Os influencers que arriscam a vida para ter uma foto perfeita com tubarões

Escrito em 17/08/2026


Um tubarão-lixa mordeu Tayane Dalazen enquanto ela mergulhava na costa brasileira Tayane Dalazen/via BBC Brasil "Percebi que algo estava diferente porque os tubarões estavam na superfície", diz Tayane Dalazen, advogada e influenciadora digital brasileira de 37 anos. "Havia muitos deles", conta ela. "Mais tarde, descobri que [os organizadores do passeio] estavam alimentando os tubarões para que eles interagissem com os turistas." Dalazen, natural de São Paulo, participava de um passeio de mergulho com tubarões no litoral brasileiro em abril quando, de repente, sentiu uma "forte pressão" na perna. "Quando o tubarão me mordeu, a dor foi muito intensa", relata. "Mantive a calma porque sabia que não conseguiria lutar contra o animal." Agora no g1 Um tubarão-lixa, com mais de dois metros de comprimento, havia prendido as mandíbulas em sua coxa. Após mantê-la submersa por alguns segundos, o tubarão a soltou e ela conseguiu escapar. No entanto, Dalazen afirma que a experiência — que lhe causou lacerações na coxa — foi "muito assustadora". Dalazen publicou imagens da mordida do tubarão na internet; desde então, o vídeo já foi visto dezenas de milhões de vezes. Embora afirme que "não estava lá pelas redes sociais" e que não tocou nem provocou o tubarão, ela admite que estava muito próxima dos animais. Brasil está entre países com mais casos de ataques de tubarão; veja ranking Casos recentes Incidentes de tubarões mordendo humanos são extremamente raros, mas ao menos três influenciadores foram mordidos por esses animais em menos de um ano. Cientistas afirmam estar cada vez mais preocupados com o aumento de vídeos nas redes que mostram pessoas nadando muito perto de tubarões, tocando ou até montando neles. "Vejo esses vídeos toda semana agora, e a frequência é muito maior do que costumava ser", diz o cientista especialista em tubarões Kristian Parton, que também apresenta o canal Shark Bytes no YouTube. "Vamos ver pessoas se envolvendo em incidentes muito graves com tubarões." Em julho, um influenciador do ramo da pesca quase perdeu a perna após ser atacado por um tubarão-de-recife enquanto praticava pesca submarina. Em dezembro, um criador de conteúdo chinês foi mordido nas Maldivas. Ambos os incidentes foram registrados em vídeo. Pesquisadores do International Shark Attack File, o Arquivo Internacional de Ataques de Tubarão, que monitora interações entre humanos e tubarões em todo o mundo, também informaram à BBC News que observaram um aumento acentuado, nos últimos três anos, no número de pessoas mordidas enquanto tentavam fazer fotos com tubarões. Qual é o risco de ser mordido? Um estudo recente sobre expedições de "natação com animais selvagens" constatou que influenciadores e fotógrafos eram os mais propensos a ignorar as instruções de segurança. Em fevereiro do ano passado, um turista no Caribe teve as duas mãos arrancadas por mordidas ao tentar fotografar um tubarão-cabeça-chata em águas rasas, segundo autoridades locais. Dois meses depois, um praticante de snorkeling em Israel, que portava um "pau de selfie", foi morto por tubarões, supostamente enquanto tentava tirar fotos. O risco de ser mordido permanece extremamente baixo: o número de ataques de tubarões não provocados em todo o mundo manteve-se praticamente estável nos últimos 30 anos, em cerca de 70 mordidas por ano. Enquanto Tayane Dalazen foi mordida por um tubarão-lixa — conhecido por ser uma espécie mais dócil —, alguns influenciadores foram filmados tocando em tubarões-tigre e até mesmo em tubarões-brancos. "Estamos falando de um verdadeiro predador de topo de cadeia, um animal selvagem de grande porte", diz Parton. "Você não entraria no Serengeti e tentaria colocar a mão no rosto de um leão." Os tubarões frequentemente recorrem a mordidas defensivas ou "exploratórias" quando se deparam com a presença indesejada de um humano em seu espaço pessoal, acrescenta ele. Interações com humanos também podem causar estresse aos animais. Estudos demonstraram que a aproximação ou o contato com um tubarão eleva os níveis de hormônios chamados glicocorticoides. Isso pode resultar em enfraquecimento do sistema imunológico, aumento da mortalidade e perda de filhotes. "Ao se aproximar do tubarão e estressá-lo — seja em um berçário, área de reprodução ou zona de alimentação —, você o priva de um espaço vital para sua sobrevivência", explica Parton. "Isso é, sem dúvida, um problema." Uma das criadoras de conteúdo sobre tubarões mais conhecidas é Ocean Ramsey, uma ex-modelo de 38 anos que ganhou fama em 2019 após ser fotografada nadando com um dos maiores tubarões-brancos já vistos. Ela frequentemente publica imagens tocando tubarões e segurando suas nadadeiras dorsais. Ela falou à BBC de um barco no Havaí, onde organiza passeios de mergulho com tubarões — a "Dive with Ocean" — para os seus clientes. "Meu objetivo com todo o meu conteúdo nunca foi ganhar visualizações, mas promover a proteção dos tubarões", diz Ramsey. "Já colaborei com artigos de pesquisa e coleta de dados. Todo o meu trabalho se resume à educação." Ela nega que se aproximar dos tubarões e tocá-los cause algum dano: "A maior parte do meu trabalho e do que compartilho envolve respeito e observação à distância", afirma. "Eu observo o comportamento deles, e eles escolhem interagir comigo. Eles sempre tomam a iniciativa da aproximação." E quanto às alegações de cientistas de que vídeos mostrando tubarões sendo tocados incentivam outras pessoas a correr riscos e fazer o mesmo? "É preciso confiar no bom senso do público em geral", insiste Ramsey. "Acredito que a maioria das pessoas vê o que compartilho como uma mensagem educativa e não sai por aí simplesmente tentando replicar isso." O alerta dos especialistas A BBC conversou com vários criadores de conteúdo, e todos negaram ser motivados por visualizações, cliques ou receitas nas redes sociais e insistiram que estavam apoiando a conservação ou tentando mudar a percepção pública sobre os tubarões. O especialista em tubarões Jack Cooper classifica essas alegações como "absurdas". "Realmente não consigo explicar de que maneira chegar perto de um tubarão e tocá-lo ou montá-lo ajuda na conservação", diz ele. "Tudo o que se faz é mostrar um tubarão sendo importunado por um ser humano. E isso não promove nenhuma política sobre o que poderíamos fazer para reduzir a pesca predatória ou oferecer mais proteção aos tubarões. Tampouco fornece dados científicos que nos indiquem a situação das populações de tubarões ou quais políticas poderiam realmente ajudar a conservá-las." Eric Clua, biólogo marinho da École Pratique des Hautes Études, em Paris, que pesquisa as motivações por trás das mordidas de tubarão, afirma que o número de incidentes causados ​​pela aproximação excessiva de pessoas em relação aos tubarões está aumentando, uma vez que elas passaram a considerá-los menos perigosos do que antes. "A mensagem transmitida pelos influenciadores é: 'Olha! Toque no tubarão, nada vai acontecer com você'", diz ele. A prática de nadar e mergulhar com tubarões vem ganhando enorme popularidade em todo o mundo. O site de viagens TripAdvisor lista atualmente mais de 140 experiências desse tipo apenas nas Maldivas. Algumas das ofertas prometem "a selfie definitiva" com tubarões. No entanto, o alerta dos especialistas é claro: conseguir a foto perfeita pode custar caro — e de forma dolorosa.