Quando ouvimos uma opinião contrária à nossa, várias regiões do cérebro ligadas ao processamento da dor e de ameaças são ativadas Getty Images via BBC Ouvir uma opinião contrária à nossa raramente deixa de nos provocar uma reação. E apesar de atribuirmos a dificuldade de lidar com opiniões divergentes a fatores culturais ou pessoais, a ciência mostra que ela tem raízes profundas no funcionamento do cérebro. A neurociência ajuda a explicar por que é tão difícil ouvir opiniões diferentes. A discordância ativa sistemas cerebrais voltados para detectar conflitos e manter a coerência interna. Isso ajuda a entender por que reagimos tão rápido e, muitas vezes, com resistência a ideias que vão contra as nossas crenças. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Cérebro detecta o conflito antes de raciocinar Quando ouvimos uma ideia que contradiz a nossa forma de pensar, o cérebro não começa avaliando argumentos. Primeiro, ele detecta que existe um conflito. Uma das regiões envolvidas nesse processo é o córtex cingulado anterior (CCA). Essa estrutura funciona como um radar responsável por identificar inconsistências entre nossas expectativas e a realidade, assim como conflitos entre respostas ou entre crenças. Por isso, o CCA funciona como "um radar de incongruências". Evidências da neurociência mostram que o CCA faz parte de circuitos envolvidos tanto no controle cognitivo quanto no processamento da dor física e social. Assim, uma opinião contrária pode ser recebida pelo nosso cérebro como algo desconfortável ou ameaçador, mesmo quando não há confronto direto. Além do córtex cingulado anterior, outras regiões também são ativadas. Uma delas é a amígdala, envolvida na resposta a ameaças. Outra área importante é a ínsula, relacionada à percepção do mal-estar do corpo. O resultado desse processo é familiar para todos: um nó no estômago, tensão no corpo e a tendência a se defender ou encerrar a conversa. Por fim, entra em ação o córtex pré-frontal dorsolateral, responsável por funções como o planejamento, a inibição de impulsos e a tomada de decisões. Entender como seu cérebro funciona pode ajudar a regulá-lo Getty Images via BBC O custo emocional de aceitar outro ponto de vista Aceitar uma visão oposta à nossa exige um esforço considerável. O cérebro precisa manter, ao mesmo tempo, dois modelos mentais incompatíveis: "o que eu acredito" e "o que você diz". Além disso, precisa compará-los e decidir se algum deles deve ser modificado. Do ponto de vista energético, essa é uma operação exigente. A esse esforço soma-se a dissonância cognitiva: o mal-estar que surge quando uma informação ameaça a coerência da nossa visão de mundo ou da nossa identidade. Em muitos casos, esse desconforto não se resolve ouvindo o outro, mas justificando aquilo em que já acreditávamos. É o que se chama de "raciocínio motivado". Por outro lado, muitas crenças estão ligadas ao sentimento de pertencimento a um grupo. Mudar de perspectiva pode ser vivido, ainda que de forma inconsciente, como um risco social: passar vergonha, perder status ou sentir-se excluído. O cérebro social está especialmente orientado a evitar esse tipo de ameaça. Estresse dificulta ouvir e pensar com calma Um fator-chave em todo esse processo é o estresse. Quando o estresse é alto ou prolongado, o sistema nervoso entra em estado de alerta, o que reduz a capacidade do córtex pré-frontal de regular as emoções e lidar com as discordâncias de forma calma. Nesse estado, ouvir se torna especialmente difícil. A boa notícia é que esses sistemas são maleáveis. As regiões do cérebro envolvidas no conflito, na emoção e no controle mudam com a experiência e a prática. Getty Images via BBC Treinando a capacidade de ouvir A dificuldade de ouvir opiniões contrárias está cada vez mais presente no debate social e cultural, especialmente em contextos em que as decisões têm consequências compartilhadas, como equipes de trabalho, instituições ou espaços de liderança. Um desacordo mal administrado tende a escalar para conflitos interpessoais, falhas de comunicação e deterioração do clima emocional. Isso é muito comum em ambientes de trabalho cuja exigência é muito alta. Felizmente podemos nos treinar para ouvir com calma — algo que melhora a habilidade de liderança e a tomada de decisões. Práticas como mindfulness e o biofeedback diminuem a reatividade automática e aumentam a capacidade de observar a divergência sem responder de forma impulsiva. Por exemplo, estudos sobre as redes cerebrais em repouso mostram que a prática contínua de mindfulness modula redes ligadas à regulação emocional e à flexibilidade cognitiva. Isso contribui para respostas mais equilibradas diante de opiniões divergentes. Por outro lado, nossos projetos de pesquisa do grupo Neurociência do Bem-estar da Universidade de Sevilha têm mostrado que treinar a regulação fisiológica e emocional está associado a uma maior capacidade de pensar antes de responder, ouvir com menos reatividade e conduzir conversas difíceis com mais clareza. O estresse nos deixa em alerta, o que por sua vez nos dificulta escutar aos outros Getty Images via BBC O mais importante não é evitar o desconforto, mas aprender a regulá-lo para que não se transforme em uma rejeição automática. Ouvir não significa ceder nem abrir mão dos próprios valores. Significa sustentar o desconforto pelo tempo suficiente para ampliar o horizonte a partir do qual tomamos decisões. Em um mundo cada vez mais polarizado, a capacidade de escutar opiniões diferentes é uma habilidade neurocognitiva que pode ser treinada. Entender como o cérebro responde às divergências é o primeiro passo para deixar de reagir automaticamente a uma opinião contrária e começar a responder com mais calma, clareza e humanidade. *Francisco Manuel Ocaña Campos é o pesquisador principal do Grupo de Neurociência do Bem-Estar do Departamento de Psicologia da Universidade de Sevilha, na Espanha. *Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em espanhol). Bebidas açucaradas elevam em 34% o risco de transtornos de ansiedade em adolescentes, aponta estudo Por que alguns cérebros não conseguem superar a perda O que diz a ciência sobre vigiar o ex nas redes sociais
O que acontece no cérebro quando ouvimos opiniões diferentes — e como treinar nossa capacidade de escuta
Escrito em 19/02/2026
Quando ouvimos uma opinião contrária à nossa, várias regiões do cérebro ligadas ao processamento da dor e de ameaças são ativadas Getty Images via BBC Ouvir uma opinião contrária à nossa raramente deixa de nos provocar uma reação. E apesar de atribuirmos a dificuldade de lidar com opiniões divergentes a fatores culturais ou pessoais, a ciência mostra que ela tem raízes profundas no funcionamento do cérebro. A neurociência ajuda a explicar por que é tão difícil ouvir opiniões diferentes. A discordância ativa sistemas cerebrais voltados para detectar conflitos e manter a coerência interna. Isso ajuda a entender por que reagimos tão rápido e, muitas vezes, com resistência a ideias que vão contra as nossas crenças. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Cérebro detecta o conflito antes de raciocinar Quando ouvimos uma ideia que contradiz a nossa forma de pensar, o cérebro não começa avaliando argumentos. Primeiro, ele detecta que existe um conflito. Uma das regiões envolvidas nesse processo é o córtex cingulado anterior (CCA). Essa estrutura funciona como um radar responsável por identificar inconsistências entre nossas expectativas e a realidade, assim como conflitos entre respostas ou entre crenças. Por isso, o CCA funciona como "um radar de incongruências". Evidências da neurociência mostram que o CCA faz parte de circuitos envolvidos tanto no controle cognitivo quanto no processamento da dor física e social. Assim, uma opinião contrária pode ser recebida pelo nosso cérebro como algo desconfortável ou ameaçador, mesmo quando não há confronto direto. Além do córtex cingulado anterior, outras regiões também são ativadas. Uma delas é a amígdala, envolvida na resposta a ameaças. Outra área importante é a ínsula, relacionada à percepção do mal-estar do corpo. O resultado desse processo é familiar para todos: um nó no estômago, tensão no corpo e a tendência a se defender ou encerrar a conversa. Por fim, entra em ação o córtex pré-frontal dorsolateral, responsável por funções como o planejamento, a inibição de impulsos e a tomada de decisões. Entender como seu cérebro funciona pode ajudar a regulá-lo Getty Images via BBC O custo emocional de aceitar outro ponto de vista Aceitar uma visão oposta à nossa exige um esforço considerável. O cérebro precisa manter, ao mesmo tempo, dois modelos mentais incompatíveis: "o que eu acredito" e "o que você diz". Além disso, precisa compará-los e decidir se algum deles deve ser modificado. Do ponto de vista energético, essa é uma operação exigente. A esse esforço soma-se a dissonância cognitiva: o mal-estar que surge quando uma informação ameaça a coerência da nossa visão de mundo ou da nossa identidade. Em muitos casos, esse desconforto não se resolve ouvindo o outro, mas justificando aquilo em que já acreditávamos. É o que se chama de "raciocínio motivado". Por outro lado, muitas crenças estão ligadas ao sentimento de pertencimento a um grupo. Mudar de perspectiva pode ser vivido, ainda que de forma inconsciente, como um risco social: passar vergonha, perder status ou sentir-se excluído. O cérebro social está especialmente orientado a evitar esse tipo de ameaça. Estresse dificulta ouvir e pensar com calma Um fator-chave em todo esse processo é o estresse. Quando o estresse é alto ou prolongado, o sistema nervoso entra em estado de alerta, o que reduz a capacidade do córtex pré-frontal de regular as emoções e lidar com as discordâncias de forma calma. Nesse estado, ouvir se torna especialmente difícil. A boa notícia é que esses sistemas são maleáveis. As regiões do cérebro envolvidas no conflito, na emoção e no controle mudam com a experiência e a prática. Getty Images via BBC Treinando a capacidade de ouvir A dificuldade de ouvir opiniões contrárias está cada vez mais presente no debate social e cultural, especialmente em contextos em que as decisões têm consequências compartilhadas, como equipes de trabalho, instituições ou espaços de liderança. Um desacordo mal administrado tende a escalar para conflitos interpessoais, falhas de comunicação e deterioração do clima emocional. Isso é muito comum em ambientes de trabalho cuja exigência é muito alta. Felizmente podemos nos treinar para ouvir com calma — algo que melhora a habilidade de liderança e a tomada de decisões. Práticas como mindfulness e o biofeedback diminuem a reatividade automática e aumentam a capacidade de observar a divergência sem responder de forma impulsiva. Por exemplo, estudos sobre as redes cerebrais em repouso mostram que a prática contínua de mindfulness modula redes ligadas à regulação emocional e à flexibilidade cognitiva. Isso contribui para respostas mais equilibradas diante de opiniões divergentes. Por outro lado, nossos projetos de pesquisa do grupo Neurociência do Bem-estar da Universidade de Sevilha têm mostrado que treinar a regulação fisiológica e emocional está associado a uma maior capacidade de pensar antes de responder, ouvir com menos reatividade e conduzir conversas difíceis com mais clareza. O estresse nos deixa em alerta, o que por sua vez nos dificulta escutar aos outros Getty Images via BBC O mais importante não é evitar o desconforto, mas aprender a regulá-lo para que não se transforme em uma rejeição automática. Ouvir não significa ceder nem abrir mão dos próprios valores. Significa sustentar o desconforto pelo tempo suficiente para ampliar o horizonte a partir do qual tomamos decisões. Em um mundo cada vez mais polarizado, a capacidade de escutar opiniões diferentes é uma habilidade neurocognitiva que pode ser treinada. Entender como o cérebro responde às divergências é o primeiro passo para deixar de reagir automaticamente a uma opinião contrária e começar a responder com mais calma, clareza e humanidade. *Francisco Manuel Ocaña Campos é o pesquisador principal do Grupo de Neurociência do Bem-Estar do Departamento de Psicologia da Universidade de Sevilha, na Espanha. *Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em espanhol). Bebidas açucaradas elevam em 34% o risco de transtornos de ansiedade em adolescentes, aponta estudo Por que alguns cérebros não conseguem superar a perda O que diz a ciência sobre vigiar o ex nas redes sociais

