Não é só a bebida: como evitar álcool falsificado e gelo contaminado na folia

Escrito em 14/02/2026


Freepik Com blocos lotados e aumento do consumo de álcool, o Carnaval também amplia a circulação de bebidas de origem duvidosa. O problema é que a adulteração quase nunca é visível —e, quando envolve substâncias tóxicas, pode levar a intoxicações graves. Identificar uma bebida irregular é difícil. Cor e aparência costumam permanecer inalteradas, e o sabor raramente denuncia o problema. Segundo Eduardo Grecco, gastrocirurgião e professor de Medicina da Faculdade do ABC, mesmo consumidores atentos têm dificuldade para perceber alterações sensoriais. Em alguns casos, pode haver leve diferença no cheiro ou no gosto, mas isso nem sempre é evidente. Já o toxicologista Alvaro Pulchinelli, diretor técnico da Toxicologia Pardini do Grupo Fleury, reforça que não existe teste caseiro capaz de detectar adulteração. Do ponto de vista prático, o consumidor não tem como saber se houve adição de substâncias indevidas —a confirmação só é possível por análise laboratorial. A dificuldade aumenta porque os esquemas de falsificação são organizados. Lacres, rótulos e embalagens podem ser reproduzidos com alto grau de fidelidade. Em festas e blocos, muitos consumidores recebem o drink já pronto, o que elimina qualquer chance de conferir a garrafa. G1 - transmissão ao vivo Globo SP - Transmissão Carnaval 2026 Quais bebidas oferecem maior risco? Os produtos mais visados são destilados vendidos em garrafas de vidro, especialmente vodca e gin. Por serem transparentes e de sabor neutro, tornam-se mais fáceis de adulterar sem que o consumidor perceba alterações. Bebidas enlatadas tendem a oferecer mais segurança, porque esse tipo de embalagem é mais difícil de reutilizar ou falsificar. No caso da cerveja, especialmente em lata ou long neck, fraudes em larga escala são menos frequentes. Ainda assim, especialistas recomendam atenção ao abrir a embalagem e durante o consumo, evitando deixar a bebida desacompanhada ou fora de vista. Como reduzir o risco na folia Os médicos ouvidos pela reportagem apontam medidas simples que ajudam a diminuir a chance de consumir bebida adulterada ou gelo contaminado. Desconfiar de preços muito abaixo da média de mercado. Observar lacres, rótulos e condições da embalagem. Preferir bebidas enlatadas sempre que possível. Evitar consumir drinks já prontos sem saber a origem da garrafa utilizada. Não utilizar gelo de procedência desconhecida —especialmente aquele usado apenas para resfriar latas e garrafas. Diante de sintomas intensos ou fora do padrão habitual, procurar atendimento médico imediatamente. Ainda há perigo de intoxicação por metanol? O principal risco nas bebidas falsificadas é a possível presença de metanol, um tipo de álcool usado na indústria como solvente e combustível, impróprio para consumo humano. Diferentemente do etanol —o álcool presente nas bebidas regulares— o metanol é altamente tóxico. Em esquemas de adulteração, ele pode ser misturado ao etanol para reduzir custos. Quando ingerido em concentrações elevadas, provoca danos graves ao fígado, ao coração e ao sistema nervoso. Nos casos mais severos, pode causar vômitos intensos, dor de cabeça forte, confusão mental, alterações visuais, insuficiência hepática, coma e até morte. A substância também pode provocar sequelas neurológicas permanentes, inclusive comprometimento da visão. Após episódios recentes de intoxicação no país, o governo federal chegou a montar uma sala de situação para monitorar os casos. O grupo específico já não está ativo, mas isso não significa que o risco tenha desaparecido. Origem do metanol pode estar ligada a combustíveis Reprodução/TV Globo Ressaca comum ou sinal de alerta? Os primeiros sintomas podem se confundir com uma ressaca habitual. Dor de cabeça, náusea, mal-estar, tontura e vômitos leves são efeitos esperados do consumo excessivo de álcool e costumam melhorar com hidratação e repouso. A diferença está na intensidade e na evolução do quadro. Pulchinelli explica que, quando há ingestão de bebida adulterada com metanol, os sintomas tendem a ser mais intensos e desproporcionais ao que foi consumido. Vômitos repetidos ou incontroláveis, dor de cabeça muito forte, tontura acentuada, confusão mental, fraqueza importante, palidez, suor frio e sensação de desmaio fogem do padrão de uma ressaca comum. Não se trata apenas de acordar pior do que o habitual. Piora rápida do estado geral ou sinais neurológicos —como dificuldade para se manter consciente ou desorientação —indicam gravidade. Quando procurar ajuda médica? Diante de sintomas intensos, diferentes do habitual ou com evolução rápida, a orientação é procurar atendimento hospitalar imediatamente. Existem antídotos específicos para intoxicação por metanol disponíveis no sistema público de saúde. A rapidez no tratamento é determinante para evitar complicações graves. Esperar “passar” pode agravar o quadro. E o gelo também pode oferecer risco? Não é apenas a bebida que exige atenção. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa que gelo produzido com água contaminada ou manipulado de forma inadequada pode transmitir microrganismos como Escherichia coli, Salmonella e norovírus. Mesmo sendo incolor, o gelo pode carregar agentes capazes de causar infecções gastrointestinais, com diarreia, febre e vômitos. O risco é maior quando a manipulação ocorre em locais sem condições adequadas de higiene. Durante o Carnaval, as ações de fiscalização são descentralizadas e conduzidas por órgãos estaduais e municipais de vigilância sanitária, que costumam intensificar operações voltadas à segurança do consumo de bebidas alcoólicas no período.