Competição em que o doping é liberado levanta polêmica sobre limites do esporte

Escrito em 04/05/2026


Competição em que o doping é liberado será disputada este mês nos Estados Unidos Uma competição esportiva inédita e polêmica entra em cena neste mês nos Estados Unidos. Batizado de Enhanced Games (Jogos Aprimorados), o torneio permitirá que atletas utilizem substâncias para melhora de desempenho — o que é considerado doping no esporte tradicional — desde que sob supervisão médica rigorosa. As disputas estão marcadas para o dia 24 de maio, em Las Vegas, e vão reunir competidores do atletismo, da natação e do levantamento de peso. Segundo os organizadores, a proposta é combinar competição esportiva com um experimento científico de longo prazo. Todos esses atletas estão dopados. O uso das substâncias, no entanto, não é irrestrito. Uma comissão médica independente, formada por 11 especialistas de diferentes áreas, acompanha cada participante. O grupo é liderado pelo cardiologista alemão Guido Pieles, especialista em esporte. De acordo com a organização, apenas drogas aprovadas pela FDA, a agência reguladora dos Estados Unidos (equivalente à Anvisa no Brasil), podem ser utilizadas. As doses são controladas e o período de uso é limitado a entre seis e 12 semanas, logo antes da competição. “Não são drogas aprovadas para correr mais rápido ou pular mais alto. Elas servem para tratar doenças. Mas, se já têm aprovação, são mais seguras”, explica Pieles. “Também controlamos as dosagens, sempre pequenas.” Brasileiro participa do projeto O nadador Felipe Lima, de 41 anos, é o único brasileiro entre os atletas recrutados para os Jogos Aprimorados. Ele disputou duas edições dos Jogos Olímpicos e está em fase final de preparação em Ponte Vedra, na Flórida. Felipe afirma que os protocolos são rigorosamente seguidos e monitorados semanalmente. Segundo ele, os primeiros efeitos surgiram já na segunda semana de uso das substâncias. “Tem uma melhora no sono, na recuperação de um dia para o outro. Quando treinamos forte, normalmente estaríamos cansados no dia seguinte. Com a substância, a gente se sente um pouco melhor”, relata. Todos os atletas passam por avaliações clínicas completas, com exames laboratoriais e de imagem, repetidos em várias fases do treinamento. Os organizadores afirmam que o acompanhamento continuará por cinco anos, com a publicação de estudos científicos a partir dos dados coletados. Recordes mundiais em jogo e premiação milionária A promessa de quebrar recordes mundiais é um dos principais atrativos do evento. Os organizadores oferecem uma premiação total equivalente a R$ 5 milhões para atletas que superarem as marcas oficiais reconhecidas pelas federações internacionais. No levantamento de peso, o chileno Harley Mendes já publicou vídeos nas redes sociais levantando mais de 180 quilos, peso superior ao recorde mundial de sua categoria (até 88 kg). No atletismo, o americano Fred Kerley, campeão mundial dos 100 metros em 2022, tentará correr abaixo do recorde de Usain Bolt, que resiste desde 2009. Já na natação, o evento contará com medalhistas olímpicos e recordistas, como o britânico Ben Proud e o ucraniano Andri Govorov, dono do melhor tempo da história nos 50 metros borboleta. Críticas duras do esporte tradicional Mesmo antes de estrear, os Jogos Aprimorados já enfrentam forte resistência. A Agência Mundial Antidoping (WADA) afirmou que o evento compromete a integridade do esporte. O Comitê Olímpico Internacional (COI) classificou a iniciativa como uma “traição” aos valores esportivos. Para os organizadores, no entanto, a proposta não concorre com os modelos tradicionais. Um dos idealizadores, o empresário australiano Aaron Souza, diz que o foco está em provocar mudanças culturais. “Nós não estamos no ramo dos esportes. Estamos no ramo das mudanças culturais. Vamos usar atletas para chamar a atenção e destravar um setor que vai guiar pesquisas e inovações”, afirma. Felipe Lima concorda. Para ele, o projeto não rivaliza com o esporte convencional, mas propõe uma nova discussão sobre os limites da performance humana. “Bater de frente com o esporte convencional não faz sentido. O Enhanced Games vem para mudar a história da performance humana”, diz o nadador. Competição em que o doping é liberado será disputada este mês nos Estados Unidos Reprodução/TV Globo Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.