Novo estudo questiona explicação usada há décadas sobre corrente oceânica que regula o clima global

Escrito em 03/08/2026


Imagem mostra a entrada de águas quentes e salgadas do Oceano Índico no Atlântico pelo sul da África, representada pelos pontos brancos. NASA Goddard Space Flight Center. Uma das principais correntes oceânicas responsáveis por distribuir calor pelo planeta pode funcionar de maneira mais complexa do que os cientistas acreditavam. É isso o que aponta um estudo publicado nesta segunda-feira (3) na revista “Nature Geoscience”, conduzido por pesquisadores dos Países Baixos, Estados Unidos, China e Reino Unido. O trabalho analisou a AMOC, sigla em inglês para Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico. 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia O sistema funciona como uma grande “esteira transportadora”: leva águas quentes pela superfície do oceano em direção ao norte e devolve águas mais frias e densas pelas profundezas. Esse movimento influencia temperaturas, chuvas e outros aspectos do clima no Atlântico Norte, na Europa e em diferentes regiões do planeta. Durante décadas, cientistas consideraram que uma corrente localizada ao sul da África tinha papel importante na manutenção desse sistema. Chamada de fuga das Agulhas, ela transporta água quente e salgada do Oceano Índico para o Atlântico. A explicação tradicional dizia que esse sal ajudava a água do Atlântico Norte a ficar mais densa, afundar e alimentar a parte profunda da AMOC. O novo estudo encontrou, porém, um cenário diferente no passado remoto do planeta: mesmo quando essa entrada de água do Índico diminuiu drasticamente, a formação de águas profundas no Atlântico Norte e parte da circulação oceânica ficaram mais intensas. “A AMOC pode permanecer forte mesmo quando a fuga das Agulhas enfraquece”, afirmou Suning Hou, principal autora do estudo. Ilustração mostra o padrão da Atlantic Meridional Overturning Circulation (AMOC) NOAA O que os pesquisadores descobriram A equipe investigou um período compreendido entre 3,6 milhões e 2,6 milhões de anos atrás, no fim do Plioceno. O intervalo incluiu uma fase glacial seguida por outra mais quente do que o clima atual. Para reconstruir o comportamento dos oceanos naquele momento, os pesquisadores analisaram uma longa amostra de sedimentos retirada do Planalto das Agulhas, cerca de 500 quilômetros ao sul da África do Sul. As diferentes camadas acumuladas no fundo do mar funcionam como páginas de um arquivo natural. Elas guardam restos de micro-organismos, moléculas e outros sinais das condições existentes no oceano há milhões de anos. A equipe estudou fósseis microscópicos de organismos chamados dinoflagelados, além de compostos orgânicos preservados nos sedimentos. A presença de espécies adaptadas a águas quentes ou frias permitiu calcular mudanças na temperatura e acompanhar o deslocamento de uma grande faixa que separa águas subtropicais das regiões mais frias do Oceano Austral. O Oceano Atlântico perto da costa de Funchal, capital do arquipélago da Madeira, em Portugal. Domínio Público Quando essa faixa se desloca para o sul, abre um caminho mais amplo para a passagem da água do Índico ao redor da África do Sul e em direção ao Atlântico. Quando avança para o norte, essa passagem fica mais estreita. Os registros mostram que, a partir de aproximadamente 3,4 milhões de anos atrás, a faixa se deslocou para o norte. A região das Agulhas esfriou cerca de 3°C e passou a apresentar condições semelhantes às encontradas em áreas subpolares. Essas mudanças indicam que a entrada de água quente e salgada do Índico no Atlântico enfraqueceu de forma acentuada e pode ter chegado perto de parar. 🌊 Mas por que isso surpreendeu os cientistas? Pela explicação mais aceita, a diminuição no transporte de sal deveria reduzir a densidade da água no Atlântico Norte, dificultar seu afundamento e enfraquecer a AMOC. Os registros geológicos e as simulações climáticas mostraram o oposto. Embora a corrente que leva águas quentes para as regiões mais ao norte tenha alcançado distâncias menores durante o período glacial, a formação de águas profundas no Atlântico Norte aumentou. A circulação também ficou mais intensa em latitudes mais baixas. Para confirmar que não se tratava de uma mudança isolada, os pesquisadores compararam sedimentos retirados ao sul da África com registros do Golfo do México, do Caribe e das regiões equatorial e norte do Atlântico. Cisto do dinoflagelado Nematosphaeropsis labyrinthus, com cerca de 40 micrômetros de diâmetro, foi usado pelos pesquisadores como indicador da frente subtropical. Utrecht University/palsys.org Os dados foram então confrontados com simulações computacionais do clima do período. O conjunto revelou uma reorganização ampla das camadas de água do Atlântico, e não apenas uma alteração local. O resultado questiona a ideia de que a fuga das Agulhas controla diretamente a intensidade da AMOC apenas pelo transporte de sal. Segundo os pesquisadores, o funcionamento da circulação também depende de processos que ocorrem no próprio Atlântico Norte, onde a água perde calor, fica mais densa e afunda. A importância de cada mecanismo pode mudar de acordo com o clima, a distribuição de gelo e a própria configuração dos oceanos. 🌍 O estudo muda as previsões para a AMOC atual? Não diretamente. Os autores ressaltam que analisaram um período no qual a geografia, a quantidade de gelo e as condições climáticas eram diferentes das atuais. Por isso, os resultados não podem ser usados para afirmar como a AMOC responderá ao aquecimento global neste século. Uma futura mudança na posição das correntes do Oceano Austral, por exemplo, poderia aumentar a chegada de água salgada ao Atlântico. Ao mesmo tempo, o derretimento no Ártico e na Groenlândia injeta água doce no oceano, um fator que também influencia a circulação e não estava presente da mesma forma no período estudado. A principal conclusão é que a ligação entre as grandes correntes oceânicas não permanece igual em todas as fases da história da Terra. Ciclone Narelle deixa o céu vermelho na Austrália