Câmeras corporais mostram PMs fazendo 'roleta-russa' com adolescentes; militares são condenados por tortura

Escrito em 20/07/2026

PM faz roleta-russa com adolescente e é condenado por tortura Imagens registradas por câmeras corporais registrarem agressões, ameaças com armas e uma 'roleta-russa' contra dois adolescentes durante uma operação na Favela da Caixa D'Água, na Zona Leste de São Paulo. As imagens também mostram invasões a casas sem ordem judicial e o desaparecimento de um material que os policiais tratavam como drogas. Os militares foram condenados pela Justiça Militar. As gravações foram feitas pouco antes das quatro da tarde, em fevereiro do ano passado. Dois policiais abordam um adolescente. O cabo Sandro Nascimento o segura pela camiseta e pelo pescoço. Em seguida, o soldado Eduardo Uchoa dá um tapa no rosto do rapaz. Logo depois, Sandro aponta uma pistola para a cabeça do adolescente, que não reage. Os policiais também abordam outro adolescente, que igualmente não reage. Sandro encosta a arma no olho dele. Poucos minutos depois, chega o sargento Amauri dos Santos. Pela câmera corporal de Uchoa, é possível ver Amauri batendo com uma vara em um dos garotos. Amauri pede para Uchoa virar de costas para a própria câmera corporal. Em seguida, coloca uma única bala no tambor vazio de um revólver, gira o cilindro, fecha a arma e a aponta para a cabeça de um dos adolescentes. O policial aperta o gatilho, mas o disparo não acontece. "A roleta russa é o expediente que se utiliza exatamente para torturas psicológicas. Se a munição alimentar a arma, dispara e o sujeito morre. É essa sorte ou azar que realmente inflige o temor na vítima", afirma Giovana Ortolano Guerreiro, promotora de Justiça Militar. Depois disso, Amauri coloca a arma no rosto e no pescoço do adolescente. Pela própria câmera do sargento, é possível ver que Uchoa presencia a ação, não interfere e ainda ri. Em outro momento, Amauri conversa com o segundo adolescente e, logo depois, empurra a cabeça dele com força contra uma parede. As imagens mostram ainda que Amauri obstrui a câmera corporal. Quando a gravação retorna, quatro minutos depois, os policiais obrigam os adolescentes a circular pela favela e entram em diversas casas sem mandado judicial. Em uma delas, encontram galões, eppendorfs — suportes usados como pinos de cocaína — e pacotes aparentemente cheios de drogas. Os pacotes são colocados em uma caixa. O restante do material vai para uma mochila e um saco preto, levados até a viatura do sargento Amauri. Segundo a investigação, esse material desapareceu. Para a promotora, a entrada nas casas foi irregular e há elementos que indicam que as drogas foram desviadas. As imagens foram encontradas durante uma auditoria de rotina das câmeras corporais. A Corregedoria da Polícia Militar investigou o caso e prendeu Amauri e Sandro. Durante o processo, Sandro afirmou que encostou a arma no rosto de um adolescente porque se desequilibrou. Amauri disse que o revólver usado na roleta russa era de plástico, que a munição era apenas uma cápsula de sabão e que o material recolhido nas casas era lixo descartado posteriormente. Na quarta-feira (15), o Tribunal de Justiça Militar condenou Amauri dos Santos por tortura, abuso de autoridade, fraude processual — por obstruir a câmera corporal — e peculato, pelo desaparecimento das drogas. A pena foi de 12 anos e 5 meses de prisão. Sandro Nascimento foi condenado por tortura e abuso de autoridade a 4 anos e 10 meses de prisão em regime semiaberto. A defesa de Amauri não se manifestou. O advogado de Sandro sustentou que a conduta do cabo configurava apenas uma transgressão disciplinar, tese rejeitada pela Justiça. Eduardo Uchoa e outros seis policiais são réus e ainda serão julgados. Em nota, a defesa de Uchoa afirmou que acredita na inocência do soldado. Quase toda a ação foi registrada porque as câmeras corporais operavam no modo Recall, que gravava continuamente, sem áudio e em baixa qualidade, mesmo sem acionamento do policial. Esse sistema foi substituído pela Polícia Militar. "Foi uma ação irregular. Eles não poderiam adentrar imóveis aleatoriamente da forma como fizeram", Giovana Ortolano Guerreiro, promotora de Justiça Militar. A Polícia Militar informou que ampliou o programa de câmeras em 50%, para 15 mil equipamentos, com custo 40% menor, e que acompanha o funcionamento da tecnologia para aprimorar a transparência e a segurança das intervenções. Amauri não acionou voluntariamente a câmera. Sandro ligou o equipamento ao entregar os adolescentes às mães e perguntar se alguém havia batido neles, antes de afirmar que os devolvia "íntegros". As imagens registradas anteriormente mostram uma abordagem muito diferente. GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.