'Live do tráfico': perfis no TikTok promovem organizações criminosas, ostentam joias, drogas, armas e carros de luxo no RJ

Escrito em 03/11/2026


Lives no TikTok promovem organizações criminosas Reprodução Perfis no TikTok têm utilizado a plataforma para promover organizações criminosas. Diversas páginas desafiam as autoridades e publicam conteúdos em que jovens aparecem ostentando joias, armas e fazendo referência ao universo do crime no Rio de Janeiro. As lives de transmissões ao vivo, comandadas por suspeitos, também vêm ganhando destaque na plataforma. No último sábado (31), o g1 teve acesso a uma live feita por um usuário, que teve quase 12k espectadores assistindo. O dono do perfil dizia ser da facção Terceiro Comando. Nas imagens, ele exibe um fuzil, diz que é integrante do Terceiro Comando, faz menções a armamentos e declara que mata integrantes da facção rival Comando Vermelho. "Aqui é Terceiro Comando. Quem é do Terceiro vem com a gente! Cadê os menor (sic) do São Carlos? Nos vermelhos a gente atira", repetia o dono do perfil. Operação mira esquema que usava anúncios na internet para encomendar roubos de carros no RJ 'Tropa do Rabicó' Em uma outra conta no TikTok, um jovem diz ser do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. Nas mensagens transmitidas aos quase 3 mil seguidores, o usuário costuma exaltar práticas criminosas, aparece exibindo carros e motos de luxo, e fazendo referências ao Comando Vermelho. Páginas publicam conteúdos em que jovens aparecem ostentando joias e carros de luxo Reprodução Um dos registros mostra o homem usando uma camisa com a frase: "Tropa do Rabicó". O traficante Antônio Ilário Ferreira, conhecido como Rabicó, é um dos integrantes da cúpula do Comando Vermelho, suspeito de ser o responsável pelo comércio de drogas no Complexo do Salgueiro. Um dos registros mostra o homem usando uma camisa com a frase: Tropa do Rabicó Reprodução Em um outro perfil na plataforma, uma das postagens mostra um homem dentro de um carro de luxo, com trilha sonora de uma reportagem de televisão em que a repórter narra um roubo de carga. O TikTok informou que os perfis que que violam as Diretrizes da Comunidade são removidos da plataforma. Além disso, a empresa esclareceu que não permite conteúdos de apologia ao crime e outras práticas ilegais. Transmissão ao vivo feita por suspeito teve quase 12k seguidores. Reprodução A ousadia dos usuários desses perfis ainda vai além. Postagens mostram áudios que teriam sido gravados durante assaltos. Confira alguns conteúdos de áudio abaixo: "Desce, desce! Passa o cordão"; "Vamos pegar carro novo, zero bala. Carro velho deixa passar batido"; "Ah, lá!! Assalto em frente ao posto, moleque novinho que vai levar. Levou, levou!". Jovens fazem gesto em homenagem ao Comando Vermelho nas postagens Reprodução Os perfis juntam milhares de seguidores, que comentam e fazem menções aos veículos roubados, objetos ostentados e à facção criminosa. "São Gonçalo, a terra do BYD", escreveu um seguidor por conta da quantidade de carros da marca exibidos no perfil. Uma das postagens mostra arma no console do veículo e uma tela com a frase 'Medley Crime G8' Reprodução Em outros registros, é possível ver homens usando drogas, carregando fuzis e rádios transmissores. Algumas imagens nos perfis também mostram automóveis usados como barricadas e locais de desmonte de veículos. Imagens nos perfis mostram barricadas feitas de automóveis Reprodução A advogada criminalista Carolina Heringer esclarece que, dependendo do conteúdo de cada vídeo, o usuário pode responder por diferentes crimes. "A depender do conteúdo de cada vídeo, quem pratica essa conduta de divulgar mídias, de alguma forma exaltando a organização ou quem a ela pertence, assim como estimulando algum tipo de crime, pode responder por delitos como apologia ao crime, incitação ao crime ou até mesmo por promover organização criminosa, ou também promover ou apoiar organização criminosa ultraviolenta", explica a advogada. Vitrine para carros clonados Perfis na plataforma também estão sendo usados como vitrine para a venda de carros clonados no estado. A Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis da Capital (DRFA) já identificou, pelo menos, 21 contas relacionadas a esse tipo de comércio ilegal. Homens exibem diariamente carros de luxos diferentes nas redes sociais Reprodução Em um dos anúncios, é possível ver um veículo Corolla 2022, da marca Toyota, sendo anunciado por R$ 8,5 mil. Na Tabela Fipe, referência de mercado para carros, os valores passam de R$ 100 mil. No início de outubro, um homem foi preso após comprar um carro de R$ 150 mil por R$ 10 mil por meio de um anúncio no Facebook. Carro clonado avaliado em R$ 150 mil é vendido por R$ 10 mil; homem foi preso durante operação da polícia Divulgação/DVRFA Venda de cédulas falsas Na noite de domingo (1º), um usuário fez a postagem de um vídeo no X, antigo Twitter, em que aparece exibindo cédulas para venda, que, segundo ele, são falsificadas. Na descrição da postagem, o homem sugere que o dinheiro falso "estava passando em todos os testes". "As melhores cédulas da internet. Material entregue para todo o Brasil, cédulas passando em todos os testes", dizia a mensagem. O perfil foi removido pela plataforma poucas horas após a publicação. Usuário fez uma postagem de um vídeo no X em que aparece exibindo cédulas falsas para venda Reprodução O que diz a polícia O g1 questionou a Polícia Civil sobre investigações que envolvem apologia ao crime, promoção de organização criminosa e práticas ilegais na internet, além de informações sobre identificação e monitoramento de perfis de criminosos nas redes sociais. No entanto, a Polícia Civil só informou sobre as investigações que tratam de divulgação e vendas de veículos de origem criminosa na internet. Leia a nota na íntegra: "A Polícia Civil, por meio da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA) da Capital, mantém investigações sobre a utilização de redes sociais para a divulgação e comercialização de veículos de origem criminosa, inclusive por meio de perfis que anunciam automóveis por valores muito inferiores aos praticados no mercado formal. Desde o início das apurações, em maio de 2025, foram identificados e analisados 21 perfis de uma plataforma de vídeos curtos relacionados a esse tipo de atividade criminosa. Três deles foram diretamente alcançados pela Operação Sinal Oculto, deflagrada em 27 de agosto de 2026, enquanto outros perfis permanecem sob investigação e cruzamento de dados. Uma das características verificadas pelos investigadores é a elevada rotatividade dessas contas. Em regra, os perfis permanecem ativos por períodos relativamente curtos, em torno de 30 a 60 dias, sendo posteriormente desativados, bloqueados ou substituídos. A investigação também identificou o emprego de dados cadastrais falsos ou pertencentes a terceiros, números telefônicos registrados em nome de pessoas sem relação aparente com os investigados e contas bancárias de terceiros para recebimento dos valores. Na ocasião da Operação Sinal Oculto, foram expedidos 37 mandados de busca e apreensão, dos quais 11 resultaram em apreensões. Também foi cumprido um mandado de prisão, além da realização de duas prisões em flagrante. Ao longo da ação foram confeccionados 17 Registros de Ocorrência. Entre os materiais apreendidos na ação estão 19 telefones celulares, oito máquinas de cartão, sete rádios comunicadores, três veículos, dois simulacros de fuzil, além de mídias digitais, munições e outros objetos de interesse investigativo. Esses aparelhos eletrônicos apreendidos estão sendo submetidos à perícia e os elementos obtidos serão confrontados com os dados já reunidos, justamente para identificar outros participantes, conexões entre perfis e a eventual estrutura existente por trás desse comércio ilícito. Diligências seguem em andamento". Postagem de um dos perfis com apologia ao crime Reprodução O que diz o TikTok Em nota, o TikTok informou que os perfis que que violam as Diretrizes da Comunidade são removidos da plataforma. Além disso, a empresa esclareceu que não permite conteúdos de apologia ao crime ou práticas ilegais. Leia a nota na íntegra: "As Diretrizes da Comunidade deixam claro que não permitimos conteúdos de glorificação da violência ou promoção de crimes que possam causar danos a pessoas, animais ou bens. A exemplo, é proibido na plataforma: promover ou glorificar a violência; compartilhar instruções sobre como cometer crimes que possam causar danos a pessoas, animais ou propriedade. Nosso sistema de moderação atua de forma contínua e, mesmo sem denúncias, retira automaticamente conteúdos que violam nossas Diretrizes da Comunidade. Dados sobre a remoção de conteúdos violativos: em nosso Centro de Transparência, publicamos, trimestralmente, um relatório de moderação com os números do período. O mais recente, do segundo trimestre de 2026, mostra que 99,4% dos conteúdos que sobre comportamento violento e criminoso foram removidos proativamente", diz a nota. Postagem de um dos perfis com apologia ao crime Reprodução Perfis no TikTok fazem apologia ao crime ostentando joias, armas e carros de luxo Reprodução