Candidata de IA na Colômbia: o que acontece se 'Gaitana' for eleita?

Escrito em 01/03/2026


Candidata de IA na Colômbia: o que acontece se 'Gaitana' for eleita? A Colômbia pode eleger, no dia 8 de março, a primeira parlamentar criada por inteligência artificial da América Latina. Com o objetivo de “devolver o poder às mãos do povo”, a avatar Gaitana IA se apresenta como uma mulher indígena, de pele azul, e concorre a uma vaga reservada aos povos originários no Congresso colombiano. Mas, afinal, o que acontece caso ela conquiste votos suficientes para ocupar a cadeira no Legislativo? A avatar possui um agente de conversação (chatbot) de IA em que os mais de 10 mil usuários registrados ajudam a construir as posições políticas do robô. No período de campanha, qualquer pessoa pode acessar o bot e fazer perguntas a "Gaitana". Caso seja eleita, a mesma plataforma servirá para coletar as opiniões dos eleitores. Entre as principais pautas que levanta, estão a defesa do meio ambiente e do território e a luta antissistema. Especialistas ouvidos pelo g1 explicam como o mandato de IA pode funcionar na prática. A avaliação é de que a tecnologia pode aproximar a política das pessoas, principalmente de grupos minoritários, mas o uso da plataforma para legislar exige cautela e envolve riscos. O que acontece se Gaitana for eleita? A candidata concorre simultaneamente a cadeiras no Senado e na Câmara dos Representantes da Colômbia. Como registrar a candidatura de uma IA não é permitido no país, cada chapa é viabilizada legalmente por um candidato humano, que também são os criadores do avatar: Carlos Redondo, engenheiro do povo zenú, e a a antropóloga Alba Rincón. O eleitor que desejar votar em Gaitana precisará selecionar a opção “IA” na cédula. Gaitana IA possui chatbot para interagir com eleitores Reprodução Uma vez eleita, a proposta dos idealizadores é de que a plataforma da IA seja um espaço para a proposição de ideias de projetos de leis. A tecnologia irá processar o conteúdo da ideia e reformular a redação para se adequar aos trâmites legislativos. Francieli de Campos, advogada e especialista em aspectos jurídicos da inteligência artificial, explica que o modo de funcionamento facilita a participação política de pessoas que não compreendem a linguagem técnica do Legislativo. O encaminhamento do projeto, de fato, dependerá da decisão da maioria dos usuários registrados na plataforma de Gaitana. Após a definição da pauta, eles podem decidir se querem ou não que a proposta avance. A lógica é a mesma quando for a vez de Gaitana votar os projetos de lei apresentados pelos demais parlamentares. A plataforma irá traduzir a proposta de forma simplificada e a comunidade de usuários decide como votar. “É uma forma de apresentar os projetos para as pessoas que fazem parte da comunidade indígena”, entende a pesquisadora. Já as atividades políticas que demandam presença física no Congresso – como apresentação de projetos, votações e discussões em plenário – serão realizadas pelos representantes humanos. Para João Paulo Veiga, cientista político e professor de Relações Internacionais da USP, Gaitana pode ser uma ferramenta para expandir a participação democrática popular de grupos historicamente marginalizados de uma forma que um representante humano não conseguiria. Na teoria, nada impede que um candidato humano crie um aplicativo para compilar opiniões de seus eleitores sobre determinado assunto. “Mas não teria o charme de uma candidatura de IA”, conclui o professor. Imagem gerada por IA publicada por criadores de Gaitana IA simula outdoor pedindo votos na Colômbia Reprodução Quais são os riscos de ter uma IA como parlamentar? A pele azulada e os traços robóticos de Gaitana não deixam esquecer que a candidata é uma IA. E como qualquer modelo dessa tecnologia, está sujeita a possíveis falhas, como alucinações (informações escritas de formas coerentes, mas incorretas) e a expressão de vieses e preconceitos. No caso de Gaitana, a lógica de votar de acordo com a opinião da maioria é uma decisão objetiva, mas a “tradução” dos projetos é feita por meio de inteligência artificial. Para Francieli de Campos, é “utópico e arriscado” colocar esse processo na mão de um algoritmo. “É uma responsabilidade que é humana. A questão de ser corruptível ou incorruptível é uma questão ética. Em algum momento vai ter um dilema ético [caso Gaitana seja eleita]”. Outra questão no uso de avatares na política é a segurança de dados pessoais, como aponta o professor João Paulo Veiga. A plataforma de Gaitana utiliza a tecnologia blockchain para impedir que seja alvo de hackers, mas o criador Carlos Redondo reconheceu, à agência de notícias RFI, que o sistema ainda é limitado em termos de segurança de dados. Já existem casos que evidenciam esse impasse em outros lugares do mundo. Em setembro de 2025, a Albânia nomeou uma ministra gerada por IA, a primeira do mundo a ocupar esse cargo. Em fevereiro de 2026, a atriz Anila Bisha entrou com um processo contra o governo albaniano pelo uso não consentido de sua imagem e voz para criar a “ministra”. Computador exibe Gaitana, uma inteligência artificial representada nas redes sociais como uma mulher de pele azul e tanga de penas, que participará como candidata às eleições legislativas da Colômbia em Bogotá RAUL ARBOLEDA / AFP Afinal, 'Gaitana' tem chance de ser eleita? Os especialistas avaliam que, em um momento em que o governo da Colômbia enfrenta ameaças do presidente Donald Trump e após a vizinha Venezuela ter sido atacada pelos americanos, a candidatura pode ganhar força. Isso por que a avatar de IA defende a defesa da soberania do território nacional. Para a especialista Francieli de Campos, a alta temperatura da geopolítica global pode influenciar as eleições nacionais. “A Europa está se reorganizando, os Estados Unidos largando mão dos aliados com a OTAN. A IA chega em um momento em que as coisas já estão desordenadas.”, avalia Francieli de Campos. Além disso, em um contexto global em que o mundo como conhecemos está se transformando rapidamente, a IA acaba sendo melhor aceita por ser algo diferente e pode ser vista como um caminho possível, analisa a pesquisadora. Ainda assim, é difícil medir o impacto da candidatura de Gaitana em específico. De acordo com a RFI, a iniciativa é muito apoiada por jovens, mas pesquisas indicam que apenas um terço dos eleitores com menos de 24 anos pretende votar. E no Brasil? "É difícil existir algo assim no Brasil”, afirma o professor João Paulo Veiga. O Tribunal Superior Eleitoral ainda não divulgou as resoluções que vão orientar as eleições gerais de 2026, mas Veiga avalia que, no momento atual do cenário político, essa abertura para a IA não deve ser incluída. A resolução 23.610/2019, que foi alterada para reger o pleito de 2024, proíbe o uso de robôs para intermediar contato com o eleitor.