Diogo Defante estreia no Rock in Rio: 'No humor, preciso fazer rir. Na música, eu é que me divirto'

Escrito em 02/09/2026


Diogo Defante durante apresentação. Reprodução/@fredinhonml.jpg A música apareceu na vida de Diogo Defante muito antes do humor. Aos 13 anos, o menino de Realengo (RJ) aprendeu a tocar bateria por conta própria. Orgulhoso de si mesmo e animado com a ideia de "se sentir vivo em cima de um palco", ele formou a banda "Let’s Go" com um grupinho de amigos. Juntos, eles tocaram covers de clássicos do rock em vários aniversários por aí, ainda sem ganhar muito dinheiro, mas com a esperança de, em algum momento, conseguir se destacar na cena hardcore brasileira. A empreitada durou 9 anos. Não conseguiram. Agora, aos 35 e já carregando nas costas a fama de ser o "Repórter Doidão" das entrevistas virais, Defante chega ao Rock in Rio para fechar o palco Supernova no dia 4 de setembro, por volta das 20h10. O criador de conteúdo com mais de 5 milhões de seguidores (só no Instagram) confessa que só agora pôde, finalmente, se entregar a antiga paixão do jeito que gostaria: rendido pelo prazer, sem a obrigação do sucesso. "Quando comecei a ter certa repercussão com comédia no YouTube, foi uma queda livre. Eu tinha que fazer aquelas pessoas rirem. A música é a minha válvula de escape, minha terapia. Eu é que quero me divertir", resumiu em entrevista ao g1. Diogo Defante durante apresentação. Divulgação/@rafaelstrabelli.jpg Em 2023, Defante lançou o EP “Robson” e, no ano seguinte, apresentou o álbum “Tífane”, com oito faixas. Agora, aproveitando o timing de sua apresentação no RIR, o artista dá continuidade à fase mais recente de sua carreira com “Humanoide”, faixa que aborda a relação entre seres humanos e inteligência artificial e que já ganhou clipe. Seu som mistura rock, punk e referências do movimento contracultural manguebeat. Suas músicas lembram esquetes de humor, com letras que apostam no nonsense e no duplo sentido, como "Pelo" (2023), em que canta sobre pelos pubianos e depilação. Um pentelho em desabafo Se queixou dos fundilhos anais Dos terríveis odores que ele atura A rosca ninguém raspa, só as partes frontais 🎶 Ele cita o grupo de humor Hermes e Renato e os Mamonas Assassinas entre suas principais referências. Em seu repertório, há ainda espaço para um cover de Perlla ("Tremendo Vacilão") e uma homenagem ao rei do brega, Reginaldo Rossi ("Garçom"). Ao g1, ele relembra como a internet o afastou temporariamente da música, fala sobre o período em que trabalhou com Felipe Neto, revela como descobriu e retirou um tumor e detalha a preparação para o maior show de sua carreira. Confira: Agora no g1 g1 — A música é na verdade sua primeira paixão, e não o humor. Como se deu isso? Diogo Defante — Comecei a tocar bateria aos 13 anos. Depois, a gente começou a fazer alguns shows e a banda foi tomando um rumo meio profissional. Eu era muito novo mas já estava preocupado com tudo: “Temos que gravar um álbum, como vamos fazer esse lançamento?”. Na época era Orkut, MySpace... Eu ficava no Ctrl+C, Ctrl+V: “Maria, José, ouve aí meu som”. Fazia essa divulgação braçal e conseguia converter umas dez pessoas para ir ao show cantar nossas músicas. g1 — E vocês chegaram a viver da música em algum momento? Defante — A gente chegou a morar em São Paulo por um ano e meio. Mas ganhar dinheiro mesmo era muito difícil. O autoral é muito ingrato nesse sentido. A oportunidade que a gente tinha era abrir shows de bandas grandes, mas não tinha produtor que pagasse para uma banda autoral desconhecida que não vendia ingresso como a gente. Diogo Defante durante apresentação. Divulgação/@nandaariasfotografia g1 — Por causa disso você resolveu apostar na internet? Defante — Eu peguei uma outra estrada artística. Já vinha ficando meio triste com a cena do rock, que estava morrendo, já não tinha muito show para fazer. A coisa foi dando uma desmotivada e a gente colocou um ponto final no projeto. Foi meio triste, porque foi praticamente um casamento. Fiquei num luto por um tempo. E quem me deu uma revigorada foi um amigo, o Lucas Paz, que me convidou para fazer vídeos no YouTube. g1 — Foi aí que o humor começou a querer aparecer? Defante — Sim. Eu já tinha uma coisa meio performática na banda. Saía da bateria, falava besteira no microfone, queria que o público estivesse olhando para a gente mesmo quando não estava tocando. O Lucas percebeu isso e falou: “Você é um moleque engraçado. Não quer fazer uns vídeos de comédia comigo?”. Eu já tinha feito publicidade e propaganda e tinha experiência com audiovisual, então comecei a editar também. Me senti muito vivo com aquilo. Diogo Defante dançando lambadão em Cuiabá Redes sociais g1 — E como foi o período em que você trabalhou com Felipe Neto? Diogo Defante — Montei um projeto chamado Canal Foco, e fui parar na Paramaker, onde fui contratado para trabalhar nesse canal. Na época, tivemos uma reunião com o Felipe Neto, que era dono da Paramaker. Ficamos muito felizes porque a coisa começou a andar. Pensei: “Caraca, é possível ganhar dinheiro com uma parada artística”. Depois de um tempo, o Felipe Neto mudou um pouco a trajetória da Paramaker e, cerca de um ano e meio depois, já não estávamos mais em parceria com eles. Foi quando decidi fazer meu próprio canal. Pensei: “Ah, quer saber? Vou fazer a minha parada, do meu jeito”. g1 — E quando você percebeu que o Repórter Doidão poderia virar um fenômeno? Defante — Demorou. O quadro ficou uns dois anos sem visualização nenhuma. Eu mostrava para os amigos e tinha aquela gana de fazer por fazer. Até que um corte de uma entrevista viralizou no Facebook. A galera começou a perguntar: “De onde é isso? Quem é esse cara?”. Quando chegava ao canal, já tinha uns dez, 15 vídeos de Repórter Doidão. Aí fidelizou um público. Pensei: “Vou continuar”. g1 — E a música ficou onde nesse período? Defante — Meu coração ficou inundado daquela novidade de outra forma de arte. Mas, se você pegar os primórdios do meu canal, tem vídeos meus tocando bateria e tentando implementar um pouco da música. Eu sempre voltava um pouquinho. Na pandemia, como não podia mais fazer o Repórter Doidão na rua, comecei a fazer lives musicais. Foi quando mostrei músicas minhas antigas, como “Jerry” e “Padeiro”, e o pessoal que já me seguia começou a falar: “Você tem que gravar isso, fazer show”. g1 — E aí você decidiu voltar. Defante — Exatamente. Falei: “Vamos gravar essas cinco musiquinhas e ver qual é”. De repente rola show, de repente não rola. E aí fiz o primeiro trabalho, conseguimos show até no Circo Voador. Eu não acreditava que ia dar público, de verdade. Choveu muito naquele dia e pensei: “Não vai vir ninguém”. Mas fizemos praticamente para a casa lotada. Foi arrepiador. Meu pai estava assistindo. Ali eu pensei: “Funcionou”. Diogo Defante aposta no humor e no deboche também na carreira musical. @felipe.alberto.s g1 — Você também passou por uma cirurgia para retirar um tumor nesta mesma época, né? Como foi esse período? Diogo Defante — Eu tinha uma ptose palpebral adquirida. Não nasci com isso: minha pálpebra começou a cair por conta de um inchaço. Depois descobri que era um tumor benigno que estava inflamando o olho, a ponto de enfraquecer o tendão e fazer a pálpebra cair. A galera já tinha se acostumado com aquilo, porque era uma característica que eu tinha há algum tempo. Decidi operar porque a situação estava piorando. Eu estava acompanhando com o médico, e ele falou: "Daqui a pouco o tendão perde a força, então é melhor corrigir isso logo”. Depois, com a idade, a recuperação poderia ficar mais difícil. Eu falei: “Mano, vou ter que resolver isso. Vou ter que entrar na faca, não vai ter jeito”. Foi minha primeira cirurgia. Diogo Defante no Planeta Agência Preview/Divulgação g1 — E o que você prioriza hoje? A música é um plano B? Defante — Plano B, não. Eu chamo de plano A. Já está tão forte na minha vida que considero que está caminhando junto. O entretenimento, o meu programa, o Rango e esse projeto musical. Óbvio que não consigo ter uma agenda de shows tão cheia por causa do trabalho que faço de entretenimento... mas tudo está sendo feito em paralelo. g1 — Você acha que o seu trabalho como cantor é levado a sério? Defante — O Mamonas Assassinas me deu a consciência de que é possível fazer uma música com galhofa, com besteirol, e ainda assim ser levado a sério. Estar no mercado da música, ser convidado para programas, vender ingresso, estar em palcos grandes. Não acho que uma música precisa ter uma letra séria para ser considerada música. g1 — E o que você quer que o público leve de um show seu? Defante — Quero que as pessoas se divirtam. Para mim, subir no palco é tipo: “Agora eu vou brincar”. Acho que isso traz uma leveza para as pessoas. É um monte de coisa maluca para elas cantarem junto e lavarem a alma, no sentido de sair um pouco da realidade. Acho que esse é o meu objetivo. g1 — E agora vem o Rock in Rio. É o maior show da sua carreira? Defante — Com certeza. Com o lançamento do meu novo single, “Humanoide”, pensei em trabalhar no show uma temática meio futurista, que converse com tecnologia e inteligência artificial. A gente está trabalhando em um telão específico para isso, com uma possível invasão cibernética de um robô interagindo com o público. Também estamos preparando figurinos para a banda, uma coisa que ainda não tivemos, mas que acho que merece. Quero um uniforme meio futurista, dedicado a essa temática. E quero fazer uma entrada triunfal de um robô humanoide. Acho que vai ser maneiro e chamar a atenção, principalmente porque muita gente talvez nem saiba que eu tenho um projeto musical ou nunca tenha ido a um show meu. g1 — Tá ansioso? Diogo Defante — Moleque, só consigo pensar nisso. Só consigo pensar nisso, meu irmão. Hoje eu estava vendo que precisamos ter um iluminador e que ele precisa vir aos ensaios para pensarmos a luz juntos, em cima do repertório. Quero que a iluminação fique casadinha com o show. g1 — E tem alguma atração do festival que você quer muito ver? Diogo Defante — Eu quero ver o Foo Fighters. Muito. Vou dar meu jeito, moleque. Inclusive, vou arrastar meu pai, que não é muito do rock. Acho que vai ser engraçado viver essa experiência com ele do lado. A gente chegou a fazer cover do Foo Fighters também, na Let's Go. Tocávamos “The Pretender” e “All My Life”. Eram duas músicas que a gente tocava muito. Diogo Defante no clipe de “Humanoide”, single que aborda a relação entre humanos e inteligência artificial. Divulgação. g1 — Você tem essa personalidade de experimentar e testar coisas diferentes na música, nos clipes, no palco, nos vídeos... Quando pensa em você como artista, onde quer chegar? Diogo Defante — Não tem isso assim. É meio que só pelo prazer. O tesão está no palco e você não pensa em sonhos nesse sentido, em metas. Mas eu quero muito que mais gente goste do som. A caminhada é árdua, então ainda vão existir situações em que vamos passar por dificuldades, como não ter um público suficiente para pagar as contas desse projeto. Quero conseguir crescer mais e mais, a ponto de pelo menos a coisa se equilibrar financeiramente para eu continuar fazendo isso pelo resto da minha vida, pelo tesão de estar no palco, de fazer isso até velhinho. Então pretendo ter esse público que me acompanhe eternamente, bom, não eternamente mas até enquanto eu durar. g1 — Mas tem aquele clichê de que ser artista é a única maneira de viver para sempre. Você não pensa assim? Diogo Defante — É verdade. Como estou ouvindo um monte de bandas antigas, às vezes de músicos que já se foram, é muito foda pensar que os caras já morreram, mas, de alguma forma, despertaram alguma coisa criativa em mim para eu criar também. A arte é muito compartilhada. Acho isso muito foda. Realmente, é verdade, é eterno.