Política externa americana levanta dúvidas sobre a posição chinesa na América do Sul
A invasão dos Estados Unidos na Venezuela acendeu alerta na China.
As Nações Unidas avaliam que as ações americanas na Venezuela abrem um "precedente perigoso" na geopolítica.
A operação de sábado é resultado da mudança da política externa do governo Donald Trump. Em dezembro, o presidente anunciou que estava atualizando a Doutrina Monroe que moldou a política externa do país por mais de 200 anos.
Essa doutrina prega a américa para os americanos. Um conceito que cria a divisão do mundo em esferas de influência - onde potências como a Rússia e China - teriam o controle sobre suas regiões. Ao longo de décadas ela foi usada pelos Estados Unidos pra justificar intervenções em países americanos.
A Europa não esconde a preocupação de como essa política de Trump pode desencadear um efeito dominó para novas intervenções. Os americanos deixaram uma porta aberta - um precedente "terrível" nas palavras de líderes europeus.
"A preocupação é que a China passe a adotar o mesmo modelo de atuação dos Estados Unidos nas relações internacionais em que vale a lei do mais forte. A China pode entender que pode, no momento também exercer a força militar contra Taiwan", comenta Hussein Kalout, professor de Relações Internacionais da USP.
A China considera Taiwan uma província rebelde e o presidente Xi Jinping diz que quer retomá-la. A ilha é a maior produtora mundial de chips semicondutores - que estão em toda parte: de carros a geladeiras. Nessa virada de ano Pequim executou uma série de exercícios militares bem perto da ilha.
Mas essa politica expansionista também tem seus riscos para Pequim. A China é hoje a grande fabrica do mundo. Está conectada à cadeia produtiva de todos os continentes e as medidas intervencionistas podem ter impacto direto sobre os negócios chineses.
Na área de infraestrutura, a América Latina se tornou uma peça importante dos investimentos da China. A maioria dos países da região já faz parte da iniciativa trilionária conhecida como a nova rota da seda: uma estratégia de política externa de Pequim, que busca ampliar ainda mais a influência do país no mundo.
O Panamá foi um dos primeiros a assinar um acordo. Mas saiu em 2025, por pressão dos Estados Unidos, que queriam afastar a interferência chinesa do Canal do Panamá - que liga os oceanos Atlântico e Pacífico.
Em novembro de 2024, o presidente Xi Jinping foi até o Peru inaugurar o Porto de Chancay - que liga o território chinês à América Latina pelo Oceano Pacífico. A china investiu ali mais de US$ 3,5 bilhões de investimento .
O líder chinês anunciou também uma linha de crédito de 10 bilhões de yuans para investimentos de empresas chinesas em países latinos.
A China é o maior parceiro comercial do Brasil e importava 70% do petróleo produzido na Venezuela.
"As ações expansionistas e intervencionistas dos Estados Unidos. A depender da forma como podem ocorrer, elas definitivamente podem colidir com os interesses econômicos e comerciais da China. Na América Latina, a China é um grande investidor, é uma força comercial importante para muitos países. E se os Estados Unidos optarem por exercer a força e a coerção como método diplomático e método securitário e que isso confronte os interesses chineses, obviamente que isso pode despertar o desejo da China de agir de forma coercitiva e de forma intervencionista, seja na América Latina, ou seja, a partir de retaliações cruzadas em outros espaços geográficos, como na Ásia", diz Hussein Kalout, professor de Relações Internacionais da USP.
Invasão dos EUA na Venezuela abre precedente para China também exercer força militar; entenda
Escrito em 09/01/2026

