Casal transforma trabalho com unhas em renda e desafia preconceitos no Acre: 'Conquistamos muitas coisas'

Escrito em 13/04/2026


Casal transforma designer de unhas em fonte de renda e quebra preconceitos no Acre Entre esmaltes, lixas, acetona e motores de alongamento, o casal Joas da Silva Rodrigues, de 36 anos, e Maria Raisa de Moura Farias, de 31, encontrou mais do que uma fonte de renda. Juntos, eles se especializaram como designer de unhas, abriram o próprio estúdio e atendem a clientela dentro de casa em Rio Branco. O casal decidiu empreender juntos há três anos a partir da necessidade financeira e da falta de oportunidades de trabalho. O negócio então cresceu com parceria e, atualmente, desafia padrões ainda presentes no mercado de beleza, além de garantir o sustento, a autonomia e a qualidade de vida para toda a família. 📲 Participe do canal do g1 AC no WhatsApp Natural de Tarauacá, interior do estado, o casal está junto há 17 anos e decidiu se mudar para Rio Branco em 2014. A principal motivação para a mudança de cidade, segundo a mulher, foi financeira, uma vez que já tinham filho - com 1 ano na época - e precisavam garantir o sustento, além da morte do pai de Joas. "Nós tínhamos construído nossa casa no terreno do pai dele. Quando ele [sogro] morreu, a mãe do Joas veio para Rio Branco e vendeu a casa. Então, foi preciso tirarmos nossa casa do terreno e não tinha onde colocar, era uma casa de madeira. Isso foi mais um motivo para virmos embora", explicou Raisa. Após alguns anos já estabelecidos em Rio Branco, o casal decidiu abrir um estúdio de design de unhas na própria casa, na região da Sobral, na capital acreana. Raisa começou a trabalhar na área ainda na adolescência, aos 15 anos, quando recebeu de Joas, então namorado na época, o primeiro incentivo. “Eu comecei fazendo um desenho simples na minha unha e todo mundo achou bonito. Então, ele [esposo] perguntou se eu gostaria de fazer unha e me deu todo o material. Comecei atendendo em domicílio, cobrando R$ 7 por pé e mão”, relembrou. Já a entrada de Joas no ramo da estética não foi planejada. Com histórico profissional em áreas da construção civil, ele jamais imaginou trabalhar com unhas. “Foi meio que uma necessidade, porque eu vi que ela estava muito sobrecarregada”, contou. LEIA TAMBÉM: Pesquisadores do AC buscam patente de pomada que acelera cicatrização de feridas em animais Estudante luta por diagnóstico após perder movimento das pernas por 9 dias no AC: 'Sensação horrível' Abril Azul: Cabeleireira adapta salão para atender crianças com TEA no Acre Casal é natural de Tarauacá (AC) e está juntos há 17 anos Arquivo pessoal Obstáculos a vencer Raisa destacou que, inicialmente, enfrentou dificuldades financeiras e de conciliação com a fase gestacional para se firmar na profissão após se mudarem para a capital acreana. De 2014 até 2018, Raisa deixou de atender temporariamente clientes e passou a trabalhar com vendas de adesivos de unhas, enquanto o marido ajudava nas entregas. “Foi uma fase difícil. A gente veio só com a fé e a coragem. Eu sentia muita falta da minha família e cheguei a ficar muito abalada. Fiquei uns três, quatro anos só com adesivos, mas chegou uma hora que não estava mais suprindo nossas necessidades”, relatou. O ponto de virada na profissão ocorreu em 2019 quando decidiu retomar o atendimento aos clientes. Com R$ 200 emprestados da mãe, Raisa comprou materiais e voltou a trabalhar como manicure para complementar a renda. “Nesse período, eu estava sem fazer unhas, só fazendo adesivos, e me esposo entregava [os adesivos], mas já não estava tendo muita saída [dos pedidos]. Então, decidi voltar a fazer unhas e com a procura das clientes por alongamento de unhas, decidi entrar nesse ramo. Foi tudo muito difícil no começo, mas eu não desisti. Com o tempo, fui conquistando clientes e me aperfeiçoando”, disse. Casal superou obstáculos e atuam juntos na área há três anos Arquivo pessoal Desafios e mudança de área Com a esposa conciliando a rotina intensa de atendimento com os cuidados da casa e dos filhos, Joas decidiu deixar o emprego formal como apontador de obras, em uma empresa de construção em Rio Branco, e passou a trabalhar como motorista de aplicativo, além de ajudá-la nos bastidores. A entrada definitiva dele na área ocorreu em 2022, após um imprevisto no estúdio. Raisa marcou, sem perceber, duas clientes no mesmo horário. Devido a isso, ela pediu a ajuda de Joas para atender uma delas. Com o tempo, ele foi gostando da prática e sendo incentivado a continuar. De acordo com Joas, a principal dificuldade no início foi o receio em não se adaptar ao trabalho. Por isso, a cautela foi fundamental para o processo de familiarização com a área. "Fui começando por partes, por isso ficou mais fácil. A minha maior dificuldade era a preocupação de atender as clientes com cuidado, de não machucar e também na hora do atendimento, por ser homem, aprender a ter mais delicadeza no procedimento", disse. Há cerca de três anos na profissão, Joas aprendeu tudo o que sabe com a esposa e afirmou ter encontrado identificação no ramo. “Eu nunca tinha pensado em trabalhar com isso, mas fui aprendendo ali mesmo. Eu não estou aqui por falta de oportunidade. Sempre tive outras opções de trabalho, mas hoje me identifico com isso, eu gosto do que faço”, comentou. Joas afirma ter se identificado com o ramo de designer de unhas Arquivo pessoal Crescimento do negócio Foi durante a pandemia da Covid-19 que Raisa decidiu investir no alongamento de unhas, mesmo diante das incertezas e dos materiais caros. Além da compra dos itens necessários, ela precisou fazer capacitações para adquirir conhecimentos sobre o ramo. O negócio começou na área de casa, em um apartamento construído no terreno da casa da mãe de Raisa. "Depois ficamos quase três anos em um quarto que era de nosso filho. Reformamos e transformamos em um estúdio provisório também. Porém, para poder ter acesso a ele, tinhamos que passar por dentro de casa para ir para o estúdio, que era no quarto, o que não era muito legal", contou. De acordo com Raisa, surgiu a oportunidade de comprar uma parte de um terreno que permitiria a melhora do acesso ao local. Com o negócio crescendo aos poucos, a estrutura improvisada deu lugar a um estúdio mais equipado. "Meu esposo vendeu a moto que ele tinha, demos a entrada [no terreno] e parcelamos o restante. Depois, fomos construindo o nosso estúdio onde estamos hoje. Já conquistamos muitas coisas através das unhas. Compramos terreno, estamos construindo nossa casa e temos um estúdio bem estruturado”, disse. Quebra de preconceitos Por ser uma área majoritariamente feminina, a presença de um homem atuando como designer de unhas ainda causa olhares de estranhamento, especialmente no início do atendimento. Segundo Joas, o preconceito ainda existe, mas isto nunca o desmotivou a desistir da profissão. “Quando eu digo que trabalho fazendo unha, muita gente não acredita. Existe um certo preconceito, mas eu não levo isso para mim. Vejo como uma oportunidade de fazer diferente e também de quebrar esse tabu de que só mulher pode fazer unha”, destacou Joas. "Hoje elas amam ser atendidas por ele. Muitas dizem que o trabalho dele é excelente, que não perde para ninguém”, detalhou Raisa. Casal destaca a melhoria na qualidade de vida como um dos principais ganhos da profissão Arquivo pessoal Frutos do trabalho Além da renda e estabilidade financeira, o trabalho trouxe mudanças significativas na rotina da família. Atualmente, o casal tem dois filhos, de 7 e 11 anos, e destacou a melhoria na qualidade de vida como um dos principais ganhos da profissão. Com o crescimento do negócio, o casal também comemora conquistas importantes, como a compra de um terreno, um carro e a construção da casa própria, onde também funciona o novo estúdio. “Hoje a gente trabalha em casa, consegue acompanhar o crescimento dos nossos filhos, levar e buscar na escola. Isso não tem preço”, afirmou Joas. Segundo Raisa, os planos para o futuro são ainda maiores. Com a clientela consolidada, eles projetam novos passos com a ideia de expandir o negócio e oferecer mais serviços. “Queremos ampliar, abrir um espaço maior, um filial, com mais profissionais, oferecer outros serviços como spa dos pés, manicure e pedicure. Queremos crescer mais. Tudo que a gente conquistou foi junto. Começamos do zero. Hoje, tudo que temos veio das unhas”, disse. Mesmo diante de tantos desafios, o casal segue atendendo no estúdio montado na própria casa e estão determinados a expandir o empreendimento e, ao mesmo tempo, superar estigmas dentro do ramo. “Eu não vejo isso como um trabalho inferior. Vejo como uma oportunidade de dar um futuro melhor para nossos filhos. Não existe trabalho inferior. O que existe é dedicação. E foi isso que mudou a nossa vida”, concluiu Joas. VÍDEOS: g1