Como pesquisas militares dos EUA viraram base para os cães-robôs da China

Escrito em 24/08/2026


Cães-robôs sobem escadas em demonstração na China, em 21 de março de 2025 REUTERS/Florence Lo A chinesa Unitree Robotics, uma das maiores fabricantes de robôs humanoides e quadrúpedes do mundo, baseou o design de seus cães-robôs em tecnologias desenvolvidas com financiamento dos militares dos Estados Unidos, segundo um ex-integrante da área de tecnologia de defesa americana e três pesquisadores envolvidos no projeto. As informações são da agência de notícias Reuters. O modelo Go2, lançado em 2023 e vendido por cerca de US$ 1.600 (R$ 8.322,24), ajudou a Unitree a conquistar rapidamente espaço no mercado global de robôs quadrúpedes. O interesse pela empresa também impulsionou sua oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) em Xangai. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g1 Outro robô da Unitree apareceu em imagens exibidas pela televisão estatal chinesa transportando uma arma e acompanhando tropas do Exército de Libertação Popular (ELP) durante um exercício militar. Segundo pesquisadores ouvidos pela Reuters, esses robôs utilizam avanços na locomoção de máquinas quadrúpedes financiados pelo Laboratório de Pesquisa do Exército dos EUA e por outros programas militares americanos. Agora no g1 O projeto financiado pelo Exército acabou servindo de base para o primeiro robô da Unitree produzido em escala comercial relevante, afirmou Gavin Kenneally. Ben Katz, que trabalhava no Laboratório de Robótica Biomimética do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), integrante de um consórcio de universidades financiado por programas militares dos EUA, afirmou que as dimensões da popular série Go da Unitree eram praticamente idênticas às de um robô que ele ajudou a desenvolver, chamado Mini Cheetah. O caso evidencia dificuldades mais amplas dos Estados Unidos para competir com a capacidade industrial chinesa em setores estratégicos de alta tecnologia, incluindo áreas consideradas essenciais para a segurança nacional. Apoiadas por subsídios estatais, polos industriais especializados e maior disposição para operar com margens reduzidas ou prejuízos prolongados, empresas chinesas ampliaram sua participação em mercados como os de painéis solares, drones, veículos elétricos e comunicações quânticas. Muitas dessas tecnologias tiveram suas origens em pesquisas apoiadas por governos ou forças armadas dos EUA. Kenneally transformou parte desses avanços em produtos comerciais por meio da Ghost Robotics, empresa que fornece robôs para forças especiais dos Estados Unidos. Ainda assim, sua operação continua menor e mais cara do que a da Unitree. Em junho, o Pentágono incluiu a Unitree em uma lista de empresas ligadas ao setor militar chinês, classificando-a como uma "contribuinte para a base industrial de defesa chinesa". A medida não equivale a uma sanção, mas pode restringir o uso futuro da tecnologia da empresa pelas Forças Armadas dos EUA. A Unitree afirma que seus robôs são destinados a aplicações civis. A Unitree, o Conselho de Estado da China e o Ministério da Defesa chinês não responderam aos pedidos de comentário feitos pela Reuters. Segundo os pesquisadores ouvidos pela agência de notícias, a Unitree não agiu de forma inadequada ao utilizar pesquisas financiadas pelo Exército dos EUA. Os resultados do programa foram publicados abertamente para estimular avanços na área, uma prática comum no meio acadêmico. A porta-voz do Laboratório de Pesquisa do Exército, Amanda Ligon, afirmou que a pesquisa fortaleceu o setor de robótica dos Estados Unidos como um todo e serviu de base para trabalhos posteriores nos setores público e privado. O laboratório encaminhou as perguntas sobre a utilização comercial da tecnologia pela Unitree ao Pentágono, que se recusou a comentar. Como a China ganhou escala na robótica A Unitree vendeu mais de 5.500 robôs humanoides e 18 mil robôs quadrúpedes no ano passado, segundo documentos da empresa, e atualmente é avaliada em cerca de US$ 9 bilhões antes de sua estreia na bolsa de valores, prevista para quarta-feira. Em contrapartida, nenhuma empresa dos Estados Unidos conseguiu produzir robôs desse tipo em larga escala, incluindo a Tesla, de Elon Musk, que há anos apresenta protótipos de seu robô humanoide Optimus. A Boston Dynamics, fabricante do robô Spot, afirmou recentemente em audiência no Congresso que os preços praticados por empresas chinesas podem expulsar concorrentes americanos do mercado. Nenhum dos pesquisadores entrevistados pela Reuters defendeu que pesquisas financiadas pelo governo fossem mantidas em segredo. Em vez disso, eles argumentaram que os formuladores de políticas públicas deveriam criar condições para que empresas americanas transformem rapidamente esses avanços em produtos competitivos. O Laboratório de Pesquisa do Exército também afirmou que a divulgação dos resultados é importante para o avanço científico e tecnológico. Os EUA continuam se destacando em inovação e desenvolvimento de software, mas precisam de capital, infraestrutura industrial, mão de obra qualificada e cadeias de suprimentos robustas para transformar essas inovações em produção em larga escala, afirmou Vijay Kumar, reitor da Faculdade de Engenharia da Universidade da Pensilvânia. Por ora, as autoridades americanas têm recorrido principalmente a restrições comerciais para proteger empresas nacionais da concorrência chinesa. Em julho, a Comissão Federal de Comunicações (FCC) proibiu a importação de futuros modelos de robôs humanoides e quadrúpedes fabricados no exterior, incluindo os da Unitree. A China respondeu à medida com ameaças de retaliação. A embaixada da China em Washington afirmou, em comunicado, que as empresas chinesas estão ajudando a tornar novas tecnologias mais acessíveis em todo o mundo. O governo chinês também acusou os Estados Unidos de abuso de poder administrativo e de promover "distorção de mercado e intimidação unilateral". A maioria dos especialistas ouvidos pela Reuters apoiou as restrições impostas pelos Estados Unidos, mas afirmou que essa política, sozinha, não é suficiente para construir uma indústria capaz de competir com a China. “Esta não é apenas uma disputa entre empresas americanas e chinesas de robótica”, disse Kenneally, fundador da Ghost Robotics. “É uma disputa entre empresas privadas dos Estados Unidos e uma estratégia industrial coordenada pelo governo chinês.” Em 2015, o presidente chinês Xi Jinping lançou um plano de dez anos para transformar a China em líder em setores como energia verde, veículos elétricos e robótica. Desde então, o país tem direcionado grandes volumes de capital para a manufatura avançada, muitas vezes aceitando margens de lucro reduzidas para ganhar escala. A rapidez com que fabricantes chineses conseguem reproduzir e adaptar novas tecnologias está ligada ao domínio do país no refino de minerais críticos usados em ímãs para robótica, além da concentração de fornecedores de motores, engrenagens, atuadores — componentes que funcionam como os "músculos" dos robôs — e outras peças na região de Hangzhou, onde fica a sede da Unitree. Reyk Knuhtsen, analista de robótica da SemiAnalysis, classificou a dificuldade dos Estados Unidos em transformar pesquisas nacionais em produtos comerciais como uma "oportunidade perdida". Segundo ele, parte do problema está na preferência de investidores americanos por startups de software com retorno mais rápido. Na sua avaliação, barreiras comerciais contra a China não serão suficientes para impulsionar a fabricação de robôs. “Este é um desafio enorme para os Estados Unidos”, afirmou. A Casa Branca não respondeu aos pedidos de comentário sobre a política industrial dos Estados Unidos. Um porta-voz da FCC afirmou que a agência busca proteger os americanos de ameaças estrangeiras e preparar o país "para cumprir a visão do presidente Trump de liderar o mundo na próxima geração de tecnologias". Jaret Riddick, ex-diretor do Laboratório de Pesquisa do Exército e responsável pelo projeto de robótica financiado pelos militares, afirmou que a iniciativa ajudou a impulsionar a indústria americana de robôs quadrúpedes. Mas, sem incentivos para ampliar a produção em larga escala, a Unitree "simplesmente monopolizou esse mercado", disse. Ensinando novos truques a cães-robôs O Exército dos Estados Unidos financiou a Aliança de Tecnologia Colaborativa em Robótica (RCTA, na sigla em inglês) entre 2010 e 2020. A iniciativa reuniu pesquisadores do governo, universidades e empresas, incluindo profissionais da Universidade da Pensilvânia, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), da Boston Dynamics, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA e de outras instituições de pesquisa. O principal parceiro industrial foi a General Dynamics Land Systems, fabricante dos tanques Abrams M1. Em 2016, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, entre eles Kenneally, substituíram pesados sistemas centrais de engrenagens por motores instalados diretamente nas pernas dos robôs. A mudança aumentou a capacidade das máquinas de perceber e reagir ao terreno. O avanço se baseou em pesquisas anteriores do MIT financiadas pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA). Em 2019, o laboratório do MIT apresentou o Mini Cheetah, que incorporava características desenvolvidas na Universidade da Pensilvânia e se destacava pela maior resistência e pela capacidade de executar cambalhotas para trás. Katz afirmou que, poucos meses após publicar sua dissertação sobre os atuadores do Mini Cheetah, já encontrou cópias dos componentes sendo vendidas por fabricantes chineses. A Unitree havia sido fundada três anos antes por Wang Xingxing, então com 26 anos. Em sua dissertação de mestrado de 2016, analisada pela Reuters, Wang citou pesquisas do MIT, incluindo versões anteriores do projeto Cheetah, e mencionou aplicações futuras em áreas como defesa, segurança, uso doméstico e educação. Em seu site, a Unitree afirma ter desenvolvido internamente componentes como motores, sistemas de transmissão, controladores e até alguns sensores utilizados em seus robôs quadrúpedes. João Ramos, que pesquisava no laboratório do MIT na mesma época que Katz, afirmou que a Unitree reproduziu elementos do formato, da estrutura e do projeto do Mini Cheetah. Ainda assim, reconheceu o mérito da empresa por ter realizado um trabalho sólido de engenharia para transformar a tecnologia em um produto fabricado em larga escala. "A implementação prática e a transformação dessa tecnologia em um produto comercial foram mérito deles", afirmou Ramos. Cães-robôs no campo militar Robôs bípedes ainda não são amplamente utilizados em operações militares, mas as Forças Armadas dos Estados Unidos e da China já testaram esse tipo de aplicação. Em outubro, quadrúpedes da série Robot Wolf, desenvolvidos por outra empresa chinesa, apareceram em reportagens da mídia estatal sobre exercícios que simulavam desembarques militares em praias realizados pelo Exército de Libertação Popular. A Unitree afirma publicamente que seus produtos têm finalidade civil. Em 2022, a empresa assinou uma carta aberta, ao lado de fabricantes de robôs de outros países, comprometendo-se a não transformar essas máquinas em armas, citando riscos de danos e preocupações éticas. Apesar disso, a televisão estatal chinesa exibiu imagens de robôs Go2 da Unitree acompanhando tropas do país e de uma versão modificada do modelo B1 disparando um fuzil de assalto acoplado à estrutura da máquina. Em setembro de 2023, o Exército dos Estados Unidos recebeu uma autorização especial para contornar exigências federais que priorizam a compra de produtos fabricados no país e adquirir dois robôs Unitree Go2. Registros oficiais classificavam os equipamentos como ferramentas importantes diante da falta de alternativas americanas disponíveis em escala comercial e com qualidade considerada satisfatória. A Reuters não conseguiu confirmar se a compra foi concluída. Ainda naquele mês, os fuzileiros navais dos Estados Unidos realizaram testes para acoplar um lançador de foguetes a um robô Go1 e permitir disparos remotos. A Ghost Robotics, fundada por Kenneally, já entregou cerca de mil robôs Vision 60, principalmente para clientes militares e governamentais. Os equipamentos são usados em tarefas de vigilância e busca em ambientes considerados hostis. O primeiro cliente da empresa foi o Comando de Guerra Especial da Marinha dos Estados Unidos, responsável pelas equipes SEAL. Alguns componentes do Vision 60, vendido por mais de US$ 165 mil, ainda são fabricados na China, embora a empresa tenha buscado diversificar sua cadeia de fornecedores. Em comparação, a Unitree comercializa sua série B nos Estados Unidos por menos de US$ 100 mil. Há dois anos, a Ghost Robotics transferiu o fornecimento de motores da China para a Coreia do Sul. Ainda assim, a empresa enfrenta dificuldades para substituir ímãs produzidos por fabricantes chineses e alguns componentes metálicos, segundo Kenneally. Segundo Kenneally, a única forma de reduzir a dependência da cadeia de suprimentos chinesa é ampliar o fornecimento por países aliados que possuam capacidade produtiva inexistente hoje nos Estados Unidos. Em 2024, a sul-coreana LIG Defense & Aerospace adquiriu 60% da Ghost Robotics por US$ 240 milhões. Segundo Kenneally, a empresa também avalia a possibilidade de produzir equipamentos em Taiwan. "Precisamos trabalhar em estreita colaboração com nossos aliados", afirmou. "Não existe um caminho viável sem eles."