pela atenção do eleitor mudou. Políticos tradicionais, que construíram suas trajetórias "offline", podem ficar atrás mesmo que possuam um histórico consolidado de atuação no Poder Público. Às vezes você tem de fato uma liderança que tem trajetória, que tem serviços prestados, que tem muita carreira política, digamos assim, mas que é alguém que não tem mais conseguido chegar ou disputar a atenção do eleitor, e o eleitor obviamente vai fazer uma escolha entre as ofertas que aparecem para ele. Então, os políticos que têm menos atenção a essa lógica de influência, portanto, que buscam menos passar por essa disputa permanente e personalizada de engajamento, de proximidade etc, são políticos que obviamente estão perdendo a oportunidade em alguma medida de apresentar essa sua trajetória." Impacto para a democracia Outro ponto em que os especialistas consultados pela reportagem concordam é que o próprio processo democrático é impactado pela atual lógica das redes sociais e como elas ditam as regras. Carla Quaresma alerta para o “esvaziamento do debate político” e outros possíveis efeitos. “Nessa campanha, nós vimos muito mais candidatos se utilizando das suas redes para criar espetáculo, exibicionismo, e o debate político foi secundarizado. Então, é como se o meio fosse uma lógica em si própria e não um instrumento para fazer com que o discurso chegasse até o eleitor. E aí, é claro, nós temos a perda do ponto de vista de que o momento eleitoral é o momento mais propício para que os candidatos apresentem quais são aqueles pontos que eles consideram mais relevantes para melhorar a vida em sociedade e como chegar até isso. É o que menos se vê na utilização dessas mídias sociais", afirma. "No final da campanha, o que fica é somente o lúdico, o entretenimento que foi feito pelas campanhas eleitorais. O eleitor sequer sabe o que cobrar na condução dos mandatos porque o debate político não foi feito”, completa Quaresma. Wagner Borges destaca que a lógica das redes sociais não é propícia ao debate público, o que é fundamental na democracia. “Uma coisa que me preocupa muito é o fato de que, quando estamos no digital, uma questão evidentemente lógica, essa cultura do corte, essa cultura muito rápida não traz reflexão, não enriquece o debate. E o debate, que é o que, em tese, todo mundo quer [...], isso está totalmente em segundo plano”, conclui. Para Monalisa Soares, o desafio não está necessariamente nos políticos “influencers”, mas no fato de que a capacidade de atrair a atenção do eleitor se torna mais relevante do que a capacidade de produzir uma representação política plena. “Esses políticos influencers que são extremamente bem votados, que tem muita visibilidade, ao longo dos seus mandatos, mantêm muitas vezes uma lógica de performatividade que passa pelos discursos, pelas disputas nas redes, pelas disputas na tribuna, mas se esmiúça pouco a atuação efetivamente política deles, quantos projetos de leis foram aprovados, quantos foram apresentados. Então, eu acho que isso também é preciso articular. O político pode ser influencer, pode fazer uma grande visibilidade, mas a prestação de contas, digamos assim, a accountability sobre o seu mandato também precisa acontecer para além da performance e da influência”, acredita a pesquisadora. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará: