Exclusivo: Caco Barcellos e Thiago Jock conseguem autorização para entrar no Irã Na noite em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou intensificar os ataques e disse que o Irã poderia “voltar à idade da pedra”, multidões ocuparam as ruas de Teerã. A cena foi registrada pelo repórter Caco Barcellos durante uma cobertura exclusiva no país. A reportagem do Fantástico mostra que, mesmo sob risco de novos bombardeios, iranianos saíram de casa para protestar contra os Estados Unidos Sem abrigos subterrâneos ou estruturas de proteção, eles permaneceram expostos. “A ameaça vem do céu”, relatou Barcellos. O movimento ganhou força horas antes do prazo final imposto por Trump para um possível aumento dos ataques. À meia-noite, momento limite do ultimato, a multidão seguia nas ruas, com bandeiras e palavras de ordem. Irianianos em protesto na noite do ultimato de Donald Trump. Reprodução/TV Globo/Fantástico Entre gritos, bandeiras e homenagens, a cerimônia reuniu uma multidão. Em meio ao cortejo, um jovem pediu para ser entrevistado e criticou duramente os Estados Unidos: “Esse governo americano é o pior de todos os tempos. Nosso povo está apoiando o nosso governo e os nossos militares", diz. Durante os atos, moradores distribuíam chá e doces. Um pesquisador ouvido pela equipe disse que não teme as ameaças americanas e que decidiu participar voluntariamente das manifestações. A reportagem mostra que os protestos fazem parte de uma mobilização incentivada pelo governo iraniano, repetida em diferentes bairros da capital. Em alguns casos, famílias inteiras participam dos atos. Multidão se reúne nas ruas de Teerã para protesto contra os governos de Estados Unidos e Israel. Reprodução/TV Globo/Fantástico Ao longo de seis dias no Irã, Barcellos e o repórter Thiago Joque registraram a rotina de uma população que tenta manter a normalidade em meio à guerra. Durante o dia, parques e espaços públicos seguem movimentados, com famílias reunidas e piqueniques. À noite, as ruas se transformam em palco de manifestações e rituais coletivos. A cobertura também mostra os efeitos dos ataques no país. Prédios destruídos, hospitais atingidos e áreas residenciais reduzidas a escombros fazem parte do cenário. Segundo autoridades iranianas, mais de 3 mil pessoas morreram desde o início do conflito. Em um dos episódios mais graves, um bombardeio contra uma escola matou 170 crianças e causou comoção internacional. Investigações apontam que o ataque teria sido baseado em informações desatualizadas. Apesar da tensão, os iranianos se mantiveram nas ruas. Para muitos, participar dos protestos é uma forma de resistência em meio à guerra. Horas depois da noite de maior mobilização, já durante o retorno da equipe ao Brasil, foi anunciado um cessar-fogo temporário. Equipe acompanhou funeral de um general da marinha iraniana Fantástico Bombardeios e destruição A equipe visitou prédios atingidos por mísseis. Em um dos ataques, o alvo seria um professor universitário ligado ao programa nuclear iraniano. Ele morreu junto aos filhos. Governos dos EUA e de Israel acusam o Irã de enriquecer urânio para a produção de armas nucleares. As autoridades iranianas negam. Ao todo, treze cientistas ligados ao programa nuclear já foram mortos em ataques semelhantes. Nesta última semana, houve mais um ataque, desta vez com lançamento de mísseis contra a universidade em que alguns cientistas são professores. Moradores relataram que os ataques são repentinos e praticamente invisíveis. Em um conjunto de prédios residenciais, é possível ver o rastro de destruição deixado pelas bombas: "Os 25 mortos são aqueles que conseguimos encontrar. Ainda há desaparecidos. As bombas foram tão fortes que muita coisa foi completamente destruída", diz um morador que testemunhou as explosões. Área atingida por bombas, levando a morte de 25 pessoas no Irã g1 Em outra região, uma ponte em construção foi atingida duas vezes. Trabalhadores /e testemunhas afirmam que não havia uso militar no local: “Não temos nada a ver com militares. Essa ponte ligaria Teerã a outras 14 províncias. Ela ainda estava em construção e não estava sendo usada", diz Hasat Boyat, engenheiro responsável pela obra. No segundo ataque, oito trabalhadores morreram e 95 ficaram feridos. Médicos e profissionais de saúde organizaram protestos após ataques a hospitais e ambulâncias. Segundo relatos locais, centenas de unidades de saúde foram atingidas. Durante uma manifestação, uma médica leu uma declaração pública: “A proteção da vida humana e das instalações médicas e farmacêuticas é um direito universal que não pode ser violado em nenhuma circunstância", diz Farzaneh Fazaeli, uma das líderes da manifestação. Em conversa exclusiva com a equipe, ela reforçou: “Mesmo em guerra, existem limites. Não se pode atacar estruturas essenciais para o cuidado de pacientes". Segundo médicos iranianos, mais de 300 hospitais e centros de saúde foram atingidos durante os combates. Entre eles, 18 unidades do Crescente Vermelho — equivalente à Cruz Vermelha no país. A Organização Mundial da Saúde confirmou pelo menos 23 ataques a centros de saúde. Versão oficial e disputa de narrativas Durante a cobertura no Irã, a equipe encontrou presença constante de imagens dos aiatolás em espaços públicos e eventos, reforçando a centralidade da liderança religiosa no país. Desde a Revolução de 1979, o Irã é uma República Islâmica em que o poder é fortemente concentrado nesse grupo, acima da Guarda Revolucionária e de instituições civis. O regime é marcado por controle social rígido, com denúncias recorrentes de repressão a protestos, censura à imprensa, prisões de ativistas e restrições a comportamentos sociais, especialmente os de mulheres. Além das tensões internas e críticas ao programa nuclear, o país também é apontado por apoiar grupos como o Hezbollah e o Hamas. Durante a estada da equipe, o acesso e a circulação foram limitados por barreiras de segurança e checkpoints da Guarda Revolucionária, dificultando inclusive a gravação de imagens. Tentativas de contato com opositores não tiveram sucesso. No início do ano, protestos contra a crise econômica foram fortemente reprimidos; autoridades iranianas afirmam que os atos se tornaram violentos por ação de infiltrados armados, que teriam atacado forças de segurança e causado mais de 200 mortes entre policiais, além de vítimas civis. Já organizações independentes contestam os números oficiais e indicam que o total de mortos pode ter sido maior. O governo iraniano nega a alegação americana e sustenta que o programa nuclear tem fins energéticos. O porta-voz do ministro das Relações Exteriores Ábbas Araghchi também rebateu críticas sobre direitos humanos: “Somos alvo de uma campanha de demonização há décadas. Não somos perfeitos, mas nenhum país é perfeito quando se trata de direitos humanos", diz. Caco Barcellos entrevistou porta-voz do ministro das Relações Exteriores do Irã Fantástico À noite, porém, o cenário muda. As ruas são ocupadas por manifestações frequentes, com discursos, bandeiras e palavras de ordem contra inimigos externos. Um pesquisador que participa dos atos diariamente afirmou: “Não temos medo. Estamos aqui para apoiar o nosso país.” Sem sirenes ou abrigos adequados, a população convive com ataques que chegam sem aviso. Segundo relatos, os mísseis são lançados por aeronaves que não chegam a ser vistas — o impacto vem segundos depois. Ainda assim, multidões seguem ocupando as ruas, mesmo diante de ameaças de novos bombardeios. 🎧 Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. 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Iranianos encheram as ruas na noite em que Trump ameaçou 'fim da civilização', mostra Caco Barcellos
Escrito em 14/04/2026
Exclusivo: Caco Barcellos e Thiago Jock conseguem autorização para entrar no Irã Na noite em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou intensificar os ataques e disse que o Irã poderia “voltar à idade da pedra”, multidões ocuparam as ruas de Teerã. A cena foi registrada pelo repórter Caco Barcellos durante uma cobertura exclusiva no país. A reportagem do Fantástico mostra que, mesmo sob risco de novos bombardeios, iranianos saíram de casa para protestar contra os Estados Unidos Sem abrigos subterrâneos ou estruturas de proteção, eles permaneceram expostos. “A ameaça vem do céu”, relatou Barcellos. O movimento ganhou força horas antes do prazo final imposto por Trump para um possível aumento dos ataques. À meia-noite, momento limite do ultimato, a multidão seguia nas ruas, com bandeiras e palavras de ordem. Irianianos em protesto na noite do ultimato de Donald Trump. Reprodução/TV Globo/Fantástico Entre gritos, bandeiras e homenagens, a cerimônia reuniu uma multidão. Em meio ao cortejo, um jovem pediu para ser entrevistado e criticou duramente os Estados Unidos: “Esse governo americano é o pior de todos os tempos. Nosso povo está apoiando o nosso governo e os nossos militares", diz. Durante os atos, moradores distribuíam chá e doces. Um pesquisador ouvido pela equipe disse que não teme as ameaças americanas e que decidiu participar voluntariamente das manifestações. A reportagem mostra que os protestos fazem parte de uma mobilização incentivada pelo governo iraniano, repetida em diferentes bairros da capital. Em alguns casos, famílias inteiras participam dos atos. Multidão se reúne nas ruas de Teerã para protesto contra os governos de Estados Unidos e Israel. Reprodução/TV Globo/Fantástico Ao longo de seis dias no Irã, Barcellos e o repórter Thiago Joque registraram a rotina de uma população que tenta manter a normalidade em meio à guerra. Durante o dia, parques e espaços públicos seguem movimentados, com famílias reunidas e piqueniques. À noite, as ruas se transformam em palco de manifestações e rituais coletivos. A cobertura também mostra os efeitos dos ataques no país. Prédios destruídos, hospitais atingidos e áreas residenciais reduzidas a escombros fazem parte do cenário. Segundo autoridades iranianas, mais de 3 mil pessoas morreram desde o início do conflito. Em um dos episódios mais graves, um bombardeio contra uma escola matou 170 crianças e causou comoção internacional. Investigações apontam que o ataque teria sido baseado em informações desatualizadas. Apesar da tensão, os iranianos se mantiveram nas ruas. Para muitos, participar dos protestos é uma forma de resistência em meio à guerra. Horas depois da noite de maior mobilização, já durante o retorno da equipe ao Brasil, foi anunciado um cessar-fogo temporário. Equipe acompanhou funeral de um general da marinha iraniana Fantástico Bombardeios e destruição A equipe visitou prédios atingidos por mísseis. Em um dos ataques, o alvo seria um professor universitário ligado ao programa nuclear iraniano. Ele morreu junto aos filhos. Governos dos EUA e de Israel acusam o Irã de enriquecer urânio para a produção de armas nucleares. As autoridades iranianas negam. Ao todo, treze cientistas ligados ao programa nuclear já foram mortos em ataques semelhantes. Nesta última semana, houve mais um ataque, desta vez com lançamento de mísseis contra a universidade em que alguns cientistas são professores. Moradores relataram que os ataques são repentinos e praticamente invisíveis. Em um conjunto de prédios residenciais, é possível ver o rastro de destruição deixado pelas bombas: "Os 25 mortos são aqueles que conseguimos encontrar. Ainda há desaparecidos. As bombas foram tão fortes que muita coisa foi completamente destruída", diz um morador que testemunhou as explosões. Área atingida por bombas, levando a morte de 25 pessoas no Irã g1 Em outra região, uma ponte em construção foi atingida duas vezes. Trabalhadores /e testemunhas afirmam que não havia uso militar no local: “Não temos nada a ver com militares. Essa ponte ligaria Teerã a outras 14 províncias. Ela ainda estava em construção e não estava sendo usada", diz Hasat Boyat, engenheiro responsável pela obra. No segundo ataque, oito trabalhadores morreram e 95 ficaram feridos. Médicos e profissionais de saúde organizaram protestos após ataques a hospitais e ambulâncias. Segundo relatos locais, centenas de unidades de saúde foram atingidas. Durante uma manifestação, uma médica leu uma declaração pública: “A proteção da vida humana e das instalações médicas e farmacêuticas é um direito universal que não pode ser violado em nenhuma circunstância", diz Farzaneh Fazaeli, uma das líderes da manifestação. Em conversa exclusiva com a equipe, ela reforçou: “Mesmo em guerra, existem limites. Não se pode atacar estruturas essenciais para o cuidado de pacientes". Segundo médicos iranianos, mais de 300 hospitais e centros de saúde foram atingidos durante os combates. Entre eles, 18 unidades do Crescente Vermelho — equivalente à Cruz Vermelha no país. A Organização Mundial da Saúde confirmou pelo menos 23 ataques a centros de saúde. Versão oficial e disputa de narrativas Durante a cobertura no Irã, a equipe encontrou presença constante de imagens dos aiatolás em espaços públicos e eventos, reforçando a centralidade da liderança religiosa no país. Desde a Revolução de 1979, o Irã é uma República Islâmica em que o poder é fortemente concentrado nesse grupo, acima da Guarda Revolucionária e de instituições civis. O regime é marcado por controle social rígido, com denúncias recorrentes de repressão a protestos, censura à imprensa, prisões de ativistas e restrições a comportamentos sociais, especialmente os de mulheres. Além das tensões internas e críticas ao programa nuclear, o país também é apontado por apoiar grupos como o Hezbollah e o Hamas. Durante a estada da equipe, o acesso e a circulação foram limitados por barreiras de segurança e checkpoints da Guarda Revolucionária, dificultando inclusive a gravação de imagens. Tentativas de contato com opositores não tiveram sucesso. No início do ano, protestos contra a crise econômica foram fortemente reprimidos; autoridades iranianas afirmam que os atos se tornaram violentos por ação de infiltrados armados, que teriam atacado forças de segurança e causado mais de 200 mortes entre policiais, além de vítimas civis. Já organizações independentes contestam os números oficiais e indicam que o total de mortos pode ter sido maior. O governo iraniano nega a alegação americana e sustenta que o programa nuclear tem fins energéticos. O porta-voz do ministro das Relações Exteriores Ábbas Araghchi também rebateu críticas sobre direitos humanos: “Somos alvo de uma campanha de demonização há décadas. Não somos perfeitos, mas nenhum país é perfeito quando se trata de direitos humanos", diz. Caco Barcellos entrevistou porta-voz do ministro das Relações Exteriores do Irã Fantástico À noite, porém, o cenário muda. As ruas são ocupadas por manifestações frequentes, com discursos, bandeiras e palavras de ordem contra inimigos externos. Um pesquisador que participa dos atos diariamente afirmou: “Não temos medo. Estamos aqui para apoiar o nosso país.” Sem sirenes ou abrigos adequados, a população convive com ataques que chegam sem aviso. Segundo relatos, os mísseis são lançados por aeronaves que não chegam a ser vistas — o impacto vem segundos depois. Ainda assim, multidões seguem ocupando as ruas, mesmo diante de ameaças de novos bombardeios. 🎧 Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. 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