Polícia investiga morte de mãe e bebê após entrada em UPA de MT

Escrito em 07/05/2026


Pai que esperava 1° filho perde esposa e bebê em MT A Polícia Civil investiga a causa da morte de Andra da Conceição e o bebê dela, Pedro Miguel, após dar entrada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Tangará da Serra, a 242 km de Cuiabá. O bebê morreu no dia 5 de abril, e a mãe, 12 dias depois. O Ministério Público do estado (MPMT) também abriu procedimento para acompanhar o caso. À TV Centro América, a secretária municipal de Saúde Angela Belizário nega qualquer negligência no atendimento médico e ressalta que a UPA conta com reforço na equipe desde o decreto de emergência em saúde devido ao surto de gripe na região. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MT no WhatsApp A denúncia na polícia foi feita pelo próprio pai, Crenival Rodrigues Ferreira. Os dois estavam juntos há cinco anos e se preparavam para ter o primeiro filho. “É muito doloroso. A gente preparou nove meses o quarto, as coisas, as roupas, o quarto, o guarda-roupa, tudo. Nove meses preparando e o bebê não vem pra casa, nem a mãe. Eu não tenho mais alegria de viver”, conta. Na madrugada do dia 5, Crenival disse que a esposa passou mal e estava entrando em trabalho de parto, e a levou até a UPA, onde foi atendida. O problema, segundo ele, começou na demora depois de passarem pela triagem. Crenival explicou que o médico plantonista tirou fotos da genitália da esposa e encaminhou para a ginecologista que, naquele momento, estava no intervalo. Ele disse que a mulher ficou numa cadeira de rodas enquanto esperava pelo atendimento no corredor. A secretária municipal de Saúde informou que, pouco depois, a gestante foi transferida para uma maca adequada. “A demora da médica chegar foi deixando minha esposa em vulnerabilidade, porque a UPA estava ficando cheia, com gente com gripe, com Covid. Voltei a falar com o médico, e ele disse que iria examinar. Aí comecei a ligar para as pessoas e consegui falar com um médico particular. Ele falou para gente ir para o Hospital das Clínicas, então peguei minha esposa e coloquei no carro, tomando soro, e levei para o hospital particular. Eu só saí do hospital municipal porque não tive atendimento de uma profissional. Só um médico para atender aquele tanto de gente”, desabafou. No hospital particular, o procedimento de cesárea foi realizado, mas o bebê nasceu sem sinais vitais. Dois dias depois, a mãe fez exames e foi internada na UTI. Ela ficou 12 dias em coma induzido, mas não resistiu. Segundo documentos apresentados por Crenival, o primeiro pré-natal foi feito no dia 9 de setembro do ano passado, em um postinho de saúde do município. Durante esse período, eles também fizeram acompanhamento numa clínica privada. “Não vou conseguir trazer minha esposa e meu filho de volta, mas eu espero que isso não aconteça mais com outros pais. Sou um cara forte, mas não estou aguentando segurar esse peso”, lamentou. Andra da Conceição e o bebê que esperava, Pedro Miguel, morreram em Tangará da Serra (MT) Arquivo pessoal Apenas no ano passado, foram 17 casos de mortes de recém-nascidos e fetos em hospitais de Tangará da Serra, segundo dados do DataSUS. Esses registros estão catalogados como evitáveis, ou seja, poderiam ter sido evitados com assistência médica desde a gestação até o parto. DataSUS: mortes evitáveis de bebês Reduzíveis por adequada atenção à gestação, parto, feto e recém-nascido Em 2025, foram 17 casos, sendo 16 na rede privada e um na pública. Em 2024, foram 25 casos, sendo 21 na particular e quatro na pública. Em 2023, foram 19 casos, sendo 14 na rede privada e cinco na pública. Em 2022, foram 29 casos, sendo todos na rede particular. Em 2021, foram 18 casos, sendo 16 na rede privada e dois na pública. Outros casos Após a repercussão do caso de Crenival nas redes sociais, outras duas gestantes foram ouvidas pela TV Centro América e relataram situações semelhantes, mas com desfecho sem gravidade. Elas preferiram não serem identificadas. A primeira conta que teve o bebê no dia 15 de abril deste ano. Ela afirma que passou uma semana indo e voltando na UPA em Tangará da Serra. “Com 39 semanas, eu comecei sentir dores das contrações. Eu ia na UPA e eles me passavam tramal, buscopam e paracetamol na veia e depois me mandavam para casa dizendo que não tinha nada de dilatação. Aí eu não confiei neles e fui para Rondonópolis ter meu neném”, afirma. O bebê dela nasceu saudável e os dois se recuperam em casa. “Assim que cheguei lá, eles me encaminharam direto. Eu já estava com três centímetros de dilatação. Isso com 40 semanas tendo passado no médico um dia antes e eles alegaram não estar dilatando nem amolecendo o colo do útero”. Já a segunda gestante relembra o que passou em junho de 2023, quando saiu do assentamento Antônio Conselheiro até a UPA do município. Com 40 semanas e contrações regulares, ela foi diagnosticada sem dilatação e orientada a retornar outro dia para indução do parto. Desconfiada, a irmã dela a levou para outro hospital, onde a bolsa estourou com líquido verde. “Meu filho nasceu extremamente cansado. Tiveram que fazer lavagem no meu filho, porque engoliu líquido amniótico, mas não precisou de UTI. Ele gorfava aquele líquido verde. No outro dia, o médico veio no quarto e falou que mais 40 minutos o meu filho iria nascer morto e nem sabe como eu estaria. Pode ser que precisaria de UTI ou até corria risco de morrer por infecção”, lembra.