Proteína do sangue ajuda cientistas a deixar cérebro temporariamente 'transparente'; entenda a técnica

Escrito em 14/03/2026


Proteína do sangue ajuda a deixar cérebro temporariamente transparente; veja  Tornar um cérebro vivo transparente e observar seus neurônios em funcionamento em tempo real: durante décadas, isso pareceu impossível. Agora, pesquisadores da Universidade de Kyushu, no Japão, dizem ter conseguido exatamente tal feito, usando como ingrediente principal uma proteína comum no sangue humano. O método foi descrito em um estudo publicado na revista científica "Nature Methods". A técnica usa albumina, uma proteína abundante no sangue, para tornar temporariamente mais transparente o tecido cerebral, o que permite enxergar estruturas profundas do cérebro com mais clareza, sem interromper sua atividade normal. “Esta é a primeira vez que a transparência de tecidos é alcançada sem alterar sua biologia”, afirma Takeshi Imai, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Kyushu e autor sênior do estudo. Imagem mostra neurônios no cérebro de um camundongo vivo antes e depois da técnica que torna o tecido temporariamente transparente. Shigenori Inagaki e Takeshi Imai / Kyushu University. Por que o cérebro é difícil de observar Grande parte das funções do cérebro, como memória, percepção e tomada de decisões, depende da comunicação entre neurônios localizados em camadas profundas. ➡️O problema é que o tecido cerebral NÃO é transparente. A luz que entra nele se espalha ao atravessar diferentes estruturas celulares, o que dificulta enxergar o que acontece mais a fundo. Para entender esse motivo, os cientistas usam uma comparação simples: bolinhas de vidro são fáceis de ver no ar, mas quase desaparecem quando mergulhadas em óleo (veja o experimento ABAIXO). Experimento mostra bolinhas de vidro que quase “desaparecem” quando mergulhadas em óleo. O efeito ocorre porque o material e o líquido têm propriedades ópticas parecidas, fazendo a luz passar sem se espalhar. Shigenori Inagaki and Takeshi Imai, Kyushu University Isso acontece porque, quando dois materiais têm índices de refração parecidos, a luz atravessa o meio com menos distorção. O mesmo princípio se aplica ao nosso cérebro. Se o ambiente ao redor das células tiver propriedades ópticas semelhantes às delas, a luz consegue penetrar mais profundamente. LEIA TAMBÉM: Astronauta da Nasa flagra fenômeno luminoso raro durante tempestade vista do espaço; entenda Em fenômeno inédito, cientistas descobrem planeta que acelera sua própria destruição; entenda O teste de DNA em osso que pode reescrever a história do Egito antigo Para então resolver esse problema, os pesquisadores buscaram uma substância que pudesse ajustar essas propriedades ópticas sem prejudicar as células. Após testar dezenas de compostos, a equipe encontrou a solução em um material surpreendentemente simples: a albumina, proteína presente no sangue. “Eu testei três ou quatro vezes antes de acreditar”, contou o pesquisador Shigenori Inagaki, primeiro autor do estudo. “De todas as coisas possíveis, nunca imaginamos que a solução viria disso.” Ao adicionar albumina ao meio onde o tecido cerebral está imerso, os cientistas conseguiram equilibrar a forma como a luz se comporta dentro das células e fora delas. O resultado foi um líquido especial, chamado SeeDB-Live, capaz de tornar o tecido cerebral temporariamente mais transparente. Imagem mostra fatias de cérebro de camundongo antes e depois do uso da solução SeeDB-Live, que deixou o tecido transparente após cerca de uma hora. Shigenori Inagaki and Takeshi Imai, Kyushu University O que os testes mostraram Nos experimentos, fatias de cérebro de camundongos ficaram transparentes em cerca de uma hora após serem mergulhadas na solução. Isso permitiu aos cientistas observar a atividade de neurônios mais profundos, que antes estavam ocultos. Em cérebros de animais vivos, os sinais luminosos dessas células ficaram até três vezes mais brilhantes, facilitando a observação das conexões neuronais. Outro ponto importante é que o efeito é temporário. Depois de algumas horas, a solução é eliminada e o tecido volta ao estado original. Isso significa que o mesmo animal pode ser observado várias vezes ao longo do tempo para acompanhar mudanças na atividade cerebral. Os pesquisadores acreditam que o método pode abrir novas possibilidades para estudar como o cérebro funciona em tempo real. A técnica pode ajudar cientistas a entender melhor, por exemplo, como circuitos neurais processam informações e controlam o comportamento. Também há interesse em aplicar o método em organoides cerebrais — mini-cérebro cultivados em laboratório — usados em pesquisas sobre doenças e no desenvolvimento de medicamentos. “A albumina é abundante no sangue e altamente solúvel, o que a torna adequada para esse tipo de aplicação”, explica Imai. “Foi uma descoberta acidental, mas olhando para trás parece quase natural.” LEIA TAMBÉM: Espécie achada em esterco de gado pode explicar a origem do 'cogumelo mágico' mais cultivado do mundo Cientistas encontram fóssil de tiranossauro gigante que pode ser parente antigo do T. rex Estudos sugerem que o Sol 'fugiu' do centro da Via Láctea junto com estrelas gêmeas Fotógrafo do RS faz imagem incrível de cometa 'mais brilhante do ano'