O que as discretas celebrações do Dia da Vitória na Rússia revelam sobre Putin e a guerra na Ucrânia

Escrito em 09/05/2026


Trump anuncia trégua de 3 dias entre Rússia e Ucrânia Após semana tensa, a Rússia celebra neste sábado (9) o Dia da Vitória com um desfile na Praça Vermelha, em Moscou, e a presença do presidente Vladimir Putin e outras autoridades. A data marca a vitória há 81 anos da União Soviética sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Na sexta (8), o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um cessar-fogo de três dias entre Rússia e Ucrânia e uma troca de prisioneiros entre os países, reduzindo assim os temores sobre um possível ataque ucraniano ao desfile. Trump acrescentou que a pausa nos combates pode representar o "começo do fim" da guerra, que já entra em seu quinto ano. No entanto, parece improvável que a trégua abra caminho para um acordo de paz abrangente. No início da semana, cessar-fogos unilaterais declaradas por Ucrânia e Rússia fracassaram — com ambos os lados culpando um ao outro. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que a Ucrânia consentiu com o acordo mediado pelos EUA motivada pela perspectiva de libertar seus prisioneiros. Ao mesmo tempo, Zelensky publicou um decreto permitindo de forma irônica que a Rússia realizasse as celebrações do Dia da Vitória no sábado, declarando temporariamente a Praça Vermelha fora do alcance de ataques ucranianos. "A Praça Vermelha importa menos para nós do que as vidas dos prisioneiros de guerra ucranianos que podem voltar para casa", escreveu Zelenskyy no Telegram. Presidente da Rússia, Vladimir Putin, em Moscou em 30 de abril de 2026 Sputnik/Mikhail Metzel/Pool via Reuters Drones ucranianos e pressão sobre Putin A nova tecnologia de drones e mísseis da Ucrânia ajudou o país a atingir, com frequência e precisão, alvos em regiões profundas da Rússia nos últimos meses, especialmente grandes instalações petrolíferas. Enquanto isso, dentro da Rússia, sinais de insatisfação com algumas das políticas de guerra do Kremlin colocaram os holofotes sobre Putin, que deve fazer um discurso neste sábado para marcar o Dia da Vitória. No passado, a data teve exibições de pompa, fervor nacionalista e demonstrações do poderio militar russo. Neste ano, no entanto, a situação é diferente. Um desfile militar sem tanques Putin, que governa a Rússia há mais de 25 anos, tem usado a vitória da União Soviética na Segunda Guerra Mundial para mobilizar apoio a si próprio e à guerra na Ucrânia, além de projetar a influência global da Rússia. Por isso, foi surpreendente o anúncio de que o tradicional desfile deste ano acontecerá sem tanques, mísseis e outros equipamentos militares — com exceção dos aviões de guerra no tradicional sobrevoo — pela primeira vez em quase duas décadas. Autoridades atribuíram a decisão à "situação operacional atual", sem dar mais detalhes. O Exército russo, maior e mais bem equipado, está envolvido em uma ofensiva lenta e difícil na Ucrânia, enquanto os ataques ucranianos de longo alcance em território russo atingiram a produção de petróleo da Rússia, além de fábricas e depósitos militares, abalando o Kremlin. Alguns russos estão insatisfeitos com a censura na internet e o controle do governo sobre atividades online, incluindo o bloqueio do popular aplicativo de mensagens Telegram. Todo o acesso à internet móvel e os serviços de mensagens de texto serão restringidos em Moscou neste sábado. Segundo o governo russo, as medidas visam garantir a segurança pública. “Um desfile militar serve para demonstrar força e bravura, mas, se é realizado de forma furtiva (...) e com a internet bloqueada (para reduzir as chances de um drone de ataque ucraniano conseguir se orientar até o local), ele não demonstra nada além de medo e fraqueza”, escreveu Alexander Baunov, do centro de estudos Carnegie Russia Eurasia Center, com sede em Berlim, em uma análise publicada nesta semana. Rússia ameaça com forte retaliação caso seja atacada Autoridades russas advertiram repetidamente que Moscou tomaria medidas decisivas — incluindo um possível ataque em massa contra Kiev — caso ações ucranianas perturbassem os eventos oficiais programados para este sábado. O rei da Malásia, Sultan Ibrahim Iskandar, o presidente do Laos, Thongloun Sisoulith, o presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, o presidente do Uzbequistão, Shavkat Mirziyoyev, e o líder autoritário de Belarus, Alexander Lukashenko, eram esperados na capital russa. Na sexta, o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, membro da União Europeia, depositou flores no memorial do Túmulo do Soldado Desconhecido, nos arredores do Kremlin, após chegar a Moscou. Ele deve se reunir com Putin, mas ficará fora do desfile na Praça Vermelha. O Ministério das Relações Exteriores da Rússia aconselhou embaixadas estrangeiras e organizações internacionais localizadas em Kiev a evacuarem seus escritórios caso o ataque aconteça, e o Ministério da Defesa também pediu que civis deixassem a cidade. Zelensky se reúne com lideranças europeias em Paris, em 6 de janeiro de 2026 Ludovic Marin/Pool via REUTERS