A empresária Patrícia Biscaro Arquivo Pessoal Patrícia Biscaro tinha acabado de concluir o tratamento de um câncer de mama agressivo quando os médicos pediram uma ressonância do coração, só para descartar sequelas da quimioterapia. As imagens mostraram algo que não tinha relação com o remédio: uma má-formação rara no músculo cardíaco, que ela tinha desde o nascimento e que anos de exames de rotina não haviam revelado. A descoberta a levou de volta aos 18 anos, quando viu a mãe, de 42, morrer de forma súbita diante dela. A família cogitou infarto, mas a causa nunca foi esclarecida. Mais de uma década depois, a doença no coração de Patrícia trazia uma hipótese, impossível de confirmar: a de que a mãe tivesse morrido de uma arritmia grave, possivelmente associada ao mesmo problema. Hoje, aos 40 anos, a empresária tem um desfibrilador implantado no peito, descobriu uma síndrome genética que afeta o tecido de sustentação do corpo e enfrentou um segundo câncer, na tireoide. Tudo começou em 2018, aos 32 anos, com um tumor de mama que um ultrassom feito sete meses antes não havia apontado. Agora no g1 Sete meses entre exame sem alterações e tumor agressivo Patrícia fazia ultrassom de mama anualmente. Não tinha idade para a mamografia nem histórico de câncer de mama na família. No fim de 2017, sentiu um incômodo vago no seio, sem nada que o toque revelasse. Como os exames eram recentes, todos a tranquilizaram. No início de 2018, apalpou um nódulo duro. A ginecologista suspeitou de mastite, a inflamação típica da amamentação, e deu a ela alguns meses de prazo para um novo ultrassom. Patrícia, que nunca amamentou, desconfiou e marcou o exame por conta própria. A imagem era muito diferente da de setembro, e o laudo pediu biópsia. Em 5 de abril, uma mastologista confirmou um câncer de mama triplo negativo, com um linfonodo da axila comprometido. Patrícia foi internada na hora para exames que descartaram a doença em outros órgãos e encaminhada ao oncologista. Ele lhe disse que ela havia sido rápida: chegara junto com o tumor. ℹ️ O triplo negativo é o subtipo em que as células malignas não têm os três receptores que servem de alvo a boa parte dos tratamentos, e é o de maior risco de recidiva entre os cânceres de mama, afirma o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e membro da instituição científica Americas Health Foundation. Para o oncologista responsável pelo caso, Daniel Gimenes, da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, o quadro se encaixa no que a oncologia chama de tumor de intervalo, aquele que nasce entre um exame e o seguinte. Aos 32 anos, ela estava fora da faixa de rastreamento, e o ultrassom, lembra o médico, deixa escapar muita coisa. Patrícia durante o tratamento oncológico Arquivo Pessoal Um ano de tratamento A quimioterapia começou em maio de 2018, em seis ciclos aplicados antes da cirurgia, estratégia que reduz o tumor e mostra se o organismo responde ao remédio. O cabelo caiu, e Patrícia passou a usar peruca. A cirurgia retirou apenas uma parte da mama, mas, na axila, a análise do material mostrou que a quimioterapia não havia eliminado todas as células tumorais. Quando a resposta completa não vem, o resultado orienta os passos seguintes, explica Stefani. No caso de Patrícia, a doença que sobrou era pequena, mas pedia mais tratamento: 30 sessões de radioterapia, concluídas em janeiro de 2019, e uma nova fase de quimioterapia, em comprimidos. Oito anos depois, sem sinal de recidiva, a medicina a considera em remissão completa, afinal esse tipo de tumor dificilmente retorna de forma tardia. Exame de imagem mudou a investigação AP/Damian Dovarganes/Arquivo Terminado o tratamento, Patrícia manteve as consultas de revisão a cada três meses. As dores nas articulações e as manchas roxas pelo corpo, que ela atribuía aos remédios, não passavam e mudavam de lugar. Ortopedistas e reumatologistas não achavam a causa. Gimenes, que a acompanhava, suspeitou de que o tratamento não explicava as queixas. Antes de encaminhá-la a um reumatologista, pediu que passasse pela cardio-oncologista do consultório, que solicitou uma ressonância magnética do coração para verificar se a quimioterapia havia lesado o músculo. Patrícia foi sozinha e tranquila ao exame. A médica procurava marcas do remédio e encontrou outra coisa: uma má-formação cardíaca chamada miocárdio não compactado. O nome descreve uma falha na formação do ventrículo esquerdo, a câmara do coração que empurra o sangue para o corpo inteiro, ocorrida ainda na gestação. Durante o desenvolvimento do bebê, explica o cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP, a parede dessa câmara começa como uma trama de fibras soltas e vai se adensando até virar um músculo firme. No miocárdio não compactado, esse processo não se completa, e a parede fica com aspecto de esponja. Com os anos, o coração perde força para bombear, o que pode levar à insuficiência cardíaca, e fica sujeito a batimentos descompassados, as arritmias graves. Nos vãos da parede também podem se formar coágulos, que, se chegarem ao cérebro, provocam um acidente vascular cerebral (AVC). É uma doença rara e, em geral, silenciosa. Os exames de Patrícia, como o ecocardiograma e o eletrocardiograma, sempre vieram sem alterações; só a ressonância, mais sensível, mostrou o problema. Ao ver as imagens, a cardiologista perguntou se a mãe de Patrícia não havia morrido de morte súbita. Havia. Aos 18 anos, Patrícia viu a mãe, de 42, cair diante dela. A família supôs um infarto, e a causa nunca foi esclarecida. Mais tarde, ela soube que duas tias também tinham morrido de forma súbita, ainda jovens. Apesar de consultar cardiologistas havia anos, nenhum lhe pediu uma ressonância. Kazunori afirma que uma arritmia grave está entre as explicações possíveis para a morte da mãe, hipótese que já não há como confirmar. “Após o tratamento oncológico, meu oncologista me disse: ‘Agora é hora de cuidar do coração’. Adiei por anos. Por um tempo, aceitei que talvez eu também morresse de forma súbita e não havia o que ser feito.” Síndrome reuniu sintomas diversos A partir de 2023, os sintomas impediram que ela continuasse ignorando o problema. Patrícia começou a desmaiar. Num dia comum, o coração chegou a 190 batimentos por minuto enquanto pendurava roupa no varal. A pressão despencava todas as manhãs, e ela só conseguia secar o cabelo deitada, com a ajuda do marido. O cardiologista pediu o teste de inclinação, em que o paciente fica em uma maca que simula a posição em pé. Em seis minutos, Patrícia desmaiou, sem nenhum remédio para provocar a reação. O diagnóstico foi disautonomia grave, falha do sistema nervoso autônomo, que controla pressão e batimentos. Reumatologistas investigaram artrite reumatoide, síndrome de Sjögren e lúpus e foram descartando cada hipótese. O diagnóstico saiu do consultório de um especialista em doenças raras: síndrome de Ehlers-Danlos. Ele notou que o branco dos olhos de Patrícia era fino demais, com tom azulado, e ela se lembrou de que a mãe tinha a mesma marca. Um exame genético amplo descartou o tipo vascular da síndrome, o mais perigoso. Para Patrícia, as peças se encaixaram: as dores, as quedas de pressão, a flexibilidade fora do comum, o nariz que sangrava muito na infância. Ela compara a síndrome a um prédio construído sobre um pilar defeituoso, que com os anos acumula infiltrações e rachaduras. ℹ️ A síndrome de Ehlers-Danlos reúne doenças genéticas do tecido conjuntivo, o que conecta e sustenta os demais tecidos do corpo. Falhas no colágeno, explica a geneticista Maria Luísa Carpinetti Tinoco, do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas, deixam o organismo frágil em vários pontos: articulações que se movem além do normal, pele alterada, vasos, órgãos, ligamentos e olhos mais vulneráveis. O diagnóstico costuma demorar, porque os sintomas atingem vários sistemas, incluem queixas difíceis de medir, como dor e cansaço, e não existe exame de laboratório que confirme a suspeita. Não há relação estabelecida com o miocárdio não compactado: a literatura registra um caso isolado de paciente com as duas, e Kazunori diz que não é comum pensar nelas em conjunto. O desfibrilador entrou na história quando um arritmologista concluiu, conta Patrícia, que ela preenchia os critérios para o implante: mortes súbitas na família, miocárdio não compactado confirmado na ressonância e a síndrome. Apelidado de anjo da guarda, o aparelho fica sob a pele do peito, monitora o ritmo do coração e, ao identificar uma arritmia ventricular grave, aplica um choque, explica Kazunori. Para Patrícia, o câncer foi o fio que puxou todo o resto. “Sem o câncer, eu não teria descoberto o problema no coração, não teria colocado o aparelho e continuaria sem saber o que levou a minha mãe”, afirma. Arquivo Pessoal Rotina calculada e negócio nascido do tratamento O que mais limita Patrícia hoje é a disautonomia, desencadeada por ficar em pé, mas também por calor, cheiros, estresse e certos alimentos. Com a ajuda de uma nutricionista, relata, descobriu que abacate e banana estavam por trás das quedas de pressão depois das refeições. Antes de ir a qualquer lugar, pergunta se haverá onde sentar. No metrô, usa uma pulseira de girassol, símbolo de deficiências ocultas, e às vezes recorre à fila preferencial, sob olhares tortos. Como não parece doente, o jeito mais rápido de se explicar é mostrar o aparelho no peito. É no próprio ritmo que ela toca o negócio criado na época do câncer de mama. Entre consultas, exames e receitas, Patrícia, tecnóloga em alimentos de formação, sentiu falta de um lugar para registrar tudo: a agenda distribuída pela clínica era pequena demais, e a busca na internet por um “oncoplanner”, nome que lhe ocorreu na hora, não trouxe resultado algum. Oncoplanner, agenda para tratamento oncológico, criado por Patrícia Arquivo Pessoal Ela pediu a uma conhecida com gráfica que imprimisse a sua versão, registrou a marca e hoje o Oncoplanner é comprado por médicos, clínicas, hospitais e farmacêuticas, que o entregam aos pacientes com o próprio logotipo na capa. A saúde, porém, não saiu de cena. No início deste ano, Patrícia recebeu o diagnóstico de câncer de tireoide, num nódulo que acompanhava desde 2019, e teve a glândula inteira retirada. Os testes genéticos de câncer hereditário deram negativo, e ela passou a suspeitar de uma ligação com a síndrome de Ehlers-Danlos, já que conhece outras pessoas com o diagnóstico que também tiveram câncer. A ciência não confirma essa relação: a geneticista diz que não há vínculo conhecido entre a síndrome e a predisposição ao câncer, e Stefani afirma que a literatura médica não traz evidência sólida de que ela aumente o risco de tumor de mama ou de tireoide. Por ora, a origem dos dois tumores segue sem explicação definida.
Câncer de mama aos 32 anos levou mulher a descobrir doença rara no coração e hipótese para a morte súbita da mãe
Escrito em 22/10/2026
A empresária Patrícia Biscaro Arquivo Pessoal Patrícia Biscaro tinha acabado de concluir o tratamento de um câncer de mama agressivo quando os médicos pediram uma ressonância do coração, só para descartar sequelas da quimioterapia. As imagens mostraram algo que não tinha relação com o remédio: uma má-formação rara no músculo cardíaco, que ela tinha desde o nascimento e que anos de exames de rotina não haviam revelado. A descoberta a levou de volta aos 18 anos, quando viu a mãe, de 42, morrer de forma súbita diante dela. A família cogitou infarto, mas a causa nunca foi esclarecida. Mais de uma década depois, a doença no coração de Patrícia trazia uma hipótese, impossível de confirmar: a de que a mãe tivesse morrido de uma arritmia grave, possivelmente associada ao mesmo problema. Hoje, aos 40 anos, a empresária tem um desfibrilador implantado no peito, descobriu uma síndrome genética que afeta o tecido de sustentação do corpo e enfrentou um segundo câncer, na tireoide. Tudo começou em 2018, aos 32 anos, com um tumor de mama que um ultrassom feito sete meses antes não havia apontado. Agora no g1 Sete meses entre exame sem alterações e tumor agressivo Patrícia fazia ultrassom de mama anualmente. Não tinha idade para a mamografia nem histórico de câncer de mama na família. No fim de 2017, sentiu um incômodo vago no seio, sem nada que o toque revelasse. Como os exames eram recentes, todos a tranquilizaram. No início de 2018, apalpou um nódulo duro. A ginecologista suspeitou de mastite, a inflamação típica da amamentação, e deu a ela alguns meses de prazo para um novo ultrassom. Patrícia, que nunca amamentou, desconfiou e marcou o exame por conta própria. A imagem era muito diferente da de setembro, e o laudo pediu biópsia. Em 5 de abril, uma mastologista confirmou um câncer de mama triplo negativo, com um linfonodo da axila comprometido. Patrícia foi internada na hora para exames que descartaram a doença em outros órgãos e encaminhada ao oncologista. Ele lhe disse que ela havia sido rápida: chegara junto com o tumor. ℹ️ O triplo negativo é o subtipo em que as células malignas não têm os três receptores que servem de alvo a boa parte dos tratamentos, e é o de maior risco de recidiva entre os cânceres de mama, afirma o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e membro da instituição científica Americas Health Foundation. Para o oncologista responsável pelo caso, Daniel Gimenes, da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, o quadro se encaixa no que a oncologia chama de tumor de intervalo, aquele que nasce entre um exame e o seguinte. Aos 32 anos, ela estava fora da faixa de rastreamento, e o ultrassom, lembra o médico, deixa escapar muita coisa. Patrícia durante o tratamento oncológico Arquivo Pessoal Um ano de tratamento A quimioterapia começou em maio de 2018, em seis ciclos aplicados antes da cirurgia, estratégia que reduz o tumor e mostra se o organismo responde ao remédio. O cabelo caiu, e Patrícia passou a usar peruca. A cirurgia retirou apenas uma parte da mama, mas, na axila, a análise do material mostrou que a quimioterapia não havia eliminado todas as células tumorais. Quando a resposta completa não vem, o resultado orienta os passos seguintes, explica Stefani. No caso de Patrícia, a doença que sobrou era pequena, mas pedia mais tratamento: 30 sessões de radioterapia, concluídas em janeiro de 2019, e uma nova fase de quimioterapia, em comprimidos. Oito anos depois, sem sinal de recidiva, a medicina a considera em remissão completa, afinal esse tipo de tumor dificilmente retorna de forma tardia. Exame de imagem mudou a investigação AP/Damian Dovarganes/Arquivo Terminado o tratamento, Patrícia manteve as consultas de revisão a cada três meses. As dores nas articulações e as manchas roxas pelo corpo, que ela atribuía aos remédios, não passavam e mudavam de lugar. Ortopedistas e reumatologistas não achavam a causa. Gimenes, que a acompanhava, suspeitou de que o tratamento não explicava as queixas. Antes de encaminhá-la a um reumatologista, pediu que passasse pela cardio-oncologista do consultório, que solicitou uma ressonância magnética do coração para verificar se a quimioterapia havia lesado o músculo. Patrícia foi sozinha e tranquila ao exame. A médica procurava marcas do remédio e encontrou outra coisa: uma má-formação cardíaca chamada miocárdio não compactado. O nome descreve uma falha na formação do ventrículo esquerdo, a câmara do coração que empurra o sangue para o corpo inteiro, ocorrida ainda na gestação. Durante o desenvolvimento do bebê, explica o cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP, a parede dessa câmara começa como uma trama de fibras soltas e vai se adensando até virar um músculo firme. No miocárdio não compactado, esse processo não se completa, e a parede fica com aspecto de esponja. Com os anos, o coração perde força para bombear, o que pode levar à insuficiência cardíaca, e fica sujeito a batimentos descompassados, as arritmias graves. Nos vãos da parede também podem se formar coágulos, que, se chegarem ao cérebro, provocam um acidente vascular cerebral (AVC). É uma doença rara e, em geral, silenciosa. Os exames de Patrícia, como o ecocardiograma e o eletrocardiograma, sempre vieram sem alterações; só a ressonância, mais sensível, mostrou o problema. Ao ver as imagens, a cardiologista perguntou se a mãe de Patrícia não havia morrido de morte súbita. Havia. Aos 18 anos, Patrícia viu a mãe, de 42, cair diante dela. A família supôs um infarto, e a causa nunca foi esclarecida. Mais tarde, ela soube que duas tias também tinham morrido de forma súbita, ainda jovens. Apesar de consultar cardiologistas havia anos, nenhum lhe pediu uma ressonância. Kazunori afirma que uma arritmia grave está entre as explicações possíveis para a morte da mãe, hipótese que já não há como confirmar. “Após o tratamento oncológico, meu oncologista me disse: ‘Agora é hora de cuidar do coração’. Adiei por anos. Por um tempo, aceitei que talvez eu também morresse de forma súbita e não havia o que ser feito.” Síndrome reuniu sintomas diversos A partir de 2023, os sintomas impediram que ela continuasse ignorando o problema. Patrícia começou a desmaiar. Num dia comum, o coração chegou a 190 batimentos por minuto enquanto pendurava roupa no varal. A pressão despencava todas as manhãs, e ela só conseguia secar o cabelo deitada, com a ajuda do marido. O cardiologista pediu o teste de inclinação, em que o paciente fica em uma maca que simula a posição em pé. Em seis minutos, Patrícia desmaiou, sem nenhum remédio para provocar a reação. O diagnóstico foi disautonomia grave, falha do sistema nervoso autônomo, que controla pressão e batimentos. Reumatologistas investigaram artrite reumatoide, síndrome de Sjögren e lúpus e foram descartando cada hipótese. O diagnóstico saiu do consultório de um especialista em doenças raras: síndrome de Ehlers-Danlos. Ele notou que o branco dos olhos de Patrícia era fino demais, com tom azulado, e ela se lembrou de que a mãe tinha a mesma marca. Um exame genético amplo descartou o tipo vascular da síndrome, o mais perigoso. Para Patrícia, as peças se encaixaram: as dores, as quedas de pressão, a flexibilidade fora do comum, o nariz que sangrava muito na infância. Ela compara a síndrome a um prédio construído sobre um pilar defeituoso, que com os anos acumula infiltrações e rachaduras. ℹ️ A síndrome de Ehlers-Danlos reúne doenças genéticas do tecido conjuntivo, o que conecta e sustenta os demais tecidos do corpo. Falhas no colágeno, explica a geneticista Maria Luísa Carpinetti Tinoco, do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas, deixam o organismo frágil em vários pontos: articulações que se movem além do normal, pele alterada, vasos, órgãos, ligamentos e olhos mais vulneráveis. O diagnóstico costuma demorar, porque os sintomas atingem vários sistemas, incluem queixas difíceis de medir, como dor e cansaço, e não existe exame de laboratório que confirme a suspeita. Não há relação estabelecida com o miocárdio não compactado: a literatura registra um caso isolado de paciente com as duas, e Kazunori diz que não é comum pensar nelas em conjunto. O desfibrilador entrou na história quando um arritmologista concluiu, conta Patrícia, que ela preenchia os critérios para o implante: mortes súbitas na família, miocárdio não compactado confirmado na ressonância e a síndrome. Apelidado de anjo da guarda, o aparelho fica sob a pele do peito, monitora o ritmo do coração e, ao identificar uma arritmia ventricular grave, aplica um choque, explica Kazunori. Para Patrícia, o câncer foi o fio que puxou todo o resto. “Sem o câncer, eu não teria descoberto o problema no coração, não teria colocado o aparelho e continuaria sem saber o que levou a minha mãe”, afirma. Arquivo Pessoal Rotina calculada e negócio nascido do tratamento O que mais limita Patrícia hoje é a disautonomia, desencadeada por ficar em pé, mas também por calor, cheiros, estresse e certos alimentos. Com a ajuda de uma nutricionista, relata, descobriu que abacate e banana estavam por trás das quedas de pressão depois das refeições. Antes de ir a qualquer lugar, pergunta se haverá onde sentar. No metrô, usa uma pulseira de girassol, símbolo de deficiências ocultas, e às vezes recorre à fila preferencial, sob olhares tortos. Como não parece doente, o jeito mais rápido de se explicar é mostrar o aparelho no peito. É no próprio ritmo que ela toca o negócio criado na época do câncer de mama. Entre consultas, exames e receitas, Patrícia, tecnóloga em alimentos de formação, sentiu falta de um lugar para registrar tudo: a agenda distribuída pela clínica era pequena demais, e a busca na internet por um “oncoplanner”, nome que lhe ocorreu na hora, não trouxe resultado algum. Oncoplanner, agenda para tratamento oncológico, criado por Patrícia Arquivo Pessoal Ela pediu a uma conhecida com gráfica que imprimisse a sua versão, registrou a marca e hoje o Oncoplanner é comprado por médicos, clínicas, hospitais e farmacêuticas, que o entregam aos pacientes com o próprio logotipo na capa. A saúde, porém, não saiu de cena. No início deste ano, Patrícia recebeu o diagnóstico de câncer de tireoide, num nódulo que acompanhava desde 2019, e teve a glândula inteira retirada. Os testes genéticos de câncer hereditário deram negativo, e ela passou a suspeitar de uma ligação com a síndrome de Ehlers-Danlos, já que conhece outras pessoas com o diagnóstico que também tiveram câncer. A ciência não confirma essa relação: a geneticista diz que não há vínculo conhecido entre a síndrome e a predisposição ao câncer, e Stefani afirma que a literatura médica não traz evidência sólida de que ela aumente o risco de tumor de mama ou de tireoide. Por ora, a origem dos dois tumores segue sem explicação definida.