João Bosco e Vinícius surgiram com sertanejo universitário em meio à quebra das gravadoras No início dos anos 2000, as gravadoras de CDs enfrentaram uma crise. O surgimento da música digital e das plataformas que permitiam baixar as faixas gratuitamente criou um limbo financeiro no qual a indústria não tinha mais como apostar em novos talentos. Parece contraditório, mas foi nesse cenário que João Bosco e Vinícius, os “pais” do sertanejo universitário, "estouraram". A dupla é precursora do movimento que foi fundamental para o sertanejo sobreviver à crise da indústria fonográfica e se tornar o gênero mais ouvido do Brasil. A grande sacada foi aumentar a velocidade das batidas da música e apostar em solos simplificados. ✅ Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp “A gente não inventou a roda, mas acho que o fato dessa simplicidade cair na graça do público jovem fez com que a música sertaneja não fosse mais vista estritamente como uma música rural”, disse João Bosco. 🤠 Essa história faz parte de uma série de reportagens sobre música sertaneja que marca o lançamento do concurso cultural "ÉPra Cantar". Nesta edição, a dupla vencedora vai se apresentar na Festa de Peão de Barretos, o maior rodeio da América Latina. As matérias serão exibidas no EPTV 1, que começa às 11h45. Do campo à universidade João Bosco e Vinícius cantavam para colegas de universidade Pedro Santana/EPTV A urbanização da música sertaneja começou nas universidades – o que já explica o nome do movimento. Os cantores João Bosco e Vinícius se conheceram durante a graduação no interior do Mato Grosso do Sul, onde cursavam, respectivamente, odontologia e fisioterapia. Além da escolha da carreira na área da saúde, os dois tinham outra coisa — que hoje é bastante clara — em comum: a música. A parceria foi consolidada nos intervalos das aulas, quando a dupla cantava na cantina. Aos poucos, eles foram das cantinas aos bares. “Isso faz parte do nosso DNA, da nossa história. Pelo fato da gente ser universitário, sabíamos o tanto que a vida universitária era difícil. Não queríamos levar um som para nossa galera que fosse melancólico”, lembrou João Bosco Foi então que veio a alternativa de acelerar as batidas das músicas. Desse modo, ainda que as letras fossem mais melancólicas e apaixonadas, a melodia ficava mais alegre e dançante – ideal para as festas universitárias e boates noturnas, nas quais era comum tocar música eletrônica. LEIA TAMBÉM: Lourenço e Lourival relembram mal-entendido que criou cachê para duplas Como a viola se tornou símbolo da cultura caipira Como a música sertaneja se modernizou e conquistou o Brasil A queda de avião que mudou a história do Trio Parada Dura Edson, da dupla com Hudson, relembra quando pagou R$ 10 para entrar no próprio show Sucesso em meio à crise João Bosco e Vinícius durante apresentação na Festa do Peão de Barretos 2025 Érico Andrade/g1 Enquanto João Bosco e Vinícius caíam nas graças dos universitários — inclusive fazendo os primeiros shows fora do Mato Grosso do Sul em festas para arrecadar dinheiro para formaturas —, a indústria fonográfica passava por uma fase nada favorável para novos artistas. “Acho que eu e Vinícius passamos pela pior entressafra dos direitos de valorização e de arrecadação dos fonogramas, porque a gente passou pela transição do CD e DVD, que não vendia mais nada, até chegar ao digital”, contou João Bosco. Em um cenário dominado pela pirataria, as gravadoras não tinham como financiar para contratos milionários como ocorre hoje. Porém, a prática — que é crime no Brasil — teve um efeito colateral que João Bosco e Vinícius souberam aproveitar: a divulgação espontânea. “A gente, na época, jamais teria dinheiro e condições de fazer divulgação”, recordou Vinícius. “Conseguimos, em termos de shows, fazer uma carreira nacional de forma orgânica sem ter um grande investidor”, completou João Bosco. “Chora Me Liga”, principal sucesso de João Bosco e Vinícius, foi a música digital mais tocada em 2009 e a mais vendida em 2010. Esse impacto massivo rendeu mais de 100 milhões de visualizações no canal da dupla no YouTube. A repercussão na internet fez com que o cachê da dupla valorizasse significativamente. Equilíbrio entre o novo e a tradição João Bosco e Vinícius relembraram início da carreira e "criação" do sertanejo universitário Pedro Santana/EPTV O jornalista, pesquisador e especialista em música sertaneja André Piunti explica que duplas como João Bosco e Vinícius souberam surfar a onda tecnológica que derrubou muitas das gravadoras. “A internet passou a chegar em qualquer lugar e o sertanejo universitário foi o meio musical que mais soube aproveitar disso, porque tinha um público muito grande e você tinha artistas que você nunca tinha visto, mas já tinha ouvido”, disse. Embora João Bosco e Vinícius tenham adaptado o estilo e driblado a necessidade de fazer grandes produções para alcançar sucesso, eles receberam influência musical de outras duplas, como Chitãozinho e Xororó e Leandro e Leonardo. O acústico Bruno e Marrone, por exemplo, foi fundamental para que a dupla percebesse que era possível seguir na carreira com uma estrutura mais simples, com voz e violão. Ou seja, um artista sempre dá espaço para o outro. “Eu acho que o principal motivo da música sertaneja se tornar a mais popular do Brasil é isso: artistas que já estão há muito tempo no mercado dão oportunidade a quem vem chegando", comentou Vinícius. "Às vezes, aqueles que chegaram agora e estão muito estourados, lembram também daqueles artistas e trazem pra essa pegada mais jovem”, finalizou. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas
Da crise ao viral: João Bosco e Vinícius estouraram com sertanejo universitário em meio à quebra das gravadoras
Escrito em 30/04/2026
João Bosco e Vinícius surgiram com sertanejo universitário em meio à quebra das gravadoras No início dos anos 2000, as gravadoras de CDs enfrentaram uma crise. O surgimento da música digital e das plataformas que permitiam baixar as faixas gratuitamente criou um limbo financeiro no qual a indústria não tinha mais como apostar em novos talentos. Parece contraditório, mas foi nesse cenário que João Bosco e Vinícius, os “pais” do sertanejo universitário, "estouraram". A dupla é precursora do movimento que foi fundamental para o sertanejo sobreviver à crise da indústria fonográfica e se tornar o gênero mais ouvido do Brasil. A grande sacada foi aumentar a velocidade das batidas da música e apostar em solos simplificados. ✅ Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp “A gente não inventou a roda, mas acho que o fato dessa simplicidade cair na graça do público jovem fez com que a música sertaneja não fosse mais vista estritamente como uma música rural”, disse João Bosco. 🤠 Essa história faz parte de uma série de reportagens sobre música sertaneja que marca o lançamento do concurso cultural "ÉPra Cantar". Nesta edição, a dupla vencedora vai se apresentar na Festa de Peão de Barretos, o maior rodeio da América Latina. As matérias serão exibidas no EPTV 1, que começa às 11h45. Do campo à universidade João Bosco e Vinícius cantavam para colegas de universidade Pedro Santana/EPTV A urbanização da música sertaneja começou nas universidades – o que já explica o nome do movimento. Os cantores João Bosco e Vinícius se conheceram durante a graduação no interior do Mato Grosso do Sul, onde cursavam, respectivamente, odontologia e fisioterapia. Além da escolha da carreira na área da saúde, os dois tinham outra coisa — que hoje é bastante clara — em comum: a música. A parceria foi consolidada nos intervalos das aulas, quando a dupla cantava na cantina. Aos poucos, eles foram das cantinas aos bares. “Isso faz parte do nosso DNA, da nossa história. Pelo fato da gente ser universitário, sabíamos o tanto que a vida universitária era difícil. Não queríamos levar um som para nossa galera que fosse melancólico”, lembrou João Bosco Foi então que veio a alternativa de acelerar as batidas das músicas. Desse modo, ainda que as letras fossem mais melancólicas e apaixonadas, a melodia ficava mais alegre e dançante – ideal para as festas universitárias e boates noturnas, nas quais era comum tocar música eletrônica. LEIA TAMBÉM: Lourenço e Lourival relembram mal-entendido que criou cachê para duplas Como a viola se tornou símbolo da cultura caipira Como a música sertaneja se modernizou e conquistou o Brasil A queda de avião que mudou a história do Trio Parada Dura Edson, da dupla com Hudson, relembra quando pagou R$ 10 para entrar no próprio show Sucesso em meio à crise João Bosco e Vinícius durante apresentação na Festa do Peão de Barretos 2025 Érico Andrade/g1 Enquanto João Bosco e Vinícius caíam nas graças dos universitários — inclusive fazendo os primeiros shows fora do Mato Grosso do Sul em festas para arrecadar dinheiro para formaturas —, a indústria fonográfica passava por uma fase nada favorável para novos artistas. “Acho que eu e Vinícius passamos pela pior entressafra dos direitos de valorização e de arrecadação dos fonogramas, porque a gente passou pela transição do CD e DVD, que não vendia mais nada, até chegar ao digital”, contou João Bosco. Em um cenário dominado pela pirataria, as gravadoras não tinham como financiar para contratos milionários como ocorre hoje. Porém, a prática — que é crime no Brasil — teve um efeito colateral que João Bosco e Vinícius souberam aproveitar: a divulgação espontânea. “A gente, na época, jamais teria dinheiro e condições de fazer divulgação”, recordou Vinícius. “Conseguimos, em termos de shows, fazer uma carreira nacional de forma orgânica sem ter um grande investidor”, completou João Bosco. “Chora Me Liga”, principal sucesso de João Bosco e Vinícius, foi a música digital mais tocada em 2009 e a mais vendida em 2010. Esse impacto massivo rendeu mais de 100 milhões de visualizações no canal da dupla no YouTube. A repercussão na internet fez com que o cachê da dupla valorizasse significativamente. Equilíbrio entre o novo e a tradição João Bosco e Vinícius relembraram início da carreira e "criação" do sertanejo universitário Pedro Santana/EPTV O jornalista, pesquisador e especialista em música sertaneja André Piunti explica que duplas como João Bosco e Vinícius souberam surfar a onda tecnológica que derrubou muitas das gravadoras. “A internet passou a chegar em qualquer lugar e o sertanejo universitário foi o meio musical que mais soube aproveitar disso, porque tinha um público muito grande e você tinha artistas que você nunca tinha visto, mas já tinha ouvido”, disse. Embora João Bosco e Vinícius tenham adaptado o estilo e driblado a necessidade de fazer grandes produções para alcançar sucesso, eles receberam influência musical de outras duplas, como Chitãozinho e Xororó e Leandro e Leonardo. O acústico Bruno e Marrone, por exemplo, foi fundamental para que a dupla percebesse que era possível seguir na carreira com uma estrutura mais simples, com voz e violão. Ou seja, um artista sempre dá espaço para o outro. “Eu acho que o principal motivo da música sertaneja se tornar a mais popular do Brasil é isso: artistas que já estão há muito tempo no mercado dão oportunidade a quem vem chegando", comentou Vinícius. "Às vezes, aqueles que chegaram agora e estão muito estourados, lembram também daqueles artistas e trazem pra essa pegada mais jovem”, finalizou. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas