Sistema que gera eletricidade com o uso de bactérias marinhas é desenvolvido na Unesp; entenda

Escrito em 26/02/2026


Sistema que gera eletricidade com o uso de bactérias marinhas é desenvolvido na Unesp Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara (SP), ainda em caráter experimental, criou um sistema capaz de gerar eletricidade a partir da fotossíntese de uma bactéria marinha. O protótipo também captura dióxido de carbono da atmosfera e libera oxigênio. 📱 Siga o g1 São Carlos e Araraquara no Instagram O projeto, desenvolvido pela engenheira de bioprocessos e biotecnologia Giulia Evelin Oliveira Castro, sob orientação do professor Guilherme Peixoto, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), deu origem à patente chamada 'Sistema para produção biológica de energia elétrica a partir de radiação solar e uma cianobactéria marinha e seu processo de uso'. Protótipo desenvolvido na Unesp de Araraquara durante testes Giulia Oliveira Castro 🧪 Desafio A pesquisa iniciou com um desafio lançado pelo professor Peixoto, que estimulou o desenvolvimento de um projeto de caráter experimental que integrasse um processo biológico a um componente físico ou químico. O objetivo foi desenvolver um processo sustentável para a geração de energia. Durante as pesquisas, Giulia teve a ideia de combinar cianobactérias com um reator e materiais condutores capazes de transportar elétrons. A proposta foi desenvolvida ao longo de 18 meses. 🔎 Cianobactérias: foram os primeiros microrganismos produtores de oxigênio que surgiram na Terra. Elas usam o gás carbônico para crescer e geram sua energia por meio de biofotólise, processo biológico que usa a energia solar para quebrar moléculas de água e produzir hidrogênio e oxigênio. Elas são encontradas em qualquer lugar onde haja umidade, luz solar e nutrientes, mas a espécie usada na pesquisa é marinha e foi retirada da costa de Ubatuba, no litoral de São Paulo. Mais notícias da região: ATAQUE: Motorista atacado pela ex com líquido corrosivo recebe alta hospitalar APLICATIVO: Alunos da Etec criam app gratuito que agiliza atendimentos de primeiros socorros; veja como usar CRIME: Faxineira e motoboy sofrem ameaças e agressões de vizinhos em briga por pipa 🧫 Como funciona? O sistema é composto por três módulos conectados: um reservatório onde vivem as cianobactérias, um reator bioeletroquímico e uma torre que capta a radiação solar. Há um fluxo do primeiro para o terceiro, sendo que as bactérias marinhas passam pela torre e pelo reator captando a radiação solar, o que estimula os sistemas fotossintéticos das células. Culturas de cianobactérias mantidas em incubadora a 20°C, com iluminação por LEDs para permitir a fotossíntese Giulia Oliveira Castro As cianobactérias Synechocystis pevalekii, que foram preservadas em coleção de microrganismos do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e multiplicadas em laboratório, circulam continuamente entre esses módulos. Durante a fotossíntese, as cianobactérias quebram moléculas de água e liberam elétrons, que são capturados por eletrodos metálicos, gerando uma diferença de potencial que produz eletricidade. 🦠 Resultados Durante experimentos realizados em laboratório com fitas de LED, que simulam o espectro solar, o sistema atingiu 227,47 miliwatts por metro quadrado. Ao ser testado em campo, sob luz solar, alcançou 215,30 miliwatts por metro quadrado. 🔎Entenda: Os miliwatts por metro quadrado são suficientes apenas para dispositivos muito pequenos, e estão muito abaixo da ordem de grandeza de painéis solares convencionais. A semelhança dos resultados demonstra que o protótipo pode operar em ambientes reais mesmo com variações de temperatura e luminosidade. As potências são capazes, por exemplo, de alimentar alguns tipos de sensores, relógios digitais ou até uma calculadora. A pesquisa usou materiais de baixo custo, como cobre, zinco e ligas metálicas convencionais, que têm extração e reciclagem menos impactantes, ao invés de utilizar metais nobres como platina ou índio - comuns em estudos internacionais. Esquema do protótipo mostra o reator, a cultura de cianobactéria e a torre helicoidal, que atua na captação da luz solar Giulia Oliveira Castro O sistema também não depende de organismos geneticamente modificados, como relatado em outros trabalhos, o que facilita sua replicação e reduz restrições ambientais e legais. Além de gerar eletricidade, o dispositivo atua na fixação de carbono e na liberação de oxigênio, contribuindo para conter o acúmulo de gases de efeito estufa. Em larga escala, sistemas como esse poderiam ser acoplados a estruturas urbanas ou industriais, funcionando como unidades de geração distribuída de energia limpa e, ao mesmo tempo, promovendo o 'sequestro' de gás carbônico, responsável pelo aquecimento global. ⚠️Não há quantificação do gás carbônico (CO₂) capturado. Além disso, o impacto climático é conceitual e local, não mensurado em escala relevante. Teste inicial sendo realizado em bancada com luz artificial Giulia Oliveira Castro 🔬 Patente A patente foi submetida ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), sendo devidamente depositada. Agora, os pesquisadores aguardam pelo certificado de concessão o que, segundo o professor, pode levar de meses a anos. "Para nós, os inventores, o depósito do pedido de patente já representa um alto grau de reconhecimento do nosso trabalho [...] porque o texto já passou por diversas análises, inclusive de buscas por processos similares. Outro ponto importante é que com o depósito nós já temos a nossa propriedade intelectual protegida", afirmou Peixoto. Giulia pretende avaliar outros aspectos do processo para melhorá-lo durante o mestrado e, eventualmente, com mais resultados, há a possibilidade da captação de recursos para iniciar uma startup em energia biofotovoltaica. Um artigo foi elaborado e submetido à revista científica especializada “Bioprocess and Biosystems Engineering”. De acordo com Peixoto, entre a análise e publicação, o tempo estimado varia de três a seis meses. VÍDEOS DA EPTV: Veja mais notícias da região no g1 São Carlos e Araraquara