Césio-137: acidente foi descoberto com uso de equipamento emprestado por geólogo

Escrito em 14/04/2026


Profissionais que atuaram na época do acidente com o césio-137 relembram histórias A descoberta do acidente com o Césio-137 e da gravidade da substância radioativa, em Goiânia, teve papel fundamental do geólogo Sebastião Maia de Andrade. Foi ele quem emprestou o equipamento usado para fazer a medição da radioatividade, chamado cintilômetro, e também acompanhou os técnicos da Vigilância Sanitária e o físico Walter Mendes Ferreira na detecção do nível da radiação. ✅ Clique e siga o canal do g1 GO no WhatsApp O acidente com o Césio-137 é considerado o maior da história ocorrido fora de uma usina nuclear. A tragédia deixou quatro pessoas mortas, entre elas uma menina de 6 anos, a Leide das Neves, e mais de 1 mil afetadas. Quando aconteceu o acidente, em setembro de 1987, Sebastião era gerente da antiga Empresas Nucleares Brasileiras S/A (Nuclebrás) em Goiás. No ano seguinte, o nome da estatal mudou para INB/Indústrias Nucleares do Brasil S.A, mantido até os dias atuais. Sebastião Maia de Andrade emprestou equipamento para medição do nível de radiação e também mediu locais contaminados pelo Césio-137 Sebastião Nogueira/ Cedoc/ O Popular LEIA TAMBÉM Quem é o físico que identificou o acidente com Césio-137 em Goiânia? O que aconteceu com as vítimas do Césio-137? Césio-137: Mãe de Leide das Neves, símbolo do acidente, desabafa após quase 40 anos: 'A gente revive tudo' Em entrevista ao g1, a advogada Ana Carla Maia e a médica psiquiatra Ana Gabriela Maia Clemente, filha e neta, respectivamente, de Sebastião, contaram que ele morava na mesma rua do sanitarista Paulo Roberto Monteiro, com quem tinha uma relação de amizade. "Meu pai contou que ele não estava no escritório, mas autorizou que o cintilômetro fosse emprestado ao sanitarista. Então, o Paulo Roberto Monteiro foi lá, pela manhã, junto com um físico e mais outro funcionário", relembra a filha. No início da tarde daquele dia 29 de setembro, quando o grupo retornou, Sebastião ligou o cintilômetro e mediu o nível de radiação neles. "Meu pai falou para o Paulo Roberto: 'Você está contaminado, suas roupas estão contaminadas. Vai para casa, põe a roupa no quintal e toma banho", detalha. Em seguida, o geólogo foi pessoalmente ao local onde estava a cápsula de onde havia sido retirado o pó do Césio-137. Segundo Ana Carla, ele contou que ao chegar à Avenida Anhanguera, a alguns metros da casa do Setor Aeroporto, onde estava o aparelho radiológico, detectou um alto nível de radiação. "Assim que ele percebeu a gravidade da coisa, ele voltou imediatamente ao escritório da Nuclebrás. Foi quando ele passou o telex", disse. 🔍 Telex era um sistema de comunicação muito comum entre as décadas de 1930 e 1990, que usava teleimpressores, máquinas semelhantes às de escrever, conectados por linhas telegráficas. No comunicado, Sebastião relatou à Superintendência da Nuclebrás o que estava acontecendo e avisou que já tinha repassado a situação ao diretor das instalações nucleares da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), o físico José Júlio Rosental. O geólogo Sebastião Maia de Andrade recebeu em 2004 o título de Cidadão Goiano da Alego, por sua atuação na tragédia do Césio-137 Arquivo pessoal/ Ana Carla Maia Impactos da tragédia A filha Ana Carla conta que Sebastião morreu em 2006, aos 70 anos, vítima de pancreatite. A família não sabe dizer se a doença teve alguma relação com a sua atuação naqueles dias de medição da radioatividade, mas afirma que o geólogo ficou muito impactado pela tragédia. "Ele teve principalmente problemas psicológicos. Ficou um trauma muito grande", relatou. Reconhecimento A família disse que o papel do geólogo foi reconhecido quando ele ainda estava vivo, quando recebeu da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) o título de Cidadão Goiano, pela sua atuação na tragédia do Césio-137. Ele recebeu a homenagem cerca de dois anos antes de sua morte. Vinte anos após a morte do pai, Ana Carla pondera que Sebastião tinha um perfil reservado e não gostava de se expor. As entrevistas que deu à imprensa, inclusive ao jornal O Popular, foram realizadas após ter sido procurado pelos jornalistas. "Ele era uma pessoa mais técnica mesmo, assim, mais intelectual. Então, ele não tinha muito essa coisa de se colocar na mídia". Elas relataram a percepção da família sobre o apagamento da atuação do geólogo. Por isso, a neta decidiu expor, nas redes sociais, a participação e o quão ele foi importante. Em quatro dias, a publicação já teve mais de 20 mil interações. "O telex enviado por ele comprova: a detecção da radiação, a medição com o cintilômetro e a comunicação com o Cnen", destacou na postagem. Área é isolada após identificação de contaminação por Césio 137 em Goiânia, durante operação de controle e retirada de material radioativo Acervo/O Popular 📱 Veja outras notícias da região no g1 Goiás.