Quem era a mulher grávida que morreu pedindo por cesárea em MG

Escrito em 21/08/2026


Morte de gestante e bebê em Patrocínio é investigada Antes de ser mãe, esposa e mulher que sonhava em ser tatuadora, Nayara Oliveira Silva, de 26 anos, era a “princesinha” de Cleusa Oliveira, de 54. Primeira menina entre os sete filhos, ela cresceu ao lado da mãe em uma família que deixou a colheita de café para construir a vida em São João, distrito de Patrocínio, no Alto Paranaíba. Nayara morreu na madrugada de quarta-feira (12), na Santa Casa de Misericórdia de Patrocínio, aos oito meses de gestação. Segundo a mãe, ela passou horas com fortes dores, pediu atendimento várias vezes, inclusive para que fosse feita uma cesárea, e morreu nos braços dela. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp A família questiona o atendimento prestado pelo hospital e afirma que houve negligência. A Polícia Civil investiga o caso. Agora, Cleusa relembra a trajetória da filha, a relação entre as duas e os sonhos que Nayara deixou para trás. “Os 26 anos que eu tive o privilégio de ter ela em matéria, não tem dinheiro que pague”, afirmou a mãe. naiara patrocínio grávida morre santa casa Reprodução/Redes Sociais Em nota, a Santa Casa de Misericórdia de Patrocínio afirmou que realiza uma apuração interna sobre o caso, com a participação das áreas responsáveis, para esclarecer os fatos e as circunstâncias relacionadas ao atendimento. Já a Prefeitura de Patrocínio informou que, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, acompanha o caso e presta o suporte necessário dentro de suas atribuições. Os posicionamentos podem ser lidos na íntegra ao fim da reportagem. O g1 optou por não divulgar os nomes dos profissionais que constam no prontuário, porque o caso ainda segue em investigação pela Polícia Civil sem o indiciamento de qualquer pessoa até a última atualização da reportagem. 'Foi como uma princesa' Nayara quando tinha 1 ano Reprodução/Redes Sociais Cleusa havia chegado ao interior de Minas com o marido, Antônio Ferreira da Silva, e o filho mais velho, Isaias Silva, hoje com 30 anos. A família trabalhava na colheita de café. Quando descobriu a gravidez, Cleusa deixou o trabalho na lavoura e passou a cuidar da cozinha. Ela trabalhou praticamente até o dia do nascimento da filha. “Eu fui para o hospital já ganhando ela. Em 40 minutos ela nasceu”, contou. Nayara nasceu em 4 de março de 2000, um dia depois do aniversário do pai. Para Cleusa, a chegada da primeira menina mudou a dinâmica da família. “Ela foi a minha primeira menina, foi como uma princesa. A gente chamava ela assim, princesinha”, lembrou. Cleusa teve sete filhos e diz que todas as gestações foram tranquilas. Mesmo depois de Nayara nascer, continuou trabalhando. A menina, porém, cresceu muito próxima da mãe. Segundo a mulher, a infância da filha foi simples e feliz, marcada pela vida no interior. “Era uma infância gostosa. Ela era muito educada, uma infância de interior”, contou. Filha que queria ser igual à mãe A relação entre Cleusa e Nayara ficou ainda mais próxima conforme a família crescia. Quando a mãe engravidou novamente, Nayara, ainda criança, passou a ajudar nos cuidados da casa e dos irmãos. Era uma menina prestativa, segundo Cleusa, e fazia questão de participar da vida da mãe. “Ela era uma criança muito prestativa a mim. Eu era o espelho que ela tinha. Ela sempre falava que queria ser igual a mim”. “Eu amava que ela falava que queria ser forte como eu”, contou. A proximidade era tanta que, depois de adultas, mãe e filha perceberam que tinham gostos parecidos. Para Cleusa, em alguns momentos, a relação deixava de ser apenas de mãe e filha e se aproximava da amizade. “Às vezes eu até me esquecia que era mãe dela, porque nossos gostos eram muito parecidos”, afirmou. Casamento, separação e um novo amor Desenhos de Nayara Reprodução/Redes Sociais Aos 18 anos, Nayara se casou e foi morar em Goiânia. Permaneceu na cidade durante oito anos, até se separar e voltar para a casa da mãe. Foi depois desse retorno que ela conheceu Ronaldo Morais de Souza, com quem permaneceu até o fim da vida. Ao lado dele, Nayara começou a construir os próprios planos. Um deles era ter uma casa e formar uma família. Ela também tinha sonhos profissionais. Era uma excelente desenhista e queria fazer um curso para se tornar tatuadora e abrir o próprio negócio. O projeto acabou ficando para depois, enquanto ela e Ronaldo priorizavam a construção da própria casa. A gravidez de Ayla Nayara também planejava ser mãe, mas não imaginava que isso aconteceria naquele momento. Quando descobriu a gravidez, foi até a casa de Cleusa para contar a novidade. “Você lembra que a senhora falou que queria ser vó de novo?”, perguntou à mãe. As duas se abraçaram e ficaram sorridentes. Cleusa já imaginava a neta crescendo perto dela. A menina se chamaria Ayla. Segundo a mãe, a gestação foi tranquila até os últimos dias. Até o sétimo mês, Nayara não reclamava de dores nem teve alterações na pressão. A família também já havia começado a preparar a chegada da bebê. Alguns itens tinham sido comprados e estavam guardados para quando Ayla nascesse. Mas, nos últimos dias da gestação, o cenário mudou. Nayara passou a apresentar problemas de saúde e procurou atendimento na Santa Casa de Patrocínio. Segundo Cleusa, ela esteve no hospital pela primeira vez no domingo (9), com mal-estar, febre, dor de cabeça e dor de garganta. Depois, voltou à unidade na terça-feira (11). Mais tarde, por volta das 20h43, foi novamente ao hospital, acompanhada da mãe, e acabou internada. Durante a madrugada, segundo Cleusa, Nayara sentiu fortes dores e pediu uma cesárea e um ultrassom. A mãe afirma que os pedidos não foram atendidos. Por volta das 4h30, conforme o registro policial, Nayara sentiu uma forte dor abdominal enquanto caminhava pelo corredor e caiu. Ela foi colocada em uma cadeira de rodas e levada de volta ao quarto. Cleusa contou que, quando retornou ao local, encontrou a filha sem reação. “Quando eu cheguei lá, eu segurei minha filha e ela ficou rígida, com a boca roxa. Ela estava morta”, afirmou. Segundo o boletim de ocorrência, Nayara teve uma parada cardiorrespiratória. A equipe médica realizou manobras de reanimação por cerca de uma hora, mas ela não resistiu. A bebê também morreu. A Polícia Civil investiga o caso e aguarda laudos que devem ajudar a esclarecer a causa das mortes e verificar se houve falha no atendimento. A Santa Casa informou que realiza uma apuração interna para esclarecer o que aconteceu. naiara patrocínio grávida morre santa casa Reprodução/Redes Sociais LEIA TAMBÉM: Trabalhador morre ao cair do 7º andar de prédio em construção Quem era o homem que morreu atropelado por empilhadeira Homem furta Pit Bull, se recusa a devolvê-lo e é preso denunciado pelo pai 'Eu ainda agradeço a Deus' Mesmo diante da perda, Cleusa diz que tenta encontrar forças na história que viveu ao lado da filha. “Mesmo diante da dor, eu ainda agradeço a Deus por ter me confiado ela até o último suspiro”, afirmou. A saudade, entretanto, aparece nos momentos mais simples do dia. Cleusa conta que ainda tem a sensação de que Nayara vai voltar para casa. “Eu tenho a sensação de que ela vai chegar. Às vezes eu estou em casa, o portão abre e fico esperando que ela chegue”, relatou. Um pastor disse a Cleusa que, embora a vida material termine, o espírito permanece. Segundo ela, ele contou que, caso encontrasse uma borboleta, poderia enxergá-la como um sinal da presença da filha. Dias depois, Cleusa foi ao mercado. Na volta para casa, encontrou uma borboleta que a acompanhou durante o caminho. “Eu me peguei dizendo: ‘Nayara, como é estar do outro lado? Será que você pode me dar uma dica?’. E ela veio me acompanhando até em casa”, contou. Sonhos que ficaram Agora, os sonhos de Cleusa também mudaram. Quando era mais jovem, ela queria ter uma casa e construir uma família, mas diz que não pensa mais em bens materiais. “Hoje não tenho sonho de ter carro. Quero é sonhar os sonhos dos meus filhos”, afirmou. A mãe afirma que ainda sente dor, mas diz que o sentimento não é mais de raiva. “Eu não desisti de lutar, mas estou mais em paz”, afirmou. A investigação sobre a morte de Nayara continua. A Polícia Civil recolheu imagens das câmeras de monitoramento da Santa Casa e solicitou documentos médicos para analisar o atendimento prestado à gestante. Familiares, testemunhas, médicos e enfermeiros devem ser ouvidos. O que falta saber? Em nota, a Polícia Civil informou que o corpo da vítima foi levado ao Instituto Médico Legal (IML), onde foram coletadas amostras que serão analisadas em Belo Horizonte. A corporação também aguarda o laudo de necropsia para ajudar a identificar a causa da morte da gestante e do bebê. A polícia ainda pediu os documentos médicos da paciente para analisar o atendimento recebido no hospital. No dia 13 de agosto, investigadores da Delegacia de Homicídios estiveram na unidade e recolheram imagens das câmeras de monitoramento. O material é analisado. A investigação apura se houve algum erro médico. Familiares, testemunhas, médicos e enfermeiros que atenderam a paciente serão ouvidos. O que disse a Santa Casa de Patrocínio "O Hospital Santa Casa de Patrocínio informa que está realizando uma apuração interna criteriosa sobre o caso, envolvendo as áreas responsáveis, com o objetivo de esclarecer todos os fatos e circunstâncias relacionados ao atendimento. Até a conclusão dessa investigação, a instituição não irá se pronunciar publicamente sobre o caso, a fim de preservar a seriedade do processo de apuração, bem como a privacidade, a dignidade e o sigilo das informações da paciente e de seus familiares. Após a conclusão da análise, a instituição avaliará, dentro dos limites legais e éticos aplicáveis, a possibilidade de prestar os esclarecimentos pertinentes. O Hospital reafirma seu compromisso com a transparência, a responsabilidade e a segurança na assistência prestada aos seus pacientes." O que disse a Prefeitura "A Prefeitura de Patrocínio, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, está acompanhando o caso e prestando todo o suporte necessário dentro de suas atribuições. É importante esclarecer que a Santa Casa possui gestão própria e independente, não sendo administrada pela Prefeitura. A instituição é porta aberta para atendimentos de urgência e emergência às gestantes, sem necessidade de encaminhamento pela UPA. A paciente realizava acompanhamento pela rede municipal de saúde e, diante do ocorrido, estão sendo adotadas as medidas necessárias para a apuração do caso. A própria Santa Casa já solicitou os exames e procedimentos necessários para investigação das possíveis causas, com o suporte da rede pública de saúde. A Prefeitura de Patrocínio se solidariza com a família e os amigos neste momento de profunda dor, manifestando suas mais sinceras condolências e desejando força e conforto a todos." VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas