O chefe de clima da ONU, Simon Stiell, afirmou nesta quinta-feira (30) em Paris que a crise de preços dos combustíveis fósseis provocada pelo conflito no Oriente Médio reforça a urgência da transição energética.
Com a guerra e as ameaças ao fornecimento de petróleo, governos e empresas enfrentam instabilidade de preços e risco de desabastecimento. O que reforça que depender desse tipo de energia não é um caminho seguro — nem mesmo economicamente.
O conflito atingiu em cheio o Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde circulam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia — 20% de todo o consumo mundial. Com as ameaças à rota, os preços do petróleo tipo Brent ficaram mais de 50% acima do nível do início do ano.
Momento é de transição urgente
Para o secretário, o momento atual abre uma janela. Investir em energias renováveis agora não é só uma resposta à crise — é uma forma de os países se prepararem para um futuro em que situações como essa podem ser ainda mais frequentes.
"As energias renováveis oferecem energia mais segura, barata e limpa, que não pode ser refém de estreitos canais de navegação ou conflitos globais", disse Stiell.
Os números mostram que a transição já está em curso. Em 2025, o investimento global em energia limpa deve ser o dobro do investimento em combustíveis fósseis. A geração solar cresceu 600 terawatts-hora em relação a 2024.
Países com matriz renovável mais robusta, como Espanha e Paquistão, foram protegidos de parte dos piores impactos da crise atual. China, Índia, Indonésia, Coreia do Sul, Alemanha e Reino Unido aceleraram seus planos de energia renovável por razões de segurança energética. Na França, o financiamento para eletrificação está dobrando.
Stiell também cobrou avanço em três frentes: investimento em redes e armazenamento de energia, redução das emissões de metano e proteção da segurança alimentar — com a guerra provocando escassez de fertilizantes e ameaçando 45 milhões de pessoas com fome aguda em 2025.
Financiamento e a COP31
O secretário reconheceu que muitos países em desenvolvimento querem adotar energia limpa, mas são barrados pela falta de recursos e por crises de dívida. Ele cobrou o cumprimento da Nova Meta Coletiva Quantificada e a concretização do roteiro para mobilizar US$ 1,3 trilhão em financiamento climático.
A aposta é que, aproveitando essa janela, os países cheguem melhor preparados à COP33 — quando terão de apresentar o segundo balanço global sobre a ação climática e mostrar se cumpriram os compromissos do primeiro.
"Este é um momento crucial. Não temos tempo a perder", disse.
Veja o discurso na íntegra:
Excelências, amigos.
A guerra no Oriente Médio está causando um terrível custo humano em toda a região. Civis sofrendo. Vidas destruídas. Economias estagnadas.
E os brutais impactos sociais e econômicos do conflito se espalharam como uma pandemia por todas as nações – à medida que o caos dos custos dos combustíveis fósseis pressiona os orçamentos de famílias, empresas e governos.
A crise dos custos dos combustíveis fósseis agora sufoca a economia global, e a estagflação avança.
Dessa tragédia, uma imensa ironia se desdobra.
Aqueles que lutaram para manter o mundo dependente de combustíveis fósseis estão, inadvertidamente, impulsionando o crescimento global das energias renováveis.
No ano passado, o investimento em energia limpa estava previsto para ser o dobro do investimento em combustíveis fósseis.
A geração de energia solar aumentou 600 terawatts-hora em relação a 2024, um aumento colossal – embora a transição ainda seja desigual.
E esta última crise do custo dos combustíveis fósseis tornou a lógica econômica das energias renováveis impossível de ignorar.
As energias renováveis oferecem energia mais segura, barata e limpa, que não pode ser refém de estreitos canais de navegação ou conflitos globais.
Países como Espanha e Paquistão, ricos em energias renováveis, foram protegidos de alguns dos piores impactos desta crise do custo dos combustíveis fósseis.
É por isso que tantos governos estão acelerando seus planos de energias renováveis: para restaurar a segurança nacional, a estabilidade econômica, a competitividade, a autonomia política e a soberania básica.
Aqui na França: o financiamento para a eletrificação está dobrando.
China, Índia, Indonésia, Coreia do Sul, Alemanha, Reino Unido e muitos outros países deixaram claro que impulsionar a transição para energias renováveis é fundamental para a segurança energética.
Este é um momento crucial.
Precisamos aproveitá-lo para acelerar uma mudança verdadeiramente global.
Assim, quando os países se reunirem na COP33 para responder ao segundo balanço global sobre a ação climática, estarão mais próximos de cumprir os compromissos assumidos no primeiro.
Isso significa que os governos devem ter cuidado para não se apegarem aos combustíveis fósseis a longo prazo enquanto lidam com a crise atual.
É preciso romper a ligação entre os preços da eletricidade e os combustíveis fósseis, para que as energias renováveis de baixo custo reduzam as contas.
E intensificar a cooperação internacional para transformar os compromissos globais em resultados reais para a economia – mais rapidamente.
Muitos países em desenvolvimento desejam adotar energia limpa e resiliência climática. Mas grandes obstáculos, incluindo a falta de financiamento e as crises da dívida, os impedem.
Precisamos fazer o financiamento fluir rapidamente.
Isso inclui cumprir integralmente e dentro do prazo a Nova Meta Coletiva Quantificada para o financiamento climático e tornar realidade o roteiro para US$ 1,3 trilhão.
E devemos liberar todo o potencial da Agenda de Ação – de forma equitativa, tanto no Norte quanto no Sul globais.
Esta parte essencial do Acordo de Paris reúne governos, empresas, investidores e a sociedade civil para transformar compromissos em projetos em toda a economia real.
Mais imediatamente, devemos nos concentrar nas áreas de maior urgência e impacto:
Em redes e armazenamento de energia – mais investimentos são essenciais para nos levar ao próximo nível da transição para energia limpa.
E na redução drástica do metano – um gás de efeito estufa extremamente potente – proporcionando benefícios climáticos rápidos e, ao mesmo tempo, economizando dinheiro.
Também devemos estar totalmente focados na segurança alimentar – protegendo as colheitas dos impactos climáticos, já que a guerra provoca escassez de fertilizantes, ameaçando 45 milhões de pessoas com fome aguda este ano.
Coalizões de pessoas dispostas a agir já estão avançando. Esta semana, governos e sociedade civil se reúnem em Santa Marta para discutir combustíveis fósseis.
Em setores-chave da Agenda de Ação, a COP31 na Turquia proporcionará um palco global para acelerar o processo.
Precisamos aproveitar este momento. Não temos tempo a perder.
Chefe de clima da ONU diz que guerra prova que urgência na transição energética
Escrito em 30/04/2026