Cuiabá tem fila de 4,6 mil pedidos para investigar câncer de mama; paciente vendeu próprio negócio para custear exames

Escrito em 29/10/2026


Raiany Júlia descobriu um câncer de mama aos 27 anos e precisou vender equipamentos e parte do próprio negócio para custear exames durante a investigação da doença Arquivo pessoal Cuiabá registrou 4.674 solicitações pendentes de exames relacionados à saúde das mamas entre janeiro e outubro de 2026, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde. Os pedidos registrados nas unidades de saúde no município incluem mamografias, ultrassonografias e procedimentos para investigar alterações mamárias, entre elas possíveis casos de câncer. Do total, 4.640 solicitações eram de moradores da capital e 34 de pacientes de municípios do interior encaminhados pela regulação municipal de Cuiabá. Solicitações pendentes de exames mamários em Cuiabá ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MT no WhatsApp Já na rede de saúde sob administração do estado, a Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT) informou que 510 pessoas aguardavam exames relacionados à investigação da doença no estado, com 506 residentes em Mato Grosso. Segundo a SES-MT, dentre as iniciativas para a redução das filas está o programa Fila Zero que deve prever, além de outros procedimentos, a contratação de 2.531 mamografias para tratamento oncológico, incluindo a oferta de serviços especializados. No entanto, não informou a previsão de quando essas contratações serão realizadas. Agora no g1 Entre os números da fila de espera, está a história da autônoma Raiany Júlia Nascimento, de 30 anos. Ao g1, relatou que percebeu um nódulo na mama direita durante o banho, em 2023. Na época, tinha 27 anos e não imaginava que pudesse desenvolver câncer. Segundo ela, sem informações sobre o diagnóstico, optou por pagar uma ultrassonografia particular. Em 22 de janeiro de 2024, recebeu a confirmação de câncer de mama triplo negativo, que exigia outros procedimentos. Raiany contou que cada biópsia custava cerca de R$ 800. Para conseguir os recursos, vendeu máquinas, equipamentos e quase toda a sua papelaria personalizada, que era sua fonte de renda. Ela também organizou campanhas de arrecadação. “Eu não estava vendendo apenas objetos. Estava abrindo mão do meu sustento para tentar salvar minha vida”, relatou. Na época, o marido estava desempregado e a família precisava sustentar os filhos. A filha do casal também tentou ajudar, vendendo revistas na escola. Diante da demora na espera pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ela pagou o exame na rede particular, onde realizou a maioria dos exames. Já a maior parte do tratamento foi possível de realizada pelo próprio SUS, incluindo quimioterapia, cirurgia, radioterapia, quimioterapia oral e reconstrução mamária com próteses. “Sempre faço questão de dizer que o SUS é fundamental e que eu só consegui chegar ao tratamento porque existe o SUS”, afirmou. Hoje em fase de remissão, Raiany ainda enfrenta consequências físicas e emocionais do tratamento, como menopausa precoce, alterações hormonais, fadiga e limitações físicas. Além dos sintomas físicos, também ressaltou as dificuldades para conseguir acompanhamento psicológico depois das etapas mais intensas do tratamento. “Mesmo depois das etapas mais intensas, a recuperação continua e a gente ainda precisa desse suporte. A gente precisa de acompanhamento psicológico, apoio emocional e cuidados com as sequelas”, disse. O acesso à saúde Fila de exames de mama em Cuiabá reúne 4,6 mil solicitações pendentes Reprodução O médico mastologista Luciano Florisbelo afirmou que o acesso aos exames em tempo adequado é fundamental para a investigação do câncer de mama. De acordo com ele, a realização dos procedimentos deve ser acompanhada de consultas especializadas, biópsias e definição do tratamento, quando necessário. “Quando a gente fala de câncer, o tempo importa. Uma mulher com uma alteração suspeita não pode demorar meses para realizar um exame e, depois, esperar mais meses para conseguir uma consulta com um especialista e iniciar o tratamento. Precisamos de uma rede mais organizada, maior oferta de exames e melhor distribuição dos serviços", afirmou. Luciano também apontou a extensão territorial de Mato Grosso como um dos fatores que podem dificultar o acesso. Para ele, a falta de mamógrafos em alguns municípios faz com que pacientes precisem viajar longas distâncias para realizar os exames, o que dificulta grande parte dos tratamentos. “O diagnóstico precoce não pode ser apenas uma recomendação médica. A gente precisa de uma oportunidade real para todas as mulheres, independentemente de onde vivem ou da condição financeira”, destacou. O médico ressaltou, ainda, que nem toda alteração indica câncer, mas recomenda avaliação profissional diante de sinais suspeitos. A investigação pode incluir exames de imagem e, quando indicado, biópsia. Segundo ele, a identificação da doença em estágio inicial pode aumentar as chances de cura e permitir tratamentos menos agressivos. A confirmação do diagnóstico e o encaminhamento para o tratamento dependem da avaliação clínica e dos resultados dos exames. *Sob supervisão de Kessillen Lopes.