Comunidades atingidas por enchentes no RS criam dicionário para ressignificar palavras e enfrentar mudanças climáticas

Escrito em 12/01/2026


Comunidades atingidas por enchentes criam dicionário para ressignificar palavras Comunidades atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul decidiram transformar a própria experiência em palavras e criar um dicionário com novos significados para termos marcados pela tragédia. A iniciativa reúne moradores da zona rural de Cruzeiro do Sul e de Canoas e resultou na produção de um livro que mistura memória, dor, afeto e resistência diante das mudanças climáticas. No dicionário criado pelo grupo, palavras comuns ganham sentidos construídos a partir da vivência. "Milagre", por exemplo, deixou de ser o “acontecimento extraordinário” definido nos livros para significar "poder sentir que se segue vivo(a) depois de tantos dias de ameaças pela situação de ser levado pelas águas". 📲 Acesse o canal do g1 RS no WhatsApp Ao todo, 60 palavras foram redefinidas por moradores que tiveram suas casas e rotinas impactadas pelas cheias. O projeto é idealizado pela Cáritas, grupo humanitário da Igreja Católica, a partir de encontros com famílias atingidas. “Foram sendo realizadas várias atividades com um grupo de mulheres e com as famílias. A cada encontro apareciam palavras muito fortes, que diziam o que estava acontecendo”, explicou Marilene Maia, assessora regional do RS da Cáritas Brasileira. Comunidades atingidas por enchentes criaram dicionário para ressignificar palavras e enfrentar mudanças climáticas Reprodução/RBS TV Livro ilustrado por crianças Batizado de “Dicionário das Comunidades para o Enfrentamento às Mudanças Climáticas”, o livro foi construído de forma coletiva. Enquanto os adultos propuseram as palavras e significados, as crianças participaram por meio de desenhos. As ilustrações são de alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental Itaipava Ramos: “O projeto trouxe alegria de novo para eles. Em forma de livro, puderam colocar no papel o que estavam sentindo”, contou Maria Eloisa Schossler de Freitas, diretora da escola. Cerca de mil exemplares do dicionário foram impressos e distribuídos às famílias participantes e parceiros do projeto. Em Cruzeiro do Sul, mais de 300 famílias das comunidades de São Miguel e Maravalha, fortemente atingidas pela enchente, participaram da iniciativa. Muitas delas precisaram deixar suas casas. Para a professora Jaciele Carine Rugeri, o livro vai além do registro da tragédia. “O dicionário faz memória, é um instrumento de comunicação e de conscientização. Foi um estímulo para se fortalecer e entender a importância das políticas públicas de prevenção”, afirmou. Memória e resistência O projeto também teve impacto afetivo nas famílias. “Eles conseguiram colocar no papel a tradução do sentimento deles. É uma construção muito bonita como comunidade”, disse Jaciele. Para a educadora social Arlete Solene da Rosa, líder comunitária, o dicionário se tornou um marco. “É algo concreto, construído por nós. Vai ficar para lembrar o que aconteceu e como devemos agir daqui para frente para que não aconteça de novo”, destacou. VÍDEOS: Tudo sobre o RS