Parteum, MC Hariel e Rico Dalasam. Mudroi/@mirandarenan/Vivi Bacco Em um clube de leitura tradicional, o ponto de partida costuma ser um romance, um conto ou um livro de poemas. No Clube de Leitura do Rap, são as letras de músicas que ocupam esse lugar. A proposta, que estreia uma nova temporada gratuita no Sesc Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo, convida o público a ler, destacar trechos e interpretar composições de rap — e, nesta edição, também de funk — ao lado dos próprios artistas que as escreveram. Os encontros, que acontecem a partir deste sábado (22), terão a participação de Parteum, MC Hariel e Rico Dalasam (leia mais abaixo). A iniciativa chega em um momento de renovação do interesse pela leitura no país. Nos últimos anos, clubes de leitura e comunidades literárias nas redes sociais ajudaram a transformar o hábito de ler em uma experiência compartilhada. O mercado editorial também apresentou crescimento. Segundo estudo da Câmara Brasileira do Livro (CBL), produzido em parceria com a AVRI, o Brasil tinha mais de 54 mil empresas e estabelecimentos ativos ligados à cadeia do livro em 2025, entre editoras, livrarias, distribuidoras, gráficas e empresas de edição integrada. Eram 51 mil no ano anterior. Entre 2023 e 2025, o número cresceu 13%. Agora no g1 É nesse ambiente de novas formas de compartilhar e discutir literatura que o Clube de Leitura do Rap propõe deslocar o objeto da leitura: em vez do livro, uma composição musical. Cada edição parte de duas letras escolhidas pela curadoria. Os textos são distribuídos ao público, alguns trechos são destacados e a leitura coletiva serve de ponto de partida para uma conversa sobre o contexto em que os versos foram escritos, as referências utilizadas pelo artista, as escolhas de linguagem e os significados que podem surgir de uma mesma composição. "Quando retiramos a música e ficamos apenas com a letra, somos obrigados a prestar mais atenção à construção do texto. É aí que aparecem os recursos literários que, muitas vezes, passam despercebidos na escuta", afirma Nerie Bento, idealizadora do projeto, ao lado do pesquisador Marco Aurélio e o antropólogo Viny Rodrigues. Para ela, a proposta não é inaugurar a discussão sobre rap e literatura. Nerie cita iniciativas anteriores, como a Literarua, editora criada por Tony C. dedicada à produção e publicação de livros sobre a história do rap brasileiro. O diferencial, segundo ela, está na experiência de colocar público e compositor diante da mesma letra. "Muitas vezes, tanto quem está na plateia, quanto nós, somos surpreendidos pelas interpretações apresentadas pelos próprios artistas. É comum perceber que uma música conhecida há anos apresenta outras camadas de significado quando ela é lida, debatida e contextualizada", diz. A ideia do clube nasceu de uma lembrança da infância de Nerie, quando o tio Ari colocava vinis para tocar e pedia que ela escrevesse sobre as letras. Depois, os dois discutiam suas interpretações. Anos mais tarde, ela decidiu repetir a experiência, desta vez com os próprios artistas, ao lado dos pesquisadores Marco Aurélio e Viny Rodrigues. Nerie Bento, Marco Aurélio e Viny Rodrigues. Artur Cunha e Carlos Alberto Disputa por legitimidade A discussão sobre o que pode ou não ser considerado literatura não é exclusiva do rap, segundo Nerie. Para ela, o debate envolve também questões sobre quais autores, gêneros e formas de escrita recebem legitimidade. No caso do rap, porém, existe uma dimensão racial mais evidente, porque se trata de uma manifestação cultural negra e periférica. "Mas acredito que o reconhecimento de uma obra não depende da validação de setores mais elitizados. E a cultura Hip Hop não depende mesmo", afirma. A proposta do clube, portanto, não parte da tentativa de obter uma espécie de certificado de literatura para o rap. A ideia é colocar suas letras em circulação como textos que podem ser lidos, analisados e reinterpretados. Por que o funk entrou na roda A escolha de MC Hariel para esta temporada amplia a proposta para além do rap. Pela primeira vez, o clube terá uma edição dedicada ao funk. Com cerca de 16 milhões de seguidores, MC Hariel é um dos principais nomes da nova geração do funk paulista, conhecido por letras que abordam a vida nas periferias, relações pessoais, ambição, dificuldades e conquistas. Nerie diz que a escolha foi motivada pela percepção de que o gênero enfrenta um processo de criminalização semelhante ao que o rap viveu em diferentes momentos de sua história. "Escolhemos começar pelo funk porque entendemos que ele vive hoje um processo de criminalização muito semelhante ao que o rap enfrentou durante décadas", afirma. Para ela, a disputa passa também pela linguagem. "A letra do funk tem sido um dos primeiros alvos desse processo." Nerie cita debates recentes em torno da chamada Lei Anti-Oruam e tentativas de censura à exposição "Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade", com curadoria da pesquisadora Renata Prado, como exemplos de uma disputa que ultrapassa a música e envolve a legitimidade de manifestações culturais periféricas. "Trazer o MC Hariel para um projeto como esse é reafirmar que essas letras também produzem conhecimento, abrem discussões, apresentam realidades", afirma. "Toda manifestação artística produz obras mais ou menos relevantes, e isso vale para o rap, o sertanejo, a MPB ou qualquer outro gênero. O problema é que o funk costuma ser julgado como um todo. É uma tentativa de aniquilação de todo um ecossistema cultural." Três encontros A nova temporada do Clube de Leitura do Rap terá três encontros no Sesc Vila Mariana. O primeiro será com Parteum, em 22 de agosto. Em seguida, MC Hariel participa do encontro de 16 de setembro. O último será com Rico Dalasam, em 17 de outubro. As atividades são gratuitas e não exigem retirada de ingressos. SERVIÇO: 📅 Quando? 22 de agosto: Parteum; 16 de setembro: MC Hariel; 17 de outubro: Rico Dalasam 📍 Onde? Sesc Vila Mariana | R. Pelotas, 141 - Vila Mariana, Zona Sul 💲 Quanto? Grátis, sem necessidade de retirada de ingresso
Rap e funk são literatura? Clube de leitura em SP convida público a interpretar letras com os próprios artistas
Escrito em 20/08/2026
Parteum, MC Hariel e Rico Dalasam. Mudroi/@mirandarenan/Vivi Bacco Em um clube de leitura tradicional, o ponto de partida costuma ser um romance, um conto ou um livro de poemas. No Clube de Leitura do Rap, são as letras de músicas que ocupam esse lugar. A proposta, que estreia uma nova temporada gratuita no Sesc Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo, convida o público a ler, destacar trechos e interpretar composições de rap — e, nesta edição, também de funk — ao lado dos próprios artistas que as escreveram. Os encontros, que acontecem a partir deste sábado (22), terão a participação de Parteum, MC Hariel e Rico Dalasam (leia mais abaixo). A iniciativa chega em um momento de renovação do interesse pela leitura no país. Nos últimos anos, clubes de leitura e comunidades literárias nas redes sociais ajudaram a transformar o hábito de ler em uma experiência compartilhada. O mercado editorial também apresentou crescimento. Segundo estudo da Câmara Brasileira do Livro (CBL), produzido em parceria com a AVRI, o Brasil tinha mais de 54 mil empresas e estabelecimentos ativos ligados à cadeia do livro em 2025, entre editoras, livrarias, distribuidoras, gráficas e empresas de edição integrada. Eram 51 mil no ano anterior. Entre 2023 e 2025, o número cresceu 13%. Agora no g1 É nesse ambiente de novas formas de compartilhar e discutir literatura que o Clube de Leitura do Rap propõe deslocar o objeto da leitura: em vez do livro, uma composição musical. Cada edição parte de duas letras escolhidas pela curadoria. Os textos são distribuídos ao público, alguns trechos são destacados e a leitura coletiva serve de ponto de partida para uma conversa sobre o contexto em que os versos foram escritos, as referências utilizadas pelo artista, as escolhas de linguagem e os significados que podem surgir de uma mesma composição. "Quando retiramos a música e ficamos apenas com a letra, somos obrigados a prestar mais atenção à construção do texto. É aí que aparecem os recursos literários que, muitas vezes, passam despercebidos na escuta", afirma Nerie Bento, idealizadora do projeto, ao lado do pesquisador Marco Aurélio e o antropólogo Viny Rodrigues. Para ela, a proposta não é inaugurar a discussão sobre rap e literatura. Nerie cita iniciativas anteriores, como a Literarua, editora criada por Tony C. dedicada à produção e publicação de livros sobre a história do rap brasileiro. O diferencial, segundo ela, está na experiência de colocar público e compositor diante da mesma letra. "Muitas vezes, tanto quem está na plateia, quanto nós, somos surpreendidos pelas interpretações apresentadas pelos próprios artistas. É comum perceber que uma música conhecida há anos apresenta outras camadas de significado quando ela é lida, debatida e contextualizada", diz. A ideia do clube nasceu de uma lembrança da infância de Nerie, quando o tio Ari colocava vinis para tocar e pedia que ela escrevesse sobre as letras. Depois, os dois discutiam suas interpretações. Anos mais tarde, ela decidiu repetir a experiência, desta vez com os próprios artistas, ao lado dos pesquisadores Marco Aurélio e Viny Rodrigues. Nerie Bento, Marco Aurélio e Viny Rodrigues. Artur Cunha e Carlos Alberto Disputa por legitimidade A discussão sobre o que pode ou não ser considerado literatura não é exclusiva do rap, segundo Nerie. Para ela, o debate envolve também questões sobre quais autores, gêneros e formas de escrita recebem legitimidade. No caso do rap, porém, existe uma dimensão racial mais evidente, porque se trata de uma manifestação cultural negra e periférica. "Mas acredito que o reconhecimento de uma obra não depende da validação de setores mais elitizados. E a cultura Hip Hop não depende mesmo", afirma. A proposta do clube, portanto, não parte da tentativa de obter uma espécie de certificado de literatura para o rap. A ideia é colocar suas letras em circulação como textos que podem ser lidos, analisados e reinterpretados. Por que o funk entrou na roda A escolha de MC Hariel para esta temporada amplia a proposta para além do rap. Pela primeira vez, o clube terá uma edição dedicada ao funk. Com cerca de 16 milhões de seguidores, MC Hariel é um dos principais nomes da nova geração do funk paulista, conhecido por letras que abordam a vida nas periferias, relações pessoais, ambição, dificuldades e conquistas. Nerie diz que a escolha foi motivada pela percepção de que o gênero enfrenta um processo de criminalização semelhante ao que o rap viveu em diferentes momentos de sua história. "Escolhemos começar pelo funk porque entendemos que ele vive hoje um processo de criminalização muito semelhante ao que o rap enfrentou durante décadas", afirma. Para ela, a disputa passa também pela linguagem. "A letra do funk tem sido um dos primeiros alvos desse processo." Nerie cita debates recentes em torno da chamada Lei Anti-Oruam e tentativas de censura à exposição "Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade", com curadoria da pesquisadora Renata Prado, como exemplos de uma disputa que ultrapassa a música e envolve a legitimidade de manifestações culturais periféricas. "Trazer o MC Hariel para um projeto como esse é reafirmar que essas letras também produzem conhecimento, abrem discussões, apresentam realidades", afirma. "Toda manifestação artística produz obras mais ou menos relevantes, e isso vale para o rap, o sertanejo, a MPB ou qualquer outro gênero. O problema é que o funk costuma ser julgado como um todo. É uma tentativa de aniquilação de todo um ecossistema cultural." Três encontros A nova temporada do Clube de Leitura do Rap terá três encontros no Sesc Vila Mariana. O primeiro será com Parteum, em 22 de agosto. Em seguida, MC Hariel participa do encontro de 16 de setembro. O último será com Rico Dalasam, em 17 de outubro. As atividades são gratuitas e não exigem retirada de ingressos. SERVIÇO: 📅 Quando? 22 de agosto: Parteum; 16 de setembro: MC Hariel; 17 de outubro: Rico Dalasam 📍 Onde? Sesc Vila Mariana | R. Pelotas, 141 - Vila Mariana, Zona Sul 💲 Quanto? Grátis, sem necessidade de retirada de ingresso