Na coluna de terça, escrevei sobre um novo estudo que mostra o risco do excesso de medicamentos depois de uma alta hospitalar. Os achados reforçam a importância da revisão da medicação e da desprescrição (a retirada de fármacos desnecessários) para otimizar os resultados da reabilitação. Aproveito para retomar um tema já abordado aqui: os Critérios de Beers. Medicamentos: a lista chamada Critérios de Beers foi criada pela Sociedade Americana de Geriatria e é uma das diretrizes mais respeitadas no mundo para orientar prescrições seguras Jarmoluk para Pixabay Criada pela Sociedade Americana de Geriatria em 1991, essa é uma das diretrizes mais respeitadas no mundo para orientar prescrições seguras para idosos. O objetivo não é proibir o uso de remédios, mas alertar sobre Medicamentos Potencialmente Inapropriados (MPIs), cujos riscos superam os benefícios. Em 2023, houve uma atualização da lista. Segue um resumo das principais categorias e as orientações que estão em vigor: Medicamentos que devem ser evitados (em geral): fármacos com alto risco de efeitos colaterais ou eficácia limitada em idosos Anti-histamínicos de primeira geração, como hidroxizina ou dexclorfeniramina, causam confusão mental, boca seca, retenção urinária e risco de quedas. Antinflamatórios não esteroides (AINEs), como diclofenaco e ibuprofeno, apresentam alto risco de sangramento gastrointestinal. Benzodiazepínicos como diazepam e alprazolam aumentam drasticamente o risco de quedas, fraturas, sedação excessiva e delirium. Sulfonilureias de longa duração, como glibenclamida: alto risco de hipoglicemia grave e prolongada. Medicamentos a serem evitados em doenças específicas: a diretriz lista interações entre fármacos e condições clínicas pré-existentes Insuficiência cardíaca: evitar certos bloqueadores de canais de cálcio e AINEs, pois podem provocar retenção de líquidos e piorar a insuficiência. Histórico de quedas: evitar antipsicóticos, antidepressivos e anticonvulsivantes, que afetam o equilíbrio – a menos que não haja alternativa. Comprometimento cognitivo: evitar medicamentos com forte efeito anticolinérgico ou sedativo, que agravam a confusão mental. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Medicamentos que devem ser usados com cautela: o uso é permitido, mas exige monitoramento rigoroso Aspirina: para a prevenção primária de doenças cardiovasculares, em pessoas muito idosas, o risco de sangramento pode ser maior que o benefício cardíaco. Diuréticos: podem acarretar desequilíbrios eletrolíticos graves (como queda de sódio ou potássio). Interações medicamentosas preocupantes: combinações perigosas que aumentam o risco de hospitalização Varfarina + AINEs: risco altíssimo de hemorragia. Lítio + diuréticos: risco de toxicidade pelo lítio. Na lista de 2023, a varfarina se tornou um medicamento a ser evitado no início de tratamento de certas condições – a opção são os novos anticoagulantes orais, como apixabana – devido ao alto risco de sangramento. Em relação ao diabetes, houve um alerta mais rígido contra todas as sulfonilureias, pelo risco prolongado de hipoglicemia grave em idosos. Reforçou-se a cautela no uso de aspirina para prevenção primária (em quem nunca teve evento cardíaco), pois o risco de sangramento estomacal ou cerebral supera os benefícios após os 60-70 anos. É bom lembrar: a polifarmácia (uso de cinco ou mais remédios) frequentemente inclui itens incluídos na Beers. Se um idoso está usando um benzodiazepínico para dormir, ele terá menos equilíbrio e força para as sessões de fisioterapia, o que explica por que o ganho funcional será menor. Em julho de 2025, a Sociedade Americana de Geriatria liberou um recurso complementar: a Lista de Alternativas aos Critérios de Beers. Enquanto os critérios dizem o que não usar, essa relação foca no que os médicos podem prescrever em substituição para tratar problemas comuns como insônia, ansiedade e dor, ajudando na prática da desprescrição. Seguem algumas das opções: Para insônia: Higiene do sono e Terapia Cognitivo-Comportamental, além de melatonina em doses baixas ou agonistas de melatonina (como ramelteona), que não aumentam o risco de quedas ou confusão mental. Para ansiedade: Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina, como a sertralina ou escitalopram. Demoram algumas semanas para fazer efeito, mas não causam a dependência dos ansiolíticos comuns. Como opção não farmacológica, são recomendadas a psicoterapia e técnicas de relaxamento. Para dor crônica (artrite/artrose): A alternativa de primeira linha é o paracetamol (respeitando o limite diário) para dores de leves a moderadas. Para serem aplicados na pele, géis ou adesivos de diclofenaco sódico ou lidocaína, pois a absorção sanguínea é mínima, protegendo os rins e o estômago. Por fim, fisioterapia assistida e exercícios de baixo impacto. Para sintomas urinários (bexiga hiperativa): Muitos remédios para bexiga são anticolinérgicos, associados ao declínio cognitivo. A mirabegrona é um medicamento de uma classe diferente, que combate a urgência urinária sem afetar a parte cognitiva ou provocar confusão mental.
Confira se seus medicamentos fazem parte dos Critérios de Beers
Escrito em 12/02/2026
Na coluna de terça, escrevei sobre um novo estudo que mostra o risco do excesso de medicamentos depois de uma alta hospitalar. Os achados reforçam a importância da revisão da medicação e da desprescrição (a retirada de fármacos desnecessários) para otimizar os resultados da reabilitação. Aproveito para retomar um tema já abordado aqui: os Critérios de Beers. Medicamentos: a lista chamada Critérios de Beers foi criada pela Sociedade Americana de Geriatria e é uma das diretrizes mais respeitadas no mundo para orientar prescrições seguras Jarmoluk para Pixabay Criada pela Sociedade Americana de Geriatria em 1991, essa é uma das diretrizes mais respeitadas no mundo para orientar prescrições seguras para idosos. O objetivo não é proibir o uso de remédios, mas alertar sobre Medicamentos Potencialmente Inapropriados (MPIs), cujos riscos superam os benefícios. Em 2023, houve uma atualização da lista. Segue um resumo das principais categorias e as orientações que estão em vigor: Medicamentos que devem ser evitados (em geral): fármacos com alto risco de efeitos colaterais ou eficácia limitada em idosos Anti-histamínicos de primeira geração, como hidroxizina ou dexclorfeniramina, causam confusão mental, boca seca, retenção urinária e risco de quedas. Antinflamatórios não esteroides (AINEs), como diclofenaco e ibuprofeno, apresentam alto risco de sangramento gastrointestinal. Benzodiazepínicos como diazepam e alprazolam aumentam drasticamente o risco de quedas, fraturas, sedação excessiva e delirium. Sulfonilureias de longa duração, como glibenclamida: alto risco de hipoglicemia grave e prolongada. Medicamentos a serem evitados em doenças específicas: a diretriz lista interações entre fármacos e condições clínicas pré-existentes Insuficiência cardíaca: evitar certos bloqueadores de canais de cálcio e AINEs, pois podem provocar retenção de líquidos e piorar a insuficiência. Histórico de quedas: evitar antipsicóticos, antidepressivos e anticonvulsivantes, que afetam o equilíbrio – a menos que não haja alternativa. Comprometimento cognitivo: evitar medicamentos com forte efeito anticolinérgico ou sedativo, que agravam a confusão mental. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Medicamentos que devem ser usados com cautela: o uso é permitido, mas exige monitoramento rigoroso Aspirina: para a prevenção primária de doenças cardiovasculares, em pessoas muito idosas, o risco de sangramento pode ser maior que o benefício cardíaco. Diuréticos: podem acarretar desequilíbrios eletrolíticos graves (como queda de sódio ou potássio). Interações medicamentosas preocupantes: combinações perigosas que aumentam o risco de hospitalização Varfarina + AINEs: risco altíssimo de hemorragia. Lítio + diuréticos: risco de toxicidade pelo lítio. Na lista de 2023, a varfarina se tornou um medicamento a ser evitado no início de tratamento de certas condições – a opção são os novos anticoagulantes orais, como apixabana – devido ao alto risco de sangramento. Em relação ao diabetes, houve um alerta mais rígido contra todas as sulfonilureias, pelo risco prolongado de hipoglicemia grave em idosos. Reforçou-se a cautela no uso de aspirina para prevenção primária (em quem nunca teve evento cardíaco), pois o risco de sangramento estomacal ou cerebral supera os benefícios após os 60-70 anos. É bom lembrar: a polifarmácia (uso de cinco ou mais remédios) frequentemente inclui itens incluídos na Beers. Se um idoso está usando um benzodiazepínico para dormir, ele terá menos equilíbrio e força para as sessões de fisioterapia, o que explica por que o ganho funcional será menor. Em julho de 2025, a Sociedade Americana de Geriatria liberou um recurso complementar: a Lista de Alternativas aos Critérios de Beers. Enquanto os critérios dizem o que não usar, essa relação foca no que os médicos podem prescrever em substituição para tratar problemas comuns como insônia, ansiedade e dor, ajudando na prática da desprescrição. Seguem algumas das opções: Para insônia: Higiene do sono e Terapia Cognitivo-Comportamental, além de melatonina em doses baixas ou agonistas de melatonina (como ramelteona), que não aumentam o risco de quedas ou confusão mental. Para ansiedade: Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina, como a sertralina ou escitalopram. Demoram algumas semanas para fazer efeito, mas não causam a dependência dos ansiolíticos comuns. Como opção não farmacológica, são recomendadas a psicoterapia e técnicas de relaxamento. Para dor crônica (artrite/artrose): A alternativa de primeira linha é o paracetamol (respeitando o limite diário) para dores de leves a moderadas. Para serem aplicados na pele, géis ou adesivos de diclofenaco sódico ou lidocaína, pois a absorção sanguínea é mínima, protegendo os rins e o estômago. Por fim, fisioterapia assistida e exercícios de baixo impacto. Para sintomas urinários (bexiga hiperativa): Muitos remédios para bexiga são anticolinérgicos, associados ao declínio cognitivo. A mirabegrona é um medicamento de uma classe diferente, que combate a urgência urinária sem afetar a parte cognitiva ou provocar confusão mental.