São João Batista: Confira a história do cemitério mais antigo de Rio Branco Em meio a túmulos, mausoléus, esculturas e homenagens, o Cemitério São João Batista, em Rio Branco, guarda muito mais do que a memória de quem já morreu. O espaço, considerado o mais antigo e o maior da capital acreana, também preserva parte da história de uma cidade que cresceu ao redor dele. São gerações de moradores, personagens conhecidos e pessoas comuns que tiveram suas trajetórias registradas entre as sepulturas. Nesta segunda-feira (2), Dia de Finados, quando milhares de pessoas visitam cemitérios para prestar homenagens a familiares e amigos, o São João Batista, localizado no bairro Dom Giocondo, também pode ser observado por outra perspectiva: a de um lugar que ajuda a contar como Rio Branco se formou, se organizou e se transformou ao longo do tempo. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 AC no WhatsApp Segundo dados da Prefeitura de Rio Branco fornecidos ao g1, o cemitério reúne cerca de 15 mil sepulturas e pelo menos 80 mil pessoas sepultadas. Embora não exista um registro documental definitivo sobre a idade exata do espaço, sua oficialização é apontada em pesquisas históricas como tendo ocorrido em 1909, durante a administração de Gabino Besouro, então prefeito do Departamento do Alto Acre. Cemitério São João Batista, em Rio Branco, guarda 1 século de histórias Marcos Araújo/Secom A historiadora e professora Poliana Melo, que dedicou sua pesquisa de mestrado à história do cemitério, explicou em entrevista ao g1 que a criação do espaço está diretamente relacionada às transformações urbanas que marcaram o fim do século XIX e o início do século XX. Naquele período, cidades brasileiras passavam por mudanças na organização dos espaços públicos. Questões sanitárias, controle de doenças, circulação de ar e planejamento urbano começaram a ganhar importância nas decisões administrativas. Os cemitérios também entraram nesse processo, com a transferência gradual de sua administração para o poder público. Em Rio Branco, a lógica era semelhante. "O discurso oficial seguia a lógica de modernizar a então vila Rio Branco para transformá-la em cidade. Nesse sentido, a criação de um cemitério se fazia necessária para a demarcação e a ordenação dos espaços urbanos. Os sepultamentos deveriam, a partir de então, ocorrer nos locais destinados a essa finalidade", destacou. A historiadora destaca que a oficialização do São João Batista não foi apenas uma medida relacionada aos sepultamentos. O espaço também representava uma decisão política sobre como a cidade deveria ser organizada e quais práticas seriam aceitas naquele novo modelo urbano. "Não seriam mais admitidos enterros nas cercanias das residências, em áreas de mata, nas proximidades dos roçados ou nos cemitérios populares, considerados incompatíveis com o planejamento e o controle governamental associados à modernidade", complementou. LEIA TAMBÉM: No Acre, cemitérios públicos são organizados para receber visitantes no Dia dos Finados Cemitério de município do Acre é alvo de investigação por superlotação e risco de alagamentos No AC, túmulo de professora morta há 73 anos atrai fiéis atrás de milagres Cemitério São João Batista, em Rio Branco Reprodução/Emsurb Datas que ainda geram dúvidas Apesar de 1909 ser apontado como o ano de inauguração do cemitério, há uma divergência nos registros históricos. Um documento da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur), de 2003, menciona 1907 como o ano de criação do espaço. Durante sua pesquisa, Poliana não encontrou elementos suficientes para esclarecer a diferença entre as duas datas. "A divergência também pode estar relacionada à utilização das terras que atualmente compõem o Cemitério São João Batista como local de sepultamentos em período anterior à sua adoção oficial como cemitério, em 1909", salientou. A própria idade do cemitério também é tratada com cautela por quem acompanha o funcionamento do local. Segundo a coordenação do São João Batista, uma placa instalada na capela é utilizada como referência para estimar sua idade. Trabalhadores antigos, alguns já falecidos, também relatavam que o espaço teria mais de 100 anos, mas não há documentação concreta que confirme essa informação. Dia dos Finados leva milhares de pessoas a visitar túmulos em cemitérios de Rio Branco Entre personagens históricos e histórias anônimas Para Poliana, olhar para o Cemitério São João Batista apenas como o local onde estão enterradas personalidades importantes é deixar de lado uma parte significativa de sua história. O cemitério também preserva a memória de trabalhadores, famílias e moradores que, embora não tenham ocupado cargos públicos ou recebido homenagens oficiais, participaram da construção cotidiana da capital. É justamente essa diversidade que torna o espaço uma fonte de pesquisa. Os túmulos, as inscrições, as fotografias, as esculturas e as formas de homenagem revelam costumes, crenças religiosas, relações familiares e até diferenças sociais de cada época. A arquitetura do cemitério também ajuda a compreender essas transformações. Mausoléus, monumentos e obras de arte registram diferentes períodos e maneiras de lidar com a morte e preservar a memória de quem partiu. São elementos que, muitas vezes, passam despercebidos por quem visita o local apenas em datas específicas. "Além disso, existe um conjunto de trabalhadores e trabalhadoras que atuam diariamente na organização e limpeza do espaço, sepultamentos, orientações e recepção dos visitantes do cemitério. O espaço cemiterial reflete as dinâmicas da sociedade, processos históricos e outras formas de narrar a cidade que podem servir tanto como fonte histórica, quanto veículo de difusão e até de questionamento dos problemas cotidianos de Rio Branco", comentou. Cemitério São João Batista, em Rio Branco Marcos Araújo/Secom Museu a céu aberto A pesquisa de Poliana também aponta possibilidades para além da preservação dos túmulos. Para ela, o São João Batista poderia ser aproveitado como uma espécie de museu a céu aberto, com visitas guiadas, exposições, palestras e atividades educativas. A proposta é transformar o espaço em uma oportunidade de aproximar estudantes da história de Rio Branco por meio de elementos que estão preservados na própria cidade. "O São João Batista poderia ser transformado numa espécie de museu a céu aberto, pois sua arquitetura, as obras de arte, as manifestações religiosas, as homenagens, formas de trabalho e etc. nos contam histórias e poderiam ser melhor aproveitadas nos processos educacionais da rede pública de ensino, aproveitando, inclusive, os conhecimentos dos trabalhadores e trabalhadoras que atuam diariamente naquele espaço", sugeriu. Segundo a professora, experiências semelhantes já são realizadas em outras partes do país, onde cemitérios históricos recebem visitantes e desenvolvem ações culturais e educativas. Para ela, o potencial histórico desses espaços não precisam ser vistos exclusivamente pela perspectiva da morte. "Apenas para lembrar que essa não é uma ideia absurda, gostaria de enfatizar que alguns dos monumentos mais famosos do mundo são, na verdade, túmulos, como o Taj Mahal, na Índia, e as pirâmides do Egito, que nos ajudam a conhecer um pouco da história dos povos e civilizações que os construíram. Em parte, foi por essas razões que decidi pesquisar sobre o espaço cemiterial como forma de narrar a história da cidade", finalizou. Cemitério São João Batista, em Rio Branco Reprodução/Rede Amazônica Por que o nome 'São João Batista'? A escolha de São João Batista como padroeiro de inúmeros cemitérios está profundamente ligada ao simbolismo cristão da transição e da renovação espiritual. Na teologia católica, o santo que batizava nas águas do Rio Jordão representa o rito de passagem, a purificação e a preparação para o Reino dos Céus. Dessa forma, associar seu nome aos campos-santos traz o conforto bíblico de que a morte física não é um fim definitivo, mas sim uma travessia e um 'novo nascimento' para a vida eterna. Além disso, essa devoção religiosa foi consolidada no Brasil a partir do século XIX pela Santa Casa de Misericórdia, que batizou a primeira grande necrópole pública do Rio de Janeiro em homenagem ao santo, gerando um efeito cascata que inspirou vários estados a adotarem o mesmo nome para os seus espaços de memória e luto. VÍDEOS: g1
Entre figuras notáveis e pessoas comuns, cemitério mais antigo de Rio Branco guarda mais de 1 século de histórias
Escrito em 02/11/2026
São João Batista: Confira a história do cemitério mais antigo de Rio Branco Em meio a túmulos, mausoléus, esculturas e homenagens, o Cemitério São João Batista, em Rio Branco, guarda muito mais do que a memória de quem já morreu. O espaço, considerado o mais antigo e o maior da capital acreana, também preserva parte da história de uma cidade que cresceu ao redor dele. São gerações de moradores, personagens conhecidos e pessoas comuns que tiveram suas trajetórias registradas entre as sepulturas. Nesta segunda-feira (2), Dia de Finados, quando milhares de pessoas visitam cemitérios para prestar homenagens a familiares e amigos, o São João Batista, localizado no bairro Dom Giocondo, também pode ser observado por outra perspectiva: a de um lugar que ajuda a contar como Rio Branco se formou, se organizou e se transformou ao longo do tempo. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 AC no WhatsApp Segundo dados da Prefeitura de Rio Branco fornecidos ao g1, o cemitério reúne cerca de 15 mil sepulturas e pelo menos 80 mil pessoas sepultadas. Embora não exista um registro documental definitivo sobre a idade exata do espaço, sua oficialização é apontada em pesquisas históricas como tendo ocorrido em 1909, durante a administração de Gabino Besouro, então prefeito do Departamento do Alto Acre. Cemitério São João Batista, em Rio Branco, guarda 1 século de histórias Marcos Araújo/Secom A historiadora e professora Poliana Melo, que dedicou sua pesquisa de mestrado à história do cemitério, explicou em entrevista ao g1 que a criação do espaço está diretamente relacionada às transformações urbanas que marcaram o fim do século XIX e o início do século XX. Naquele período, cidades brasileiras passavam por mudanças na organização dos espaços públicos. Questões sanitárias, controle de doenças, circulação de ar e planejamento urbano começaram a ganhar importância nas decisões administrativas. Os cemitérios também entraram nesse processo, com a transferência gradual de sua administração para o poder público. Em Rio Branco, a lógica era semelhante. "O discurso oficial seguia a lógica de modernizar a então vila Rio Branco para transformá-la em cidade. Nesse sentido, a criação de um cemitério se fazia necessária para a demarcação e a ordenação dos espaços urbanos. Os sepultamentos deveriam, a partir de então, ocorrer nos locais destinados a essa finalidade", destacou. A historiadora destaca que a oficialização do São João Batista não foi apenas uma medida relacionada aos sepultamentos. O espaço também representava uma decisão política sobre como a cidade deveria ser organizada e quais práticas seriam aceitas naquele novo modelo urbano. "Não seriam mais admitidos enterros nas cercanias das residências, em áreas de mata, nas proximidades dos roçados ou nos cemitérios populares, considerados incompatíveis com o planejamento e o controle governamental associados à modernidade", complementou. LEIA TAMBÉM: No Acre, cemitérios públicos são organizados para receber visitantes no Dia dos Finados Cemitério de município do Acre é alvo de investigação por superlotação e risco de alagamentos No AC, túmulo de professora morta há 73 anos atrai fiéis atrás de milagres Cemitério São João Batista, em Rio Branco Reprodução/Emsurb Datas que ainda geram dúvidas Apesar de 1909 ser apontado como o ano de inauguração do cemitério, há uma divergência nos registros históricos. Um documento da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur), de 2003, menciona 1907 como o ano de criação do espaço. Durante sua pesquisa, Poliana não encontrou elementos suficientes para esclarecer a diferença entre as duas datas. "A divergência também pode estar relacionada à utilização das terras que atualmente compõem o Cemitério São João Batista como local de sepultamentos em período anterior à sua adoção oficial como cemitério, em 1909", salientou. A própria idade do cemitério também é tratada com cautela por quem acompanha o funcionamento do local. Segundo a coordenação do São João Batista, uma placa instalada na capela é utilizada como referência para estimar sua idade. Trabalhadores antigos, alguns já falecidos, também relatavam que o espaço teria mais de 100 anos, mas não há documentação concreta que confirme essa informação. Dia dos Finados leva milhares de pessoas a visitar túmulos em cemitérios de Rio Branco Entre personagens históricos e histórias anônimas Para Poliana, olhar para o Cemitério São João Batista apenas como o local onde estão enterradas personalidades importantes é deixar de lado uma parte significativa de sua história. O cemitério também preserva a memória de trabalhadores, famílias e moradores que, embora não tenham ocupado cargos públicos ou recebido homenagens oficiais, participaram da construção cotidiana da capital. É justamente essa diversidade que torna o espaço uma fonte de pesquisa. Os túmulos, as inscrições, as fotografias, as esculturas e as formas de homenagem revelam costumes, crenças religiosas, relações familiares e até diferenças sociais de cada época. A arquitetura do cemitério também ajuda a compreender essas transformações. Mausoléus, monumentos e obras de arte registram diferentes períodos e maneiras de lidar com a morte e preservar a memória de quem partiu. São elementos que, muitas vezes, passam despercebidos por quem visita o local apenas em datas específicas. "Além disso, existe um conjunto de trabalhadores e trabalhadoras que atuam diariamente na organização e limpeza do espaço, sepultamentos, orientações e recepção dos visitantes do cemitério. O espaço cemiterial reflete as dinâmicas da sociedade, processos históricos e outras formas de narrar a cidade que podem servir tanto como fonte histórica, quanto veículo de difusão e até de questionamento dos problemas cotidianos de Rio Branco", comentou. Cemitério São João Batista, em Rio Branco Marcos Araújo/Secom Museu a céu aberto A pesquisa de Poliana também aponta possibilidades para além da preservação dos túmulos. Para ela, o São João Batista poderia ser aproveitado como uma espécie de museu a céu aberto, com visitas guiadas, exposições, palestras e atividades educativas. A proposta é transformar o espaço em uma oportunidade de aproximar estudantes da história de Rio Branco por meio de elementos que estão preservados na própria cidade. "O São João Batista poderia ser transformado numa espécie de museu a céu aberto, pois sua arquitetura, as obras de arte, as manifestações religiosas, as homenagens, formas de trabalho e etc. nos contam histórias e poderiam ser melhor aproveitadas nos processos educacionais da rede pública de ensino, aproveitando, inclusive, os conhecimentos dos trabalhadores e trabalhadoras que atuam diariamente naquele espaço", sugeriu. Segundo a professora, experiências semelhantes já são realizadas em outras partes do país, onde cemitérios históricos recebem visitantes e desenvolvem ações culturais e educativas. Para ela, o potencial histórico desses espaços não precisam ser vistos exclusivamente pela perspectiva da morte. "Apenas para lembrar que essa não é uma ideia absurda, gostaria de enfatizar que alguns dos monumentos mais famosos do mundo são, na verdade, túmulos, como o Taj Mahal, na Índia, e as pirâmides do Egito, que nos ajudam a conhecer um pouco da história dos povos e civilizações que os construíram. Em parte, foi por essas razões que decidi pesquisar sobre o espaço cemiterial como forma de narrar a história da cidade", finalizou. Cemitério São João Batista, em Rio Branco Reprodução/Rede Amazônica Por que o nome 'São João Batista'? A escolha de São João Batista como padroeiro de inúmeros cemitérios está profundamente ligada ao simbolismo cristão da transição e da renovação espiritual. Na teologia católica, o santo que batizava nas águas do Rio Jordão representa o rito de passagem, a purificação e a preparação para o Reino dos Céus. Dessa forma, associar seu nome aos campos-santos traz o conforto bíblico de que a morte física não é um fim definitivo, mas sim uma travessia e um 'novo nascimento' para a vida eterna. Além disso, essa devoção religiosa foi consolidada no Brasil a partir do século XIX pela Santa Casa de Misericórdia, que batizou a primeira grande necrópole pública do Rio de Janeiro em homenagem ao santo, gerando um efeito cascata que inspirou vários estados a adotarem o mesmo nome para os seus espaços de memória e luto. VÍDEOS: g1