Comum nos mercados, ameaçado nos rios: entenda por que o tambaqui entrou na lista de espécies ameaçadas diegoferreira / iNaturalist Encontrado em feiras, mercados, restaurantes e criatórios de diferentes regiões do Brasil, o tambaqui parece estar longe de ser um peixe raro. Nos rios amazônicos, porém, a situação é diferente. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram O Colossoma macropomum passou a integrar oficialmente, em 2026, a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, na categoria Vulnerável (VU). A classificação indica que a espécie enfrenta risco elevado de extinção na natureza caso as ameaças às populações selvagens permaneçam. A mudança foi oficializada pela Portaria GM/MMA nº 1.667, de 27 de abril de 2026, que atualizou a relação de peixes e invertebrados aquáticos ameaçados no país. Na avaliação nacional anterior, publicada em 2014, o tambaqui era considerado Quase Ameaçado (NT). A nova classificação joga luz sobre um processo que pesquisadores acompanham há décadas: a diminuição dos grandes tambaquis na natureza e os efeitos da pesca sobre uma das espécies mais importantes da fauna e da cultura amazônicas. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: NOVO COMPORTAMENTO? Pato-mergulhão usa cupinzeiro como ninho na Serra da Canastra em registro inédito para a ciência JUÇARA VALE MAIS EM PÉ: Fruto transforma realidade e gera renda no Vale do Ribeira IMPORVÁVEL: Possível caso de águia híbrida atrai olhares e é acompanhado de perto no MS Menores e mais difíceis de encontrar Uma das evidências mais marcantes foi registrada em estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Pesquisadores investigaram os efeitos da demanda por pescado de Manaus sobre comunidades pesqueiras espalhadas pela Amazônia e encontraram sinais de impacto que se estendiam por mais de 1.000 quilômetros a partir da capital amazonense. Veja o que está em alta no g1: Agora no g1 Para o tambaqui, os resultados indicaram redução de aproximadamente 50% tanto no tamanho corporal dos peixes quanto na taxa de captura por unidade de esforço nas regiões mais afetadas. O trabalho utilizou informações de pescadores de comunidades rurais para reconstruir como a pressão exercida por uma grande cidade pode afetar populações de animais muito além de seus limites urbanos. A redução do tamanho dos exemplares é especialmente importante porque o tambaqui é um peixe de crescimento relativamente lento até chegar à fase reprodutiva. Estudos citados em pesquisas sobre a espécie indicam que as fêmeas alcançam a maturidade sexual, em média, quando estão entre 50 e 55 centímetros de comprimento e por volta dos três anos de idade. A captura recorrente de animais menores pode fazer com que parte da população seja retirada dos rios antes de se reproduzir. Historicamente, o tamanho dos peixes desembarcados nos principais mercados amazônicos já vinha despertando preocupação entre pesquisadores, com juvenis representando parcela importante das capturas. O peixe que ajuda a abastecer Manaus A pressão sobre os estoques naturais não começou agora. Estudos sobre a história da exploração do tambaqui mostram que a espécie já esteve entre os recursos pesqueiros mais importantes da região amazônica. Tambaqui enfrenta desafios na natureza eulucasramus / iNaturalist Dados recuperados por pesquisadores mostram que, em 1976, cerca de 16 mil toneladas de tambaqui chegaram ao porto de Manaus. No fim da década de 1990, esse desembarque havia caído para menos de 4 mil toneladas, apesar do crescimento populacional da cidade no intervalo. A tendência levou pesquisadores a associar a redução dos estoques principalmente à sobrepesca, especialmente pela retirada de juvenis e de grandes exemplares reprodutores. A preocupação aparece também na genética. Em estudo publicado em 2018 na revista Frontiers in Genetics, pesquisadores analisaram populações naturais de tambaqui de 21 localidades da bacia amazônica, além de uma localidade da sub-bacia boliviana. Foram analisados 539 indivíduos por marcadores de DNA mitocondrial e 604 por microssatélites. Os resultados mostraram diferenças genéticas entre determinadas populações e sinais de redução populacional ao longo do tempo. Os autores defenderam que as estratégias de conservação considerem essas diferenças entre populações e reduzam os efeitos da sobrepesca sobre os estoques naturais. Tambaqui importante para a floresta A perda de tambaquis não tem consequências apenas para a pesca. A espécie também desempenha função ecológica nas áreas de floresta inundável da Amazônia. Durante o período das cheias, os tambaquis entram nas várzeas e florestas alagadas para se alimentar. Frutos e sementes fazem parte da dieta, e o peixe atua como dispersor de sementes de árvores e arbustos amazônicos. Tambaqui está 'menor' e mais raro; entenda o porquê abraao_arthur_253 / iNaturalist Essa relação faz com que a diminuição dos grandes indivíduos possa ter repercussões que ultrapassam a própria população de peixes. O ciclo de vida do tambaqui está diretamente associado à dinâmica das cheias amazônicas. Na época de reprodução, ovos e larvas podem ser transportados pelas águas até ambientes de várzea, enquanto adultos percorrem rios e áreas inundadas para reprodução e alimentação. A pesca será proibida? A inclusão na lista de espécies ameaçadas trouxe uma consequência imediata para a discussão sobre o futuro da pesca. Além da Portaria nº 1.667, o Ministério do Meio Ambiente publicou a Portaria nº 1.666/2026, que estabelece regras para a exploração de peixes e invertebrados aquáticos classificados como ameaçados. Em julho, uma nova norma, a Portaria GM/MMA nº 1.748/2026, criou um período de transição para o tambaqui e para o peroá (Balistes capriscus), outra espécie que passou a integrar a lista. No caso dessas duas espécies, as restrições previstas pela legislação passam a produzir efeitos após 120 dias, enquanto o governo trabalha na definição de instrumentos específicos de manejo e recuperação. Isso não significa, porém, que qualquer utilização futura do tambaqui esteja necessariamente descartada. Tambaqui entra na lista de espécies ameaçadas ludmilagervazio / iNaturalist A própria regulamentação prevê a possibilidade de uso sustentável de espécies ameaçadas, desde que existam medidas de conservação e recuperação populacional definidas e sejam cumpridas as condições estabelecidas em um Plano de Recuperação. A elaboração desse instrumento é, portanto, uma das etapas decisivas para determinar como ficará a pesca do tambaqui selvagem. Proteção não começou em 2026 A preocupação com os estoques naturais do tambaqui é anterior à entrada da espécie na lista de ameaçados. Na Bacia Hidrográfica do Rio Amazonas, uma instrução normativa federal de 2005 proíbe anualmente, entre 1º de outubro e 31 de março, a pesca, o transporte, o armazenamento, o beneficiamento e a comercialização de tambaquis provenientes da pesca durante o período de proteção. Também existem regras relativas ao tamanho mínimo de captura. Documento técnico do Ibama registra o limite histórico de 55 centímetros para o tambaqui na Bacia Amazônica, justamente para reduzir a retirada de indivíduos antes da reprodução. A nova classificação indica que essas medidas não foram suficientes para eliminar o risco enfrentado pelas populações naturais. Então o tambaqui vai desaparecer dos mercados? Não necessariamente — e essa é uma diferença fundamental. A avaliação de risco considera as populações naturais do tambaqui, ou seja, os animais que vivem nos rios. Uma parcela importante do tambaqui comercializado atualmente não é retirada da natureza, mas produzida em sistemas de piscicultura. O IBGE mantém uma série estatística específica para a produção de tambaqui em cativeiro no país, reflexo da importância que a espécie adquiriu na aquicultura brasileira. Por isso, a inclusão na lista de espécies ameaçadas não deve ser interpretada como uma proibição automática da criação, venda ou consumo de tambaqui proveniente de produção aquícola legal. A distinção entre o peixe criado e o pescado nos rios é justamente um dos aspectos centrais das discussões sobre as novas regras. O paradoxo do tambaqui A situação do tambaqui revela um paradoxo comum na conservação de espécies exploradas comercialmente. Um animal pode ser produzido em grande quantidade em cativeiro e permanecer comum nos mercados enquanto suas populações selvagens diminuem. Pesca de tambaqui gera dilemas e paradoxos com novas regras batemanhl / iNaturalist No caso do tambaqui, os sinais vêm sendo registrados há décadas: redução dos desembarques naturais, captura de animais jovens, diminuição do tamanho dos exemplares em regiões sob maior pressão pesqueira e evidências genéticas de redução populacional. A classificação como Vulnerável transforma esses indícios acumulados pela ciência em um reconhecimento oficial do risco enfrentado pela espécie no Brasil. O desafio apontado pelos pesquisadores é: permitir que comunidades continuem utilizando um dos seus recursos pesqueiros mais tradicionais e, ao mesmo tempo, garantir que os grandes tambaquis continuem existindo nos rios onde a espécie evoluiu. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente
Tambaqui está 'menor e mais raro'; entenda o que o colocou na lista de espécies ameaçadas
Escrito em 18/08/2026
Comum nos mercados, ameaçado nos rios: entenda por que o tambaqui entrou na lista de espécies ameaçadas diegoferreira / iNaturalist Encontrado em feiras, mercados, restaurantes e criatórios de diferentes regiões do Brasil, o tambaqui parece estar longe de ser um peixe raro. Nos rios amazônicos, porém, a situação é diferente. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram O Colossoma macropomum passou a integrar oficialmente, em 2026, a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, na categoria Vulnerável (VU). A classificação indica que a espécie enfrenta risco elevado de extinção na natureza caso as ameaças às populações selvagens permaneçam. A mudança foi oficializada pela Portaria GM/MMA nº 1.667, de 27 de abril de 2026, que atualizou a relação de peixes e invertebrados aquáticos ameaçados no país. Na avaliação nacional anterior, publicada em 2014, o tambaqui era considerado Quase Ameaçado (NT). A nova classificação joga luz sobre um processo que pesquisadores acompanham há décadas: a diminuição dos grandes tambaquis na natureza e os efeitos da pesca sobre uma das espécies mais importantes da fauna e da cultura amazônicas. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: NOVO COMPORTAMENTO? Pato-mergulhão usa cupinzeiro como ninho na Serra da Canastra em registro inédito para a ciência JUÇARA VALE MAIS EM PÉ: Fruto transforma realidade e gera renda no Vale do Ribeira IMPORVÁVEL: Possível caso de águia híbrida atrai olhares e é acompanhado de perto no MS Menores e mais difíceis de encontrar Uma das evidências mais marcantes foi registrada em estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Pesquisadores investigaram os efeitos da demanda por pescado de Manaus sobre comunidades pesqueiras espalhadas pela Amazônia e encontraram sinais de impacto que se estendiam por mais de 1.000 quilômetros a partir da capital amazonense. Veja o que está em alta no g1: Agora no g1 Para o tambaqui, os resultados indicaram redução de aproximadamente 50% tanto no tamanho corporal dos peixes quanto na taxa de captura por unidade de esforço nas regiões mais afetadas. O trabalho utilizou informações de pescadores de comunidades rurais para reconstruir como a pressão exercida por uma grande cidade pode afetar populações de animais muito além de seus limites urbanos. A redução do tamanho dos exemplares é especialmente importante porque o tambaqui é um peixe de crescimento relativamente lento até chegar à fase reprodutiva. Estudos citados em pesquisas sobre a espécie indicam que as fêmeas alcançam a maturidade sexual, em média, quando estão entre 50 e 55 centímetros de comprimento e por volta dos três anos de idade. A captura recorrente de animais menores pode fazer com que parte da população seja retirada dos rios antes de se reproduzir. Historicamente, o tamanho dos peixes desembarcados nos principais mercados amazônicos já vinha despertando preocupação entre pesquisadores, com juvenis representando parcela importante das capturas. O peixe que ajuda a abastecer Manaus A pressão sobre os estoques naturais não começou agora. Estudos sobre a história da exploração do tambaqui mostram que a espécie já esteve entre os recursos pesqueiros mais importantes da região amazônica. Tambaqui enfrenta desafios na natureza eulucasramus / iNaturalist Dados recuperados por pesquisadores mostram que, em 1976, cerca de 16 mil toneladas de tambaqui chegaram ao porto de Manaus. No fim da década de 1990, esse desembarque havia caído para menos de 4 mil toneladas, apesar do crescimento populacional da cidade no intervalo. A tendência levou pesquisadores a associar a redução dos estoques principalmente à sobrepesca, especialmente pela retirada de juvenis e de grandes exemplares reprodutores. A preocupação aparece também na genética. Em estudo publicado em 2018 na revista Frontiers in Genetics, pesquisadores analisaram populações naturais de tambaqui de 21 localidades da bacia amazônica, além de uma localidade da sub-bacia boliviana. Foram analisados 539 indivíduos por marcadores de DNA mitocondrial e 604 por microssatélites. Os resultados mostraram diferenças genéticas entre determinadas populações e sinais de redução populacional ao longo do tempo. Os autores defenderam que as estratégias de conservação considerem essas diferenças entre populações e reduzam os efeitos da sobrepesca sobre os estoques naturais. Tambaqui importante para a floresta A perda de tambaquis não tem consequências apenas para a pesca. A espécie também desempenha função ecológica nas áreas de floresta inundável da Amazônia. Durante o período das cheias, os tambaquis entram nas várzeas e florestas alagadas para se alimentar. Frutos e sementes fazem parte da dieta, e o peixe atua como dispersor de sementes de árvores e arbustos amazônicos. Tambaqui está 'menor' e mais raro; entenda o porquê abraao_arthur_253 / iNaturalist Essa relação faz com que a diminuição dos grandes indivíduos possa ter repercussões que ultrapassam a própria população de peixes. O ciclo de vida do tambaqui está diretamente associado à dinâmica das cheias amazônicas. Na época de reprodução, ovos e larvas podem ser transportados pelas águas até ambientes de várzea, enquanto adultos percorrem rios e áreas inundadas para reprodução e alimentação. A pesca será proibida? A inclusão na lista de espécies ameaçadas trouxe uma consequência imediata para a discussão sobre o futuro da pesca. Além da Portaria nº 1.667, o Ministério do Meio Ambiente publicou a Portaria nº 1.666/2026, que estabelece regras para a exploração de peixes e invertebrados aquáticos classificados como ameaçados. Em julho, uma nova norma, a Portaria GM/MMA nº 1.748/2026, criou um período de transição para o tambaqui e para o peroá (Balistes capriscus), outra espécie que passou a integrar a lista. No caso dessas duas espécies, as restrições previstas pela legislação passam a produzir efeitos após 120 dias, enquanto o governo trabalha na definição de instrumentos específicos de manejo e recuperação. Isso não significa, porém, que qualquer utilização futura do tambaqui esteja necessariamente descartada. Tambaqui entra na lista de espécies ameaçadas ludmilagervazio / iNaturalist A própria regulamentação prevê a possibilidade de uso sustentável de espécies ameaçadas, desde que existam medidas de conservação e recuperação populacional definidas e sejam cumpridas as condições estabelecidas em um Plano de Recuperação. A elaboração desse instrumento é, portanto, uma das etapas decisivas para determinar como ficará a pesca do tambaqui selvagem. Proteção não começou em 2026 A preocupação com os estoques naturais do tambaqui é anterior à entrada da espécie na lista de ameaçados. Na Bacia Hidrográfica do Rio Amazonas, uma instrução normativa federal de 2005 proíbe anualmente, entre 1º de outubro e 31 de março, a pesca, o transporte, o armazenamento, o beneficiamento e a comercialização de tambaquis provenientes da pesca durante o período de proteção. Também existem regras relativas ao tamanho mínimo de captura. Documento técnico do Ibama registra o limite histórico de 55 centímetros para o tambaqui na Bacia Amazônica, justamente para reduzir a retirada de indivíduos antes da reprodução. A nova classificação indica que essas medidas não foram suficientes para eliminar o risco enfrentado pelas populações naturais. Então o tambaqui vai desaparecer dos mercados? Não necessariamente — e essa é uma diferença fundamental. A avaliação de risco considera as populações naturais do tambaqui, ou seja, os animais que vivem nos rios. Uma parcela importante do tambaqui comercializado atualmente não é retirada da natureza, mas produzida em sistemas de piscicultura. O IBGE mantém uma série estatística específica para a produção de tambaqui em cativeiro no país, reflexo da importância que a espécie adquiriu na aquicultura brasileira. Por isso, a inclusão na lista de espécies ameaçadas não deve ser interpretada como uma proibição automática da criação, venda ou consumo de tambaqui proveniente de produção aquícola legal. A distinção entre o peixe criado e o pescado nos rios é justamente um dos aspectos centrais das discussões sobre as novas regras. O paradoxo do tambaqui A situação do tambaqui revela um paradoxo comum na conservação de espécies exploradas comercialmente. Um animal pode ser produzido em grande quantidade em cativeiro e permanecer comum nos mercados enquanto suas populações selvagens diminuem. Pesca de tambaqui gera dilemas e paradoxos com novas regras batemanhl / iNaturalist No caso do tambaqui, os sinais vêm sendo registrados há décadas: redução dos desembarques naturais, captura de animais jovens, diminuição do tamanho dos exemplares em regiões sob maior pressão pesqueira e evidências genéticas de redução populacional. A classificação como Vulnerável transforma esses indícios acumulados pela ciência em um reconhecimento oficial do risco enfrentado pela espécie no Brasil. O desafio apontado pelos pesquisadores é: permitir que comunidades continuem utilizando um dos seus recursos pesqueiros mais tradicionais e, ao mesmo tempo, garantir que os grandes tambaquis continuem existindo nos rios onde a espécie evoluiu. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente