'Casar que é bom ninguém quer': quem foi Alzira, a 'noiva' de Sorocaba que virou personagem folclórica

Escrito em 22/08/2026


A história de Alzira, a noiva que andava pelo centro de Sorocaba As lendas urbanas que compõem o folclore brasileiro estão sempre rodeadas de alguns elementos mágicos, surreais ou sobrenaturais. As criaturas são criação da nossa criatividade e dos saberes dos nossos antepassados. O folclore como conhecemos é isso; as lendas como imaginamos são essas. No entanto, há um pouco da realidade nestas histórias. Isso porque muito do que é contado só faz sentido com o que está no alcance dos olhos de quem criou o primeiro conto. É nessa mistura do real com o surreal que pessoas se tornam personagens e, mais tarde, esquecidas de sua humanidade. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp A biografia de Alzira Corrêa é um exemplo dessa memória em Sorocaba (SP). A mulher foi uma moradora da cidade que, especialmente na década de 1970, ficou conhecida por todos que frequentavam as ruas do centro. Sempre na praça Coronel Fernando Prestes, em frente a igreja matriz, Alzira desfilava com seu vestido de noiva e reagia aos jovens e aos casais que passavam por ali. A frase tão repetida por ela virou um bordão: “Casar que é bom ninguém quer!”. E a imagem de Alzira se tornou um exemplo dessa memória coletiva que, pelos relatos de terceiros, foi se transformando em uma espécie de “lenda” da cultura sorocabana, tendo sua humanidade extravasada para o folclore local. Conhecida como 'Alzira Sucuri', a mulher vivia no centro de Sorocaba na década de 70 Glauber Lopes / Arquivo pessoal 'Alzira Sucuri' era Alzira Corrêa A história de Alzira já foi registrada de diversas formas: reportagens, documentários e peças abordaram a vida da mulher sorocabana. Glauber Lopes, produtor cultural, foi um dos que se interessou por este trabalho há 15 anos. No documentário "100 Anos com Alzira", o produtor entrevistou pessoas que conviveram com Alzira e puderam colaborar na apresentação do perfil biográfico dela. A ideia surgiu justamente porque Glauber era um dos jovens sorocabanos que apenas conhecia os relatos da tal "Alzira Sucuri", mulher "louca" que andava pelo centro vestida de noiva e seguindo casais. “Eu ouvia dos meus pais, ouvia de vizinho, ouvia alguma pessoa que já tinha cruzado com ela… cada um contava uma história e aí eu tomei essa incumbência de fazer um projeto para homenageá-la. Foi um documentário e um espetáculo de teatro”, conta. Documentário sorocabano contou a história de Alzira Corrêa através de relatos de amigos da mulher Glauber Lopes / Arquivo pessoal Em uma diferença de gerações, entre quem a conheceu pessoalmente e quem apenas ouviu as histórias com o “tempero” da criatividade para a uma lenda urbana, Glauber se deparou com a história real de Alzira Corrêa e não com a personagem Alzira “Sucuri”. “Eu entendi que para eles, Alzira deixava de ser uma pessoa louca, de ser uma personagem e passava a ser uma pessoa, uma amiga. Porque todos eles tinham um carinho enorme por ela. Então eu percebi que a Alzira para eles não era um folclore, era uma pessoa real, uma pessoa que existia e que estava ali e participava da cidade. Eles se tornaram amigos dessa pessoa, que, até então, para mim era uma personagem”. LEIA TAMBÉM 'A cultura vai além': associação de artistas sorocabanos inaugura novo espaço cultural Dos vestidos longos à estética clean: como a moda mudou em Sorocaba dos anos 1950 aos 2000 Com bairro, time e paróquia: Sorocaba é a única cidade da América Latina que cresceu ao redor de um mosteiro de São Bento Alzira morreu aos 91 anos no dia 17 de Agosto de 2000, em Sorocaba. A mulher sempre foi moradora da cidade e, por um período, a partir de 1986, viveu internada no Hospital Psiquiátrico Jardim das Acácias. Segundo relatos, Alzira apresentava algumas deficiências como sequela de uma meningite que a afetou ainda na infância. A sua fixação por casamento foi a principal marca de sua personalidade. Espetáculo teatral e documentário '100 anos com Alzira' foram produzidos em 2011 Glauber Lopes / Arquivo pessoal 💭 Pessoas reais, memórias folclóricas Comemorar o dia do folclore, neste 22 de agosto, é dedicar a memória para as tantas histórias populares que ilustram um pouco da cultura do nosso país, do nosso estado e de nossas cidades. Esses contos, quando lembrados, ajudam a compreender o ambiente em que foram criados. O historiador Carlos Carvalho Carvalheiro explica que o caso de Alzira pode ser analisado como um retrato da época e das opiniões a respeito de pacientes psiquiátricos. "Hoje a ciência do folclore, ou da cultura popular, entende que chamar pessoas reais de 'figuras folclóricas' reduz histórias de vida complexas a caricaturas pitorescas ou exóticas. Embora os termos possam parecer sinônimos no senso comum, aplicar o rótulo de folclore a indivíduos vivos desumaniza o sujeito", pontua o historiador. Para ele, a história sorocabana se liga a essa reflexão. "Chamada de 'Sucuri' e servindo de chacota da molecada, na hipocrisia da sociedade excludente, ela, ao fim, foi elevada como uma personagem da cidade, como se fosse um patrimônio. Mas não é por coincidência que ela e tantos outros só se tornaram 'patrimônios' da cidade depois de 'controlados' pelo avanço da idade, pela internação ou pela morte. Antes disso, foram menosprezadas e alvos de preconceitos", afirma. Carlos Cavalheiro afirma que a mulher da foto é Alzira, conhecida como 'Alzira Sucuri' pelos sorocabanos Reprodução/Redes sociais De todo modo, Alzira foi alguém que teve sua história de vida costurada com a história da cidade de Sorocaba. Glauber Lopes destaca os trabalhos que viu surgir diante da presença de Alzira como inspiração para os artistas sorocabanos. "Tem um pessoal que já fez uma música para ela. Teve também o Beco do Inferno, que criou uma medalha cultural Alzira Sucuri para homenagear... Ela era uma pessoa pulsante em Sorocaba. Era uma pessoa viva que se tornou mais conhecida que todos nós, numa época que não existia internet e ela conseguiu quebrar todas as barreiras da maneira que ela era", diz. Alzira foi homenageada em diferentes trabalhos pela comunidade sorocabana Redes sociais / Reprodução Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí Initial plugin text VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM