Novas imagens revelam nervos do clitóris em 3D e mudam o que se sabia sobre corpo feminino Mulheres com síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP) têm um risco até quatro vezes maior de sofrer eventos cardiovasculares graves, como infarto, AVC e doença arterial periférica, do que mulheres sem a condição. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health. ➡️ A SOMP é uma das condições hormonais mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva. Ela afeta a ovulação e pode causar menstruação irregular, aumento de pelos, acne e dificuldade para engravidar. Mas seus efeitos vão além do sistema reprodutivo: a síndrome também está associada a resistência à insulina, obesidade e alterações no metabolismo. Até maio de 2026, a condição era conhecida como síndrome dos ovários policísticos (SOP). Por décadas, esse nome ajudou a consolidar a ideia de que se tratava de um problema ginecológico isolado — quando, na verdade, é uma condição hormonal e metabólica mais ampla, que afeta inclusive a saúde do coração das mulheres. O que a pesquisa revela é que a SOMP exige atenção redobrada à saúde do coração das pacientes — independentemente da idade, do histórico cardíaco pessoal ou de casos de doença cardíaca na família. No estudo, mesmo isolando essas agravantes, o risco ainda era alto. Para os especialistas ouvidos pelo g1, a pesquisa reforça a necessidade do acompanhamento da saúde cardíaca das pacientes diagnosticadas com a síndrome. No Brasil, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre mulheres. Mulheres com síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP) têm um risco até quatro vezes maior de sofrer eventos cardiovasculares graves Divulgação O que mostrou o novo estudo A pesquisa foi feita com base em um banco de dados de pacientes dos Estados Unidos, usando dados de mais de 400 mil mulheres, entre 18 e 50 anos com diagnóstico de SOMP. Os pesquisadores acompanharam a ocorrência de doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA), o que inclui: infarto; AVC; doença arterial periférica, quando o acúmulo de placas de gordura estreita as artérias. O resultado: mulheres com SOMP tiveram risco 4,4 vezes maior de sofrer esses eventos cardiovasculares do que as mulheres do grupo de referência. Síndrome afeta milhões de mulheres no mundo Sora Shimazaki O grupo com SOMP já apresentava, no início do estudo, mais fatores de risco cardiovascular tradicionais — diabetes, colesterol alterado, obesidade e hipertensão — do que o grupo de referência. Isso acontece pelo próprio quadro da doença, que causa a resistência à insulina. (Leia mais abaixo) 🔴 Mas o ponto central da pesquisa é que essa diferença, sozinha, não explica o resultado: o risco mais alto se manteve mesmo depois de os pesquisadores isolarem o efeito desses fatores. Ou seja, diabetes, colesterol, obesidade e pressão alta, por si sós, não explicam os achados — algo na própria síndrome parece contribuir de forma independente para o risco cardiovascular. A partir desses resultados, os autores do estudo defendem mais educação de profissionais de saúde e mais conscientização das próprias pacientes sobre o risco cardiovascular ligado à SOMP para que haja atendimento precoce e se evitem quadros mais graves . A pesquisa reforça o que a gente vem falando: é uma doença metabólica que afeta muito mais a vida da paciente do que só os ovários. É preciso olhar para a saúde do coração, um acompanhamento para evitar que essa paciente evolua para quadros mais graves "Isso reforça a necessidade tanto de capacitar os profissionais de saúde quanto de empoderar as pacientes em relação à prevenção, por meio da adoção e manutenção de hábitos de vida saudáveis como primeira linha de cuidado. É fundamental desenvolver e implementar intervenções preventivas, políticas públicas de saúde para reduzir o risco cardiovascular a longo prazo", afirma Cristina Carrasco, professora substituta e pesquisadora do Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina e Ciências da Saúde da Universidade da Extremadura. A proposta dos autores é que a análise sirva de resposta a uma pergunta que ainda não tinha dados robustos: qual é, de fato, o risco cardiovascular em mulheres com a síndrome. No entanto, especialistas alertam que, apesar da importância e robustez pelo volume de dados, há limitações. O estudo analisou informações de banco de dados e não pacientes em si. Além disso, o estudo tem um recorte geográfico específico: é preciso que pesquisas locais confirmem se o mesmo padrão se repete em outras populações. Jovem de 30 anos tem AVC após dor de cabeça; casos sobem entre os mais novos Por que a síndrome afeta o coração? O que explica a ligação com o coração é que a SOMP não se limita aos ovários: ela envolve alterações em vários hormônios ao mesmo tempo — insulina, andrógenos (os hormônios masculinos), o hormônio luteinizante (LH) e o próprio AMH. O ponto de partida costuma ser a resistência à insulina, quando as células do corpo respondem mal ao hormônio que controla o açúcar no sangue. Ela está presente em cerca de 85% das pessoas com a síndrome, incluindo 75% das mulheres magras. Essa resistência piora a produção de andrógenos e empurra o corpo para um conjunto de alterações que caminham juntas: obesidade, pré-diabetes, diabetes tipo 2, colesterol alto, pressão elevada e gordura no fígado. É esse pacote metabólico — e não apenas os ovários — que eleva o risco cardiovascular nessas mulheres. "A resistência à insulina faz o tecido gorduroso crescer, principalmente o tecido gorduroso central, visceral. Isso já contribui para o processo inflamatório que traz risco cardiovascular", explica o ginecologista Marcelo Steiner, especialista em Ginecologia Endócrina. Mais da metade das mulheres relata dor severa na colocação do DIU, aponta pesquisa O que isso muda no acompanhamento? 🔴 Desde 2023, já existe uma recomendação internacional orientando a avaliação do risco cardiovascular desde o diagnóstico da SOMP. Mas essa orientação ainda não chegou de forma consistente à rotina de atendimento das mulheres. O novo estudo reforça a urgência de mudar esse cenário. O monitoramento cardiológico não deveria depender da presença de outros fatores de risco já conhecidos, nem esperar a mulher entrar na faixa etária em que doenças cardiovasculares costumam aparecer. Como a SOMP costuma ser diagnosticada ainda na juventude, o rastreamento pode — e, segundo os autores do estudo, deveria — começar ali, décadas antes. No Brasil, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre mulheres. Rastrear esse risco desde o diagnóstico de SOMP pode significar identificar e tratar um problema antes que ele evolua para um quadro fatal. É preciso tirar essa mulher da população geral e falar: daqui para frente, a gente vai te acompanhar mais de perto. O seguimento tem que ser muito mais cuidadoso e mais próximo.
Mulheres com SOMP têm risco cardíaco 4 vezes maior mesmo sem diabetes, obesidade ou pressão alta, aponta estudo
Escrito em 23/07/2026
Novas imagens revelam nervos do clitóris em 3D e mudam o que se sabia sobre corpo feminino Mulheres com síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP) têm um risco até quatro vezes maior de sofrer eventos cardiovasculares graves, como infarto, AVC e doença arterial periférica, do que mulheres sem a condição. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health. ➡️ A SOMP é uma das condições hormonais mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva. Ela afeta a ovulação e pode causar menstruação irregular, aumento de pelos, acne e dificuldade para engravidar. Mas seus efeitos vão além do sistema reprodutivo: a síndrome também está associada a resistência à insulina, obesidade e alterações no metabolismo. Até maio de 2026, a condição era conhecida como síndrome dos ovários policísticos (SOP). Por décadas, esse nome ajudou a consolidar a ideia de que se tratava de um problema ginecológico isolado — quando, na verdade, é uma condição hormonal e metabólica mais ampla, que afeta inclusive a saúde do coração das mulheres. O que a pesquisa revela é que a SOMP exige atenção redobrada à saúde do coração das pacientes — independentemente da idade, do histórico cardíaco pessoal ou de casos de doença cardíaca na família. No estudo, mesmo isolando essas agravantes, o risco ainda era alto. Para os especialistas ouvidos pelo g1, a pesquisa reforça a necessidade do acompanhamento da saúde cardíaca das pacientes diagnosticadas com a síndrome. No Brasil, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre mulheres. Mulheres com síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP) têm um risco até quatro vezes maior de sofrer eventos cardiovasculares graves Divulgação O que mostrou o novo estudo A pesquisa foi feita com base em um banco de dados de pacientes dos Estados Unidos, usando dados de mais de 400 mil mulheres, entre 18 e 50 anos com diagnóstico de SOMP. Os pesquisadores acompanharam a ocorrência de doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA), o que inclui: infarto; AVC; doença arterial periférica, quando o acúmulo de placas de gordura estreita as artérias. O resultado: mulheres com SOMP tiveram risco 4,4 vezes maior de sofrer esses eventos cardiovasculares do que as mulheres do grupo de referência. Síndrome afeta milhões de mulheres no mundo Sora Shimazaki O grupo com SOMP já apresentava, no início do estudo, mais fatores de risco cardiovascular tradicionais — diabetes, colesterol alterado, obesidade e hipertensão — do que o grupo de referência. Isso acontece pelo próprio quadro da doença, que causa a resistência à insulina. (Leia mais abaixo) 🔴 Mas o ponto central da pesquisa é que essa diferença, sozinha, não explica o resultado: o risco mais alto se manteve mesmo depois de os pesquisadores isolarem o efeito desses fatores. Ou seja, diabetes, colesterol, obesidade e pressão alta, por si sós, não explicam os achados — algo na própria síndrome parece contribuir de forma independente para o risco cardiovascular. A partir desses resultados, os autores do estudo defendem mais educação de profissionais de saúde e mais conscientização das próprias pacientes sobre o risco cardiovascular ligado à SOMP para que haja atendimento precoce e se evitem quadros mais graves . A pesquisa reforça o que a gente vem falando: é uma doença metabólica que afeta muito mais a vida da paciente do que só os ovários. É preciso olhar para a saúde do coração, um acompanhamento para evitar que essa paciente evolua para quadros mais graves "Isso reforça a necessidade tanto de capacitar os profissionais de saúde quanto de empoderar as pacientes em relação à prevenção, por meio da adoção e manutenção de hábitos de vida saudáveis como primeira linha de cuidado. É fundamental desenvolver e implementar intervenções preventivas, políticas públicas de saúde para reduzir o risco cardiovascular a longo prazo", afirma Cristina Carrasco, professora substituta e pesquisadora do Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina e Ciências da Saúde da Universidade da Extremadura. A proposta dos autores é que a análise sirva de resposta a uma pergunta que ainda não tinha dados robustos: qual é, de fato, o risco cardiovascular em mulheres com a síndrome. No entanto, especialistas alertam que, apesar da importância e robustez pelo volume de dados, há limitações. O estudo analisou informações de banco de dados e não pacientes em si. Além disso, o estudo tem um recorte geográfico específico: é preciso que pesquisas locais confirmem se o mesmo padrão se repete em outras populações. Jovem de 30 anos tem AVC após dor de cabeça; casos sobem entre os mais novos Por que a síndrome afeta o coração? O que explica a ligação com o coração é que a SOMP não se limita aos ovários: ela envolve alterações em vários hormônios ao mesmo tempo — insulina, andrógenos (os hormônios masculinos), o hormônio luteinizante (LH) e o próprio AMH. O ponto de partida costuma ser a resistência à insulina, quando as células do corpo respondem mal ao hormônio que controla o açúcar no sangue. Ela está presente em cerca de 85% das pessoas com a síndrome, incluindo 75% das mulheres magras. Essa resistência piora a produção de andrógenos e empurra o corpo para um conjunto de alterações que caminham juntas: obesidade, pré-diabetes, diabetes tipo 2, colesterol alto, pressão elevada e gordura no fígado. É esse pacote metabólico — e não apenas os ovários — que eleva o risco cardiovascular nessas mulheres. "A resistência à insulina faz o tecido gorduroso crescer, principalmente o tecido gorduroso central, visceral. Isso já contribui para o processo inflamatório que traz risco cardiovascular", explica o ginecologista Marcelo Steiner, especialista em Ginecologia Endócrina. Mais da metade das mulheres relata dor severa na colocação do DIU, aponta pesquisa O que isso muda no acompanhamento? 🔴 Desde 2023, já existe uma recomendação internacional orientando a avaliação do risco cardiovascular desde o diagnóstico da SOMP. Mas essa orientação ainda não chegou de forma consistente à rotina de atendimento das mulheres. O novo estudo reforça a urgência de mudar esse cenário. O monitoramento cardiológico não deveria depender da presença de outros fatores de risco já conhecidos, nem esperar a mulher entrar na faixa etária em que doenças cardiovasculares costumam aparecer. Como a SOMP costuma ser diagnosticada ainda na juventude, o rastreamento pode — e, segundo os autores do estudo, deveria — começar ali, décadas antes. No Brasil, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre mulheres. Rastrear esse risco desde o diagnóstico de SOMP pode significar identificar e tratar um problema antes que ele evolua para um quadro fatal. É preciso tirar essa mulher da população geral e falar: daqui para frente, a gente vai te acompanhar mais de perto. O seguimento tem que ser muito mais cuidadoso e mais próximo.

